quinta-feira, 20 de julho de 2023

Pauta mágica

 

Pauta mágica

 

Muita história me é contada porque tenho cara de quem acredita no que falam. Pois, não reste dúvida, eu fico comovido quando capricham nos detalhes. Sensibilizado pelos pormenores, eu imagino situações e acrescento minúcias. Com minha colaboração, a história original torna-se outra. A novidade é tanta que as pessoas mal percebem que a base do que eu conto é o que elas haviam dito.

Quando contam uma história que me espanta, escuto-a.

Faz alguns anos, conversei com um jornalista que estava apurando informações sobre um determinado personagem, cuja biografia era de fato bastante peculiar.

Deram meu endereço ao repórter. Disseram que eu seria uma boa fonte sobre qualquer pessoa da cidade. Sendo um contador de causos, eu estaria preparado pra ajudá-lo com a reportagem.

Para que meu auxílio não fosse repetitivo, pedi-lhe que contasse o que sabia sobre o cidadão de seu interesse.

Ele falou da história mais conhecida da cidade. Falou-me do político que ganhou mais de cem vezes na loteria.

Disse-se incrédulo, pois aquela história era invenção fantasiosa de gente interessada em destacar o lugar. Tinha manipulação. Tinha esse chamariz folclórico: nenhum Aladim ficaria sem a fortuna do gênio, pois todo volante era uma lâmpada encantada.

Compadeci-me dele, contei-lhe outra variante.

Há muito tempo, eu estava disposto a escrever um livro com essas histórias urbanas que mais parecem lendas.

Numa cidade vizinha, falaram de uma senhora que recebera o valor equivalente a um milhão de dólares.

Fiz meu trabalho: vim procurá-la, fui ao banco, contatei o contador.

Arrepia-me a verdade.

Segundo fui informado, em menos de um ano, a mulher montou um motel e vendeu-o pelo dobro do que gastou.

Com o dinheiro, mais uma vultosa quantia que seu sortudo favorito não se furtou a dar-lhe outra vez, ela construiu o mais espetacular spa da região, cujas palafitas sustentam choupanas de bambu.

Com a devida licença ambiental, foi ela que fez o lago onde também funciona outra de suas miraculosas empresas, o parque de toboáguas ludicamente alucinantes.

Os simplórios têm certeza de que o homem das loterias apaixonou-se pela musa das águas, que essa seria a razão pra ele, todos os dias, seguir fazendo as suas apostas.

Dizem que esperava formar fila para passar mais tempo na lotérica, que ele bebericava seu café não pra ouvir reclamarem das dívidas, que ele gostava de ajudar gente com parentes perdidos nos confins.

Também é verdade: ele ia à padaria de manhã e à tarde.

Todo mundo sabia que o copo tinha dois dedos de café e quatro de uísque, que aquilo mais magoava seu coração sapecado.

Como apostava qualquer número, ele vivia ganhando.

A região soube da história. Muitas desgraças arrastaram forasteiros pra tantas filas daquela famigerada lotérica.

Até que a felicidade foi mesmo fulminante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de julho de 2023.

terça-feira, 18 de julho de 2023

Verdadeira recíproca

 

Verdadeira recíproca

 

Ainda criançolas de chupeta, o mais inocente só mentia se percebia vantagens. A diversão alegrava pra valer quando a mentira era contada como história inacreditável. Porque nunca foram de bobear, os irmãos sempre foram vistos como indomavelmente criativos.

Depois de décadas experimentando emocionar, contentar, indignar, revoltar ou assustar, os dois induziam audiências aos sentimentos que tanto almejavam produzir. E as palmas eram inevitáveis.

Mas a história mais impressionante quem contou foi Atanagildo.

Era noite de nevoeiro. Os sapos não coaxavam. Ninguém zanzava nas ruas. Até os fantasmas não murmuravam junto às janelas. Não era inverno, mas a alma da gente concebia que fosse.

Numa noite mesmo invernal, daquelas de arrepiar os pelos da nuca, o bom seria ir bebericando um bule de café, não ligar a TV pra não ser assombrado pelo mundo dos vivos e, depois de discar um número ao acaso, avisar que as rádios acabaram de noticiar que o fim dos tempos não começaria às onze horas, cinquenta e nove minutos e cinquenta e nove segundos mas, precisamente, no instante seguinte.

Certo, meia-noite é o marco zero de muitas histórias, principalmente daquelas que não conhecem o esquecimento, particularmente porque, de geração em geração, revelam verdades que vêm do sono.

