Sobre
a paz de espírito
Àquelas pessoas que esperam que eu
irrompa em público calçando os coturnos da ignorância, digo-lhes que os
mindinhos dos pés estão aconchegados dentro dos tênis.
Meus pés não são bons condutores, eu ia
por aí até ouvi-los:
― Comendo maçãs podres, rapaz?
― Não posso o luxo de passar fome, dona.
Já que vim dar aqui, assumo a função de
ser invisível que escuta o mundo como quem usa os tímpanos pra filtrar a vida.
Mostro-me abusado quando peço muita
mostarda, muita pimenta e um chorinho generoso de ketchup no cachorro-quente; o
abuso é tanto que a moça da barraca pede misericórdia.
Como por mim a boa moça intervém,
mastigo fazendo cara de quem está gostando pra dedéu, também faço barulhinhos de
aprovação, mas ela diz que aquela gororoba atacará o meu estômago.
Ou a NASA podia estudar um brasileiro
feito eu, que erra a mão nos condimentos, ou o brasileiro bem que poderia ir ao
espaço pra fabricar alimentos que, embora putrefatos, prossigam saudáveis.
Já que a Saúde tem que ser prioridade,
fazendo par com Educação, nada de ficar obrando pelo Nobel de Economia, nada de
cair nessa de imaginar como maçãs turgidamente passas possam alimentar milhões
que não têm a primazia de traçar restos antes de ratos.
― É horrorível, rapaz, comê-las sem lavá-las?
― Não tem problema, sempre cuspo a parte
podre.
Assim como a FUNASA não é Federação de
Narigudos Anônimos, assim o IgNobel, que nunca para de remar contra a maré,
podia achar um estudo em que houvesse comprovação (cientificamente, de lé com
cré) que Zés e Josés tenham ganhado força sem supinos, tão somente ingerindo
sobras que até cobras pegam nojo só de olhar.
― Não duvido de que se lhe desse
dinheiro, você iria atrás de gente que fornece maçã pela metade do preço. Sem perguntar
pela origem, você compraria como quem acha que faz a roda do mercado rodar sem
rangido. Rapaz, confesse que estou errada.
― Errada a dona não está, eu é que não
soube me comunicar com a madame. O que eu quero dizer é que os meus dentes
podres sentem as partes podres da maçã, daí eu cuspir sem ter que experimentar
com a língua.
Por um viés da vida menos estapafúrdio,
ou os elétrons da manteiga são atraídos pelos prótons do chão ou as margarinas
sem sal têm mais nêutrons que um grão de areia.
Haja cisco pra querer colírio que dê
alívio?
Pela política de virar a ampulheta pra
que se perca mais tempo com o que deveria estar embaixo do tapete, são os visionários
da vida real que trocam maçãs podres por espinafres passados, achando que eles são
halteres, irrefutavelmente.
― Estou nauseabunda de não ajudá-lo,
rapaz. Então, dou-lhe cinco reais. Tome o meu socorro, mas não compre pipoca nem
picolé.
― Dona, as minhas maçãs não estão à
venda.
― Rapaz! Nem que chova canivete, promete
que vai usar luvas ao enfiar as mãozonas em lixo de procedência duvidosa?
― Grato! Grato pela grana!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de dezembro de 2024.