quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Moça Bonita

 

Moça Bonita

 

Tchau, Moça Bonita ― disse a balconista ao sessentão de cabeleira grisalha arranjada em rabo de cavalo, jardineira jeans respingada de tinta, óculos redondinhos de aro de tartaruga, sandália franciscana de couro e uma afabilidade de corpo inteiro.

A moça também soube ser afável.

Havia sugerido objetos pelo que captou do que o senhor lhe dissera; tendo-o convencido com algo que a ele pareceu ter o preço satisfatório; embrulhado a blusinha de crochê não que fosse que nem uma tiara de diamantes numa debutante; entregue-lhe o mimo com os seus olhinhos de quem amaria recebê-lo de alguém feito o Moça Bonita.

Quando, na mocidade, ele passou a chamar toda e qualquer mulher de moça bonita, aquilo não pegou bem.

Irritavam-se as bonitas com o agrado desse cabeludo que só podia ter fumado um fino a mais. As maduras riam-se desse pobre-diabo que devia ter-se desencaminhado no regresso de Águas Claras. Por serem bem-casadas damas, às senhoras a investida era coisa divertida, uma ingenuidade de galante.

A namorados, noivos e maridos menos tolerantes, aquilo não tinha nada de gracejo, era desrespeito, afronta, um troço inaceitável.

Apesar de muitas rusgas, alguns entreveros e raros sopapos terem acontecido, ele persistiu, uma vez que o seu “moça bonita” era dito por educação, como sinal de carinho, jamais por desfeita.

Depois de tantos anos, já não riem, já não puxam briga, a ninguém ocorre de tratá-lo de modo diferente, ele é o Moça Bonita, uma pessoa de gestos suaves, é cidadão que vaga pelas ruas com mãos às costas, é gente que ainda põe gosto em cumprimentar quem lhe cruza a frente, mas, ai caramba!, que velhinho tão amável ele é.

E o crochê da blusinha faz Miranda sorrir.

― Moça Bonita, que peça caprichada! O ponto é de gente de mãos firmes, olho bom e verdadeiro carinho pelo que faz.

Miranda.

Quando a conheceu, Moça Bonita estranhou-lhe o nome.

Esbarraram-se entre as gôndolas do supermercado.

Ele se desculpou pelo inconveniente da distração, pois se agachara para ler o preço das pastilhas de repelente elétrico.

― Pernilongo é bicho insuportável, Moço Simpático.

O moço simpático foi o mesmo de sempre: não reclamou do preço, não discordou da gentileza recebida e não deixou de sorrir ao desejar que o dia fosse bom àquela moça bonita, que era de uma boniteza tão simpática.

Nesse mesmo dia, viram-se outra vez.

― Boa noite, Moço Simpático.

― Gosta de pizza, moça bonita?

― A moça bonita é Miranda, viu?

― Miranda! Que nem o zagueiro do São Paulo?

― Moço Simpático, não é sobrenome. O meu pai gostava de teatro, sobretudo do Shakespeare. Miranda vem da peça A Tempestade.

― Moça Bonita que se chama Miranda por conta do Shakespeare, eu nunca vi peça que passa em teatro.

Neste primeiro de janeiro de muita alegria, e pelo nono ano seguido, o Moça Bonita está na festa de aniversário da amiga Miranda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de janeiro de 2025.

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

A última do cronista

 

A última do cronista

 

Conheço as palavras, sei o que significam, mas soarão falsas se as trouxer à crônica. Soarei hipócrita se desejar feliz ano novo, com muita paz, muito amor, muita saúde, muito isso e muito aquilo. Sem esquecer o dinheiro no bolso para o pote de sorvete, o pacote de talharim e, para o mês que vem, dois quilos de patinho moído.

Adoto o cinismo ao pensar que a vida poderia ser nova apesar das guerras, das chuvaradas, das emendas chegando atrasadas às pontes que caem.

Apesar dos remendos, que os pneus rodem até restar-lhes a única opção: a reciclagem.

Reciclo a esperança, tiro a folhinha da parede, martelo para afirmar o prego bambo, passo um pano seco, penduro a nova folhinha, porém não conto quantos feriados cairão na sexta ou na segunda, que desejo o ano novo como repleto de energia boa, que há de impulsionar-me às jornadas, haverá de pulsar em mim como objeto não identificado, posto que será novo, desconhecido, irredutível ao esperado.

Não conto que a esperança aflija-me outra vez, pois será nova, será desconhecida, e, ao sabor do acaso, será flexível.

Ao azar do gosto, malemolência não significa adaptação, quer dizer que sambarei e assobiarei ao colher jaca. Ou seja, só vou apanhar jaca porque a ela irei, apesar de ir assobiando e sambando.

Assobiando e sambando como o camarada sóbrio que sou, porque, afinal, embriagados são os outros.

Direi as palavras que conheço, farei com que sejam entendidas pelo que acredito que signifiquem, mas não me negarei pela segunda vez e descansarei à sombra da jaqueira.

Apesar de saber que jacas caem, à sombra de mim, ficarei à mercê da Terra, que vai girar, rodar e extravagar pelo cosmo.

E vagamundearei, comigo inclusive.

