quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Banho de lua

 

Banho de lua

 

A lua está escondida, talvez refugiada num buraco qualquer, é bem razoável que tenha fugido das atrocidades que os seres humanos têm cometido contra a natureza e contra si.

Olhei o céu nublado, quis adivinhar onde a lua estaria, concentrei a mente nessa localização, pois os problemas do mundo teriam solução.

Solucionados os problemas do mundo, eu seria o herói cujos óculos teriam lentes tradutoras para bem entender tudo quanto é sentimento, emoção e apoplexias.

Mas a lógica da vida natural é simples: não há herói que resista ao vírus da gripe.

Se eu fosse Sansão, daria de bom grado as madeixas, porque o pai de Dalila é sogrão que vive adoentado pelo cocuruto careca a pegar o sereno da madrugada.

Como eu sequer sou Don Juan, entraria pela lona do cenário, usaria da lanterna para ajudar um ou outro espectador a sair no meio da peça, sabendo que o Convidado de Pedra há de vencer no final.

Todavia, a natureza da vida põe simplicidade na lógica dos homens: todo herói de verdade tem Aquiles no seu calcanhar.

A minha vulnerabilidade não tem como de ser aparafusada ao chão do mundo quando a fúria surgir espontânea contra cálculos. A minha insônia não dá jeito no torto da minha coluna a fazer-me rolar na cama. À vera, meu ponto fraco é aquele que me vulgariza, que me apresenta um fantasma patético, um joão-bobo no meio do caminho de quem tem a honrada necessidade de descarregar-se de vez em quando.

Sou a válvula, o pino da panela, sou quem sente a pressão mas dá o seu jeito, quem teme ao dar-se como alívio.

No entanto não agi certo: molhei a manga da blusa; não tirei a blusa; deixei que a manga molhada secasse no meu corpo.

Embora os cientistas digam que vento encanado não dá gripe, que o vírus da gripe não curte roupa molhada, tênis encharcado ou a boca aberta de quem ronca de madrugada, ronquei como sempre e deixei a manga da blusa secar no meu corpo.

Primeiro veio a cabeça pesada, o mundo a rodar tão logo peguei do chão o garfo que derrubei; em suma, a minha cachola adulterada pedia comedimento, lentidão, que eu considerasse deitar-me imediatamente no sofá, ou seria oferenda viva ao mal-estar pantagruélico.

Pantagruélico, sim, pois em seguida os meus ouvidos entupiram, os músculos dos membros, tanto inferiores quanto superiores, passaram a doer, as pálpebras incomodavam, as narinas entupiram, começaram coriza e tosse.

Foi só largado no sofá que eu saquei: é gripe.

Gripado, a alma leve sujeitada às desventuras do corpo só chumbo. Febril, o espírito lúcido pressionado à tibieza bruta. Melancolicamente, esse poeta tornado nuvens a obscurecer a lua dos namorados.

Falta pastilha, irei comprá-la. Sem dipirona, entra na lista. Antigripal porreta, é mais um item incluído.

Com a voz anasalada, agradeço ao funcionário do caixa pela oferta da revistinha com dicas para domar certa ansiedade.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de setembro de 2024.


terça-feira, 17 de setembro de 2024

Lorotas

 

Lorotas

 

Nem tento, qualquer explicação que eu ache bem fundamentada no que a realidade tem de mais concreto será inútil, pois não sou bom em me corrigir. Mesmo sabendo que a culpa pelo estrago crescerá quanto mais tentativas eu fizer, nem tento, mudo de assunto.

Como não vim tirar satisfação de ninguém, nem de mim vou cobrar a culpabilidade pelo erro cometido, ou pela série de erros que estou a cometer desde que o bem-estar convenceu-me a buscá-lo.

Assumido imbecil, julgo-me inimputável, feito qualquer idiota que vá por aí a dizer besteiras, perpetrar patacoadas, difundir barafundas, que a alegria nunca o alcança, já a felicidade e a satisfação perdidas.

Embora presumido energúmeno, opto pelo falsete, pelo disfarce de afinar a voz, pela liberdade de fazer o que bem entender com as cordas vocais que equipam a minha garganta, no melhor papel.

Sem gargantilha a adornar o meu gogó como gravata borboleta no Adoniram, garganteio que não passo de boneco de ventríloquo, porque o texto que vou escrevendo também me escreve, que fico bobo.

Sem cortesias à corte de descorteses, sou bobo.

Garganteio que sou forte, filho da sorte; tomo a liberdade, vendo as pessoas, observando-as, tirando lições pelo que observo como agem, garganteio mesmo que digo verdades.

Se tenho moral para tanto? Tanto tenho que me cortejo lúcido, fonte de água limpa a apagar queimadas, cupim voraz a devorar banquinho em pleno ar, voto que corrija a mão que tecla o número demoníaco que a todos nos consumirá.

Quando tenho que dar o melhor de mim, basta me sentir melhor ao beber a mistura de café com Coca-Cola, porquanto eu misturei no copo que bem escolhi.

Nem ingênuo nem energúmeno, sou o bobo que eu quero ser.

Às vezes eu sinto que posso dizer o que me mobiliza, mexe comigo, me faz querer falar pelas pessoas, embora elas nem cogitem que haja alguém no mundo que lhes entenda os mistérios, as contradições, que as faça transparentes, portadoras de evidências que as patenteiam tão gentis, solidárias e fraternas, mesmo que me engane, bobo.

Portanto eu bobeie, e continue bebendo da mistura que fiz com café e Coca-Cola. Que ande em linha reta, titubeie na corda, e siga crendo que ando ereto na linha bamba, a minha cerviz não me avilte ao curvar-me a falastrões velhacos.

Com mais café nem sentirei a Cibalena?

Na febre que me apavora: papai não tinha carro, nunca teve, nunca aprendeu a dirigir, nunca dirigiu carro de conhecidos; papai nunca me arrumou uma banqueta pra eu capotar na curva.

Lembro que o caminho mais curto até a escola era uma reta curva, ia da Capelinha ao Laurinda; a rua era uma barriga, uma rua como as demais: sem asfalto nem calçadas, tinha buracos e faltavam lâmpadas nos postes; a pança do Gigante Adormecido.

Serei Jonas sem saber em que baleia estou metido?

