quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Cuca que caiu!

 

Cuca que caiu!

 

Olha, é só pela consideração que eu gargalho sem remorso, já que, nem que magoe nem que embrabeça, a gente pode rir, irmã.

Porque adorei o seu olhar de piranha quando tem sangue na água, fiquei rindo de você estatelada.

Achei lindo de ver, pois fiz questão de não camuflar o quanto eu me divertia. Pelo ódio no seu olhar, ri que foi uma coisa louca; minha risada foi tão sacana, pois você me convenceu do ridículo.

Irmã, não tomasse um tombaço impossível de não fazer rir, que até chorei de tanto rir. Pena que a figura pagando mico não tenha sido eu, mas você tem esse dom, de fazer a gente embarcar na sua, e cair no ridículo também. De tanto rir, sua danada, eu me mijei toda.

Ademais, sendo sangue do meu sangue, foi hilário, tremendamente ridículo. Sei que fiz o papelão de rir feito maluca até ficar toda mijada, mas rir desse jeito foi o meu modo de mostrar o quanto sei ser solidária, maninha, ainda mais que o roxo na bunda seria todo, todinho seu.

Sua ridícula, se não estivesse tão trêbada, eu nem levantaria a lebre de que é besteira o que tanta gente diz, que irmão tem que ser solidário com irmão, mesmo que o irmão seja irmã trançando as pernas.

É embriagante gargalhar que nem gente pancada, só que é ridículo perder o controle, tanto que até a bexiga se descontrola.

Como você e eu sabemos, é conversa mole esse negócio de aceitar a natureza pelo que é dito que ela seja: o elo a nos identificar próximas, unidas, confundidas.

Uma na outra sobrepostas?

Nós duas sabemos que entre a gente não rola essa coisa de união pelo amor, pois somos intransigentes uma com a outra. Somos do tipo de pessoa que não mata nem rouba porque fomos criadas para mentir sobre o que realmente seja relevante.

Ter a responsabilidade de motivar as pessoas a fazerem algo pela gente, isso é fundamental, isso é que tem de ser incentivado acima de tudo, acima de todos.

O resto é pipoca que não estoura? Nem panela nós somos.

Maninha, ambas sabemos que o papinho de honrar pai e mãe não nos mobiliza. É ridículo pensar que poderíamos fugir de barata, isso é vulgaridade boçal. Uma vez que não gritamos nem fugimos, queremos chinelada que resolva de vez.

Desde mocinhas, amamos papai e mamãe. Meninas, aprendemos que amar o pai e a mãe é dever da prole. Você e eu, tivemos que saber que, para todo o sempre, nosso lugar de família é dar ao mundo a aura do nosso veio aurífero.

Fomos treinadas a tomar chinelada sem chorar, e tínhamos o dever de dar vazão à cólera pelo olhar de gente enfurecida.

Mas o inferno está cheio de barata que morre achando que é sábio assediar o justo que a esmague, que é justo o sensato que a esmague de maneira fulminante, que o certo é matar com a dignidade de não ter sangue de barata, porque, segundo a sanha do pai e da mãe, a gosma asquerosa da bichinha nem é sangue, sendo linfa.

Cuca que caiu! ― tão tão cartesianas, provaríamos desse fruto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de novembro de 2024.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

O mágico da vitrine

 

O mágico da vitrine

 

Sem delongas, fui como estava ― descalço, o torso nu, sem óculos. Suando, esbaforido e com o dedão do pé direito latejando pela topada na base da lixeira, eu cheguei assim.

Desde que o aviso da notificação soou à meia-noite em ponto, ficou bem difícil manter a calma ― ir à esquina foi mais fácil.

Queria me ver na esquina. Queria muito que eu estivesse lá? Queria que isso desse certo, mas não me deparei com ninguém.

Até queria que fosse eu no reflexo que chamou minha atenção, mas não vagueio descalço por aí porque é imundo o chão do mundo. Queria acreditar que tinha saído desnudo, mas temo qualquer ventinho, ainda mais o da madrugada, gelado. E quis muito, muito, muitíssimo, que não tivesse chutado a lixeira, mas fui eu quem chutou aquela bendita.

Ser tirado do sono por pedido de confirmação de despesa feita com cartão de crédito é despertar o zuretinha que adora assediar-me com ansiedades que nem reconheço como sendo minhas.

Tenho isso de dar passagem a quem me faz atônito, bastantíssimo eufórico, assim perplexo, um camarada complexado.

Estou nas mãos de um inimigo que vem brincar comigo quando nem acho divertido brincar com estranhos, porque nem sei se vai sair coelho da minha cachola.

Assim como coelhos têm facilidade para a multiplicação de coelhos, assim estou prenhe de gente desconhecida.

Gente que pode ou não ganhar o mundo, uma vez que não me acho isento, ou lúcido, pra escondê-la, ou reproduzi-la, em mim.

Não que me veja assoreado em legião, porque isso de ser multidão tem a cara de Bob Dylan ou, antes, Walt Whitman.

Às vezes, espio pelo buraco, porque eu acho que a memória é uma porta, cuja chave não creio saber usá-la com sensatez.

Ó insensatez... Topo reivindicá-la quando me convém.

E sinto que tem razão quem percebe que não tenho facilidade para escrever. Percebo que tenho dificuldade para me concentrar. Acredito que meus fantasmas acham engraçado que eu pare, pense em desistir ou vá atrás de encrenca.

Encrenqueiros são fantasmas que me fazem crer que preciso correr com eles, então, riem. Eles não riem de mim, fazem que eu ria. E a sua malícia é fazer de mim esse fantasma que desejam que eu seja?