Quando as formigas começarem a vir, não me abalarão, eu boiarei no corpo; elas que façam a festa que precisem fazer, pois jaca abatida é repasto posto.

Não fingirei que não percebo e disfarçarei o maravilhamento: a vida é fogo que corre pelo que ainda pode queimar.

No entanto, não queimarei ponte alguma: o mundo é jaca caída que chama quem tem fome, quem come para sobreviver.

Sobreviverei sem comer jaca, sem pular da ponte e sem babar feito bocó enquanto as formigas sumirem com o repasto caído do céu.

Sei que jaqueira tem raízes, tronco e galhos, mas não chamarei a atenção sobre o meu corpo à sombra daquele ser em flor.

A realidade diz jaca, jaqueira, formigas, sobrevivência e soneira, sei que poderei recolher-me ao songamonga que pense o instante com o próximo, que há de seguir distante pra que eu, mentecapto e gracioso, não faça a besteira de lambuzar-me de jaca só pra assistir às formigas fervendo.

De repente lambuzado, embora isso mostre o quão besta eu posso ser, seguirei sem tocar Beethoven.

Como não toco piano, nem mesmo o piano que não tenho à sombra das jacas...

Fala sério! Não tem nenhuma crônica mais jocosa?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de dezembro de 2024.

domingo, 29 de dezembro de 2024

Almoço grátis

 

Almoço grátis

 

Hoje não? Hoje sim.

É claro que irei almoçar com meus amigos. Só não iria ao encontro se houvesse calamidade pública ou um problema físico a impedir-me de ir encontrá-los. Ainda que o nosso almoço, no dia seguinte ao Natal, seja compromisso renovado automaticamente, vou tal qual uma pomba ― nas asas, levo a paz; o amor, levo no bico.

Já embebido no otimismo, que avento a quem sobreviver às festas deste finalzinho de ano, preparo-me, quero dizê-lo bem, pois sou capaz de manter a calma e mantendo-a, com algum esforço para evitar meus destrambelhos, pelejo comigo para soá-lo menos cafajeste.

Para comermos e bebermos sem rilhar facas, falaremos de política, religião e futebol. Se falássemos de família, discutiríamos, perderíamos amizade e vomitaríamos na esquina.

Uma vez que, todos, demos dinheiro e definimos o menu, bebemos e comemos sabedores de que a reunião seria mantida aprazível desde que nos ativéssemos às trivialidades, se permanecêssemos infensos a boçalidades, pois não nos adulamos com aplauso ou vaia, gostamos de beijos, abraços e presentes sorteados na hora.

Nós bebemos e banqueteamos e, por último mas sem importância menor, brindamo-nos, sim!, nós nos mimoseamos com livros.

Deztroços (de Nelson Cruz) foi para o Aristeu; Antologia Pessoal (de Dalton Trevisan) foi para o Domingos; Sempre Repórter (de Lilian Ross) foi para o Luisinho; O Mestre e Margarida (de Mikhail Bulgakov) foi para a Dona Cremilda; já A Cidade das Mulheres (de Christine de Pizan) veio para mim.

Amanhã talvez? Amanhã certamente.

Já na calçada, combinamos de trocar os livros. Depois de abraços e beijos, combinamos de comentarmos as nossas leituras.

Ontem ninguém sabe? Ontem eu mesmo é que soube.

Indo à livraria para comprar, como sempre em cima da hora, o livro que precisaria entregar a amigo nada oculto, adiei a compra.

― Moço, me paga um almoço?

― Se importa se almoçarmos juntos?

Entramos e fizemos nossos pratos e pedimos nossos refrigerantes: ela, Coca; eu, guaraná. Observados pelas outras mesas, sentamo-nos fora, na varanda.

Entre uma garfada e outra:

― Você é de onde?

― Não sou daqui. Sou da divisa da Bahia com Minas.

― É mesmo? De que estado você é?

― Caramba que eu já disse! Sou da divisa da Bahia com Minas.

Entre um golinho e outro:

― E se acostumou com a cidade? Aqui faz muito frio, né?

― Trinta graus é frio? Pelo Cristo! Com um calor desses, vou passar o Ano Novo na praia.

― Que bom! E onde você vai ver a queima de fogos?

― Que aperreação! Como não sou besta, vou pular as sete ondas, porque não tem cabimento tomar banho de piscina.

Embora os abelhudos seguissem de orelha em pé:

― Quer sorvete ou cafezinho?

― Sorvete? Quero pudim! Casquinha eu vou ter na ilha.

― Ô coisa boa! E vai pra qual ilha?

― Pra Ilha Comprida, claro! E já arrumei carona. O duro é aguentar o papo de pobre ser tudo comunista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de dezembro de 2024.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Boa vontade

 

Boa vontade

 

De costas para o televisor, ligado com som baixinho, o homem está ocupado em observar as formigas que vão indo, com os restos do que ele acabou de comer, e vêm voltando, atrás do restante que houver.

― Quero panetone.

Sem esperar pela resposta, batendo as mãos no chão; já virado pro homem sentado na cadeira junto à porta, ele grita:

― Eu quero mais panetone!

Ao entregar-lhe outra fatia, o rapaz enfatiza com o indicador:

Pela última vez, chega de porcaria antes do café.

