sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Jogo de cena


Jogo de cena

Seguia como quem vai feliz pela possibilidade de ter o poder de escolha. Não havia decidido se ia ou não ia ao cinema pra assistir ao Nanini num filme que acabou de entrar no circuito. E mais ainda, foi na alegria de pôr uma conta em dia; quanto às que pagaria fora do prazo, cada qual nominava no boleto onde o pagamento deveria ser efetuado, perdido já o direito a preferência.
Liquidada a fatura da vez, vamos conferir o troco? Sem problema, basta abaixar e pegar a moeda que derrubou sem querer. Ótimo! A coluna nem chiou por ter descido e subido ignorando a orientação do ortopedista. Que mão boba, hein? Lá vai a moeda pras coisas de um cidadão que segue dormindo, mesmo o colchão ali, à saída da loja de divisões. Se a muvuca não o perturbava, por que lhe incomodaria o arrojo de querer pegá-la de volta?
Passando por cima do vil metal, uma barata saiu-se com essa: “a vida seria tão maravilhosa se soubéssemos o que fazer com ela”.
Antenado, olhou em volta. Não queria que o interditassem, como louco ou sábio chinês, que sabe a língua das baratas.
“Eu nunca sei o que fazer quando não estou trabalhando.”
Vivamente interessado, assumiu o papel de confidente.
“Não quero que os sonhos acabem.”
Sem medo de levar um pisão, o inseto ia tagarela.
“Às vezes fico na praia olhando o mar por uma ou duas horas. O que são duas horas para nós?”
Por sorte, na loucura cotidiana, ninguém a ouviu ou quis ouvi-la.
“Gosto do mar: nós nos entendemos. Sempre anseia, suspirando por algo que não pode ter, e eu também.”
Se uma barata apela pra filosofia, melhor se concentrar.
“Tem tanta coisa dentro de nós que nunca poderíamos contar para outras pessoas. São as coisas que fazem sermos quem somos.”
Ignorando a barulheira das máquinas cavando a rua, era preciso arcar pra não perder nada do que dizia.
“Quando eu não estava pensando, não estava imaginando o que significava viver, eu estava sonhando.”
Impressionado com a sapiência do inseto, foi seguindo o bicho por metros e metros. Porém, na esquina da Jaú com a Pernambuco, aí a estrela da manhã parou, abrupta.
“Algumas pessoas precisam de outras. Eu preciso ficar sozinha, sempre.”
Dava pra antever a jogada seguinte da artista.
“Nunca disse: eu quero ficar sozinha. Disse apenas: eu quero ser deixada em paz. Existe uma grande diferença.”
Fiel ao roteiro, sumiu-se bueiro adentro.
Embora lhe parecesse paradoxal, sentia-se livre pra cogitar a realidade própria das verdades que a andarilha expressara.
Fazer pouco caso da alteridade? Ora essa!
A Lava Jato teme que os documentos da Dersa fujam pelo ralo. Pode uma canetada agir como inseticida pra provocar a extinção de R$ 625 milhões que correm a céu aberto pelos 44 km do trecho norte do Rodoanel Mário Covas.
Se fazem de cínicos... Todavia, tamanha desfaçatez corta o barato.
Gretas do mundo, como manter o sangue de barata?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de outubro de 2019.

Nenhum comentário:

Postar um comentário