Caraca! Sou vocês.

Não, eles não querem que me ache um deles. Basta que aja como agem, pense feito mais um deles, que, mesmo envergonhado, eu tome pulso do opróbrio e ria desbragadamente.

Desarvorado, eu rio.

Sou o fantasma que ri quando nem tenho que rir. Quando a lucidez indica que não me manifeste por nada, passo a rir. Como sempre, foto em tempo, sou o fantasma que não agita o caldo, eu rio. Fantasma cuja memória exuma um fedor conhecido, revolvendo o fundo, fica rindo. Até me acho fantasiado de homem invisível, rindo.

Feito gente que ergue ponte, viaduto ou passarelas, posso escrever o que preciso, porque é o meu ofício.

Mas ai, Manuel Bandeira, não sou andorinha à toa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de novembro de 2024.

domingo, 17 de novembro de 2024

A visita

 

A visita

 

Quando o estranhamento faz cócegas, Francisca, costumo sorrir.

Mal tendo aberto a porta, a brisa da madrugada entrou por entre a folha aberta e mim. Uma vez que nenhuma folhagem tenha acusado a passagem do vento, me arrepiei. Mas achei que fosse bobagem minha, pois olhei, olhei e eu nada vi de diferente. Achei esquisito o sentimento, pois a orquídea continuava bela e a samambaia, verdinha. Mas quando o bafo quente lambeu a minha nuca, fechei a porta.

Não olhei pra trás, Francisca, porque eu sei o que acontece quando a gente olha pra onde não devia ter olhado. Não sou covarde, mas sei qual é meu gatilho. Certamente eu pensaria besteira, inventaria que a minha força está na resistência. Que eu resistiria a mim mesmo, sendo isso tão somente mais uma das minhas ilusões.

Sou vaidoso, tanto quanto fico decepcionado com você, que não diz nada. Mesmo eu provocando, nada.

Francisca, onde seus modos foram parar? Diga alguma coisa. Nem que seja pra dizer que estou falando besteira, agindo feito bobo, que o que passou entre a folha da porta e mim foi nada, um nada que desejo tenha presença, que essa manifestação seja sentida como algo real e que seja a causa da minha desconfiança, que o invisível existe porque eu não o vejo, sentindo-o, que isso é coisa besta.

Francisca, não precisa falar que estou com medo, porque realmente estou com medo. Você precisa dizer qualquer coisa, diga que eu estou feio, que minhas roupas estão amarfanhadas, manchadas, que eu visto GG em vez de estar usando M. Fale.

Faça-me o esforço, Francisca.

Devo chegar mais perto da janela? Falta luz para que você veja que estou horroroso? Devo acender a luz? Devo sentar, cruzar as pernas? Devo fumar um charuto?

Não sei se já te contei, Francisca, mas teve aquela ocasião quando descobri a caixa de charutos dentro do guarda-roupa. Entrei no quarto dos meus pais, peguei um charuto. Como eu não sabia fumar, baforei, fui baforando até que resolvi tragá-lo. O tanque subiu mas o chão parou a minha queda, e o inferno continuou lá no lugar dele.

Francisca, eu não era mais criança, eu tinha onze anos.

A sorte foi que precisaram dar pontos na minha testa, e foi isso que me salvou da sova que levaria se tudo estivesse bem. Com o coice que eu levei, faz cinquenta anos, quatro meses e treze dias que peguei nojo do cheiro de charuto, Francisca.

A cicatriz que continua na testa serve pra lembrar o que a gente fez, os danos causados e que precisa prosseguir fazendo reparo.

Pra que serve a cabeça? A caixa craniana protege o cérebro. Com ele protegido, a mente fantasia, diz o que a pessoa pode fazer mesmo se pondo em risco.

Sei que sou arisco, mas lembra o Gutierres? O que tinha o cachorro que latia pro rebanho, lembra? Achava uma sombra, cochilava? Nunca te contei que o Gutierres amava cabras?

Caraca, Chica!

Com o Gutierres aqui, bem aqui, não acho graça rir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de novembro de 2024.

 

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Maluquete

 

Maluquete

 

Como preparativo à escrita da crônica, ainda que em mim houvesse somente o interesse de especular quais as qualidades requeridas a um candidato, a boa-fé de quem confia na pujança da nossa economia me fez telefonar a quem contrata para as Festas.

Não liguei para que me fossem confidenciados segredos, buscava informações que me estimulassem festivo pro Natal.

Pra ficar convencido de que eu faria a escolha certa, falaram que a parada obrigatória do almoço era de meia hora e meia, avisaram que as oito horas compulsórias teriam a precisa comprovação por registro biométrico digital, advertiram que a compostura incluía ser sorridente, despir-se de adereços espalhafatosos e, rigorosamente, nunca usar o celular durante o serviço.

Se eu aceitaria? É claro, que não!

Se tivesse que confessar qual o fundo real da minha ligação, teriam de ter notado o engodo sobre engordar assanhadamente meu holerite com duas horas inegociáveis a mais por dia, posto que sou frouxo para arregar antes mesmo de conformar-me ao padrão do bom trabalhador que se adéqua, sensatamente, às circunstâncias.

Escrevendo, nego-me turrão, sou malemolente. Escrevo, e trato de me desconcentrar da escrita, a vida me flexibiliza.

De domingo a domingo, pelos sete dias da semana, mesmo quando não escrevo, estou projetando o que deixei de ter escrito.

No fundo da cachola, há ostras que engendram palavras que soam pertinentes, mas bem posso refutá-las, pois não me reputo caçador de pérolas. Aliás, dama de fino trato, eu fujo das deselegâncias. A bem da verdade, prefiro a cara limpa, o colo limpo e lentes espelhadas.