É cedo, ainda são seis e pouco.

Sem exceções, as regras precisam ser respeitadas. Se somente às sete o refeitório será aberto para o desjejum, a ninguém está permitido qualquer privilégio, até o de fazer uma boquinha às seis e pouco, pois a essa hora gente respeitável deveria estar na cama.

Ele não mastiga de boca aberta por achar divertido, já as formigas ocuparem-se do que lhe cai da boca é o que o prende daquele jeito.

Com mais migalhas para serem transportadas, aumenta o número daqueles insetos. Ainda que elas nem prevejam chineladas, borrifos de inseticida e palavrões, intensifica-se o tráfico.

Pouco importando ter razão, o homem esticado no chão fala:

― Quero panetone.

Sem o equívoco de vê-lo como um partidário da ioga, ao carequinha que apoia o tronco nos cotovelos nem lhe ocorre de voltar-se ao moço de jaleco que nem se mexe na cadeira.

― Eu quero mais panetone!

Sem desviar os olhos da tela do celular, fala o moço:

― Já te disse. Chega de comer antes do café.

― Eu quero mais panetone! ― berrou o careca barrigudinho.

O funcionário para de jogar, diz que já deve estar na hora de ir tomar café e, pelo interfone ao lado da porta, pede que alguém venha varrer a sujeira, uma vez que tem bicho que não para mais de surgir, e sabe-se lá de que buraco aquelas formigas saem.

O carequinha barrigudo junta os farelos, mais ou menos numa linha, e as formigas parecem entender que aquela linha quase retilínea está assim disposta para lhes facilitar o trabalho.

― Quero panetone.

Como ninguém aparece, o rapaz de jaleco interfona outra vez. Para que uma equipe venha logo limpar, ele altera a voz, pontuando frases com o falsete digno de ser respeitado:

― Eu não estou inventando. Tem tanta formiga que o paciente está com medo e eu também estou com medo, pois, sei lá, vai que ele tenha um troço por causa das picadas.

― Eu quero mais panetone!

O quê? Isso é um insulto! Então a senhora acha que alguém com as minhas responsabilidades seria homem para brincar sobre o perigo que um paciente meu está correndo?

― Quero panetone.

― A pessoa que só pode estar brincando é a senhora, não eu. E a senhora fique informada que relatarei, pois isso não se faz, senhora.

― Eu quero mais panetone!

― Tenha dó! A senhora está fingindo que não escuta. Porque expor paciente a ataque de saúva é uma falta grave, é insubordinação que a chefia vai ter que punir.

― Quero panetone.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de dezembro de 2024.

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Estrela que luz

 

Estrela que luz

 

Aquele amigo que havia décadas você não via, mas a consulta será em cinco minutos. Aquela advogada que põe urgência em falar contigo, mas o piriri nunca tem hora que convenha. A mãe, o pai, o avô, a tia, a prima, um primo e outro, esse mundaréu aguarda aquela manifestação precisa da pessoa que seja honesta e confiável, e você não tem como se recusar a manifestar-se honestamente confiável.

Ao psiquiatra você culpa o telefone sem bateria que lhe impediu de chamar um carro de aplicativo, e o doutor sabe que ônibus não é torre de celular que, pela multiplicação pela cidade toda, nunca falha.

À advogada você não fala nada sobre roupas de baixo, porque ela sabe que, ainda bem, cheiro algum é transmitido pelo telefone.

Ao pai, à mãe, ao vovô, à tia, aos primos, a toda essa cambada que sabe como influenciar-lhe a dizer o que se espera de alguém que tem a palavra certa pro momento certo, você nunca é decepcionante.

As palavras não lhe faltam e tudo bem, porque o mundo precisa de gente que nem você, que é pessoa a quem confiar fraquezas, a quem não é nenhum disparate cobrar responsabilidade, porque você é gente a quem não é estupidez alguma exigir que colabore naturalmente para a melhoria da vida de todo mundo.

Não se recrimine por não conseguir dizer besteiras, fazer bobagem ou sentir-se uma pessoa falsa, hipócrita e cínica, mesmo porque você não tem tempo para insultar-se, rebaixar-se, refletir.

Trabalhe. Havendo cansaço, não desista. Seja prudente, não pense no corpo que se há de cansar mais rapidamente se você sentir que não conseguirá terminar o que tem para fazer.

Para que sua pessoa não seja vista como desmazelada, dê atenção à carga sobre seus ombros, reconheça a assinatura como sendo a sua, honre o sangue que faz você ser quem é.

Quando beber, beba uma taça, não uma garrafa. Haja moderação, a Terra voltará a se aproximar do Sol. Não extrapole, o planeta voltará a distanciar-se do Sol. Sendo a estrela que é, o Sol seguirá a resfriar-se. Independentemente de você teimar que uma garrafa não prejudica ninguém, haverá dias, noites, e as quatro estações.

Lute consigo como se lutasse com a sombra que mostra a você que o Sol brilha, que a lâmpada está acesa, que a sua imaginação fantasia que você está sonhando, está vencendo, está andando a sete palmos do chão, porque, enfim, você continua comendo cru.