Com café, coca e cibalena, eis-me um moralista aditivado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de setembro de 2024.

domingo, 15 de setembro de 2024

Apagão

 

Apagão

 

O título pode ser enganoso ao paulistano que me lê, porque não há referência às seguidas quedas do fornecimento de energia elétrica na capital de São Paulo.

Esperançoso de que a leitura possa causar menos irritação, ou ao menos produza algum efeito calmante, abro a picada pela qual desejo muito transitar sem me ver abandonado pelo caminho.

Na trilha que traço, aponto a um de meus predicados positivos que é a tolerância: ainda que mais de um disparate seja dito, não bloqueio o fluxo; caso, ao fim e ao cabo, a sequência não leve a uma conclusão que convença, tolero-me detetive que se debruça sobre os passos.

Tolerante e atento, se a conclusão lógica não vem à tona, ou venho do início ou parto do fim, até que a precisão do conjunto tenha menos incoerência que a minha precipitação quer impingir ao trajeto feito.

O irracionalista sou eu, pois a vereda percorrida possibilita entendê-la inteligível, compreensível e, me contrariando absurdamente, lógica.

Contrariado por atinar que a conexão dos argumentos desconexos revela que a razão, por hábitos adquiridos e vícios cultivados, pode ter-me cegado, opto pelo silêncio de quem escuta, não por respeitar quem vomita besteiras como se me alimentasse pelos ouvidos, opto escutar porque não sou andorinha em ninho de chupim.

Quando a gengiva está anestesiada, também me pego calminho e, sem que me ocupe de mim a ouvir o que é dito, sinto que estou pronto para ouvir e ouço.

― A senhora tem certeza, agendo pra sexta?

― Pode marcar, pois não vejo problema que seja sexta.

― Ele virá mesmo sabendo que é dia 13?

― Quem tem estudo não liga pra superstição, pode marcar.

― É dia de azar, doutora, marco mesmo assim?

― Não queira debater, marque logo a consulta, pois eu garanto que ele virá sem nem saber que dia é.

― O horário vago na parte da tarde é 16 horas.

― Ótimo! Justo no horarinho que ele mais gosta de vir, às 16.

― Não é por gosto, doutora, é porque ele não tem como vir antes.

― OK. Vamos acreditar que ele faz o que diz fazer: que pela manhã tem as compras no mercado, vai à farmácia mais próxima pouco antes do almoço, almoça no horarinho de sempre, depois ele tira a meia hora de sesta, em seguida vem o banco e só quinze minutos para as quatro é que ele pode vir, para chegar cinco minutos antes da consulta. Então, a sua rotina é a mesmíssima todo santo dia? Por Cristo, que não!

― Doutora, a senhora acabou de confirmar que ele é bom paciente. Ele chega cinco minutos antes da consulta. E tem mais, ele bebe água mesmo que não esteja gelada, não pede pra mudar de canal ainda que a TV esteja sem som, não pede que eu atenda o telefone quando estou jogando. É ótimo cliente, doutora, pois sempre foi de pagar no ato: feito o serviço, não pede desconto nem quer parcelar, paga tudo no débito.

Assim que minha boca torta permitir, por ordinário, darei à elegância a discórdia de fiar-me esperto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de setembro de 2024.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Sua vez

 

Sua vez

 

Em razão do cheiro, da fuligem, dessa neblina que não é neblina, o dever de cada um, presentemente, é não ir às ruas por besteirinha, que só convém sair quando insofismavelmente precisar de colírio, inalação ou um pote de napolitano.

Uma pessoa sensível, todavia, percebe que não basta trancafiar-se em casa, ela sente ser preferível escutar-se, impreterivelmente quando lhe é sussurrado que, assim como fazer compras em shopping não tem graça sem a boa briga por uma vaguinha no estacionamento, ver TV e tomar sorvete casam bem.

Vivenciar um casamento harmônico é fundamental para o equilíbrio psíquico, ou haverá acentuada decepção com a realidade.

Pra que o trigo seja colhido, moído e pão, macarrão e biscoito sejam fabricados, a indigitada que vê TV dando as suas colheiradazinhas não pode se sentir decepcionada, então, sejam mostradas, reiteradamente, as chamas da Amazônia, do Pantanal, de canaviais sudestinos.

Em caso de decepção, a pessoa procure contato com outras, entre numa comunidade de gente decepcionada, mas só entre em grupo de gente que mantém a esperança de conservar-se decepcionada, sem a tentação de configurar-se frustrada, pois frustação acorda demônios.

Há demônios que engendram na gente a imobilização, a indiferença e o paquidérmico consumo de potes e mais potes de sorvete, incutindo na mente que colheradas de napolitano dão sustância a quem combate efetivamente as queimadas com o sopro de suas entranhas, deles, dos referidos demônios.

Portanto, põe cuidado!

Seja uma pessoa ardilosamente inteligente, só tolere ser aceita em comunidade cujas apreensões sejam, prioritariamente, o aquecimento global, a devastação ambiental e a hiperglicemia.

Certo de que não basta assinar nem propor abaixo-assinados, diga o que sente, grave vídeos, torne públicas as suas indignações de quem se preocupa com pessoas tomadas pela euforia da raiva e pelo frenesi do ódio, coisa de gente asfixiada em tanta efervescência negativa.

Não arda por dentro, não vire fumaça.

Se tem um pedido, faça-o. Caso o Sol não atenda, ainda que tenha sido feito em bom português, assim, fácil de ser entendido, aprovado e executado, torne a fazê-lo. Insista, continue pedindo, porque as forças arrebatadoras da Via Láctea querem empenho, convocam a força da mente, e esperam o ânimo que faça o mar levar as nossas basuras pra Grande Ilha de Plástico do Pacífico.

Bacataré, basuras são as sacolinhas do supermercado, os potes de sorvete, o comprovante fiscal dos potes comprados e o comprovante do valor pago com o cartão de crédito.

