Furo n’água
Ir com muita sede ao
pote? Num gole, sair escrevendo o que brota nas ideias sem pesar a areia, o
caminhãozinho fica atolado na praia. Não dá pra respirar com a cabeça enfiada
na areia, mas tentar sair só faz água, que, insalubre de tão choca, contamina o
texto que ia leve, transbordando aos quatro ventos a mágica da palavra bem
posta. E o guincho que não chega?
Amiga minha anda com uma
dor de cabeça que não passa e, pelo jeito, não passará fácil. Essa mancha
borrando a mente impede-a de matar a sede de escrita. Como se uma mão invisível
a estagnasse, a água parada contaminasse o que tenta escrever. E aborrecimento
de tal bojo, logo com o que mais a apraz?
Quem escreve já pode ter
enfrentado algo parecido. Há momentos nos quais o suor empapa a folha em
branco, e nada de vir a palavra pra encaixar na frase. Há ocasiões em que a
palavra até quer puxar outra, mas a mão fica no ar. Há desses dias que pedem o
que não se tem, e talvez o texto rendesse mais com correções.
Juro que avalio meus limites.
E reconheço, sou escritor pro gasto. Sim. Gasto meu tempo correndo atrás da
origem das palavras. Gasto a sola do tênis pra ir pegar livro no sebo. Gasto o
que não tenho, pois o bem feito resultará no prazer da leitura, que é uma resposta
e tanto.
Tomo a liberdade de ir escrevendo
com a maior responsabilidade possível. Em busca dos rastros semânticos, consulto
dicionários. E os escorregões acontecem quando mais tenho pressa de ter em mãos
as fontes que decido examinar. De tombo em tombo, quem sabe um dia aprenda que preciso
calçar um tênis adequado pra ficar de pé nas próprias pernas; nuvens, afinal, não
têm rampas, buracos e fezes. Só que os buracos dão a oportunidade pra ir
corrigindo a passada.
Então, quando escrevo? Venço
a parada ou as palavras vencem.
Vencedoras, acolho o
sentido que sugerem. Então, ficando legível, pago o que o texto pede? Tento não
me prender a frustrações.
Olha, vim disposto a dar
vazão ao que tenho pra dizer. Está nítida a mensagem que desejo no texto. Cada
palavra no seu devido lugar. Do começo ao fim, com a coerência do que penso. E calha
um treco assim? Do nada, um trecho trava e a cabeça fica em silêncio. Aponto o
lápis; bebo café; vejo TV.
As manchas de óleo nas
praias do Nordeste são para punir aquele povo comunista que não sabe votar? A
banda podre dos verdes quer grana pra suas ações no Brasil? O DNA deste óleo é
igual ao material coletado nas águas oceânicas da Malásia?
Eureca! A fonte está
seca aqui, posso cavar ali.
Assim como troco as
palavras, estudo os significados, esmiúço as raízes etimológicas porque o texto
pede o que nem tinha em mente quando sentei pra escrever, assim há recursos pra
me levar ao que tomo como o mais próximo do que almejo expressar.
Amiga, espero ter
passado o plá de hoje. E se o mar não está pra peixe, cá entre nós, cadê o Tiamat
pruma ceva tão rica em carbono?
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 20 de outubro de
2019.
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