Quando o medo filtra cada palavra da história narrada, quem escuta pensa ter ouvido a voz do princípio das eras. E o abismo do tempo vem à tona, pois o fundo foi revolvido. Quem mergulha no poço traz a pérola que haverá de adornar o colo dos corajosos, que esses não se fecham ao que veem, embora temam de olhos abertos.

Há muito, quando beijos cheiravam a cigarro e porcos tinham asas, depois de um dia cansativo no banco, foi numa noite de densa cerração que Atanagildo achou o táxi que o levaria para casa.

Outros dias vieram e outros cansaços foram vividos, Atanagildo mal lembrava o dia em que o destino trouxe-lhe aquele taxista, que era seu conhecido havia mais de meio século.

Falaram aquele nome; Atanagildo recordou-se do socorro prestado pelo fulano.

Quando foi? Terá sido naquele ano? Não haveria engano?

Contaram que o dito fulano havia morrido um ano antes. Contaram que o táxi foi incendiado numa estradinha. Acreditaram de verdade que pudesse ter dormido naquele táxi queimado com o motorista morto ao volante, porque ninguém duvidaria da palavra de quem sempre soube colocar verdade em tudo que contava.

O irmão falou. As pessoas falaram. E Astrogildo ouviu-os.

Se todo mundo estava impressionado, Astrogildo achou que o certo era contar que, bebendo café à janela de casa, foi quando um raio caiu na figueira da praça.

Como a noite virou dia, Astrogildo viu bem o táxi, ouviu melhor ainda o nome da pessoa a quem o taxista deu boa-noite, pois, à vera, o fulano morto falou “Atanagildo” com todas as letras.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de julho de 2023.

domingo, 16 de julho de 2023

Lua nova

 

Lua nova

 

Se fosse para colocar em uma frase de impacto o pensamento que às vezes me seduz a fazê-lo, eu parodiaria o slogan de um conhecido canal de notícias da TV: a realidade nunca vacila.

Como não pretendo vacilar, eu leio o mais que posso.

A leitura pede concentração. Pode o mundo cair feito jaca na minha cabeça, mas não sou muito newtoniano pra assimilar o golpe como um convite à gravidade da lógica. Descontando o galo, eu gracejo que não sou devoto febril da razão. Mantenho o foco. Eu olho até que vejo; vejo até que enxergo: letras viram palavras viram ideias; se eu consigo não somente manter esse fluxo quanto ainda me compreender nele, o livro são páginas e cada página é uma janela.

Quando me entendo comigo, abro-a e vou pelo livro afora.

Pego o caminho e afeiçoo-me à caminhada. Acolhido pela poltrona, bato perna pro Eldorado, bato asas pra Laputa, mergulho até Atlântida, não saio do lugar no qual não paro. Não me castiga ser andarilho. Não me perco, eu ganho o mundo.

Todo livro é um mundo. Há mapas e tesouros. Há céus e cavernas. Pode ter céu astrológico com previsões de um dia mais afeito aos meus desejos de estrela cadente. Pode ser que haja cães de três cabeças a destroçar almas bisbilhoteiras. Há em mim águas de memória e águas de desmemória, beberico-as, saciam-me, mas tenho muitas sedes.

Todo mundo é uma vida contada como der: do começo pro fim, do meio pro começo, do fim pro começo, do meio pro fim.

Alegremente radical, palpito feito outro Spinoza cartesiano: cáspite!, o melhor meio de chegar ao fim é começar pelo fim.

Aí pelas tantas, reinicio: largo o livro, abro a janela e verifico o que está acontecendo: por que você não para de miar?

Como eu não entendo a gata, interpreto-a.

Como não precisa se justificar, ela estava miando para que alguém viesse ouvi-la. Esse alguém fui eu, que nem preciso aprovar tudo o que ela diz, só tenho que respeitá-la com meu silêncio.

Porque não precisa mais chamar a atenção sobre si, ela pode dizer o que tem a dizer. Um esforço infantil é afinar o espírito pela seriedade, pois a gata não esgoela à toa. Para não gastar suas cordas vocais com súplicas estúpidas, usa as patinhas até que portas sejam abertas.

No mundo das explicações: quem tanto quer agradar é quem acaba irritando; que valha a pena, quem quer ser entendido; é cativante quem faz ronronar os seus grilos da cuca.