A sete palmos do chão prossiga na sua jornada, siga na caminhada, vá adiante, levite como quem sonha ter asas, sinta-se angelical, seja o anjo que você pode ser, seja potente e atuante, faça-se veículo a quem reclama que o trigo seja transformado em macarrão, faça-se utilitário a quem demanda que o trânsito esteja leve.

Sendo o outro que possa ser, não perca a fleuma ao mergulhar no abismo, pois quem faz o bem não há de fazê-lo por mal.

Com o rou-rou-rou a lhe atiçar em Santa, que a sua pança arda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de dezembro de 2024.


domingo, 22 de dezembro de 2024

Amanhã vai chover

 

Amanhã vai chover

 

Está abafado. Quando o suor empapa a gola da camiseta, trato de cuidar-me lúcido. Embora não agonize em irrealidades, desespero que não me saberei vitimado pelos surtos intermitentes daquela razão além da razão, aquela rotulada como loucura.

Deixe-me adivinhar!

Banco o poeta visionário, canto vaticínios, sou vate vagabundo que senta na praça para solidarizar-me com meus semelhantes, com a boa gente da minha terra ― ou estou mesmo surtado?

Prevejo que, ainda hoje, choverá. Podem confundir-me as nuvens branquinhas que talvez não escondam chuva alguma. Entretanto intuo, a chuva virá porque não desejo que ela venha.

Quem sabe o alcance de minhas obscuridades mentais?

Será para hoje, que venha a chover o tanto que recuso. Ainda que as nuvenzinhas brancas brinquem comigo, não silencio esse adivinho que trago nas vísceras.

Desentranho esse estranho que banaliza predições, pelo vivido.

Apenas pelo que vivi, projeto o que esteja fora dos meus domínios, que a razão alucinada gera linguagem, diz por imagens, cala em mim que sou náufrago a agitar braços, pernas e lábios, uma vez que o vivido que novamente me incendiará as entranhas dará o futuro que não vejo, não ouço nem fomento.

O homem do realejo vem ler-me a sorte que o mico terá tirado para mim, fortuna a ser revelada só depois das sete colheradas de lentilhas, no primeiro minuto do Ano Bom.

Neste primeiro minuto, me animarei a não esquecer.

E foi em setembro que li a entrevista do jornalista João Céu e Silva: na longa viagem pela realidade, foi espetada essa agulha na têmpora: agora lateja em mim a demência do António Lobo Antunes.

E posso resumir 2024: peguei a virose que compartilharam comigo; tive a tendinite no Aquiles que me custou duas semanas de molho; tive Covid; chorei quando a dor fez-me sofrer pelo medo de perder-me em mim; minhas lágrimas foram mínimas, mas foram sentidas, tanto foram que me puseram desperto, devastado, infernizado na insônia daqueles dias de travessia noturna ao meio-dia.

Vivi as trevas. Soprei-as. Fui o vento que precisei ser. Fiz das trevas a brasa que me despertou pro fogo de respirar-me lúcido.

E respiro o ar parado. Este mormaço. Respiro, sou o mormaço que para um instante pra que seja notado, percebido, sentido, seja sentido como aquilo que ele é: o oxigênio necessário.

Sem oxigênio não há chama? A chuva abrasará a chama?

Serei a chuva que não sei bem o que me fará, mas choverei. Hei de chover sobre a casa da árvore, sobre as ruínas, sobre o que sobrou no abacateiro, sobre as tábuas em que chorei e gargalhei.

A casa construída quando eu era menino.

E papai trouxe madeira, martelo, serrote e pregos. Bem me recordo, fui eu quem pintou o nome. Pintei-o em azul: Casa dos Ventos.

Herdeiro deste reino sem rei, amante de ruas e praças, canto a Lua e a chuva, e irei cantá-las até que eu não possa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de dezembro de 2024.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Desapontamentos

 

Desapontamentos

 

Os cachorros latem. De repente, grunhem e saltam. De feras, que horripilam atrás das grades que demarcam a rua e a casa, a bichinhos brincalhões que se deixam acariciar pelo folgado que balança na rede da lavanderia da minha casa, os cães agem assim com Erasmo, e só com ele, quem sabe por ele ser o mais frio dos meus amigos, um ser expressamente racional.

Pessoa cuja argúcia está em pintar e bordar como quem domina as próprias taras, Erasmo é o único sujeito que eu conheço que despreza as implicações de pular o muro sem a vênia do responsável do imóvel, que acha natural persuadir com afagos os animais de outrem para que não o ataquem e, sabendo que nunca me faltam latinhas na geladeira, mandar um zap pedindo a mim que lhe seja bom hospitaleiro.

Como não quero me aborrecer com quem se acha “de casa”, peço que entre e sirva-se ou faça o que bem entender porque estou com dor nas articulações do dedão do pé, obviamente pelo acúmulo de ácido úrico, suponho, já que, há anos, passei pelo mesmo problema e foi-me dito que era gota, justamente pelo excesso de ureia no corpo.

Ele entra, abre uma latinha e, acompanhado dos cães, vem prosear com este que conserva o pé avariado repousando em um pufe.

Sem criticá-lo pela audácia de trazê-los consigo, ordeno aos bichos que, presto!, voltem à vigilância do meu domicílio.

Uma vez entendidos, não subirei o som da TV.