Outro dia na farmácia, não havia fila. Sem abelhudo a espreitar-nos, quis a opinião dos balconistas. Prontamente responderam, ou se aceita ou aceita-se a escala. Afinal, o importante é trabalhar com registro, tirar folga uma vez por semana e continuar na folha.

Não fui franco, tinha ido comprar calmante.

Caso a insônia viesse do nada, afinal escrevo a crônica pela manhã, eu me preocuparia. Como sei o que se passa comigo quando estresso, e não busco o horror de me assistir pilhado, precisava dormir.

A sentir que alguma ânsia estava vindo apenas para me desajustar ou dar nojinho na hora de escrever, tomei duas pílulas.

Dopado, dormi a noite inteira. Já que não me sufoquei em pesadelo, acordei quando o corpo quis.

Sinto que sou carne, materializo a energia que os átomos liberam. Energizado, vou escrever, eu quero e preciso fazê-lo.

Tento, mas desando a viajar pelo cosmos.

Não ligo a TV, vou ouvir pessoas. Não vou pagar boleto, prefiro me esquecer dos atrasos. Faço o que é bom pra destravar, entro na fila da farmácia. Novamente nesta fila, peço o meu ansiolítico favorito.

Mas vesti a calça errada, sem cinto.

Uma vez que estou seguro de que não quero dar vexame, a seco, engulo um antipsicótico porreta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de novembro de 2024.

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Fazendo bico

 

Fazendo bico

 

Comemoram o quê?

Não me levanto do sofá e não paro a música nos fones. Há clarões; alguns estrondos são bastante fortes pros tremeliques da janela. Subo o som; temo, pois sou impulsivo quando deveria ficar zen.

Mal a noite começando... O que acontece?

Provavelmente esteja em campo o Corinthians ou os flamenguistas da cidade anunciem-se confiantes pra decisão com o Galo Mineiro.

Comemorem o que seja, isso não me demove. Tenho musiquinhas pra ouvir. Quero-me menos afoito, deixo que o algoritmo vá tocando as canções. Não que o aleatório da vida tenha o condão que me comova, fico no sofá, vou bebericando a minha água.

Mesmo sem sede, considero a boa hidratação que os bons médicos indicam a quem almeje o melhor para si.

Não destoarei. Não serei desafinado. Não quero dobrar minha voz, até porque não dou no couro. Pra que posar de corajoso, guerreiro do povo, pra quê? De jeito nenhum, não me exaltarei.

O mundo ensina a ser menos inocente?

Não abro a boca porque eu preciso aprender a me calar. A vida não para de mostrar com quantos paus se faz uma escada, só não preciso ir atrás do dragão da torre mais alta. Sim, o mundo educa pra inocência menor, a me deixar à vida que me leva. Sem dramalhões, ir indo a me levar. Ir indo até onde der para ir, sem tomar da vassoura como lança. Sem me lançar à arena, que não sou cristão nem leão.

Com o diabo que estou magoado!

Hoje o mundo louva o progresso. Sou progressista, apoio a ciência. Ainda que os cientistas protestem por verba, a gaita anda curta no meu bolso. Com a água que bebo não afogo a raiva, pois raiva não é mágoa. A raiva é pavio curto que dá vida a dragões que não existem.

Ficarei em casa nesta noite de sábado. Escutarei música até que o sono venha. Não brigarei com o corpo, porque o cansaço pesa.

O que me pesa na mente?

Reconheço que as ideias têm começo, meio e veredas pelas quais me perco. Quando extraviado, não babo por vodca ou caipirinha.

Quero cochilar? Nem preciso querer, a aurora virá.

Galos cantarão, cães latirão, crianças gritarão, ciclistas passarão e, às dez da manhã, um bocado de gente adiará o fim dos tempos quando pagar a conta na boca do caixa do supermercado da esquina. Pois sim, domingo às dez, ainda haverá muitas esquinas na cidade.

Se eu deveria prestar atenção ao que meu corpo fala?

Neste sábado à noite, nem pra isso eu presto.

Se estivesse interessado, sentaria na varanda. Não me deitaria na rede, sentaria no degrau. Ficaria à vista de quem estivesse passando, e cumprimentaria quem apenas olhasse na minha direção.

Se fosse educado o bastante, iria ao portão, daria fogo a fumantes sem fósforo, acharia a lua esplêndida, e diria que um chopinho não faz mal a ninguém, até a quem houver de pedir-me um chopinho dourado para tornar menos sombrio este sábado à noite.

Mantenho os fones sobre meus ouvidos?

Para assobiar direitinho, eu faço bico.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de novembro de 2024.

domingo, 10 de novembro de 2024

Ainda pulsa

 

Ainda pulsa

 

Mesmo que a batida do joelho na cadeira doa pra caraca, tudo neste mundo tem lado positivo. Faço minha parte para a dor sumir, eu choro. Massageio onde dói, até derramo lágrimas porque isso ajuda a limpar os canais lacrimais. Que o lado bom também é isso, que a dor me faz sentir que estou vivo. Acredito que não penso bobagem. Digo que viver é sentir-me. Penso que viver é perceber-me vivo, sujeito a dores. Mas não há dor eterna, não sei de ferimento que não cicatrize. Me recupero e confio que haja recuperação. Tenho fé que continuarei a curar-me.

Cristo conhece o meu coração, e sofre. Ele sofre, mas não interfere. Ele mostra que silêncio é ingerência benigna. Cristo salva pela cura.

