Jogo de cena
Seguia
como quem vai feliz pela possibilidade de ter o poder de escolha. Não havia
decidido se ia ou não ia ao cinema pra assistir ao Nanini num filme que acabou
de entrar no circuito. E mais ainda, foi na alegria de pôr uma conta em dia; quanto
às que pagaria fora do prazo, cada qual nominava no boleto onde o pagamento
deveria ser efetuado, perdido já o direito a preferência.
Liquidada a fatura da
vez, vamos conferir o troco? Sem problema, basta abaixar e pegar a moeda que
derrubou sem querer. Ótimo! A coluna nem chiou por ter descido e subido ignorando
a orientação do ortopedista. Que mão boba, hein? Lá vai a moeda pras coisas de
um cidadão que segue dormindo, mesmo o colchão ali, à saída da loja de divisões.
Se a muvuca não o perturbava, por que lhe incomodaria o arrojo de querer pegá-la
de volta?
Passando por cima do vil
metal, uma barata saiu-se com essa: “a vida seria tão maravilhosa se
soubéssemos o que fazer com ela”.
Antenado, olhou em volta.
Não queria que o interditassem, como louco ou sábio chinês, que sabe a língua
das baratas.
“Eu nunca sei o que
fazer quando não estou trabalhando.”
Vivamente interessado,
assumiu o papel de confidente.
“Não quero que os sonhos
acabem.”
Sem medo de levar um
pisão, o inseto ia tagarela.
“Às vezes fico na praia
olhando o mar por uma ou duas horas. O que são duas horas para nós?”
Por sorte, na loucura
cotidiana, ninguém a ouviu ou quis ouvi-la.
“Gosto do mar: nós nos
entendemos. Sempre anseia, suspirando por algo que não pode ter, e eu também.”
Se uma barata apela pra
filosofia, melhor se concentrar.
“Tem tanta coisa dentro
de nós que nunca poderíamos contar para outras pessoas. São as coisas que fazem
sermos quem somos.”
Ignorando a barulheira
das máquinas cavando a rua, era preciso arcar pra não perder nada do que dizia.
“Quando eu não estava
pensando, não estava imaginando o que significava viver, eu estava sonhando.”
Impressionado com a
sapiência do inseto, foi seguindo o bicho por metros e metros. Porém, na
esquina da Jaú com a Pernambuco, aí a estrela da manhã parou, abrupta.
“Algumas pessoas
precisam de outras. Eu preciso ficar sozinha, sempre.”
Dava pra antever a jogada
seguinte da artista.
“Nunca disse: eu quero ficar sozinha. Disse apenas: eu quero ser deixada em paz. Existe uma
grande diferença.”
Fiel ao roteiro, sumiu-se bueiro adentro.
Embora lhe parecesse paradoxal,
sentia-se livre pra cogitar a realidade própria das verdades que a andarilha expressara.
Fazer pouco caso da alteridade?
Ora essa!
A Lava Jato teme que os
documentos da Dersa fujam pelo ralo. Pode uma canetada agir como inseticida pra
provocar a extinção de R$ 625 milhões que correm a céu aberto pelos 44 km do
trecho norte do Rodoanel Mário Covas.
Se fazem de cínicos... Todavia,
tamanha desfaçatez corta o barato.
Gretas do mundo, como
manter o sangue de barata?
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de outubro de
2019.
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