Mantenha o crédito, ore. Capriche na oração, pois seus pedidos são simples: já que o Sol é brasileiro e brasileiro nunca desiste, peça que o calorão não vire chuva preta, ore pra saliva impregnada de napolitano possa resfriar o céu da pátria neste instante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de setembro de 2024.


terça-feira, 10 de setembro de 2024

Fora do ar

 

Fora do ar

 

Naquele tempo, depois da passagem de um vento neurastênico que assobiava monstros na mente da gente miúda, nova e assustadiça não porque fosse miúda, nova e impressionantemente assustadiça, porque era refúgio a monstros que a gente adulta, crescida e intimorata achava risivelmente próprias de gente miúda, nova e ridiculamente incapaz de assobiar de volta, pondo para correr essas urucubacas mentais.

Tendo o vento varrido telhados como criança lambe Chicabom, era batata que o primogênito subisse ao telhado para pedir orientação, que virasse mais no sentido anti-horário ou menos no sentido contrário, até que a antena, modelo espinha de peixe, entrasse no eixo e permitisse a sintonia sem fantasmas e sem chiados, chegando à melhor recepção garantida pela tecnologia da época.

Como agora é outra era, a gente pensa que não basta ficar satisfeita com o melhor que faz, pois o momento é de qualificar o produzido como partícula de um processo maior, tendo em vista a evolução pessoal pro bem da sociedade, isto é, é bom lamber o Chicabom de modo a evitar que a mão fique melecada, ou seja, faz boa coisa quem vê como óbvio que o aquecimento global é palpável, efeito que pode ser medido pelo derretimento do sorvetinho nosso de todo dia.

Pensando que a gente percebe que o mundo tem funcionado como Fla X Flu estrutural, a antena tem que ser posicionada para que o jogo seja captado pela melhor revolução das nossas faculdades mentais ou haverá desperdício de Chicabom, até porque ter as mãos lambuzadas é sinal de idiotia.

Mas quem gosta de ser carimbado como idiota nem sempre é idiota; e a gente percebe que precisa melhorar, que pode evitar que os pingos formem uma poça, pois só mesmo um idiota para gozar ao ver-se feito alma na poça.

Olhando bem, sem se abalar pelas pressões de toda sorte, a gente tem a percepção de que o fantasma da poça rirá da nossa cara; e esse riso revelará o quão miúda e impressionável a gente é.

Impressionante, a gente envelhece porque a vida faz mal à saúde, pois sentir-se velho, estar velho, ter envelhecido, isso tudo mostra que, depois deste tantão de anos carregados na cachola, viver faz a gente ficar mais esperta do que o menino que a gente era quando a televisão tinha tubo, válvulas e estática na madrugada.

A madrugada seria um portal para manifestações ectoplasmáticas? Na real, haverá um poltergeist pra tão tosca realidade?

Ainda seguro o Chicabom como sendo a antena mais adequada pra captar o Fla X Flu destes dias. Sigo lambendo, até porque ele derrete, derrete, mas nunca que derreta até o palito.

Os ventos não derretem, mas são os transtornos que amplificam os horizontes da cachola, são tais ventanias metafísicas que desnorteiam antenas e desorientam birutas.

Já que a vida não muda da água para o vinho, sinto que cabe a mim querer trocar meu Chicabom por Sensação.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de setembro de 2024.

 

domingo, 8 de setembro de 2024

As três estrelinhas

 

As três estrelinhas

 

Aspásio está chateado, veio-lhe aquela história que não lembrava porque a mulher fê-lo lembrar-se tão logo a reconheceu.

Se bem que, passados tantos anos, quem sabe ela nem lembre seu nome. Foi uma vez, naquele bailinho de fita nos anos setenta, naquele tempo em que um Campari já o deixava alegrinho. E foi uma única vez, aquela, à porta do banheiro, tão logo ela parou porque a tinha chamado pelo nome, porque ele sabia o seu nome, Ísis.

Aspásio tem isso, qualquer recordação feliz traz junto a amargura, porque a memória faz exalar esse cheiro inebriante, de coisa clorídrica, a agir como dose que o põe ligeiramente bêbedo por sintomaticamente acuado, portanto ele não devia ter sido visto por essa Ísis.

Ísis essa que a memória trouxe assim que o seu nome veio à tona, pois àquele nome estava associado o que ocorreu no bailinho daqueles anos setenta, naqueles anos adolescentes a quem adolescia.

Entretanto, ele se amargurou assim que a viu na fila. Não precisava lembrar-se daquela mulher, mas ela sorriu. Embora, quem sabe, fosse apenas uma gentileza, não um sorriso de pessoa que reconhece outra tão logo elas se vejam, tão logo desejem cumprimentar-se.

Só que ela parou de sorrir; repentinamente ficou carrancuda. Oxalá não tenha feito por mal, por lembrar-se do papelão de Aspásio à porta do banheiro num bailinho de fita em setembro de 1979, bem quando a Amii Stewart mandava brasa em Knock on wood.

Aspásio não quer cumprimentar a mulher da fila do caixa, ainda que lhe ocorra que ela não seja mais a mesma Ísis daquele dia à porta do banheiro, porque os cabelos dela estão grisalhos, talvez durante anos ela os tenha tingido, ou de ruivo ou de loiro, mas isso não importa, pois Aspásio sente a obrigação de dizer-lhe que originalmente quem cantou a tal canção foi o David Bowie; qualquer coisa, ele tem o compacto.

Ísis está aborrecida porque acabou por reconhecer o Aspásio.

Se o tivesse reconhecido logo de cara, não teria sorrido; ainda mais àquele pulha. Então, que isso fique bem claro: foi só por educação que sorriu a quem a observava na fila do caixa.

Se o nome dele, Aspásio, lhe ocorresse tão logo viu quem era que não parava de olhar para os seus pés, Ísis teria deixado a cestinha no chão e saído sem olhar para ninguém, muito menos para trás, só para verificar que ele não parava de olhar pro chão, pros seus pezinhos.

Ísis está com raiva. Antes não tivesse tomado banho e calçado seus chinelos, aquelas rasteirinhas de tiras douradas, uma vez que seus pés ficavam praticamente desnudos, à vista de velho tarado como ele, esse Aspásio.

Rezingueira como o diabo, tão logo uniu a cara à coroa, Ísis lembrou o que o safado pediu-lhe à porta do banheiro precisamente no dia que o pai deixou que ela saísse festejar os seus dezesseis aninhos.

Ísis não disse nada porque César sempre foi nervoso de espora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de setembro de 2024.

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Fogo insaciável

 

Fogo insaciável

 

Vim parar aqui depois de ter empacado.