Dirigindo-se a nós que o assistimos, um septuagenário diz que não tinha nunca testemunhado uma coisa como aquela, que jamais na sua vida vira bicho tão impressionante, que a foca grandona era magnífica, que o leão-marinho transmitia a paz que iria mostrar aos netinhos, que a esperteza do lobo-marinho dizia a ele que tomasse o sol de Ipanema a banhar-se novamente na água fria do Atlântico.

Erasmo, sempre lógico, diz que o indivíduo veio com uma corrente polar, que o jovem pescador desgarrou-se do bando por inexperiência, que o bicho só é fofinho para quem o fotografa.

Erasmo não tem câmera, celular e olhos para as supostas fofurices do mundo, ou seja, ele não é um sujeito sentimental.

Informam que os juros vão subir, que a inflação vai subir, que será imprescindível impedir que o salário mínimo suba junto, que a inflação não tem que indexar a economia toda, que os pobres ficarão bem mais pobres se o salário mínimo seguir sendo empregado como instrumento de combate à pobreza.

Erasmo diz que o pobre tem que estar consciente da colaboração benéfica que ele pode proporcionar à Economia. Porque na fabricação do pãozinho de cada dia entra trigo importado, na tarifa do ônibus entra o preço do diesel que não pode causar prejuízos à Petrobrás, na foto do lobo-marinho de Ipanema entra o custo pelo uso de satélite que não funciona de graça.

Desligo a TV, e peço uma cerva.

Sem mais, Erasmo precisa ir ao banco para saber quanto é que lhe rendeu a poupança.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de dezembro de 2024.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Bom coração

 

Bom coração

 

Tudo é simples quando há confiança, mesmo o mundo é um palco, até a vida, que depende de fios, mãos e mentes para ser esplendorosa, mesmo nas coxias, a vida apresenta-se como oportunidades.

Com o amadorismo de quem ama o que faz, apesar do salário bom que possa ser entendido como merecidamente cabível, é salutar situar-se, é oportuno estar apto a improvisações, a palpitações.

Como pessoa que entende que viver é atuar de modo espontâneo, fazendo a barba eu percebi: o frescor da alvorada não sussurrou nada, nem o diálogo que poderia ter começado a crônica.

― Qual a tua graça?

― Não tenho nenhuma graça.

― Por Deus! Como te chamam, cavalheiro?

― É piada? Como não tenho onde cair morto, é piada de mau gosto achar que tenho um potrinho pra cavalgar por aí.

― Como és parvo! Pergunto-te, criatura, qual o nome que teus pais deram-te à pia batismal?

― Nossa Senhora! O senhor está dizendo que preciso tomar banho por que estou fedido?

Tudo é simples quando há método: ler cuidadosamente; ler sem as precipitações de quem já sabe o que está lendo; como João Cabral, ler deixando que boiem as palhas, voltando-se sobre o que, pelo peso da própria substância, permanece no fundo; com olhos libertados do brilho do que corre efêmero, fazer-se à leitura.

Cuidando para não cortar o rosto, acabei rapidamente a barba, pois os cães não paravam mais de latir.

Sobre o telhado da casa eu vi: um homem de boné examinava telha por telha, fileira por fileira; checando aquela água, ele tirou, uma a uma, aquelas trincadas, as necessitadas de serem substituídas.

Quando o homem tirou o boné para enxugar a testa com a barra da camiseta, vi que era o Luisinho.

Ele acenou, eu acenei. Ele voltou a trabalhar, eu vim trabalhar.

Digitando as frases, senti que poderia melhorar o que havia escrito nas fichas que uso para rabiscar; no impulso de registrar o pensamento enquanto penso, rabisquei-as.

Embora eu escrevesse sem pensar no absurdo que é viver um dia depois do outro como se houvesse lógica a preparar-me para a morte, não me desesperei de cortar, trocar, recuperar a palavra cortada, trocar novamente, que isso me é corriqueiro.

Então, o Luisinho do boné vermelho com uma estrela amarela, um daqueles que poderia ter saído de alguma propaganda maoísta, então, o Luisinho poderia vir conversar.

Serenamente:

― Se eu fosse a Dona Cremilda, chamava quem entende da coisa, pois o que o telhado da casa dela está precisando é de ser trocado por inteiro. Pois o que posso dizer, com muito pesar no coração, é que não vai ser trocando uma dúzia de telhas que as goteiras vão sumir.

― Disse isso a ela, Luisinho?

― Ela é minha amiga, é nossa amiga, né?

― Quer dizer que recolocou as telhas, e tudo bem?

― Ela não pediu pra comprar telhas novas, então, eu recoloquei as telhas, mas usei sacolinha pra embrulhar cada uma.

― Cara, sua sabedoria é espantosa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de dezembro de 2024.

domingo, 15 de dezembro de 2024

Outro sábado passado a limpo

 

Outro sábado passado a limpo

 

Bem sei, minha querida, que gosto de ver a cara de quem sofre. É hábito horrendo, não nego que o seja, porém, ainda que perceba a dor que isso causa, continuo cutucando a ferida.

Gosto de gente que não esconde a contrariedade. Só que não dou pelota para quem se constrange; não ponho graça nisso de gente que se encolhe quando a machuco.

