quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Olho de boi


Olho de boi

Ê quinta-feira que não acaba.
Há um homem naquele bar. Sentado sozinho, na penumbra. De preto, do chapéu às botas. Atolado na lama da peçonha, pouco se mexe. De tão imóvel, passa por figura de selo antigo. Uns olhos azuis de procedência vetusta, de Muthill ou Perth. Por certo, em nada ajudaria ouvi-lo, com algum sotaque fugidio, na rispidez do ar sobrevindo feito navalha pelas cordas vocais, ou algo assim. O que explicaria os trapos da voz, se falasse.
Só agradece por meneio. A cada vez que a mesa é limpa, o cinzeiro é limpo; agradece. O gesto medido, de quem cultiva a eternidade. Disso não passa.
Por natural, pousa a neurastenia num copo. Assegurando-se de que aquilo não lhe escape, por nada. É certo que sugere um rio correndo as águas pra fonte, fosse recordação. Como se o objeto não materializasse o tão somente ali, indo à distância de acontecimentos pra essa vinda, no copo.
Coleciona cacos de suas passagens. Esta joia, por indústria, é artefato sem reprodução. Há esmero, há técnica de artesania. De argila ferruginosa, entre vermelho e cobre, a despender sua luz. Especiaria que conduz os olhares.
Não gosta que ponham reparo no dedo excedente que ainda resta na sinistra. Haja olhos no fervor além das mãos no copo.
Atrás do balcão, duas funcionárias. A serviço do qualquer, que tem por pinta a de se achar o tal. Fala pouco, anda pouco, dá o troco porque precisa, e porque deve confirmar-se no posto de dono do negócio.
O patrão nem liga pra TV que despeja o desgosto do mundo malformado. O desespero em filas, os desalentos em números, o petrificado de vidas em carneiro de toda monta. Mas pra girar o brilho da cor, conta com a flor das mercadorias.
Suporta-se, mordaz. Por que se inventam palavras que furam como punhal? Excluindo-se do buchicho, liberta-se do segredo, que essa gente ainda pica com sua mula a Calçada do Lorena, já a serra chamada Do Mar. Então, falamos.
De vida impronunciada, não dormindo nas dores do mundo, o alienado fica nisso, a pôr o olhar na visão do pavio que sustém, e à mão. Como se pudesse estar apagado, com os dedos enclavinhados. Acaso prorrompessem com arenga, pela máscara entrevada das rugas, não se permitiria em uníssono de Salve Rainha nenhum. A ele pouco importa o Halley indo ou voltando. Amanhã terá lugar o proibido hoje? Sua malícia tem o lume doutra ressaca, a de quem experimenta do veneno, o que o fortalece. O ódio dos ressentidos não lustra suas pegadas, de quem entra e come onde quer.
Há um labirinto que conhece o nosso homem, aquele que se levanta quando o sol se põe. Há rumo fora do bar, que o norte de si é o fumo dentro. Há dor a personificá-lo. Há solidão que não acorda galo algum.
Nascer de novo? ─ o raio despenca pelos abismos.
Água de mina, a brotar, e sobre a qual se anda e anda e pisa.
Seguiria anônimo se restrito a Velho. Que o qualifiquem Márgara.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de outubro de 2019.

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