Estou travado pela falta do que contar; acho-me inseguro quanto ao modo de contar o que a falta do que contar produz em mim.

Embanana-me pensar de que maneira poderei desvencilhar-me do embaraço de estar sem assunto para cronicar; saio andar.

Sigo a esmo pelas ruas. Paro nas esquinas, em todas elas. Ouço o canto do joão-de-barro; zanzo sob as árvores. Canta outra vez o joão-de-barro, apuro o ouvido, concentra-me achá-lo. Porque não consigo vê-lo, volto a andar a esmo, mas para longe da pracinha. Torno a ouvir o canto do joão-de-barro, volto a querer achá-lo. Quero encontrar a sua casinha; porque seria retroceder à pracinha, não vou atrás dela.

A lanchonete não é a minha casa nem há gaiolas em suas paredes. Apesar de não ser nem isso nem aquilo, o corpo não questiona o meu espírito, que outra vez me põe sentado na cadeira, na mesma cadeira que novamente me deixa ver o salão da lanchonete, todo ele.

Para não ocupar a mesa como um vagabundo ocupa um banco de praça, peço um x-bacon, um guaraná e uma porção de fritas.

Sem imprevisto que desagrade ou aborreça, o almoço vai bem.

Prudente, não pedi salada porque sempre me ocorre de haver um bichinho verde a serpentear na folha de alface. Também acho horrível sentir grãos de areia numa concha de feijão. Não sou imbecil para que me chateie morder o xis e aliviar o salgado da batata com o refri, pois sei que posso almoçar bem se não pensar nisso.

As pessoas comem. Com o telefone a um palmo do nariz, engolem o que nem percebem o quanto mastigam. As pessoas nem precisam entender que vão sendo alimentadas pela realidade que a tela de um celular torna admirável. Mastigando ou não, não se encantam que vão sendo alimentadas por abismos admiráveis.

― Paloma, você precisa me passar as notícias mais frescas sobre o apocalipse zumbi. Não banque a espertinha pra guardar só pra você, pois amiga de verdade não faz isso. Por que você é amiga de verdade ou, Deus meu!, você resolveu jogar areia nos meus olhos?

Eis uma pessoa que se delicia em ser desagradável.

A pessoa que fica contrariada quando outra dá a entender que pode escolher o quê compartilhar ou quando compartilhá-lo é o tipo de gente que precisa ser contrariada, uma vez que ela se irrita quando se coloca no lugar de quem é posto de lado.

Essa pessoa desagradável quer fofocar como se estivesse dizendo que ama a democracia, mas ela não deve ser censurada. Para se sentir afagada, cobra transparência a quem se apresenta como gente amiga. Sem a necessidade de confrontar censores, é democrata porque posta que só imbecis ateiam fogo no campo. Embora as queimadas ocorram em vinte e cinco dos vinte e sete estados brasileiros, diz que não fuma, não tem isqueiro na bolsa nem fósforo na cozinha, pois o seu fogão de seis bocas e o seu micro-ondas bivolt gozam de acendedor manual.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de setembro de 2024.

terça-feira, 3 de setembro de 2024

O candidato perfeito

 

O candidato perfeito

 

Engana-se quem acredita que o candidato perfeito é aquele que tira foto beijando criança de colo porque ela representa a inocência.

A ideia de que criança de colo é a inocência de quem não se sujeita a condicionamentos sociais e econômicos, como se os tutores legais fossem responsáveis pela ambivalência de conservar a pureza da alma desse ser que precisa aprender a sujar fraldas e não o colo de quem o carrega, principalmente quando estão fotografando.

Quem assim o crê, engana-se, uma vez que o beijo não implica em compromisso com a transformação da realidade, ou seja, beijar criança de colo não ajuda na redução das desigualdades socioeconômicas que submetem pais, avós e candidatos.

O beijo do candidato na criança de colo não será visto como um ato inocente, mesmo que a foto não registre um ato inocente, mas seja um flagrante do ato amoroso do candidato beijando o próprio filho de colo, apesar do santinho colado no lado esquerdo do peito.

A foto não é pai beijando filho; a imagem mostra que um candidato que beija uma criança de colo é um candidato beijando uma criança de colo, ainda que seja o candidato que beija o próprio filho carregado em seu colo de pai.

É preciso ampliar a leitura dessa foto de candidato beijando criança de colo: que o candidato é pai, a criança de colo é seu filho e a imagem precisa ser validada como registro autêntico do candidato perfeito.

Não se engane, candidato ideal não é candidato perfeito.

Esta confusão ocorre porque o leitor da foto quer se identificar com o pai que beija o filho, ainda que seja candidato e esteja em campanha, quando imagens precisam ser registradas e que tais registros revelem a verdade que há de ser compreendida na sua inteireza, de candidato que posa de pai porque é pai.

Por verdadeira, a imagem do candidato que é pai beijando a criança de colo que é seu filho pede ampliada a leitura, que o leitor da foto nem sinta que a foto é lida pelo viés do eleitor.

Todo eleitor tem ansiedades inegociáveis e precisa delas para que, ao notá-las defendidas em quem lhe pede o voto, produza a necessária identificação.

O eleitor identifica-se com um candidato que beija a criança de colo desde que seja imaginado como pai ideal, aquele que há de lutar pelo bem-estar da criança de colo que é mesmo o seu filho, pois isso há de acarretar a luta pelo bem-estar de toda criança de colo que nem seja o seu próprio filho.

O candidato perfeito, entretanto, não precisa ser chancelado como quem luta para garantir colo a seu filho e aos filhos de quem o eleja, já que cabe ao eleitor reconhecer a sua responsabilidade pelo espaço no colo de quem se dispõe a embalá-lo.

Este eleitor, no fundo, é quem sente que precisa votar, ainda que a sua infância ainda não lhe dê a figura do pai a beijá-lo feito o candidato a lhe beijar pela criança que é.

Vota consciente quem pede colo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de setembro de 2024.

domingo, 1 de setembro de 2024

Agora vai

 

Agora vai

 

― Tudo na Santa Paz, irmão?

― Deus me perdoe, que é lastimável a toada de sempre.

― Com tanta gente querendo ter uma família boa como a sua, um emprego bom como o seu, você tem coragem de reclamar?