Gosto de gente que não se intimida e me encara com olhar afiado, porque seus olhos são lâmina do mais rijo aço, fabricado no inexorável que a alma tem por mais recôndito, que é a rebeldia inoxidável que não se deixa corroer por lágrima, suor e sangue.

Excitante é gente que não teme levantar-se como adversária, pois a afronto e a confronto. Excita-me porque preciso equiparar-me a quem não hesita de admitir-se como uma inimiga.

É experiência magnífica, minha querida, testemunhar o que faz uma pessoa que não submerja na banalidade de apagar-se na covardia. Ela não teme demonstrar-se ferida, apresentar-se machucada; a sua cara me diz que, mais do que mágoa, o que a minha língua sonda é mácula que sangra, dói e a desnorteia para caramba.

Minha querida, encontrar quem não grita “ai, carai!” por uma topada no pé da mesa é experiência a ser exaltada, pois isso retrata a pessoa como gente que conhece a dor profunda de saber-se real.

A vida pede que eu esteja atento à gente que me incita a jogar com ela. E topo brincar. Somos iguais. Diferentes mas semelhantes. Somos jogadores dispostos a vencer. E jogo bom vale a disputa.

Não, minha querida, não jogo como se, ao fim e ao cabo, houvesse de tirar uma lição sobre a verdade, sobre a força que a verdade impõe a quem é derrotado. Não se trata de educar quem precisa ser posto no lugar que lhe cabe no mundo.

O jogo é bom porque sangro, suo e, mesmo, choro de raiva quando estou derrotado. O meu apupo é o reconhecimento do malogro.

Ontem mesmo, minha querida, estive na casa do seu tio Ariosvaldo, que pediu que lhe transmitisse o pedido de que o vá visitar o mais breve que seja possível, pois as saudades dele desejam as suas broas.

Ia dizendo, minha querida, que aos sábados eu mesmo lavo roupa, limpo a casa, boto fogo no mato, dou banho nos cachorros, e vou visitar um ou outro parente.

Que o Vadico é uma figura, você mesma sabe como ele é.

Cheguei na casa dele e fiquei olhando. Eu sorria, mas nada dele se interessar por mim, que estava parado no portão.

Na rede parada, o seu tio olhava o gesso da varanda. Devia ter visto alguma trinca. Devia ter sentido que uma trinca pode apresentar-se ou fininha como linha ou algo fundo que nem um cânion.

Sinceramente, seu tio parecia um bobo naquilo de ficar imaginando rachadura como um córrego da caatinga ou um Rio Negro no inverno amazônico feito o Itaimbezinho.

E foi assim que eu cortei a viagem do Vadico:

― Que vadiagem é essa, maninho?

Ao que ele atalhou:

― É a vadiagem do sábado, Aristides.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de dezembro de 2024.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

O fantasma da XV

 

O fantasma da XV

 

A redundância é uma característica da minha persona, diz quem me conhece pelo que acha nas minhas redes sociais. E eles me conhecem muito bem, justamente pelas redes sociais que não são minhas, ainda que o meu nome esteja lá como vórtice daquelas relações.

Como tais relações prescindem de relacionamentos, basta que haja um nome para imediata conexão entre carne e sombra, é de bom-tom que se diga que esse conhecimento é extravagante, porque o espírito do momento provê as extravagâncias que o nutrem.

Pela figura que seguem, entendo-me idiota.

Vejo que dão joinha a uma fotografia bem antiga, de 2005, quando, em Santos, fui fazer endoscopia. Podem curtir, ainda, outra foto antiga, já em 2014, quando, em Piracicaba, eu comia um linguado à beira-rio. Pra que passe por desapercebido, dão à aprovação uma foto, clicada ontem, de quando eu saía duma colonoscopia duca!

O peculiar delas todas? Visto polo azul-bebê.

Serei tão idiota de vestir a mesma camisa por anos?

Deixo estar. Olhando bem, dá para reparar que é o azul-bebê o que se destaca. Mesmo que as peças sejam outras, eu pareço sempre usar a mesma.

Poucos compreendem que este idiota nada tem a oferecer que não esteja no que escrevo. Custa-lhes entender que me prefiro submergido no silêncio de quem supõe nada mais ter a oferecer que não esteja no que pressupõem seja uma piada.

Uma vez pressuposto que fico muito bem de azul-bebê, pressionam pela minha validação.

Pois é, Carlito, também perdi o bonde e a esperança. Não hei de ir às ruas como fumaça, feito lembrança de quem ateia fogo nas próprias vestes pro seu espectro ser dado em pó.

Quando atropelam para que o corpo seja venerado, vou às praças; sabendo ir pelo pranteado, seguirei a rir-me.

Do pranto ao riso, reitero que assim seja.

Se decaí do ouro ao barro? Com o barro moldarei bezerros de ouro? Sangrarei pelas mãos de quem lapida?

Do riso às gargalhadas, pleiteio que seja assim.

Galgarei a ladeira da memória. Respirarei o ar que passa pelo pico que posso atingir. Estarei lá enquanto comigo continuar a estar. Pelos anos que sobram, procuro me retratar vivo.

