O
candidato perfeito
Engana-se quem acredita que o candidato
perfeito é aquele que tira foto beijando criança de colo porque ela representa
a inocência.
A ideia de que criança de colo é a
inocência de quem não se sujeita a condicionamentos sociais e econômicos, como
se os tutores legais fossem responsáveis pela ambivalência de conservar a
pureza da alma desse ser que precisa aprender a sujar fraldas e não o colo de
quem o carrega, principalmente quando estão fotografando.
Quem assim o crê, engana-se, uma vez que
o beijo não implica em compromisso com a transformação da realidade, ou seja,
beijar criança de colo não ajuda na redução das desigualdades socioeconômicas que
submetem pais, avós e candidatos.
O beijo do candidato na criança de colo
não será visto como um ato inocente, mesmo que a foto não registre um ato
inocente, mas seja um flagrante do ato amoroso do candidato beijando o próprio
filho de colo, apesar do santinho colado no lado esquerdo do peito.
A foto não é pai beijando filho; a
imagem mostra que um candidato que beija uma criança de colo é um candidato
beijando uma criança de colo, ainda que seja o candidato que beija o próprio
filho carregado em seu colo de pai.
É preciso ampliar a leitura dessa foto
de candidato beijando criança de colo: que o candidato é pai, a criança de colo
é seu filho e a imagem precisa ser validada como registro autêntico do
candidato perfeito.
Não se engane, candidato ideal não é candidato
perfeito.
Esta confusão ocorre porque o leitor da
foto quer se identificar com o pai que beija o filho, ainda que seja candidato
e esteja em campanha, quando imagens precisam ser registradas e que tais
registros revelem a verdade que há de ser compreendida na sua inteireza, de
candidato que posa de pai porque é pai.
Por verdadeira, a imagem do candidato
que é pai beijando a criança de colo que é seu filho pede ampliada a leitura,
que o leitor da foto nem sinta que a foto é lida pelo viés do eleitor.
Todo eleitor tem ansiedades inegociáveis
e precisa delas para que, ao notá-las defendidas em quem lhe pede o voto, produza
a necessária identificação.
O eleitor identifica-se com um candidato
que beija a criança de colo desde que seja imaginado como pai ideal, aquele que
há de lutar pelo bem-estar da criança de colo que é mesmo o seu filho, pois
isso há de acarretar a luta pelo bem-estar de toda criança de colo que nem seja
o seu próprio filho.
O candidato perfeito, entretanto, não
precisa ser chancelado como quem luta para garantir colo a seu filho e aos
filhos de quem o eleja, já que cabe ao eleitor reconhecer a sua
responsabilidade pelo espaço no colo de quem se dispõe a embalá-lo.
Este eleitor, no fundo, é quem sente que
precisa votar, ainda que a sua infância ainda não lhe dê a figura do pai a
beijá-lo feito o candidato a lhe beijar pela criança que é.
Vota consciente quem pede colo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de setembro de 2024.