Que gata cristalina: apresentar-se inteira à lua, que não é lua cheia, é lua nova; lua sem dragão nem guerreiro; lua que não precisa de uma biruta porque não é nenhum campo de aviação; lua é que nem chuveiro de quatro estações, pois gato que tem medo de água fria, tem também de água pelando, ela fique morna feito saliva; aliás, a lua fala ao gato que não seja lunático nem melancólico, seja lírico.

Soberba nos modos, a gata lambe as partes íntimas e dá no pé. Já o Blake que estava aberto, nesse deu eclipse.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de julho de 2023.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Aquele abraço

 

Aquele abraço

 

Tem feito frio. Tem chovido também.

Resolvi investigar, revelou-me o calendário: é inverno.

Nesta parte do país durante esta quadra do ano, inverno é estação seca, mas anda chovendo bastante. Quiçá por causa do El Niño.

Por culpa das águas do Pacífico, e porque tenho alma sentida, meu sentimento é que vou chorar. Mas nem lacrimejo.

Poderia imitar os azulejos de casa, tão lacrimejantes. Basta a friaca apertar pros rejuntes sangrarem o que não sentem. Se sentissem dor, cada lágrima escorrida não seria incolor nem escorrida.

Mas, nem soluçar eu soluço.

Não porque tenha domínio sobre mim, é porque a minha alma esfria pra fora, deixa enrugada a pele. Como se acabasse de ter saído de um rio, saído das águas gélidas de um rio, afinal é inverno.

Tem feito frio e chovido mais do que o normal, comovo-me. Porque a quebra da regularidade desarranja, sobressalta, faz pensar.

Comovido, não me arrepio. Quero-me calmo. Que o desassossego não denuncie minha agitação. Amanso-me, forço-me à mansidão, até me arrepio. Arrepiado, fico arredio. Olho para cima, busco o horizonte, faço o que for preciso pra fugir de abraços.

Um desconhecido vem vindo. Se não o conheço, não me constranjo a saudá-lo. Conto como desnecessária a comunicação entre nós.

Justo quem, sem mais, tasca-me um abraço apertado, com beijinho no rosto, como se esta demonstração de carinho tornasse evidente que o momento é para afetos que alegram.

Fico bobo com a minha falta de alegria.

O beijoqueiro fala. Diz que percebeu minha ânsia, que eu queria ser notado. Sentindo-me desconfortável no abraço, era óbvio que eu pedia um contato menos ligeiro. Por captar-me tão solitário, beijou-me.

Bestificado, continuo parado; calado, continuo perplexo.

O sujeito diz que sou mais um a ficar desnorteado com a gentileza, ou ela é rechaçada como agressão ou as pessoas a estranham, porém o problema não está no abraço.

Abraçadas por gente conhecida, tudo certo. Quando a circunstância é favorável, abraçar é positivo. Quando existe sofrimento, que o abraço as reconforte. Se as pessoas querem briga, basta abrir os braços.

ꟷ O senhor é expert em comportamento humano, hein?

ꟷ Nem tudo que é humano me interessa, sou só um demônio.

ꟷ Você foi obrigado a vir aprender as sutilezas da convivência?

ꟷ Aprendi alguma coisa. Se o abraço é honesto, sempre se espera algo em troca. Com a cobrança antecipada, o cínico exige presentinhos mais caros.

ꟷ Lá a vida não é igual?

ꟷ Sem qualquer questionamento, aplico a punição: as pessoas que não suportam abraços que sofram porque, pelo resto dos tempos, hei de prosseguir nos abraços.

ꟷ Por que, diabos, demônio exemplar terminaria aqui?

ꟷ Senhor, de tanto abraçar, passei a gostar. Só sei que o Momo do Inferno não gosta nadinha de quem goza dessa felicidade.

ꟷ Demônio achar de ser feliz no Brasil, que privilégio!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de julho de 2023.

terça-feira, 11 de julho de 2023

Terreno santo

 

Terreno santo

 

Naquela família, era o primeiro aniversário que se comemorava fora da casa, mas festa de criança que mais parecia velório?

Uma vez que a menina não sabia o que era velório, ela corria, dava gritinhos e, para que a mãe parasse de insistir que o fizesse, chegou a comer um sandubinha de patê de sardinha.

As primas e os primos de idade próxima da aniversariante também corriam, davam gritinhos, sem reparar na falta das coxinhas.

Sem reclamar que estava quente, o pai bebia tubaína.

Porque o colega mais interessante da classe tinha ido ao cinema, a irmã mais velha não achava graça em nada.

