quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Vida longa


Vida longa

O senhor é otimista ou pessimista?
Nada melhor do que ser parado na rua por uma menina de uns doze anos que tem um questionário para fazer, sobre... A enquete é sobre o quê?
Pois é. Que estupendo ter de pensar num assunto, assim, de supetão. Você acaba por se revelar um pobre-diabo incapaz de responder a questão simples de uma estudante de trancinhas. É ainda mais perturbador quando se está diante daquele sorriso, de quem nem desconfia que o inquirido quer dar o pinote dali, pulando do Karnal pro Pondé, do Pensador pra Wikipédia. Para não faltar com a ética, uma vez que nunca leu uma linha do camarada, melhor nem pôr o Aristóteles no meio.
Caramba, o copo está meio cheio ou está meio vazio?
O real faz mal por que meu corpo reage ao mundo a girar? Foco. Por que me detenho num ponto qualquer que a realidade apresenta? Vamos. Que tem este ponto em que pouso a lupa? Concentre-se. Calibro o microscópio pra ir à raiz do que constitui o que me faz debruçar nisso. É isso, mergulhe!
E quanto mais amplio o minúsculo, mais perco a noção do todo. Até que dou com um momento em que não vejo mais a floresta, a árvore, a folha, as nervuras da folha, as moléculas, os átomos, nem nada que tenha a mais tênue afinidade com o que as palavras dão sustância.
Como a nitidez é tamanha, passo ao abstrato do concreto. Aí, a realidade configura-se informe, bizarra, estranha, obscura. Chegando a esse grau de cegueira, o incomunicável barra o caminho.
Daí, começo a volta.
E passo a estabelecer paralelos, faço comparações, traço similitudes, teço metáforas. A colcha de imagens é produto de conexões, rede fabricada, amálgama que reconfigura o que carece de sentido. A semântica tateia significados ao processo desnorteador de ir fundo pra esmiuçar a filigrana. E isso me faz perder o pé do chão, a distorcer a realidade. Por ultrapassar o limite no aprofundamento, salta o hiper, o super, o surreal, o espantoso da realidade.
O buraco é mais em baixo?
Não é pra menos que fico nervoso, angustiado, tenso, bem confuso, estranhando a mim mesmo ao querer dar nome ao que não tem nome e talvez nem venha a ter um. Exagero, perco-me neste método de racionalizar, ponderar, entender. E torno complexo o simples na tentativa mais vã de simplificar o complexo, e tenho mais raiva de mim, e mais me enfureço.
Em outras palavras, parece que saltei de paraquedas. Pra minha angústia, o paraquedas não abre. Pra total desespero, o paraquedas não quer abrir. E quão patético me pinta esse querer agarrar-se ao inútil. Caindo... O chão que sobe...
E o copo? Ô infeliz, e o copo!
Sem condições de diferenciar dois segundos ou eternidade, volto de Vulcano, mas a guria permanece de pé.
Contudo, ajeito os óculos, olho bem nos olhos da pessoa, acomodo a voz com um pigarro e, ciente de que meio cheio e meio vazio o copo está inteiro, mando ver: qual é a pergunta?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de setembro de 2019.

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