domingo, 27 de outubro de 2019

Dando sopa


Dando sopa

Não tinha pressa, e precisavam testar minha disposição. A senha na mão pedia o micro-ondas do cartório cheio. A barriga canta onze horas. Perdido no trem, faço boca de siri. O senhor ao lado não tem de saber que acerto o humor pela fome. Além das orelhas, resta um buraco donde a coruja bateu asas. E a minha segunda falha do dia? Passar esta impressão de ter ouvidos.
― Cometi muitos erros na vida, mas não peço perdão algum.
Porque é fácil julgar terceiros, amarguei. Que ralem o coco.
― Ninguém me convence que não tenho culpa de ter nascido.
O homem tinha que desembuchar a média dormida azedando nas entranhas. Zombeteiro, o painel não grita o número da sorte. E o bom homem destilava as gorduras saturadas, era sua a necessidade de compartilhar o que lhe entupia alguma coronária.
― Não é questão de orgulho nem é por vaidade que falo assim.
Entro a viajar pela maionese e desando entre o quindim da vovó e a vizinha da polenta. A primeira; a segunda; entre ambas, a falta que me faz o nada. Se posso pagar pelo carimbo, então a demora? Alho com bugalho, ponho na conta o que emperra, a ladainha do atraso.
― Como ter a cabeça no lugar, se não deixam a pessoa em paz?
O livro da vida não repete o número da página, e nenhum livro é igual a outro, porque cada pessoa é única, o que nos torna comum a todas as demais. Mas será analfabeto o funcionário?
Então, é isso. Permitir-se repassar o lido, o visto e o escutado.
― Tenho pra mim que é praga de gente faladeira.
Há quem o leia de trás pra frente, partindo do fim pro começo. É melhor conhecer o fim pra saber se a história é boa o bastante pra merecer a atenção devida? Nunca tentei, venho sempre da infância. No que faço, entra uma pitada de pimenta. Se espio atrás da cortina? A vizinhança segue na labuta de dispor de seus cães, que é preciso regar as mudas. Será útil condenar o pacote pela última bolacha?
Raios de fila, parada nesse 69.
O drama, ou a comédia? Só depois de morto é que se tem a obra feita, fechada, acabada. Com capa, orelhas, contracapa. Mas a vida não é obra pra edição única. Querem editar o material? Daí alguém aponta a glória onde outros dão com a vergonha; há quem suprima uma passagem ou outra, uma vez que a ninguém cabe saber do gato morto a pauladas; há quem acrescente um detalhezinho bobo que a gente nem percebe a diferença, e daí que a pessoa entrou na loja de brinquedos pra sair pela pastelaria?
A matriz de todos os males produz apenas as boas intenções. E quando a perfeição apaga os defeitos, melhor cuspir no prato.
Se não vejo, não existe. Se não existe, invento. Digo que sinto que percebo o mundo. E vejo o que não vejo. Até parece teatro. Diz Peter Brook, “sabendo o que estou olhando, eu posso ver”.
Como borboleta, a vida pousa no frágil, no efêmero, no aroma do sutil. E nem todo triste há de negar que flor não voa.
― Senhor? Não será a sua vez, senhor?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 27 de outubro de 2019.

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