Sei que preciso me intrometer no que penso. Comigo há sofrimento porque sei que provoco dor. Eu magoo porque sou um sujeito que sabe que o melhor modo de não aumentar as dores do mundo é viver tendo a antecipação do que provocarei. Preciso saber por mim qual a mágoa da dor sentida que trarei ao mundo, a quem esteja por perto e a quem trago dentro de mim.

Se eu tenho consciência limitada, paciência. Sou um camarada que não antevê o que há virando a esquina, toco em frente. Dobrando-a: o que vejo são carros estacionados; desvio dos buracos; piso fezes; viro a cara quando não tenho esmola.

Muito me orgulho de não ter automóvel que polui o mundo. Vaidade boa é não defecar na calçada só para as pessoas tomarem tombo. Não invejo quem dá esmola como se tirasse o pão da própria boca. Sei que o amor que me comove é que nem o amor que separa água e óleo, já o resto são palmas ao fim da oração.

Cristo conhece as minhas ânsias, e alegra-se. Ele dá vivas porque tenho pernas curtas. Ele se condói porque ando ligeiro pela brevidade dos meus passos. Cristo se rejubila, pois sei ser pontual.

Recostado ao poste defronte do prédio onde trabalha, o camarada nem faz conta que mata o tempo sem sofrer pelo que pensa, ele fuma ou o turno iria arrastado pela madrugada afora.

Tragando devagar, escarrando de vez em quando, encolhendo-se ao sabor do ventinho, ele bem que podia ficar na guarita, mas não, ele precisa ir e vir diante do prédio, até que enjoa e vai à esquina.

Ele vê que um casal está vindo.

Foram eles que, numa noite dessas, o pegaram desprevenido, que esse homem e essa mulher pediram um cigarro, pediram fogo, ficaram pro papinho bom que aquece a alma ― por óbvio, a alma deles.

Ele deu um cigarro, mas cada qual queria um.

E toda noite é isso: o homem e a mulher filam pra si, nada de dividir um mísero cigarrinho, pois não são disso; não se incomodam de dizer da fome que têm; ele e ela precisam beber pinga.

Como ele compra um litro de pinga e dois maços de cigarro, aquele homem e aquela mulher agradecem ― que Deus o abençoe; e que Ele lhe seja justo e lhe dê em dobro o que deseja; que suas preces hão de chegar ao Criador; amanhã será melhor; como isso basta, amém.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de novembro de 2024.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

O último homem

 

O último homem

 

Ninguém me ofereceu o papel, acabei desempenhando-o por falta de outrem. Já sentado em casa, vendo TV, é que fui ter consciência da minha atuação. Mesmo que soubesse que o fazia, não o faria de outro modo. Como era esperado, eu agi naturalmente. Sem ironias tacanhas, não pesei no lombo de ninguém.

Era terça-feira. Havia dias que o chuvisqueiro não parava. Mesmo chuviscando, não adiei a ida à lanchonete. Semanalmente, vou lá. Para comer salaminho e beber guaraná, vou no começo da noite. Entre seis e meia e sete, chego simpático. Chego cumprimentando todo mundo e sento-me à mesa. Pra não ser visto da rua, sento-me à mesa do canto, à esquerda de quem entra. Ainda que o papo não renda, ainda que em três minutos resuma o dia, ali eu fico até que a novela comece. Mesmo em dias de tédio compartilhado, eu, burocraticamente, resisto até nove e meia. Nesta terça, todavia, não fui outro terceiro a entediar quem não estava a fim de entediar-se, nem comigo nem com ninguém.

Se me entendi tedioso?

Não pretendi entender-me pelo que fosse, até pelo tédio que podia dimanar pela minha fala de indiferente. Como não me defenderei, digo que aparentemente fui indolente. Só na aparência, porque eu virei agir feito criança.

Numa entrevista à Clarice Lispector, o psicanalista Hélio Pellegrino disse: “toda criança é, por excelência, um ser capaz de administrar-se. Por isso, toda criança é capaz de autêntico filosofar”.

Não pude dizer que pessoa adulta agir feito criança é filosofice, pois fiquei impelido a uma dessas alegrias fofas; não fui um boboca, fiz-me divertir pela minha criança interior.

Fui um fofo que não queria brigar. Eu não quis irritar as pessoas até que se sentissem forçadas a brigar ou a expulsar-me.

Em outros tempos, papava fritas. Mesmo que as tripas azedassem, não arregava a paratis de Pirapora. Opinava sobre o que fosse. Quanto menos entendesse, mais tinha certezas. Quanto mais certo estivesse, maior o meu entusiasmo. Quanto mais contrariavam, mais era preciso levantar a voz. Quando os adversários pareciam felizes de tirarem-me do sério, eu bradava, esbravejava, dava socos na mesa e virava copo numa golada. Quanto mais embriagado, mais absolutamente eu ficava bem por estar valente.

Hoje eu bebo refri, não discurso sobre a volta dos que não foram e, ainda que falem besteiras, não me empolga refutar. Pois é, eu aprendi a ficar de boa, à esquerda de quem fala.

Nesta terça, dei boa-noite à dona. Pedi o guaraná de sempre, pedi a porçãozinha de sempre e sentei à mesa de canto, sempre à esquerda de quem entra.

Impedido de enrolações, esta terça foi outra. A dona pediu-me que tomasse o refri e acabasse o salaminho, pois as amigas e ela, só elas, assistiriam ao jogaço Botafogo X Vasco.

Pra que babaca algum viesse importuná-las, tão logo pus meus pés na calçada, a porta foi abaixada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de novembro de 2024.