Satisfeitas por servir os convidados, as irmãs do meio eram gêmeas até na surdez que as impediam de ouvir queixas.

Ainda que houvesse descontentes, foi a esposa do irmão caçula do pai da aniversariante que fez aquela comparação, que a festa lembrava um velório.

Já que ninguém sequer choramingava, a pessoa velada talvez não tivesse tanta importância, quiçá fosse político ou advogado, essa gente conhecida cujo passamento ficasse registrado com uma selfie, alguém cujos comes e bebes tinham que ser miseráveis daquele jeito.

Com a festinha encaminhando-se pro ápice melancólico, que seria cortar o bolo com os presentes formalizando os parabéns, eis que veio um homem responsabilizar-se pela virada.

Ninguém o conhecia, mas era uma pessoa bacana, tão bacana que seria descortês se lhe recusassem o sorvete e o chope.

Com a gentileza de potes e mais potes, de colherada em colherada, até a criançada foi bastante genuína pra não deixar passar em brancas nuvens toda aquela gratidão:

ꟷ Aleluia, moço, aleluia!

Embora ninguém o conhecesse, o moço que não era mais tão moço seguiu servindo as três bolas generosas de sorvete porque as graças, sem ilusória modéstia, não deveriam ser dirigidas a ele.

Embora ninguém lhe soubesse o nome, uma vez que providenciara aqueles rapazes que sabiam mesmo tirar chope, o moço que não pedia louvores para si merecia realmente encômios de toda gente.

Quem não parava de cumprimentá-lo era o pai da menina que fazia sete anos. Das quatro, era a primeira filha a ter festa com convite. Quão misericordioso era o Pai Celestial por trazer ao quintal da sua casa um ser iluminado a ponto de proporcionar tal evento realmente muitíssimo inesquecível.

ꟷ Até fotógrafo profissional o senhor trouxe!

ꟷ Às vezes a memória falha, mas são as fotos que eternizam cada momento; garantiu a mãe da mãe da aniversariante.

Uma vez que a realidade não para de gerar maravilhas, muita gente nem se dá conta que a eternidade passa.

Passado um ano, na festinha da mesma menina aniversariante, por saber que um ano é tempo demais pra quem vive preocupado com os mesmíssimos problemas de todo dia, o sorriso confiante do benfeitor brilha nos santinhos que a equipe devidamente uniformizada distribui a mancheias.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de julho de 2023.

domingo, 9 de julho de 2023

Uma constipação cordial

 

Uma constipação cordial

 

Foi num nove de julho que nada tinha de especial, seria outra tarde de terça de tranquilidade, na faina que dava sempre o mesmo trabalho, repentino, porém, foi o temporal.

Tinha acabado de almoçar, estava sonolento; a ideia de correr não o empolgou. Poderia escorregar nos paralelepípedos se acelerasse na direção do escritório; acendeu o cachimbo.

Quando aborrecido, o reloginho da natureza era implacável: o nariz trancava, a barriga empedrava; travou ali mesmo, no passeio.

Uma vez que não estava disposto a incomodar ninguém, não entrou em loja alguma nem para evadir-se de si.

O toró caía, a rua alagava, as pessoas paravam, o trânsito não fluía; o mundo não o interessava, sequer o celular.

Parado, fumava. Para a mente trabalhar sem distrações, mantinha o olhar no horizonte. Só especulando pra entrar na cachola? Ajeitou a borboleta, aquela gravata era violeta por conta da Fiorentina, o time do pai, do avô, do galho da sua família nascida Médici.

Tudo ficou evidente: a mudança súbita era catiço de quem contava com que ficasse fora de si. Contudo não seria um maldito mandingueiro que o iria tirar do sério.

Pessoa cuja seriedade ficava bem de terno e gravata, matutou que, se as condições não indicavam a brusca alteração do tempo, poderia aproveitar o cachimbo, acompanhar o alagamento da rua, dispunha de um tempinho a mais para matutar sem culpa.

Que pensamento bom: sem culpa, sem remorso.

Não sentia remorso, uma vez que aquela circunstância era algo que o favorecia, isso, ‘ter mais tempo’, não significava que a hora deixava de passar, podia esquecê-la, podia suspender o cronológico, ignorá-lo que passava, ia passando, não parava de passar.

Gostando de continuar parado, fumando, pensando, isso o deixava tranquilo quanto à leitura do que acontecia.

