Outro
sábado passado a limpo
Bem sei, minha querida, que gosto de ver
a cara de quem sofre. É hábito horrendo, não nego que o seja, porém, ainda que
perceba a dor que isso causa, continuo cutucando a ferida.
Gosto de gente que não esconde a contrariedade.
Só que não dou pelota para quem se constrange; não ponho graça nisso de gente
que se encolhe quando a machuco.
Gosto de gente que não se intimida e me
encara com olhar afiado, porque seus olhos são lâmina do mais rijo aço,
fabricado no inexorável que a alma tem por mais recôndito, que é a rebeldia
inoxidável que não se deixa corroer por lágrima, suor e sangue.
Excitante é gente que não teme
levantar-se como adversária, pois a afronto e a confronto. Excita-me porque
preciso equiparar-me a quem não hesita de admitir-se como uma inimiga.
É experiência magnífica, minha querida,
testemunhar o que faz uma pessoa que não submerja na banalidade de apagar-se na
covardia. Ela não teme demonstrar-se ferida, apresentar-se machucada; a sua
cara me diz que, mais do que mágoa, o que a minha língua sonda é mácula que
sangra, dói e a desnorteia para caramba.
Minha querida, encontrar quem não grita
“ai, carai!” por uma topada no pé da mesa é experiência a ser exaltada, pois
isso retrata a pessoa como gente que conhece a dor profunda de saber-se real.
A vida pede que eu esteja atento à gente
que me incita a jogar com ela. E topo brincar. Somos iguais. Diferentes mas
semelhantes. Somos jogadores dispostos a vencer. E jogo bom vale a disputa.
Não, minha querida, não jogo como se, ao
fim e ao cabo, houvesse de tirar uma lição sobre a verdade, sobre a força que a
verdade impõe a quem é derrotado. Não se trata de educar quem precisa ser posto
no lugar que lhe cabe no mundo.
O jogo é bom porque sangro, suo e,
mesmo, choro de raiva quando estou derrotado. O meu apupo é o reconhecimento do
malogro.
Ontem mesmo, minha querida, estive na
casa do seu tio Ariosvaldo, que pediu que lhe transmitisse o pedido de que o vá
visitar o mais breve que seja possível, pois as saudades dele desejam as suas
broas.
Ia dizendo, minha querida, que aos
sábados eu mesmo lavo roupa, limpo a casa, boto fogo no mato, dou banho nos
cachorros, e vou visitar um ou outro parente.
Que o Vadico é uma figura, você mesma
sabe como ele é.
Cheguei na casa dele e fiquei olhando. Eu
sorria, mas nada dele se interessar por mim, que estava parado no portão.
Na rede parada, o seu tio olhava o gesso
da varanda. Devia ter visto alguma trinca. Devia ter sentido que uma trinca
pode apresentar-se ou fininha como linha ou algo fundo que nem um cânion.
Sinceramente, seu tio parecia um bobo
naquilo de ficar imaginando rachadura como um córrego da caatinga ou um Rio
Negro no inverno amazônico feito o Itaimbezinho.
E foi assim que eu cortei a viagem do
Vadico:
― Que vadiagem é essa, maninho?
Ao que ele atalhou:
― É a vadiagem do sábado, Aristides.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 15 de dezembro de 2024.