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Hora morta

 

Hora morta

 

Acautele-se, Seu Rodrigues. Ao que parece, o senhor se acha num daqueles dias ― quando não precisa ser feliz, bastando sentir-se, para que cometa idiotias, prodigalize estupidezes e vulgarize imbecilidades, uma vez que sua incompletude conta que se veja integrado ao mundo nem que seja feito sombra.

Indo às compras, acompanhe o seu duplo, veja a figura projetada na calçada e pense: sejamos mais do que a soma destas partes, a da carne que caminha e a da escuridão deslocada; sejamos à parte, que o mundo vá adiante; e poderemos penar este instante, podemos padecer deste instante, nós poderemos incluir o que você pensa sobre si ― um instante, confie que possamos, você e eu, Seu Rodrigues e sombra, confie que saberemos ir lado a lado, passo a passo.

Para que seja o que precisa no instante, para que descubra você o seu instante, ou será preciso outro exemplo de idiotice, que será desejo de ser senhor e servo pelo que o faz desejar-se?

Permita-se, bobo, as tolices que o ridicularizem.

Pelo que possa, deseje respirar um instante sem que o sufoque do ar que respira. E passo a passo, vá às compras.

Passe pelo homem que vende relógios. Evite aquela espiadinha de soslaio. Não troque olhares. Ouça, são cem reais, mas não veja qual o modelo que está à venda por cem reais. Passe batido, vá reto, que os seus olhos olhem onde pisa, queira que olhem onde pisa, e pise.

Chegue logo. Pegue a senha. Espere a vez.

O homem que vende relógios nem pega a senha, pois o açougueiro o chama. Pois bem, o açougueiro lhe dá preferência. Pela idade a mais sobre qualquer na fila? Ele passe e peça a carne que deseja.

Ele ajeita a mochila que traz ao ombro. Ele pergunta sobre maminha e costelinha, mas pede vinte reais da toscana mais em conta.

Então, Seu Rodrigues, já que você sabe que o homem que vende relógios chama-se Amadeu, suponha que ele seja filho do Zé Caetano, aquele que tocava pífaro e demorou um ano e meio para vir da Paraíba, pois seu polegar tinha muita dificuldade que lhe dessem carona, ainda que a sua música fosse assaz supimpa.

Suponha, ainda, que o Amadeu vendedor de relógio tenha nascido no dia 27 de janeiro, como o Mozart. É possível, também, que seu pai tenha trabalhado pra um comerciante muito fã de Don Giovanni, ópera do referido Wolfang Amadeus.

Em outras palavras, é provável que o açougueiro tenha pedido que o ambulante passasse à frente porque ele, açougueiro, tenha por ídolo precisamente o Wolfgang Amadeus Mozart, pois, mesmo sem prever que um dia seu pai, dele açougueiro, viria a ser honrado como Rei do Amor Efêmero, ele, Mozart, compôs As Bodas de Fígaro.

No mundo há gente boa que sabe ganhar a vida vendendo coisas bacanas, não um CD pirata de A Flauta Mágica, mas um Rolex que ninguém em sã consciência há de testar na água, só pra constatar que os cem reais são um preço justíssimo a relógio que se afoga fácil.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de novembro de 2024.

domingo, 3 de novembro de 2024

As outras coisas

 

As outras coisas

 

Sem importância a quem não me conhece ou ligue que existo, neste primeiro dia do mês de novembro de 2024, faço 61 anos.

Embora os parentes mais chegados, os amigos menos ranzinzas e empresas interessadas nos meus créditos lembrem-se dos parabéns, permaneço na moita, escutando os passarinhos.

Em que moita estou metido? Da cama, ouço o mundo.

O primeiro deles, um que reconheço pelo canto, é o joão-de-barro, cujo volume do som do canto vem aumentando conforme venha vindo da sua casa, a quarteirões daqui, até o abacateiro do quintal da minha casa, esse bichinho põe-se a cantar lá pelas cinco e tralalá.

O joão-de-barro canta, eu ouço e compreendo, a natureza é bela e os números do boleto são feios, e surgem feiíssimos no meu sono, com os dentes da engrenagem a ranger desde o tralalá, e eu coço a palma da mão, pois é coçando-a que se encontra dinheiro na rua.

Em seguida, entram em cena os bem-te-vis; logo um coleirinha, que tem seu ninho na jabuticabeira do meu quintal, canta a plenos pulmões; e tem também as maritacas que moram no forro da lavanderia ― tudo é algazarra, tudo é alvorada.

O que eu não quero ver, imagino: a moça do caixa apertará botões e o valor pago restará registrado, registradíssimo no sistema.

Como estou condicionado a acordar pelos acasos do sono, seja por pesadelos neuroticamente sombrios seja por uma vontade danada de urinar, o que me despertou não foi toda esta cantoria.

Preciso urinar, vou urinar, mas nem urinando a cantoria para. Ainda que eu não urine fiando-me que tenho o poder sobre a natureza.

Adeus cantoria ― já o celular toca, já o taxista está à porta.

Os vidros estão fechados, o rádio está ligado, o motorista conversa consigo como se papeasse comigo.

Porei bolo na mesa, porque a Dona Cremilda, o Aristeu e o Luisinho cantarão os parabéns e contarão histórias. Serão as melhores pessoas que eu haveria de convidar. E elas são mesmo admiráveis porque não as convidei pra festa que não quero. Ainda que eu esteja indo comprar o bolo que as delicie e satisfaça e incentivem-nas a cantar parabéns e a repassar histórias que não me deixarão sossegado de que hoje faço esses 61 anos.