― É uma vida miserável, pois muito me entristece não ter realizado nenhum sonho que eu queria. Sabe Deus que eu não pedia muito, que meu maior desejo era conquistar uma condição melhor que a dos meus pais. Não queria palácio com carrão do ano na garagem, queria honrar o nome dos meus pais. Pensava em ter um destino melhor, mas a vida me derrotou naqueles meus sonhos.

― Mas os sonhos do jovem morrem com a maturidade, irmão. Com o dim-dim garantido em todo quinto dia útil, você não nasceu para que uma sirigaita safada te passe a perna da noite pro dia.

― Deus me perdoe, só que eu não creio ter nascido para tamanha felicidade que é comer mandiopã frio com tubaína quente na festinha de sobrinho sempre catarrento.

― Irmão, você ergueu esta casa, pagou pelos móveis que escolheu ter, põe arroz e ovo no prato da família. Caramba, será pedir muito que durma o sono dos justos por tudo que te faz um cara do bem?

― Deus me perdoe, que não sei o que anda me dando ultimamente, que ando dizendo palavras que não deveria dizer, que venho pensando o que não entendo que seja eu quem deveria estar pensando, que me pego acordado no meio da noite como se fosse uma outra pessoa que me acordasse pelos pensamentos que ando tendo de repente, sem ter razão para ter essas ideias, que isso parece coisa errada, pensamento de gente que não presta, que me envergonha de me fazer pensar isso que não queria ter pensado, mas eu sinto como se fosse coisa minha o errado que não é meu, que o Coisa Ruim me faz ruim.

― Irmão, olha esta parede. Amanhã eu venho, amanhã nós vamos pintar esta parede, irmão.

― O quê!? Pintar parede liberta do Cujo que parece entranhado nas vísceras? Estará o Tinhoso possuindo também a sua pessoa? Virá me ajudar com esta parede que não precisa de ser pintada que eu ontem a pintei pra festinha que a minha casa te oferece?

― Zoca, não se deixe folgar pelo Capiroto. Virei pintar de azul, que foi a cor escolhida por nossa mãe quando confiou a ela que escolhesse o que ficaria mais bonito para a sua casa nova.

― Mas a parede é azul, Zequinha.

― É verde, meu amado irmão.

― Zaqueu, meu filho, disse o mesmo, que pintei de verde, mas dei outra demão, vejo que está azul.

― Zoca, sei que você diz que é azul porque enxerga azul, mas não direi verde para não desagradar você.

― Meu primogênito viu verde, mas dei uma terceira demão.

― Por obséquio, você disse a Zacarias que usou o azul da mesma lata comprada azul?

― A Zacarias e Zaqueu mostrei a lata que paguei à vista.

― Chame que o caçula venha dizer o que veja.

Zeremias entrou, cheirou a parede seca, passou o dedo, lambeu-o, e, sem um quê de zombeteiro, disse:

― Eis a verdade, pai, que o azul que tu pintaste só está verde.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de setembro de 2024.


quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Belo exemplo

 

Belo exemplo

 

Logo cedo, eu cedo logo.

Pelo que alcanço sentir, ao sangrar a língua ao morder o pãozinho, terei um dia em que os esforços para não decepcionar as pessoas, mal começada a manhã, doerão em mim como essa língua mordida.

Fecho a cara? Abro um sorriso.

Pondo em evidência a vanidade de não me apresentar pusilânime, posto que quero ir trabalhar convicto da necessidade de comportar-me equilibrado, pressinto que faltarei à impassibilidade que me confirmaria o quanto sou essa alma racional.

Cruzo os dedos? Franze-me a testa.

Tão excitado pela parte exitosa de meus atos, como sujeito que mal se disfarça em aparentar a inteligência que o leve a retroceder de todo dissenso, projetarei, sereno e cônscio da minha serenidade, a imagem que será lida como o melhor dessa pessoa que eu sou.

Pigarreio? Pigarreio.

Sendo quem pensa quem sou, telefono, aviso que, por força de uma enxaqueca de fundo insondavelmente obscuro, quedarei na cama pelo dia todo, assim indisponível a e-mails, torpedos e áudios do zap.

Faço figa? Desligo.

Na cama comigo, Marx lambe meu rosto. Ele olha, noto até que me encara. Ainda bem que tenho um cão, porque preciso trocar sua água, pôr ração na tigelinha, fazê-lo checar o muro do quintal.

Faz sol, mas o ar está frio. O app aponta, faz oito graus.

O joão-de-barro do abacateiro cantou quando ainda estava escuro, que ele cantou sim, que eu gostei de ouvi-lo.

Os bem-te-vis vieram conversando, passaram, foram conversando; como gostei de tê-los escutado, já o dia amanhecido.

E não faço mais nada? Faço.

Lavo roupa. Penduro as meias, cuecas e camisetas. A bermuda do corpo, mesmo encardida de tê-la no batidão da semana, quero usá-la por mais um dia. Por mais este dia, vou me sujar um pouco mais.

Ajoelho-me na terra.

No quintal atrás de casa, uso uma espátula para cavar um buraco. Cavo, que ele não fique raso. Nele eu jogo duas sementes de girassol. Cavo outro, outro e mais um, cavo uma fieirinha de buracos que sejam fundo o bastante pro que penso conveniente às sementes.

Sei o que faço? Faço.

Cuidarei que elas germinem, cresçam, floresçam, atraiam abelhas, joaninhas, tragam ao quintal todo e qualquer inseto que precise do que girassóis têm a oferecer.

Se eu sei o que girassóis têm? São bonitos. Quero vê-los crescidos, adultos, e belos, belíssimos.

Todavia... Ô vida!

Será que vai chover no sábado? Diz a previsão que o domingo será chuvoso. Porque choverá, choverei. Virarei coruja, piarei ao arrepio de ter que encarar sozinho o que houver para ser feito em casa.

Abrirei a porta? Apanharei os jornais.

E serei informado do próximo jogo, da próxima esperança, da futura assombração, e terei medo da fatura a ser paga.

Haverão de lembrar-me da carestia, do desemprego, dos sem-teto, dos sem-terra, das queimadas, e terei medo da fuligem no limoeiro.

