Pauta
mágica
Muita história me é contada porque tenho
cara de quem acredita no que falam. Pois, não reste dúvida, eu fico comovido
quando capricham nos detalhes. Sensibilizado pelos pormenores, eu imagino
situações e acrescento minúcias. Com minha colaboração, a história original
torna-se outra. A novidade é tanta que as pessoas mal percebem que a base do
que eu conto é o que elas haviam dito.
Quando contam uma história que me
espanta, escuto-a.
Faz alguns anos, conversei com um
jornalista que estava apurando informações sobre um determinado personagem,
cuja biografia era de fato bastante peculiar.
Deram meu endereço ao repórter. Disseram
que eu seria uma boa fonte sobre qualquer pessoa da cidade. Sendo um contador
de causos, eu estaria preparado pra ajudá-lo com a reportagem.
Para que meu auxílio não fosse
repetitivo, pedi-lhe que contasse o que sabia sobre o cidadão de seu interesse.
Ele falou da história mais conhecida da
cidade. Falou-me do político que ganhou mais de cem vezes na loteria.
Disse-se incrédulo, pois aquela história
era invenção fantasiosa de gente interessada em destacar o lugar. Tinha
manipulação. Tinha esse chamariz folclórico: nenhum Aladim ficaria sem a
fortuna do gênio, pois todo volante era uma lâmpada encantada.
Compadeci-me dele, contei-lhe outra variante.
Há muito tempo, eu estava disposto a
escrever um livro com essas histórias urbanas que mais parecem lendas.
Numa cidade vizinha, falaram de uma
senhora que recebera o valor equivalente a um milhão de dólares.
Fiz meu trabalho: vim procurá-la, fui ao
banco, contatei o contador.
Arrepia-me a verdade.
Segundo fui informado, em menos de um
ano, a mulher montou um motel e vendeu-o pelo dobro do que gastou.
Com o dinheiro, mais uma vultosa quantia
que seu sortudo favorito não se furtou a dar-lhe outra vez, ela construiu o
mais espetacular spa da região, cujas palafitas sustentam choupanas de bambu.
Com a devida licença ambiental, foi ela que
fez o lago onde também funciona outra de suas miraculosas empresas, o parque de
toboáguas ludicamente alucinantes.
Os simplórios têm certeza de que o homem
das loterias apaixonou-se pela musa das águas, que essa seria a razão pra ele,
todos os dias, seguir fazendo as suas apostas.
Dizem que esperava formar fila para
passar mais tempo na lotérica, que ele bebericava seu café não pra ouvir reclamarem
das dívidas, que ele gostava de ajudar gente com parentes perdidos nos confins.
Também é verdade: ele ia à padaria de
manhã e à tarde.
Todo mundo sabia que o copo tinha dois
dedos de café e quatro de uísque, que aquilo mais magoava seu coração sapecado.
Como apostava qualquer número, ele vivia
ganhando.
A região soube da história. Muitas desgraças
arrastaram forasteiros pra tantas filas daquela famigerada lotérica.
Até que a felicidade foi mesmo fulminante.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de julho de 2023.