Banho
de lua
A lua está escondida, talvez refugiada num
buraco qualquer, é bem razoável que tenha fugido das atrocidades que os seres
humanos têm cometido contra a natureza e contra si.
Olhei o céu nublado, quis adivinhar onde
a lua estaria, concentrei a mente nessa localização, pois os problemas do mundo
teriam solução.
Solucionados os problemas do mundo, eu
seria o herói cujos óculos teriam lentes tradutoras para bem entender tudo
quanto é sentimento, emoção e apoplexias.
Mas a lógica da vida natural é simples: não
há herói que resista ao vírus da gripe.
Se eu fosse Sansão, daria de bom grado
as madeixas, porque o pai de Dalila é sogrão que vive adoentado pelo cocuruto
careca a pegar o sereno da madrugada.
Como eu sequer sou Don Juan, entraria pela
lona do cenário, usaria da lanterna para ajudar um ou outro espectador a sair
no meio da peça, sabendo que o Convidado de Pedra há de vencer no final.
Todavia, a natureza da vida põe
simplicidade na lógica dos homens: todo herói de verdade tem Aquiles no seu
calcanhar.
A minha vulnerabilidade não tem como de
ser aparafusada ao chão do mundo quando a fúria surgir espontânea contra cálculos.
A minha insônia não dá jeito no torto da minha coluna a fazer-me rolar na cama.
À vera, meu ponto fraco é aquele que me vulgariza, que me apresenta um fantasma
patético, um joão-bobo no meio do caminho de quem tem a honrada necessidade de
descarregar-se de vez em quando.
Sou a válvula, o pino da panela, sou
quem sente a pressão mas dá o seu jeito, quem teme ao dar-se como alívio.
No entanto não agi certo: molhei a manga
da blusa; não tirei a blusa; deixei que a manga molhada secasse no meu corpo.
Embora os cientistas digam que vento
encanado não dá gripe, que o vírus da gripe não curte roupa molhada, tênis
encharcado ou a boca aberta de quem ronca de madrugada, ronquei como sempre e
deixei a manga da blusa secar no meu corpo.
Primeiro veio a cabeça pesada, o mundo a
rodar tão logo peguei do chão o garfo que derrubei; em suma, a minha cachola
adulterada pedia comedimento, lentidão, que eu considerasse deitar-me imediatamente
no sofá, ou seria oferenda viva ao mal-estar pantagruélico.
Pantagruélico, sim, pois em seguida os
meus ouvidos entupiram, os músculos dos membros, tanto inferiores quanto
superiores, passaram a doer, as pálpebras incomodavam, as narinas entupiram, começaram
coriza e tosse.
Foi só largado no sofá que eu saquei: é
gripe.
Gripado, a alma leve sujeitada às
desventuras do corpo só chumbo. Febril, o espírito lúcido pressionado à tibieza
bruta. Melancolicamente, esse poeta tornado nuvens a obscurecer a lua dos namorados.
Falta pastilha, irei comprá-la. Sem dipirona,
entra na lista. Antigripal porreta, é mais um item incluído.
Com a voz anasalada, agradeço ao funcionário
do caixa pela oferta da revistinha com dicas para domar certa ansiedade.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de setembro de 2024.