Vivo estive na XV. Sentei à entrada da Confeitaria Schaffer. Com a animação de incauto, à mesa que pareceu ser adequada ao propósito, fiquei-me à espera do Sugador de Histórias.

Embora a tarde fosse cinzenta, e garoenta, no afã de idiota que se segura, uma vez que minha cruzada era de fanzoca solitário, de gente feliz por baixar a guarda quando contasse entrar no radar do Vampiro, o meu cérebro ardia.

Na graça de ‘78, as chamas da alma restaram fulminantes, capotei após uns quantos cafés e por não sei lá quantos cigarros. Já era tarde, bem tarde, porque nunca mais me veria seduzido pelo sujeito de boina, barbicha e caninos eminentes.

O Sr. Dalton devorado por um idiota?

A vaidade seja dita:

― É fogo!

À vera, seja dito:

― É foda!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de dezembro de 2024.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Camarada de sorte

 

Camarada de sorte

 

Chegam as Festas. Por meias, bonecos e bugigangas eletrônicas, corre-se. Mesmo sem promoções, suplica-se que a troca de empurrões não induza às vias de fato. Afortunados consumidores, haveremos de sobreviver até o Ano Bom.

Frente a frente com a Dona Cremilda, noto que carregamos batatas, bananas, caixinhas de suco e, bingo!, panetones e chocotones.

― Dispensando fraldão e ômega 3?

― Não venho da farmácia, engraçadinho.

Pelo sorriso chocho, a graça está em dizer algo sem graça.

Vem aí o Natal. Por arroz com uvas passas, azeitonas sem caroço e pimentão bem picadinho, a mesa é posta. Ainda que faltem cadeiras, sobrarão facas e garfos pra peru, frango e lagarto. Venturosos glutões, não enfartaremos até o Ano Bom.

Encontro Aristeu; vejo que ele traz partituras numa sacolinha e, pra que a pergunta seja inevitável, uma sanfona ao ombro.

― Quede o violão?

― Quero fazer uma surpresa, meu amigo.

Vem aí a Virada. Para que a contagem regressiva encurte a jornada até o novo ano, haverá champanhe, água e refri. Embora passe raiva a gente que peça vinho, lentilha e as sete ondas, sua roupa íntima será branca como a neve caindo na tevê.

Dobrando a esquina, Domingos aparece com um violão.

― Essa é boa!

― Não espalhe, meu amigo, mas vou fazer uma surpresa.

As Festas estão à porta. Virá o Natal. Virá a Virada. Estarei à mesa, beberei refri, brindarei pelo que houver de saudar. Talvez eu sorria por bobagens. Quiçá fale sério sobre a concórdia universal. Quem sabe eu estranhe o silêncio das entranhas, até correr me livrar das passas.

― Você, sim, é que é um camarada sortudo. É ateu. É solteiro. Você não tem que correr atrás de presentes. Você não precisa perder o sono sobre qual o presente certo pra esposa, pro filho ou pra filha. Você não sofre se a vendedora mostra camiseta com abstrações geométricas ou roupão com rosas bordadas. Como nem precisa ver a correria na tevê, você tem o privilégio de deitar-se na hora que quer. Você pode acordar no dia seguinte sem achar que as meias caídas no chão estejam órfãs de lareira e chaminé e do saco gordo do velho escroto. Você, sim, é o tipo de sujeito que nem pede pra ser lembrado que o Papai Noel é, sim, um sacana que ignora os ateus. O babaca só se preocupa em agradar gente que tem família se empanturrando à mesa. A besta ouve apenas quem espera ganhar o que pôs na listinha. Ora, a lista nem precisa ser escrita, pois à gente visitada pelo Bom Velhinho basta querer, basta ter a alma concentrada.

Pessoa tão gente boa que vende paçoquinha a dois reais cada uma, sem vontade de causar embaraço, alimentar ressentimentos e mostrar que o copo está meio vazio, já que eu sou este ateu bem-apessoado, prefiro desejar-lhe um Feliz Natal, um Próspero Ano Novo e que você garimpe uma graninha pra comer, beber à beça e divertir-se sem culpa, pois, ô sorte grande!, já vem o Carnaval.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de dezembro de 2024.

domingo, 8 de dezembro de 2024

Encurralado

 

Encurralado

 

Embora morto, Jean-Luc Godard fez aniversário em 03/12.

Sem maiores profundidades na observação, considero que a morte não serve para barrar o tempo, nem pros mortos; afinal, ela não impede que um ano a mais seja acrescido à existência de qualquer pessoa, ou calendários e folhinhas deixariam de ser fabricados e comercializados com êxito e sucesso.

A respeito destas e daqueles: ao contabilizar a passagem do tempo, são exitosos; por sua disseminação como necessidade de atualização coletiva, obtêm sucesso.

Todo mundo e você sabemos que o fluxo não conhece interrupção; o tic-tac flui até para aniversariante que continua morto.

Cessaria se houvéssemos esquecido?

Esquecer não é dar a memória como sepulcro.

Dói-me ainda a falta e a ausência da Gertrudes, o jabuti que deveria ter sido cuidado como se fosse parte de mim, pois, afinal, passou a sê-lo desde que o bichinho, embora eu transitasse por meus dias de guri, veio pachorrar no mundinho que era tão meu.

