Cuca
que caiu!
Olha, é só pela consideração que eu
gargalho sem remorso, já que, nem que magoe nem que embrabeça, a gente pode rir,
irmã.
Porque adorei o seu olhar de piranha
quando tem sangue na água, fiquei rindo de você estatelada.
Achei lindo de ver, pois fiz questão de
não camuflar o quanto eu me divertia. Pelo ódio no seu olhar, ri que foi uma
coisa louca; minha risada foi tão sacana, pois você me convenceu do ridículo.
Irmã, não tomasse um tombaço impossível
de não fazer rir, que até chorei de tanto rir. Pena que a figura pagando mico
não tenha sido eu, mas você tem esse dom, de fazer a gente embarcar na sua, e
cair no ridículo também. De tanto rir, sua danada, eu me mijei toda.
Ademais, sendo sangue do meu sangue, foi
hilário, tremendamente ridículo. Sei que fiz o papelão de rir feito maluca até
ficar toda mijada, mas rir desse jeito foi o meu modo de mostrar o quanto sei
ser solidária, maninha, ainda mais que o roxo na bunda seria todo, todinho seu.
Sua ridícula, se não estivesse tão
trêbada, eu nem levantaria a lebre de que é besteira o que tanta gente diz, que
irmão tem que ser solidário com irmão, mesmo que o irmão seja irmã trançando as
pernas.
É embriagante gargalhar que nem gente
pancada, só que é ridículo perder o controle, tanto que até a bexiga se
descontrola.
Como você e eu sabemos, é conversa mole esse
negócio de aceitar a natureza pelo que é dito que ela seja: o elo a nos
identificar próximas, unidas, confundidas.
Uma na outra sobrepostas?
Nós duas sabemos que entre a gente não
rola essa coisa de união pelo amor, pois somos intransigentes uma com a outra.
Somos do tipo de pessoa que não mata nem rouba porque fomos criadas para mentir
sobre o que realmente seja relevante.
Ter a responsabilidade de motivar as
pessoas a fazerem algo pela gente, isso é fundamental, isso é que tem de ser
incentivado acima de tudo, acima de todos.
O resto é pipoca que não estoura? Nem
panela nós somos.
Maninha, ambas sabemos que o papinho de
honrar pai e mãe não nos mobiliza. É ridículo pensar que poderíamos fugir de
barata, isso é vulgaridade boçal. Uma vez que não gritamos nem fugimos, queremos
chinelada que resolva de vez.
Desde mocinhas, amamos papai e mamãe.
Meninas, aprendemos que amar o pai e a mãe é dever da prole. Você e eu, tivemos
que saber que, para todo o sempre, nosso lugar de família é dar ao mundo a aura
do nosso veio aurífero.
Fomos treinadas a tomar chinelada sem
chorar, e tínhamos o dever de dar vazão à cólera pelo olhar de gente enfurecida.
Mas o inferno está cheio de barata que morre
achando que é sábio assediar o justo que a esmague, que é justo o sensato que a
esmague de maneira fulminante, que o certo é matar com a dignidade de não ter
sangue de barata, porque, segundo a sanha do pai e da mãe, a gosma asquerosa da
bichinha nem é sangue, sendo linfa.
Cuca que caiu! ― tão tão cartesianas, provaríamos
desse fruto.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de novembro de 2024.