Mesmo sem velinhas para apagar? Sopram-me que os faço, todos eles, os tais 61, que são anos que não acabam mais, até que eu cesse de fazê-los.

Depois de comido? O bolo serão fezes que eu não comerei.

Todavia, os passarinhos voltarão ao crepúsculo, o taxista fará mais uma corrida, a doceria venderá mais bolos, a TV mostrará os estragos dos temporais e os apresentadores louvarão a ação de voluntários que se dispõem a limpar um trechinho de uma famigeradíssima praia.

Preciso distrair-me: seja vendo tevê, seja comendo bolo ou sorrindo ao motorista que fala com o espelhinho retrovisor.

― Nossa! O senhor parece mais velho, disse o moço do balcão.

Distraído de mim, vou rir quando houver que rir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de novembro de 2024.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Paciente

 

Paciente

 

Por causa do lançamento do filme Megalópolis, há uma entrevista de Francis Ford Coppola no Estadão, nela, depois de dizer que a arte existe para que as pessoas entendam o mundo em que vivem, vem o trecho: “talvez as pessoas estejam sendo deliberadamente mantidas infelizes para que sejam melhores consumidores”.

Embora me aborreçam os cães latindo ao gato sentado em cima do muro, percebo a ideia ― a felicidade produz bem-estar e o bem-estar tranquiliza da ânsia de querer-se o que ainda não se tem.

Eu digo que ânsias podem engulhar e não gosto de prender-me às náuseas quando as sinto, e boto fora o que enoja.

Em outras palavras, há vômito que produz bem-estar e nem por isso anseio vomitar, pois o que não tenho não me acelera o passo.

Com os bichos dispersados pela bombinha que atirei aos pés do muro, paro em querer-se o que ainda não se tem ― é a esperança.

Para Nietzsche, a esperança prolonga o suplício dos homens, pois ela é um mal. Quando Pandora destampa o jarro, os males ganham o mundo; e no jarro novamente tampado, o mal que resta é a esperança.

Mudo de ideia: as pessoas talvez gostem de ser mantidas infelizes para que gastem dinheiro com o que possam comprar; embora estejam infelizes, elas têm escolha, elas podem comprar.

Quanto a mim? Eu compro livros.

Na sala, há duas paredes tomadas por livros. Iludo-me que lerei a grande parte deles, mas o que me enfada é responder que eu não terei tempo para ler tudo.

Alegro-me, e penso que engatinhei ao que podia alcançar, passei a ficar de pé pelo que tinha vontade de ter nas minhas mãos, banquinhos ajudaram a ver acima o que tanto me interessava e desejos levam-me à escada para pousar os olhos naquilo que eu leio.

Que parvoíce a minha.

É claro que alguma vertigem virá interromper a leitura, pois ficar no alto da escada haverá de despertar o receio de desequilibrar-me.

Quando leio o que me irrita, mais desequilibrado eu fico.

E não me refiro a personagens que, às escâncaras, agem contra a moral da maioria ou àquelas que, em surdina, trabalham para si apesar dos prejuízos que causam a esta ou aquela pessoa.

Parvo, me sinto bem mesmo um tanto insatisfeito.

Compro. Folheio. Ponho na pilha do que pretendo ler em breve. Fico pê da vida, quando espano. E quando estou obrigado a espanar o livro que acreditei que leria tão logo o comprei, é aí que fico bem fulo.

Fulo e muito puto, fico bem mal.

Mesmo mal, estressado, continuo a agir como se houvesse de ficar bem. Mesmo comigo assim, mal por estressado, acho de comer.

Vou comer um pãozinho. Saio comprá-lo. Entro na fila. Sempre tem uma fila quando preciso do pão para satisfazer-me, sossegar-me, para que me tranquilize a fome que não sinto. Sim! Sempre tem quem fure a fila. Sempre há quem reclame. Sempre há quem olhe pra mim. E tem gente que se irrita ao ser ignorada.

Hein?

Porque aprendi a suportar, aguardo minha vez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de outubro de 2024.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Teatro dos sonhos

 

Teatro dos sonhos

 

Uma vez que bem compreendo o que o mundo sussurra enquanto durmo, noite após noite, visionário míope, mal vislumbro o que o futuro parece agora me cochichar, que a vida é dura, o chão é duro e a minha cara é mole, porém, todavia, tanto enfio a fuça na areia que a máscara, com a qual acordo a cada aurora, traz estalactites e estalagmites, isso me põe revelado em altos e baixos, com algum platô de intermeio.

Respiro, tomo fôlego, me recupero, pode o amor ser o platô.

Indo de amor em amor, já que viver subidas e descidas esgota pra dedéu, um dia amei Maria, noutro amei Maria, tanto as amei que todas, tão diversas e divertidas, tanto as amei que fui amado, tanto fui que me arvoro, na brasa do sonho e na brisa do anseio, a continuar sonhando e ansiando, que sou mesmo um amorzinho.

Mas não há amor que petrifique sob infortúnios, pelo fogo que arde nas entranhas e pela fresca que sopra dos confins, portanto, ainda que a mão no barro é que erga paredes, amo a ideia de que uma borboleta batendo asas em Lumbini faz querer-me ao ar condicionado por uma bugiganga elétrica, que me oferta ao instante.

Inspiro, pois o momento requer um relato que não seja mentiroso nem verdadeiro, seja obra de ficção.

Expiro, é absurdo que eu me sinta a esfinge que sequer me imagina devorando a minha areia, a minha própria efígie, a minha triste, alegre, constrangida, oprimida e reprimida carne, porque é comigo que papeio.