Uma vez que o garoto que eu fui nunca mais sumiu dentro de mim, agora percebo que a criança que brinca com as ideias gosta de ter fé na vida, de ter razão para crer na fé ou de dar realidade ao mundo, até àquele supostamente inacessível, feito abismo eternamente escondido a impulsionar-me, a pulsar nas entrelinhas.

Tudo que pulsa, produz energia ― perceptível pelo calor, auferível pela luz, sensível porque inteligível.

Sinto, logo entendo?

Entendo-me pouco, até mesmo no pouco que vaga pulsante entre as palavras, os silêncios e as minhas perplexidades.

Sinto, logo me afeiçoo ao que percebo.

Convenhamos, você e eu sabemos o quão problemático é afeiçoar-se a quem nos trai; pois é, a punhalada mais dolorosamente sentida é a desferida por quem, invocando a ética e os bons fluidos que nós tanto carecemos, desdenha da pessoa que somos.

Menino, jovem, adulto ou velho ― a essa gente que nos menoscaba pouco importa por qual fase da vida passamos, que tenhamos nossas dificuldades, que mais choramos do que nos alegramos; a eles importa o que estamos dispostos a conceder.

Contudo, minha gente, arrancar as asas da içá não a regenera em formiga, fá-la içá morta.

Godard morto não é içá morta, suas asas ainda batem; embora este escriba não venere saúvas a ponto de fritá-las, o petiz ainda gosta de ter comido bundinhas.

Meus amigos e eu íamos atrás das içás, estivessem na pracinha do Fórum, no coreto da Capelinha, nas ruelas do cemitério.

Sim, a nós outros que corríamos pelo que desejávamos, o cemitério não era sagrado pelo que rezavam as lápides, era-nos um éden pelas suculentas içás.

Caríssimo Jean-Luc, componho contigo quando você diz: “não é a consciência do homem que determina sua existência. É sua existência que determina sua consciência”.

Janela sobre a saudade, aquelas bundinhas provam: feito bundão, eu mesmo estou frito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de dezembro de 2024.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Sobre a paz de espírito

 

Sobre a paz de espírito

 

Àquelas pessoas que esperam que eu irrompa em público calçando os coturnos da ignorância, digo-lhes que os mindinhos dos pés estão aconchegados dentro dos tênis.

Meus pés não são bons condutores, eu ia por aí até ouvi-los:

― Comendo maçãs podres, rapaz?

― Não posso o luxo de passar fome, dona.

Já que vim dar aqui, assumo a função de ser invisível que escuta o mundo como quem usa os tímpanos pra filtrar a vida.

Mostro-me abusado quando peço muita mostarda, muita pimenta e um chorinho generoso de ketchup no cachorro-quente; o abuso é tanto que a moça da barraca pede misericórdia.

Como por mim a boa moça intervém, mastigo fazendo cara de quem está gostando pra dedéu, também faço barulhinhos de aprovação, mas ela diz que aquela gororoba atacará o meu estômago.

Ou a NASA podia estudar um brasileiro feito eu, que erra a mão nos condimentos, ou o brasileiro bem que poderia ir ao espaço pra fabricar alimentos que, embora putrefatos, prossigam saudáveis.

Já que a Saúde tem que ser prioridade, fazendo par com Educação, nada de ficar obrando pelo Nobel de Economia, nada de cair nessa de imaginar como maçãs turgidamente passas possam alimentar milhões que não têm a primazia de traçar restos antes de ratos.

― É horrorível, rapaz, comê-las sem lavá-las?

― Não tem problema, sempre cuspo a parte podre.

Assim como a FUNASA não é Federação de Narigudos Anônimos, assim o IgNobel, que nunca para de remar contra a maré, podia achar um estudo em que houvesse comprovação (cientificamente, de lé com cré) que Zés e Josés tenham ganhado força sem supinos, tão somente ingerindo sobras que até cobras pegam nojo só de olhar.

― Não duvido de que se lhe desse dinheiro, você iria atrás de gente que fornece maçã pela metade do preço. Sem perguntar pela origem, você compraria como quem acha que faz a roda do mercado rodar sem rangido. Rapaz, confesse que estou errada.

― Errada a dona não está, eu é que não soube me comunicar com a madame. O que eu quero dizer é que os meus dentes podres sentem as partes podres da maçã, daí eu cuspir sem ter que experimentar com a língua.

Por um viés da vida menos estapafúrdio, ou os elétrons da manteiga são atraídos pelos prótons do chão ou as margarinas sem sal têm mais nêutrons que um grão de areia.

Haja cisco pra querer colírio que dê alívio?

Pela política de virar a ampulheta pra que se perca mais tempo com o que deveria estar embaixo do tapete, são os visionários da vida real que trocam maçãs podres por espinafres passados, achando que eles são halteres, irrefutavelmente.

― Estou nauseabunda de não ajudá-lo, rapaz. Então, dou-lhe cinco reais. Tome o meu socorro, mas não compre pipoca nem picolé.

― Dona, as minhas maçãs não estão à venda.

― Rapaz! Nem que chova canivete, promete que vai usar luvas ao enfiar as mãozonas em lixo de procedência duvidosa?

― Grato! Grato pela grana!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de dezembro de 2024.