Camarada
de sorte
Chegam as Festas. Por meias, bonecos e bugigangas
eletrônicas, corre-se. Mesmo sem promoções, suplica-se que a troca de empurrões
não induza às vias de fato. Afortunados consumidores, haveremos de sobreviver
até o Ano Bom.
Frente a frente com a Dona Cremilda, noto
que carregamos batatas, bananas, caixinhas de suco e, bingo!, panetones e
chocotones.
― Dispensando fraldão e ômega 3?
― Não venho da farmácia, engraçadinho.
Pelo sorriso chocho, a graça está em
dizer algo sem graça.
Vem aí o Natal. Por arroz com uvas passas,
azeitonas sem caroço e pimentão bem picadinho, a mesa é posta. Ainda que faltem
cadeiras, sobrarão facas e garfos pra peru, frango e lagarto. Venturosos
glutões, não enfartaremos até o Ano Bom.
Encontro Aristeu; vejo que ele traz
partituras numa sacolinha e, pra que a pergunta seja inevitável, uma sanfona ao
ombro.
― Quede o violão?
― Quero fazer uma surpresa, meu amigo.
Vem aí a Virada. Para que a contagem
regressiva encurte a jornada até o novo ano, haverá champanhe, água e refri.
Embora passe raiva a gente que peça vinho, lentilha e as sete ondas, sua roupa
íntima será branca como a neve caindo na tevê.
Dobrando a esquina, Domingos aparece com
um violão.
― Essa é boa!
― Não espalhe, meu amigo, mas vou fazer
uma surpresa.
As Festas estão à porta. Virá o Natal.
Virá a Virada. Estarei à mesa, beberei refri, brindarei pelo que houver de
saudar. Talvez eu sorria por bobagens. Quiçá fale sério sobre a concórdia universal.
Quem sabe eu estranhe o silêncio das entranhas, até correr me livrar das passas.
― Você, sim, é que é um camarada sortudo.
É ateu. É solteiro. Você não tem que correr atrás de presentes. Você não precisa
perder o sono sobre qual o presente certo pra esposa, pro filho ou pra filha. Você
não sofre se a vendedora mostra camiseta com abstrações geométricas ou roupão
com rosas bordadas. Como nem precisa ver a correria na tevê, você tem o
privilégio de deitar-se na hora que quer. Você pode acordar no dia seguinte sem
achar que as meias caídas no chão estejam órfãs de lareira e chaminé e do saco
gordo do velho escroto. Você, sim, é o tipo de sujeito que nem pede pra ser
lembrado que o Papai Noel é, sim, um sacana que ignora os ateus. O babaca só se
preocupa em agradar gente que tem família se empanturrando à mesa. A besta ouve
apenas quem espera ganhar o que pôs na listinha. Ora, a lista nem precisa ser
escrita, pois à gente visitada pelo Bom Velhinho basta querer, basta ter a alma
concentrada.
Pessoa tão gente boa que vende
paçoquinha a dois reais cada uma, sem vontade de causar embaraço, alimentar
ressentimentos e mostrar que o copo está meio vazio, já que eu sou este ateu
bem-apessoado, prefiro desejar-lhe um Feliz Natal, um Próspero Ano Novo e que você
garimpe uma graninha pra comer, beber à beça e divertir-se sem culpa, pois, ô
sorte grande!, já vem o Carnaval.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de dezembro de 2024.