Marx dá a pata? Dou-lhe a outra face.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de agosto de 2024.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Sebastian

 

Sebastian

 

O guri tosse até expelir a lasquinha da casca de pão que arranhava a garganta e, sem ânimo pra rejeitar o café açucarado que é estimulado a beber, abocanha o pedaço da torta de banana que a senhora diz ter assado tão logo foi agraciada que passaria a tarde acompanhada por este sobrinho tão querido.

Raros são os dias que a Tia Carlota não receba visitas. A todos que a procuram, sejam parentes, vizinhos ou ambiciosos à vereança, muito a envaidece recebê-los à mesa.

― Cachorro não come farelos, garoto, come ração.

Mauro César não engoliu aquela enganação, porque os cachorros da sua casa comem arroz, feijão e torresminho. Embora não cheguem a brigar, voam sobre as almôndegas que atira no ar quando o domingo tem também macarronada. Como não é o bobo para ser engambelado, ele não lhe negaria, Sebastian, uma nesguinha que fosse daquela torta tão saborosa, tão irresistível.

― Seu pestinha, pare já! Pare de dar torta pro bebê!

Bebê, só que não! No mínimo, aquele collie tem oito anos; ou seja, o cão faz parte da família desde que ele, Mauro César, nasceu.

― Mas, Tia Carlota, a minha mãe ensinou que faz o bem quem trata todo mundo igual. Se a torta da senhora é excelente, por que não daria um pedaço que vai mostrar o quanto eu também sou excelente? Acho que o certo é dar um pedaço, porque o meu priminho de quatro patas, titia, gosta tanto de banana quanto eu.

Sebastian, o collie de oito anos que gosta de torta de banana tanto quanto o Mauro César gosta de joguinho no celular, nem mastiga o que lhe seja jogado a dois palmos do focinho.

Ele abocanha no ar o que seja ― almôndega, bolinha de queijo ou o teco, arrancado à sorrelfa, da torta de banana.

― Tia Carlota, por que o Sebastian deixou de ser chamado de Felpo pra ser chamado de Sebastian?

― Vem comigo, Mauro Sérgio.

Sim, a tia do menino sempre troca César por Sérgio, pois seu irmão, pai do garoto, chama-se Mauro Sérgio.

Tia Carlota procura na estante e coloca na vitrola um disco antigo, daqueles pretos, redondos e com um furo no centro.

Sim, sim, a Tia Carlota mantém-se fiel às boas modernidades como rádio FM e toca-discos estéreo. E se não houver imprevistos, ela está a fim de comprar um tocador de CD, porque o laser faz a música soar cristalina, segundo diz dona Etelvina, a vizinha da frente.

A música é alegre. Ela tira a criança para dançar. Por óbvio, dançar é modo de dizer, que o pirralho prefere saracotear e bambolear-se feito marionete cujos cordames são manipulados por epilético em crise.

Mas o espetáculo mais chistoso que ocorre diante daquele fedelho sapeca, espoleta e serelepe é o Sebastian uivar e rodopiar enquanto é tocado o allegro do Concerto para dois violinos.

― Você entendeu, Mauro Sérgio, ou preciso dizer o porquê do bebê fazer jus ao nome que eu prezo?

Tenha dó, Tia Carlota! Só a senhora para achar que o pimpolho já tenha ouvido falar em J. S. Bach.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de agosto de 2024.


domingo, 25 de agosto de 2024

Corpo a corpo

 

Corpo a corpo

 

Balançando na cadeira de palhinha, não me chateio com a cidade. Mais, alegra-me esta versão domingueira: pelo vento gelado, está mais esvaziada.

As pouquíssimas pessoas que passam não latem, não rosnam nem dão o bote nem mordem, distribuem santinhos e agitam bandeiras. Não me intimidam falando alto, também não as amedronto, olhamo-nos.

Vendo-me na varanda, pedem que eu desça ao portão; mesmo que atirem santinhos no quintal, sigo na mesma ― tanto democrata quanto bonachão, balançando.

Ocorre-me que creem na democracia porque votam e recebem pela distribuição dos santinhos e agitação das bandeiras. Aliás, os genuínos democratas irão votar em quem houver de cativá-los, seja pelo número fácil de decorar, seja pelo apreço a pão com mortadela, seja, ora essa, pelo crédito de que distribuirão pastel e garapa, na faixa.

Por óbvio, não os exprobro que comam a céu aberto, pois, embora não me assegurem uma merreca sequer, não disfarço o quão deleitoso é receber santinho enquanto como pastel e bebo garapa na feira.

Posto que concordo com o Luisinho, eu como e bebo:

― O que me fortalece é de matar!

Aí vem. Vejo que vem numa boa. A covardia não o seduz. Atravessa a rua sem olhar que algum carro esteja vindo. Não o preocupa que me sobressalte, que ele possa realmente vir a ser atropelado.

Está certo que o covarde sou eu ou os covardes sejam outros ― os que freiam abruptamente por não prestar atenção no que está à frente ou os que desaceleram porque temem o que veem à frente.

Estou bem certo de que não temo aqueles que freiam bruscamente tanto quanto aqueles que diminuem a velocidade, temo pelo Luisinho, temo por sua fragilidade, Luisinho, por sua mortalidade.

Até vê-lo vindo na direção da minha varanda, sou tomado pela ideia de que a cidade tem o seu ritmo, o seu fluxo, independentemente que eu tenha medo ou a coragem infle-me.

Jogo o jornal; vou abrir o portão.

Venha a mim, meu amigo, mesmo que o repreenda por sua tolice, sua empáfia ou pela minha covardia, que o temo fortalecido na tolice, na empáfia, na minha cordialidade de pessoa que se zanga, que eu até gargalho nervoso enquanto o Luisinho sorri.

Então, covardes são os outros, os que freiam e não o atropelam na faixa ou fora dela, porque eles conhecem as leis que temem infringir e sequer imaginam como poderiam viver se as leis fossem usadas para benefício próprio.

Luisinho não vem acendendo um cigarro no outro, vem sem chapéu e senta na cadeira ao lado da minha como se passar o polegar de um lado pro outro dos lábios desse no tique de Belmondo fajuto.

No corpo a corpo com a realidade deste domingo nublado, acosso-me que compreenda as pessoas dizendo as suas verdades, ainda que nem me aprovem por achar graça do que deixam de falar.

