Lorotas
Nem tento, qualquer explicação que eu
ache bem fundamentada no que a realidade tem de mais concreto será inútil, pois
não sou bom em me corrigir. Mesmo sabendo que a culpa pelo estrago crescerá
quanto mais tentativas eu fizer, nem tento, mudo de assunto.
Como não vim tirar satisfação de
ninguém, nem de mim vou cobrar a culpabilidade pelo erro cometido, ou pela
série de erros que estou a cometer desde que o bem-estar convenceu-me a buscá-lo.
Assumido imbecil, julgo-me inimputável,
feito qualquer idiota que vá por aí a dizer besteiras, perpetrar patacoadas,
difundir barafundas, que a alegria nunca o alcança, já a felicidade e a satisfação
perdidas.
Embora presumido energúmeno, opto pelo
falsete, pelo disfarce de afinar a voz, pela liberdade de fazer o que bem
entender com as cordas vocais que equipam a minha garganta, no melhor papel.
Sem gargantilha a adornar o meu gogó
como gravata borboleta no Adoniram, garganteio que não passo de boneco de
ventríloquo, porque o texto que vou escrevendo também me escreve, que fico bobo.
Sem cortesias à corte de descorteses,
sou bobo.
Garganteio que sou forte, filho da sorte;
tomo a liberdade, vendo as pessoas, observando-as, tirando lições pelo que
observo como agem, garganteio mesmo que digo verdades.
Se tenho moral para tanto? Tanto tenho
que me cortejo lúcido, fonte de água limpa a apagar queimadas, cupim voraz a
devorar banquinho em pleno ar, voto que corrija a mão que tecla o número
demoníaco que a todos nos consumirá.
Quando tenho que dar o melhor de mim,
basta me sentir melhor ao beber a mistura de café com Coca-Cola, porquanto eu
misturei no copo que bem escolhi.
Nem ingênuo nem energúmeno, sou o bobo
que eu quero ser.
Às vezes eu sinto que posso dizer o que
me mobiliza, mexe comigo, me faz querer falar pelas pessoas, embora elas nem
cogitem que haja alguém no mundo que lhes entenda os mistérios, as
contradições, que as faça transparentes, portadoras de evidências que as
patenteiam tão gentis, solidárias e fraternas, mesmo que me engane, bobo.
Portanto eu bobeie, e continue bebendo
da mistura que fiz com café e Coca-Cola. Que ande em linha reta, titubeie na
corda, e siga crendo que ando ereto na linha bamba, a minha cerviz não me avilte
ao curvar-me a falastrões velhacos.
Com mais café nem sentirei a Cibalena?
Na febre que me apavora: papai não tinha
carro, nunca teve, nunca aprendeu a dirigir, nunca dirigiu carro de conhecidos;
papai nunca me arrumou uma banqueta pra eu capotar na curva.
Lembro que o caminho mais curto até a
escola era uma reta curva, ia da Capelinha ao Laurinda; a rua era uma barriga, uma
rua como as demais: sem asfalto nem calçadas, tinha buracos e faltavam
lâmpadas nos postes; a pança do Gigante Adormecido.
Serei Jonas sem saber em que baleia estou
metido?
Com café, coca e cibalena, eis-me um moralista
aditivado.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 17 de setembro de 2024.