domingo, 29 de setembro de 2019

Fantasia de fantasma


Fantasia de fantasma

Memória é coisa recente, já dizia o Paulo Leminski. Todavia, chega de ficar com graça. Os fatos atropelam o papo furado da lua. O negócio é tirar a viola do saco pra cantar a verdade, nua e crua. O mais são águas que vão e não voltam.
E não voltam mesmo.
Mesmo agorinha, pensei na minha mãe, “vê se para de enfiar palavrão no que escreve”, e pensei quando chutei com o dedinho do pé esquerdo o pé do sofá, “puta merda, quebrei essa joça”, pena que só fui lembrar depois de ter dito, mas só disse depois de ter provado, por xis mais ípsilon, que o ossinho do mindinho é mais frágil que a madeira do móvel, que, aliás, nem tchum pra minha dor, ficou no mesmo lugar de sempre.
Sempre acabo me lembrando do meu pai, “filho, quando for preciso mentir, minta pra quem não vai mesmo acreditar que você seja capaz de dizer uma mentira”, e lembro bem na hora que pego a fila errada no supermercado, “tem dez itens, nem precisa conferir, eu sei contar, não sou nenhum imbecil”, não, a funcionária do caixa não me chamou de imbecil, mas os meus poderes extrassensoriais permitem prever sem que ela saiba que a estou ouvindo no texto aqui.
Aqui, bem aqui neste ponto da história, é que entra a minha irmã, “lá vem você com as suas capivaras de beira de rio”, não me perguntem, amável leitora e afável leitor, o que isso quer dizer porque ela nunca usou tal expressão, por isso, e pra deixar de lado o nonsense, abrevio o parágrafo e agradeço a ela pela sua contribuição involuntária, e vou em frente.
E vou em frente porque o Brasil não para, mesmo que ande meio zureta das ideias, “não estou me referindo ao Janot, que sempre foi o gatilho mais rápido do Centro-Oeste”, corrijo-me a tempo, antes que me acusem de biruta ou coisa que o valha, é que sei melhor do que ninguém como a minha cabeça vive cheia de demônios que a querem vazia pra fazer a festa com umas ideias de comunista que não tem mais aonde ir.
Se não tem mais aonde ir, então, “feche a droga da porta da geladeira pra não escapar o barulhão do arrasta-pé, seu energúmeno”, sóbrio esse demônio, e vou na dele, deixo a geladeira em paz, abro um livro, Distraídos venceremos, leio que fica “extinto por lei todo remorso”, daí que volto pra pegar a maçã que estava querendo comer, e até arrisco uns passinhos no embalo do jegue do Genival Lacerda.
Só mesmo o danado do jegue do Lacerda pra liberar na crônica um “freio de arrumação”, e acabo sem enfiar nenhum palavrão, sem gritar que tem lobo na área, sem tirar palavras da boca de ninguém e, finalmente, indo tratar da vida que já está na hora de pegar uma onça pra ir beber um galão de água que passarinho não bebe.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de setembro de 2019.

PS – Depois de terminada a crônica, digo que concordo com o poeta da primeira linha, “maldito seja quem olhar pra trás, lá pra trás não há nada e nada mais”, a história é mesmo recente. E já que estamos aqui, aproveito: a que ponto chegamos?

Nenhum comentário:

Postar um comentário