Gracejo que a rua de casa não é aquela rua do Godard, todavia:

― Senhorita Franchini, o que significa ‘repugnante’?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de agosto de 2024.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

A força do querer

 

A força do querer

 

Talvez você queira dizer algumas palavras. Se quer mesmo, espere o momento em que seja anunciado que o bolo será cortado. Levante-se de pronto, comece a falar antes que passem à sala onde o bolo será cortado. Demonstre-se impaciente, mas sem a precipitação que o faça ser visto como alguém alucinado. Ao encher o copo e erguê-lo à vista de todos, principalmente neste instante de pedir o brinde, esteja seguro do que faz, essencialmente do que pensa que está fazendo. Quem não quer ser tomado por oportunista, brinda como quem corta o bolo.

Não relembre o dia em que lhe chutou a canela porque errou a bola, vá direto ao ponto que tanto o emociona. Embora esteja comovido que a lembrança tenha ocorrido de forma espontânea, abafe-a, porque sua expulsão era uma consequência lógica. O professor tinha que arbitrar a partida aplicando as regras. Apegue-se tão somente à verdade, que a torção do joelho e a subsequente operação do menisco teriam outro momento. Capriche na brevidade, não cutuque feridas que irão tornar amargo o brinde.

Aguarde que os copos sejam enchidos para que haja ao menos um gole ou a saudação resultará falsa, uma ação desabonadora a quem a propõe. Não se deixe atropelar pelos pensamentos, segure alto o copo até que todos também o façam.

Você sabe que as palavras são difíceis de dominar, que a enxurrada passa selvagem, furiosa, levando pedras e gravetos. E teme que seus tornozelos sejam atingidos por cacos de vidro, portanto feridos.

Quem menos há de querer ferir é quem toma a iniciativa de brindar, pois você quer tão somente brindar antes que o bolo seja cortado.

Se tivesse saído de casa com o discurso pronto, o brinde soaria tão sincero quanto os tapinhas nas costas em quem foi expulso por justa causa, outro ardoroso perna de pau que idolatra um craque.

Certo mesmo é que você acredita que, tendo pensado e pensado o discurso, tendo posto e retirado essa palavra que soa bem mas põe a perder o ritmo, tendo treinado os gestos, tendo falado e gesticulado na frente do espelho, você acredita que, embora siga sendo um perna de pau, poderá dar a impressão de atuar feito craque.

O gol de placa, a finta certeira, o lençol elegante, a enfiada precisa, a cabeçada no ângulo, o chute indefensável, a corrida pro abraço, em tudo seja honesto. Embora ensaiado, pense tão somente em afagar os melhores sentimentos de quem brindará consigo.

Observe as pessoas que terá que cativar. Elas também conhecem quem merece umas palavrinhas, então, não hesite nem se acanhe, fale tal qual o bom político.

Relate o dia em que se conheceram. Destaque um detalhe ou outro da circunstância em que se encontraram. Com empolgação exagerada ao circunscrevê-los quando houve a apresentação, aí, brinde!

Feito o brinde, e desejoso de refri gelado: mesmo que o melhor que lhe reste seja comer bolo, é bom comer o bolo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de agosto de 2024.

terça-feira, 20 de agosto de 2024

Cantiga do bom rapaz

 

Cantiga do bom rapaz

 

Se a brisa da nostalgia não estiver brincando comigo, naqueles dias de distanciamento obrigatório por conta da Covid-19, durante algumas semanas, de maio a agosto de 2020, uma mulher decidiu-se por cantar na sacada de algum apartamento na rua onde eu morava.

Não me equivoco que ela cantasse na sacada de um apê, porque eu vivia num logradouro predominantemente de prédios. Sem muitas casas ou sobrados, era uma rua de edifícios altos, sendo que os mais baixos subiam a sete andares, fora o térreo da entrada e o subsolo da garagem.

A memória está amolada, que o seu fio corta as inferências ilógicas, portanto deduzo que a mulher não queria ficar inteirada dos números da pandemia, que ela vinha cantar depois da janta, tão logo acabava a segunda novela da noite, às oito e meia.

Dando a correta ilação, mais saudável cantar do que se afligir com os escores diários que o telejornal era obrigado a informar, divulgando quantos infectados, quantos óbitos, quantos curados.

Não bastassem as aflições pela doença ser altamente contagiosa e ser fatal porque, à época, não havia vacina, a obrigação de alardearem os números, verdadeiros e alarmantes, dia após dia impunha-se como serviço de conscientização, sanitária e cívica.

Não bastava estar ciente do quadro escandaloso da contaminação, era preciso estar consciente de que os fundamentos estapafúrdios dos negacionistas não eram tão somente pseudocientíficos, manifestavam-se como ações criminosas.

Haja paciência? Justiça seja feita!

Quatro anos depois, os atos criminosos ainda seguem transitando, à espera de serem pronunciados pelo que são, atos fundamentalmente criminosos.

Apesar disso, por poder rememorá-la, à cantora não guardo mágoa, nojo ou raiva, alegro-me ao recordá-la, que ela tinha repertório eclético, que a ordem dada às canções era aleatória.

A mim que apenas cabia ouvi-la, preponderava o acaso.

Embora se apresentasse ao sabor dessas caraminholas de pessoa submetida a estresse e angústia, ela optava por cantar. E todos os dias ela cantava, mesmo aos domingos, mesmo que fizesse frio, chovesse ou que o calor noturno fosse infernal.

“E a seda azul do papel que envolve a maçã”, não ponho remorso de seguir no trem da vida.

“A fé vai onde quer que eu vá”, que ela cantasse por viver naqueles dias de mortos sem sepultura, compreendo-a.

“Cuidado com o disco voador”, não tenho vergonha de quem vê nos céus a vinda da salvação para o nosso éden.

“Vou partir a geleira azul da solidão”, escrevo no papel, escrevo com a festa fervendo na TV e, queimando de raiva, suspendo a mão.

“Uma gente que ri quando deve chorar”, sustento que posso mais.

Achava lógico associar o verso cristalino com o dia, nosso dia, o dia de todo mundo, relacionava-o a emoções que me induziam a associar-me a isso e àquilo.

