domingo, 6 de outubro de 2019

Massa corrida


Massa corrida

Não há razão pra achar graça nessa história de que o Burroughs, o doidão do William Burroughs que escreveu Almoço Nu, enfiou na cabeça de correr atrás de um vizinho, justamente o Thomas Harvey, o patologista que abduziu o cérebro do Einstein, cujo corpo mal tinha entrado na morgue do Hospital de Princeton.
Além disso, beberagens de cogumelo ou de bolor afetam a mente. Afinal, como o cara pode estar em Nova Jersey na hora da morte do físico da Relatividade e noutro instante estar no... Kansas? Missouri? Pensilvânia?
Que viagem! Não se conserva genialidade em formol.
Sendo uma crônica de família, amável leitora e afável leitor, urge uma intervenção de cunho racionalista. Não basta possuir a compostura, tem que se portar com credibilidade. Até porque, na estrada da vida, os fatos que têm pressa aceleram na curva e atropelam lebres e tartarugas.
A questão é que a massa cinzenta do famigerado alemão foi feita em pedaços, literalmente, pelo Harvey. Então, o sujeito correu os EEUU pra encontrar pesquisadores interessados em estudar o encéfalo tão diferenciado.
Na Universidade da Califórnia, mais precisamente em Berkeley, o Dick Vigarista encontrou o freio e a Penélope que entrou na corrida foi a doutora Marian Diamond.
A cientista examinou os miolos do humanista de Ulm. Precavida, levava o material de seus estudos numa caixa de chapéu. Dedicada, concluiu que o cérebro de Einstein era rico em células gliais, que produzem a acetilcolinesterase, enzima responsável por estímulos no sistema nervoso. Séria, depois de experimentos com ratazanas, deduziu que ambientes estimulantes influem na química cerebral e afetam o sistema imunológico. Inovadora, suas análises demonstraram que, em qualquer idade, alimentação, exercícios físicos, desafiar-se com algo nunca feito e o amor são fatores importantes pra que mudanças saudáveis ocorram. E, “se você tirar o cérebro, você tira a pessoa”.
O amor?
E aqui entra o Beethoven, outro genial do porte do Albert. Sem acesso ao cérebro mas de posse de fios de cabelo do Ludwig, especialistas bateram o martelo que o chumbo causou as agruras do compositor da Eroica, não apenas o amor pela Amada Imortal.
Aliás, no dia 06 de outubro de 1802, no chamado Testamento de Heiligenstadt, Ludwig van Beethoven admitiu o quanto a surdez era perturbadora, a ponto de levá-lo a pensar em suicídio. “Por que sinto essa tristeza profunda se é a necessidade quem manda?”
Bem fez o Beethoven em dar um cavalo de pau e mudar de tom pra revolucionar a música e a postura diante do cosmos, da vida e da plateia. Vieram à luz, depois do Testamento, trios para piano, quartetos de corda, a Kreutzer, a Appassionata, as Variações Diabelli e a Coral.
Hoje é possível, assobiando de cabeça, pintar em coro: enviem este beijo para todo mundo!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 06 de outubro de 2019.

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