quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Sem palavras


Sem palavras

Eis uma roda de pessoas dispostas a conversar sobre o que andam lendo; algumas carregam livros com páginas destacadas por marcadores. Para ato tão anacrônico, a leitura de texto no papel, fica dispensável o celular. Hoje, alguém deixar o telefone de lado é algo surpreendente, ou a bateria está sem carga.
O alento vai às estrelas assim que uma pessoa convidada passa a discorrer sobre o gênero ao qual tenho me esforçado para domesticar, e como venho apanhando, a tal da crônica.
Nada mais eletrizante que ouvir quem leva em rédea curta este animal imprevisível, marmota que cava túneis que nem uma toupeira, conforme segue metafórico o discurso.
Como autêntico mestre, com desenvoltura, o palestrante vai pontificando o quanto o alegra vencer uma vírgula intrometida que ocupa lugar indevido e o tanto que o angustia quando se sente vencido pela beleza de um escrito dúbio.
Como se vê, o campeão só se dá uma medalha depois de derrotar os obstáculos, um a um, sem escamoteá-los e sem tomá-los facílimos de suplantar. Por isso, e chega a embargar a voz, admite a modéstia de quem sabe com quantas palavras se faz navegável um texto pro mundão da internet.
Embarco na minha peraltice, de quem vibra com o trabalho, tão auspicioso em desbravamentos. Como o gazeteiro em mim goza ao já vê-la partindo singrar tantos mares, acenando-me o lenço; e atrevido, retribuo: vá minha crônica, vá em paz, vá cantar por aí, sua jornada é circular a Terra pelos oceanos que imagino curvos, caso não me esteja engabelando o horizonte.
Ê siso, o que mais diz o emérito?
Diz que a crônica é retrato. E como retrato, pede logo um close. Daí, de pertinho, vemos o que as palavras compõem. Como é de palavras, façamos a imagem com menos de mil, pra não aborrecer quem lê. Afinal, comenta o audaz, não se puna o leitor como quem dispensa as cinzas sobre a grama que pisa, pois todo fumante não passa de um poluidor canastrão.
Diz ainda que ao cronista cabe agir como fotógrafo, que tem o assunto na cabeça, controla os olhos ao rastrear o cenário, toma pé na certeza quando topa com o que deveras deseja. Na experiência, dispara uma Mantiqueira de cliques pra daí pinçar a Pedra da Mina que o convença de que assoma dos enganos todos um que traduz aquela verdade.
Pra apoiar o que diz, tira da manga a foto estampada num jornal, em cuja figura vê-se um senhor, sentado, grisalho e de terno, inclinando-se pra apertar a mão de uma garota, sentada, mirrada e séria.
Define-a como sintomática.
Como não tem papas na língua, arremata: Greta Thunberg é militante ambientalista; António Guterres é o secretário-geral da ONU; o local é a sede da ONU em Nova York; a sueca foi pra Cúpula do Clima num veleiro que, ao se deslocar, produz energia elétrica, consumida a bordo, com pás subaquáticas.
Eco! Foto que vale por uma crônica nem precisa de legenda.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de setembro de 2019.

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