Massa corrida
Não há razão pra achar
graça nessa história de que o Burroughs, o doidão do William Burroughs que
escreveu Almoço Nu, enfiou na cabeça
de correr atrás de um vizinho, justamente o Thomas Harvey, o patologista que abduziu
o cérebro do Einstein, cujo corpo mal tinha entrado na morgue do Hospital de
Princeton.
Além disso, beberagens
de cogumelo ou de bolor afetam a mente. Afinal, como o cara pode estar em Nova
Jersey na hora da morte do físico da Relatividade e noutro instante estar no...
Kansas? Missouri? Pensilvânia?
Que viagem! Não se
conserva genialidade em formol.
Sendo uma crônica de
família, amável leitora e afável leitor, urge uma intervenção de cunho
racionalista. Não basta possuir a compostura, tem que se portar com credibilidade.
Até porque, na estrada da vida, os fatos que têm pressa aceleram na curva e atropelam
lebres e tartarugas.
A questão é que a massa
cinzenta do famigerado alemão foi feita em pedaços, literalmente, pelo Harvey.
Então, o sujeito correu os EEUU pra encontrar pesquisadores interessados em
estudar o encéfalo tão diferenciado.
Na Universidade da Califórnia,
mais precisamente em Berkeley, o Dick Vigarista encontrou o freio e a Penélope
que entrou na corrida foi a doutora Marian Diamond.
A cientista examinou os
miolos do humanista de Ulm. Precavida, levava o material de seus estudos numa
caixa de chapéu. Dedicada, concluiu que o cérebro de Einstein era rico em células
gliais, que produzem a acetilcolinesterase, enzima responsável por estímulos no
sistema nervoso. Séria, depois de experimentos com ratazanas, deduziu que
ambientes estimulantes influem na química cerebral e afetam o sistema
imunológico. Inovadora, suas análises demonstraram que, em qualquer idade, alimentação,
exercícios físicos, desafiar-se com algo nunca feito e o amor são fatores
importantes pra que mudanças saudáveis ocorram. E, “se você tirar o cérebro,
você tira a pessoa”.
O amor?
E aqui entra o Beethoven,
outro genial do porte do Albert. Sem acesso ao cérebro mas de posse de fios de
cabelo do Ludwig, especialistas bateram o martelo que o chumbo causou as
agruras do compositor da Eroica, não
apenas o amor pela Amada Imortal.
Aliás, no dia 06 de
outubro de 1802, no chamado Testamento de
Heiligenstadt, Ludwig van Beethoven admitiu o quanto a surdez era
perturbadora, a ponto de levá-lo a pensar em suicídio. “Por que sinto essa
tristeza profunda se é a necessidade quem manda?”
Bem fez o Beethoven em
dar um cavalo de pau e mudar de tom pra revolucionar a música e a postura diante
do cosmos, da vida e da plateia. Vieram à luz, depois do Testamento, trios para
piano, quartetos de corda, a Kreutzer,
a Appassionata, as Variações Diabelli e a Coral.
Hoje é possível, assobiando
de cabeça, pintar em coro: enviem este
beijo para todo mundo!
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 06 de outubro de
2019.
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