A minha carne tem fome e com os dentes que tenho sustento-me, pois é comigo que tenho de haver-me, faminto de vida.

Pelo lado de cá, vejo bolo, ouço parabéns, escuto amores que riem, gracejam, que a vida é asa batendo.

Pelo lado de lá, vejo a boca que sopra, a vela que se apaga, escuto o coração magoado, alumbrado, que a vida é vento passando.

Normal pra caramba que me compreenda na encruzilhada em que eu estou metido, ou enlouqueceria.

Que a vida possa enlouquecer, são favas contadas.

Que a vida peça restaurações, isso é mel na chupeta.

Na semana, Dona Cremilda e eu nos encontramos.

― Amigo, que coisa feia...

― Mas, querida amiga, o que foi que eu fiz?

― Dá pra ver que você não tomou banho, Cascão.

Se por fora, bela viola... Se a primeira impressão é a que fica... Se as aparências enganam...

Entretanto, se na capa estiver estampado printed by Isaac Iaggard and Ed. Blount, 1623, avalie-se o fólio como raro e caro!

Contudo, apenas como charada, proponho: a pessoa me encontra dois dias seguidos ― depois de um dia sem tomar banho, ela pensará que tomo banho todos os dias, porque as roupas de um são outras no seguinte; após um dia de banho, a pessoa dirá, pelas mesmas roupas do primeiro encontro, que estou precisando de banho.

Pelo visto?

Com a humildade e a modéstia que estão implícitas na pegadinha de gente brincalhona como eu, é óbvio que Oscar Wilde possa mesmo deduzir: quando tomar banho, não troque as suas roupas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de outubro de 2024.

domingo, 27 de outubro de 2024

Dia bom pra breja e picanha

 

Dia bom pra breja e picanha

 

Sem dúvida, é domingo. Com certeza, o domingo está meio gelado. Então, naturalmente, isso mais aquilo resulta neste caso interessante: na casa ao lado da minha, dois adultos e duas crianças estão vestidos como se este dia estivesse ensolarado, cujo ventinho sul é propício a bermuda e camiseta de manga curta.

Pela camiseta com o Seven Up acima do nº 7, infiro que o adulto é torcedor do Botafogo há muito tempo.

Ontem de manhãzinha, enquanto a família descia suas bugigangas, fomos simpáticos, Marx e eu, que não a estorvamos que circulasse do carro para a casa e vice-versa.

Também fomos afáveis: Marx, gracioso, latiu e lambeu a carinha da menina e a do menino, que o encheram de cafunés; e eu até calei o bico sobre ter estranhado que a motorista tivesse parado o veículo na frente da casa, ainda que, na garagem, caibam uma dúzia de automóveis, no mínimo.

Porém, agora há pouco, ao encontrar o torcedor do time da Estrela Solitária com a camiseta nº 23, do Almada, não tive dúvida:

― Você deve ser descendente de botafoguenses, hein?

― Que nada! Virei torcedor do Fogão por causa da minha esposa.

― Você tá tirando onda, né?

― Não é mentira, não. A bem da verdade, esta pode ser mais uma autêntica história carioca, porque a família dela morava perto de uma senhora chamada Joan.

― Aaah! Isso não é incrível? Uma senhora estrangeira, certamente inglesa, que só podia ser botafoguense...

― Não, não. O marido dessa vizinha é que tinha verdadeira paixão pelo Botafogo. Deu-se, então, que ela, a dona Joan, nunca falava nada sobre futebol, jogo no Maracanã ou os dribles do Garrincha.

― Não entendi. Se ela não falava de futebol, como é que ela veio a influenciar sua esposa pra que virasse torcedora do Botafogo?

― Pelas camisetas que ela dava de presente. Não tinha aniversário que não desse um manto do Glorioso.

― E você virou torcedor por causa... Quanto amor, né?

― Tem coisa que só explicando pra dimensionar o quanto a vida de torcedor do Botafogo foge à razão, a explicações.

― E Freud complica!

― Quando o time tem uma equipe que realmente empolga, como acontece hoje, o manto sagrado do Fogão vira uma segunda pele pra minha mulher, pros meninos e pra mim.

― Pois é. Me desculpe, mas eu também reparei que os quatro não tiram a camiseta do Botafogo desde que chegaram, parece que torcer pro Botafogo é obsessão, hein?

― A gente toma banho! Mas a gente veio curtir, e a nossa curtição é vestir camisas do Botafogo. Aliás, amigão, essa é a marca registrada da família. Em todas as nossas fotos no Insta a gente usa camisas do Botafogo. Se quiser seguir, somos @bandeirantesdofogão.

― Do fogão e da grelha. Rá rá rá! Já que você está assando uma carninha... Mas, fale a verdade, você veio de São Paulo neste dia por que não é Boulos nem Nunes, certo?

― Errado! Eu voto consciente! Assim como o Botafogo é o melhor, meu voto é Tabata!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de outubro de 2024.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Ao léu - continuação

 

Ao léu ― continuação

 

Fecha os olhos. De olhos fechados, põe a têmpora direita apoiada no vidro, pois confia que as pessoas o terão como um sujeito cansado, alguém que precisa cochilar um pouco porque a estafa é maior do que a delas, pois, embora também estejam estressadas, têm celulares.

Homem que anda de ônibus, o que realmente te conduz?

Ele prefere cochilar, a pesar o que lhe seja mais compensador.

Homem que não tem automóvel nem nunca quis ter um, a você não basta fechar os olhos, apoiar a cabeça na janela e congratular-se que não adore dirigir e não tenha celular.

