terça-feira, 1 de outubro de 2019

Dito e feito


Dito e feito

Quando a coisa não tem remédio, melhor não dourar a pílula nem ficar fazendo fita, como quem chora o leite azedado. É certo que santo de casa faz milagre que gente de gosto enjoado cospe o vinho que virou água.
Contudo, há muita coisa que me pega de surpresa. E como é que reajo? Depende. Não tenho nenhuma resposta padrão. O momento é de chorar ou pra rir? Pra saber o que sinto, só na hora da verdade. Mas quando o rabo torce a porca, que diabo!
Nem sempre entendo o que o mundo anda dizendo. Acho que o aprendizado fica prejudicado pelo excesso de realidade. E convenhamos, a vida nos envolve de tal jeito que nem dá pra perceber o truque. Se a vida é sonho, melhor acordar ou dormir feito pedra?
Por não saber a medida do que a minha cabecinha filtra do que se passa, deixo estar. Prestando atenção se a garganta fica seca ou se me fazem de surdo os tímpanos, vou tocando o barco. Mesmo porque não há colete salva-vidas pro viver.
E tem coisas que não quero ouvir, justo essas mais eriçam os pelos do corpo. Parece que estou fingindo não escutar, e finjo tão bem que muitos me tomam como distraído. Mas essa distração é pra disfarçar o desassossego, só que o danado é traiçoeiro e sempre me escapa pelo que faço.
Ora, como diz um amigo, se o espantoso se faz presente, a melhor explicação é atribuí-lo às artes da Fortuna. A fada que faz chover sem cair água, a senhora da lógica do caos, a dona de matemática singular, é ela o fantasma na máquina que torna especiais os efeitos em ação.
Na estrada momentosa de minha jornada, digo que não é de bobeira que fico pasmo com a reação. A pasmaceira revela o quanto não ponho fé no que penso estar vendo, ou sentindo.
E se a bússola quebrada for um norte poderoso? Faz parte ir às cegas, flutuar a cada instante até que o pé encontre o fundo, e a lama, enfim, possa dar suporte a tal travessia como terreno menos instável?
Quanta retórica pra pouco caldo. Seu Rodrigues, aos fatos!
Então, tá.
Eis que, domingo, estava sentado quieto. Aguardando a vez de passar pelo médico, abre-se a porta e vejo uma adolescente grávida sendo atendida por alguém com nariz vermelho, jaleco com mensagem engraçada às costas e estetoscópio com um frango de borracha na ponta da auscultação.
Confesso que sorri sem caçar motivo pra mascarar o afeto. O insólito da circunstância foi o suficiente pra mexer comigo. E sorri com gosto, a ponto de o Doutor Sorriso dirigir-se a mim, de lá de dentro da sala, como se tivesse visto algum palhaço.
Saquei a mensagem da cena, e traduzo-a numa frase que de tão batida nem tinha reparado ao que ela diz: só os tolos não julgam pela aparência.
E não sei se a malasartina tirou a minha dor de ouvido por que surgiu do nada ou o tempo voou que nem vi o analgésico dar sentido à expressão alívio imediato.
Sei apenas que não creio em palavras que nada signifiquem, mas que elas existem, existem.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 01 de outubro de 2019.


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