Dito e feito
Quando a coisa não tem
remédio, melhor não dourar a pílula nem ficar fazendo fita, como quem chora o
leite azedado. É certo que santo de casa faz milagre que gente de gosto enjoado
cospe o vinho que virou água.
Contudo, há muita coisa
que me pega de surpresa. E como é que reajo? Depende. Não tenho nenhuma resposta
padrão. O momento é de chorar ou pra rir? Pra saber o que sinto, só na hora da
verdade. Mas quando o rabo torce a porca, que diabo!
Nem sempre entendo o que
o mundo anda dizendo. Acho que o aprendizado fica prejudicado pelo excesso de
realidade. E convenhamos, a vida nos envolve de tal jeito que nem dá pra
perceber o truque. Se a vida é sonho, melhor acordar ou dormir feito pedra?
Por não saber a medida
do que a minha cabecinha filtra do que se passa, deixo estar. Prestando atenção
se a garganta fica seca ou se me fazem de surdo os tímpanos, vou tocando o
barco. Mesmo porque não há colete salva-vidas pro viver.
E tem coisas que não quero
ouvir, justo essas mais eriçam os pelos do corpo. Parece que estou fingindo não
escutar, e finjo tão bem que muitos me tomam como distraído. Mas essa distração
é pra disfarçar o desassossego, só que o danado é traiçoeiro e sempre me escapa
pelo que faço.
Ora, como diz um amigo, se
o espantoso se faz presente, a melhor explicação é atribuí-lo às artes da
Fortuna. A fada que faz chover sem cair água, a senhora da lógica do caos, a dona
de matemática singular, é ela o fantasma na máquina que torna especiais os
efeitos em ação.
Na estrada momentosa de
minha jornada, digo que não é de bobeira que fico pasmo com a reação. A
pasmaceira revela o quanto não ponho fé no que penso estar vendo, ou sentindo.
E se a bússola quebrada for
um norte poderoso? Faz parte ir às cegas, flutuar a cada instante até que o pé
encontre o fundo, e a lama, enfim, possa dar suporte a tal travessia como terreno
menos instável?
Quanta retórica pra
pouco caldo. Seu Rodrigues, aos fatos!
Então, tá.
Eis que, domingo, estava
sentado quieto. Aguardando a vez de passar pelo médico, abre-se a porta e vejo
uma adolescente grávida sendo atendida por alguém com nariz vermelho, jaleco
com mensagem engraçada às costas e estetoscópio com um frango de borracha na
ponta da auscultação.
Confesso que sorri sem
caçar motivo pra mascarar o afeto. O insólito da circunstância foi o suficiente
pra mexer comigo. E sorri com gosto, a ponto de o Doutor Sorriso dirigir-se a
mim, de lá de dentro da sala, como se tivesse visto algum palhaço.
Saquei a mensagem da
cena, e traduzo-a numa frase que de tão batida nem tinha reparado ao que ela diz:
só os tolos não julgam pela aparência.
E não sei se a malasartina
tirou a minha dor de ouvido por que surgiu do nada ou o tempo voou que nem vi o
analgésico dar sentido à expressão alívio
imediato.
Sei apenas que não creio
em palavras que nada signifiquem, mas que elas existem, existem.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 01 de outubro de
2019.
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