Rapaz, sê mais impertinente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de agosto de 2024.


domingo, 18 de agosto de 2024

A tampa, a rolha e a garçonete descalça

 

A tampa, a rolha e a garçonete descalça

 

“Bom dia!” “Bom dia! Quatro pãezinhos, por gentileza.” “Mais algum produto?” “Não, obrigado. Tenha um bom dia.” “Bom dia.” Pego e pago, que a próxima parada é tomar um traguinho, bater um papinho.

O homem sem problemas não existe. De momento, creio acertado procurar na bebida o abrigo que me acolha sem cobranças, porque não estou a fim de me irritar com os certinhos e não consigo, pois o primeiro estranho que aparece veio pra chatear; no entanto, aceito o folheto que entrega, digo o nome quando me pede que o diga, ouço a oração com o nome que lhe dei; a comédia continua: quero sorrir e cantar?

“Bom dia!” “Bom dia!” “Cadê o meu corote?” “Sem corote, Taborda. Hoje só comeremos pão.” “Rarará. Pão a seco, nem morta!”

De momento, sem problemas que atazanem, ouço a canção que o sábado oferece. O coração vê que o sol está bom e a consciência sente que a grana está curta, ou seja, preciso beber; quero beber, no entanto, quero crer que consigo conversar com gente amiga, quem só precisa dar um tempo, gente desconfiada do que não tem solução, que não se satisfaz que a bebida acabe, a grana acabe; então, vou desistir e pirar, vou negar a alegria, vou correr do prazer? Vamos sorrir e cantar.

“Bom dia!” “Bom dia!” “Taborda, olha o frango a passarinho que eu trouxe? Que porção generosa, né?” “Generosa... Generosíssima! Mas cadê, diabos!, o mé?” “Nada de bebida, Taborda. A gente sabe do seu fígado.” “Pois é, meu chapa, quem está do seu lado quer o melhor pra você.” “Nada de cachaça? Não vou sobreviver sem um gole.” “Taborda, deixe de drama!” “Bons amigos, vão todos pro inferno!”

Por mais que me desconcentre, me distraia, me queira perdido dos problemas que este sábado sugere que não tenham importância, acho bom ficar onde estou. Permaneço onde estou, embora o melhor talvez seja ser mais adulto. Havendo tantas querelas, sorrio e canto.

Sorrindo, não me esforçarei pelo que dará errado. A princípio, estou consciente de que, por mais que me esforce, o sol não se porá ao meio-dia, as maritacas não imitarão canários, cabelos não voltarão a crescer no cocuruto, a minha amada Madalena não perdoará que o amor já ido cisme de brotar num sorrisinho que não engana ninguém.

Cantando, mudo de ideia ou outra ideia me transforma?

Como uma asa, mordo-a, mastigo-a: sou meus dentes mais o vinho que abro ainda que não o quisesse aberto.

Taborda bebe. A garçonete bebe. Eu bebo e sirvo-os. Eu bebo outro gole. A garçonete serve-se e enche o copo do Taborda. Bebemos sem cantar. Sorrindo, a garçonete enche o meu copo. Reclamando que logo o vinho acabará, Taborda não sorri. Sem cantar nem sorrir, digo que o dinheiro dará para outra garrafa, digo à garçonete que tem pés bonitos. A garçonete acha graça que eu tenha reparado nos seus pés e diz que vai voltar pro trabalho, precisa, mas sua hora do almoço foi boa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de agosto de 2024.

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Saudável de mente

 

Saudável de mente

 

Sei trocar lâmpada, mas antever a escuridão após o crepúsculo não me persuade a subir na escada. Não tenho medo de cair, é que estou sem tempo. Até porque realizar a troca tem menos importância do que chegar na hora da consulta.

Preciso correr ao dentista porque nada me demove da ideia de que o dente começará a doer mesmo que a dor tente me convencer que é meu psicológico que se diverte aprontando, mas não saio de casa sem antes acabar de assistir à cena em que o mocinho, a mocinha e o vilão que não treme ao segurar a arma estão no momento decisivo.

Ultimamente tenho vivido mais momentos cruciais que rotineiros, e excesso de adrenalina vicia ou esgota. Ando viciado em esgotamento e isso, somado à urgência de dar conta do mundo, acaba acuando que o melhor a fazer nas atuais circunstâncias é dormir, é entretanto dormir profundamente.

Por pesar as consequências, não tomo sonífero. Ainda que o copo de leite com dois dedos a mais esteja quentinho, não me deitarei agora. Tenho que responder corretamente à senhora que me pediu as horas, o que me faz tirar o celular que eu trazia desligado.

Não é porque os assaltantes de antigamente batiam carteiras que os de hoje têm mania de celulares, é que poucos têm dinheiro de papel no bolso, então, julguei a mulher pelo coque, a saia seis palmos abaixo dos joelhos e as mãos garantindo que a Bíblia não caia no meio-fio, ou seja, o maior risco nessa ocasião é eu dizer alguma palavra machista, porque eu estou tocado por essa crente que ostenta maravilhosamente um relógio no pulso esquerdo.

Ela não precisa ocultar que o seu relógio está parado, que ele parou há pouco, assim que me viu, pois seu anjo da guarda teve a elegância de lhe sussurrar que sou a pessoa pundonorosa que aparento ser.

Embora aprove a visão que esse anjo, portanto todos os anjos, tem dessa alma que trago encalacrada nas carnes bem curtidas, à rapariga sinto-me na tentação de fazer graça, entretanto só falo as horas.

Não me lamento da escolha, que não revelei o sentimento de estar encantado, leve, a querer saber-lhe os gostos, de provar da textura dos lábios, de desejá-la acordando-me pro desjejum do domingo, para que houvesse outro desfecho, uma vez que neste, sem par de meias no dia dos pais, ela que siga, que vá, toque adiante.

Sem cismas de descaramento, eu pego outro rumo.

Se tivesse a possibilidade da admiração dos seus olhos, é provável que os achasse azulados ou, se não cedesse à vergonha pelo tanto do meu entusiasmo, descobri-los-ia esverdeados?

Se ousasse medi-la dos pés aos joelhos, haveria a precisão de que a saia está três palmos acima dos mocassins?

Mocassins, minha senhora? Terei visto a senhora em mocassins de camurça que eram ocre e não chumbo?

Sem meios de não me extraviar do possível ao provável, assim seja, pois sou gente penhorada à vida pela realidade proporcionada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de agosto de 2024.