Nunca quis aprender a dirigir, todavia teve pai que tratou de ensiná-lo a ajustar o banco, ajustar retrovisores, ajustar-se ao cinto.

Ainda que tenham sumido da TV as mulheres de biquini que digam que, se trabalhar, mesmo que trabalhe por horas, siga no batente por horas, o destino tem um carro que lhe caiba no bolso.

Embora o homem que anda de ônibus tenha poucos bolsos, ele não precisa de calça nova, uma que disponha de bolsos perna abaixo, quer cochilar, talvez queira calcular o quanto teria de receber para ser dono de automóvel, um que nem precisa ser novo.

O homem que calcula sabe que precisa ter um emprego, ou seguirá até o ponto final dessa linha que nem sabe qual seja.

O que estranha é que o veículo segue em frente, mesmo que pare nos semáforos, parece que todo farol quer que o ônibus demore, como se o ônibus estivesse obrigado a trafegar numa velocidade de cruzeiro, que nem veleiro no mar.

O motorista do ônibus tem pé leve, o ônibus não terá de frear súbito caso um cachorro, uma velhinha, um bebum cortem o percurso.

Maravilha! O motorista está sóbrio, até da Palavra.

Já o homem sentado no último banco à direita não é pessoa que se deixa seduzir pelas mirabolantes ideias de quem manda que se faça o que fala ser o necessário pro mundo transformar-se em um lugar mais austero, mais severo, e sem disfarces.

O homem que anda de ônibus que está sentado à direita crê que o sujeito que ordena que seja feito o que é necessário para que a vida seja transformada da água pro vinho, ele sabe que o comandante não dirige o ônibus nem faz apostas, porque o celular do homem poderoso é usado pra avisar que o ônibus não pode parar, não tem de parar nem que cachorros, velhinhas e bebuns cruzem-lhe a frente.

O homem do último banco à direita vai até o motorista, nocauteia-o com um soco, toma-lhe o assento, não passa o cinto sobre o peito, pisa pesado e ignora os sinais, principalmente os vermelhos.

Nenhum passageiro fica indiferente. Todos urram. Todos imploram que pise fundo, fure todo sinal. Todos querem que o ponto final venha logo. Todos gritam, batem palmas e tiram fotos uns dos outros, porque não esperam ser tirados por molengas.

Saído do último banco à direita, ele não teme as chamas do inferno, passando por cima de cães, velhinhas e guardas de esquina, o homem é muito aplaudido, é vivamente ovacionado.

Caronte! Caronte! Caronte!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de outubro de 2024.

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Ao léu

 

Ao léu

 

Ele abre os olhos. Pela baba na camiseta, é certo que adormecera. Desconfiando que o espreitavam, nem olha ao redor. Se olhasse, veria as pessoas ocupando-se de viver pros seus celulares.

Sim, o embaraço foi tanto que ele aprovou ter cochilado. Isso, foi a vergonha que o fez aprovar-se. Embora estivesse no ônibus, cochilou, babou, e talvez até tenha roncado. Embora se sentisse envergonhado, era óbvio que tenha roncado alto e babado um bocado.

Sentado no último banco à direita, aonde o ônibus o leva?

Sim, a vergonha tem essa força, ou tira a gente do incômodo ou faz a mente mergulhar à raiz do desconcerto.

Sentado naquele ônibus, que situação esquisita é não saber como entrou, sentou-se e caiu no sono.

Sim, melhor não tocar a campainha, melhor não se levantar, melhor não olhar as pessoas ― há tanto a ser visto lá fora.

Apesar da impressão de que as pessoas ocupam-se dos celulares apenas para confundi-lo, ele prefere seguir no ônibus até o ponto final. Embora nem saiba para onde está indo, irá até o fim.

É irrelevante que seja informado onde fica o ponto final.

Mas, há uma sensação esquisita. Como perceba alguma mudança, está diferente. Embora fosse o mesmo, está esquisito. Estranha-se por sentir uma qualquer diferençazinha, uma coisa sutil, tênue, pusilânime, algo frágil, alguma coisa tão frágil que é melhor nem ficar especulando sobre o que seja, melhor experimentá-la, ainda que nem alcance qual o grau desse sentimento, o quão profunda seja aquela sensação.

Haverá mesmo esse desassossego que o põe desconcertado?

Acordar num ônibus que nem se sabe para onde está indo, isso, até para ele que não é uma pessoa dada a reflexões, isso dá motivo para pensar-se intimidado, precisando cochilar novamente.

Ele olha pra fora do ônibus, a cidade parece a mesma.

Sentado no último banco à direita, ele vê o mundo lá fora e percebe que a cidade nem liga que o ônibus trafegue cheio.

Os automóveis, porém, estão mais estilosos. Têm faróis diferentes, o desenho mostra arrogância; não são faróis redondinhos com aba que pareça pálpebra, como cílio único de plástico duro. Eles, os automóveis, estão despidos da aparência de brinquedo nas mãos dos adultos, são máquinas suficientemente orgulhosas para transitar sem titubeios, são máquinas soberbas que freiam abruptamente, são máquinas evoluídas que podem freadas indulgentes, para as pessoas serem poupadas.

Há máquinas que não atropelam porque dominam a cidade.

Mas, a cidade é mesmo uma arena?

O homem no último banco à direita vê que há asfalto e calçadas e faixas. Ele não quer atravessar a rua, embora as pessoas vivam sendo atropeladas na faixa, na rua ou na calçada.

E o homem acordado teme descer, teme ser atropelado, não deseja a carne violada, não quer ser visto como indivíduo sacrificado.

Mas ― havendo cruzamento, há pistas para despistar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de outubro de 2024.