A capa do cão
Como parece que todos os
voos partem pra Roma, pra já, e pro dia a dia de todo dia, quedo-me pedra no
caminho, digo, no sofá, que aceita o mar, o cais, a estação, a estrada que
invento, sonho e passo a viver. Arrisco a querer ir por aí, e vou.
É música pros meus
ouvidos.
E a música mexe comigo.
De modo que preciso me escutar no que sinto. Tem música pra dançar junto, tem
música pra cantar junto, tem música pra assobiar junto, tem música pra prestar
atenção, tem música que faz gato e sapato de rimas e compassos, tem música que
nem reparo e já estou ouvindo mais uma vez, que na terceira vem aquele trecho
que faz a gente querer ouvir de novo.
Como gosto de esticar as
pernas no sofá pra escutar música numa boa, depois das refeições. Boto o fone,
ponho pra tocar o balaio com faixas de artistas de todo naipe. Sem me prender a
um disco só, sem ficar com um nome só, sem me acomodar em um ritmo só.
Misturo e mando ver.
Sim, sou desses
melófilos que deitam no sofá depois do almoço. Pra digerir o frango com batata?
Cai bem o sonzinho dos bytes.
Sim, computador também
serve pra isso. Não é só pra jogar xadrez, que jogo todo dia. Porque gosto
muito, aliás, configuro pro nível de iniciante, que é pra ter a satisfação de
derrotar o cérebro eletrônico, é óbvio.
Mas isso é estrada que
não vou pegar agora.
Pois preciso dizer que a
lista tem forró, baião, pop, rock; tem canções antigas e recentes; é uma miscelânea
de cantoras e cantores.
E lá vai o trem pelas
nuvens. Trato de ir, pois a minha vida é andar o meu país. Sei que a estrada
não é só minha. E vou pela serra do luar, o sol na cabeça. Sigo em frente,
quero ver quem me tira desse viajar. Mesmo que morra o meu tatu-bola. São muitos
os lados da viagem.
Sim, estou viajando.
Já vejo a capa do livro.
Com foto em branco e preto e o título em vermelho, VAMOS SALVAR OS BÚFALOS,
assim mesmo, soando capitulares. Vermelho, sim. O urucum de quem ama bichos,
plantas, pedras. Cor da paixão de quem se mexe pra defender búfalos e jabutis.
Daí que na capa tem
crianças. Sim, tem meninas e meninos de uns dois ou três anos. Tem pretas,
brancas, amarelas; as gordinhas e as magricelinhas; as mais baixinhas e as mais
altinhas. Todas exibindo a imagem de um búfalo que a leitora e o leitor vão ter
que encarar.
Com imagem impactante, nem
se vê que a criançada desce em diagonal, do canto superior direito pro canto
inferior esquerdo, dividindo a capa em dois triângulos iguais.
E tem esse detalhe que
não posso deixar escapar.
No triângulo complementar,
ao lado daquele da gurizada, está um cachorrinho. Desses de rua; sem dono; que
se vira pra comer, dormir e fazer das suas com o que lhe cruze o caminho. E ele
ali, sentado ao largo, só de olho na movimentação.
É como?
Assim é: levanta-se do
nada pra ir latir noutra freguesia?
Ô cabotino, a meninada
desviou o caminho pra você tocar viola com suas pulgas.
Rex!
Rex...
Rex?
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 13 de outubro de
2019.
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