Ler o mundo, ler a realidade, ler livros que sabiam de outras vidas, passadas, presentes e futuras, que davam a conhecer os mundos que existiram, existem, hão de vir à tona, até mundos imaginários, era isso que tanto o agradava e seduzia, punha-o esquecido de si.

No princípio não tinha verba, precisava trabalhar. E trabalhava para ter condições de ler. Além de comida e diversão, havia a autocrítica.

Se o almoço aconteceu, a chuva acontecia.

Pro Paulo Mendes Campos, “o que aconteceu já é eternidade”.

O que acontecia era o quê? Era obra da eternidade?

Sumidos no silêncio, acontecimentos viravam lama. Lembrados, os eventos relampejavam feito cacos. Na consciência, recordações eram o vaso restaurado.

De volta ao cachimbo, ao alagamento da rua, ao congestionamento, à chuva que não diminuía, de volta à gravatinha violeta, ao terno cinza, ele sabia que, naquele instante incomensurável, relógios não existiam, a Terra não rodava, o cosmos não pulsava, seu coração nunca fora de getulismos, ele era trabalhista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de julho de 2023.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

O rubi

 

O rubi

 

Ia passando como quem sabe que ninguém na fila da lotérica quer vê-lo pegá-la como se quisesse apostar; e essa gente que põe a inveja a faiscar pelos olhos é a mesma gente que equipara a fila quilométrica da lotérica a um cisco no universo; tal gente cai nesse cochilo que nem saca que o demônio a cutuca como quem só esbarra.

Ele ia passando, mas abriram o portão.

Com o portão aberto, dona fulana e um de seus fulaninhos estavam saindo, pediu um copo de água porque tinha sede, mas não precisava desesperadamente beber água, estava com a garganta pronta para ser molhada, amaciada um pouquinho, porque a gente, qualquer que seja essa gente, toda gente conhece alguém que sabe de uma pessoa que deixou de beber água por um tempo e pegou tosse de tanta secura nas cordas vocais e pariu uma ampulheta, que era tanta a areia que tossiu, desbragadamente tossiu porque tossia orgulhosamente.

Ele tossia, e ficou tossindo até que esqueceu o copo d’água.

E bebeu um gole, experimentou que gosto poderia ter aquela água; se fosse de fato água, saberia porque não sentiria gosto; mas aquela coisa que trouxeram tinha era gosto de limão e tinha cheiro de limão e, porque poderia muito bem ter sido coada, até a cor de suco de limão a coisa tinha: se tudo isso ela parecia ter é porque era realmente água.

Sentou-se na mureta. Balançava as pernas enquanto bebia o copo de água que demoraram uma eternidade pra lhe trazer, um desgraçado que não tinha sede como camelo no zoológico nem achava direito que o tratassem como camelo no circo quando tem espetáculo com o circo cheio, com os donos do circo com o baú cheio, porque todos os donos de circo têm o seu baú de carvalho, cuja chave está escondida no cabo da adaga que a mulher venera; quanto maior for a adoração, maior o brilho do olhar de quem cobiça mais que o rubi no cabo da adaga.

Acordaram o louco, e você diz que ele é um cara pacato.

Ele fala como se tudo fosse normal, como se os seus comentários não fossem disparatados, às vezes polêmicos, como daquela vez que o detiveram para que esclarecesse aquilo de dizer que todo mundo tem o direito de cometer um crime; pois se a lei existe é porque houve quem fez alguma coisa que não deveria ter feito; quando alguém faz alguma coisa chocante que esse alguém seja punido; e beltrano fique atento e saiba que será punido porque houve quem tivesse sido punido.

Sentado na mureta, ele não se acha maluco, nem quer que chamem quem venha convencê-lo a tomar a água que deram porque esperam que ele acredite em quem espalha que o córrego atrás da montanha é limpo; mas as mulheres sabem que a água daquele córrego é boa, se não fosse, não lavariam cuecas, calcinhas e tapa-olho de quem dorme com luz acesa mas cobre os olhos com essas vendas que pouca gente sabe quem são os sicranos que as costuram.

Vai, Zeca, fique sem tomar banho para ver até quando vai continuar agradando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de julho de 2023.

terça-feira, 4 de julho de 2023

A megera

 

A megera

 

Ruídos acordaram a mulher, que fora dormir assim que a luz elétrica caiu; com aquele aguaceiro, por óbvio, a força acabaria; e obviedades, por sinal, são inevitáveis.

Pra dormir, a mulher precisava de condições específicas, que fosse baixo o travesseiro e os roncos do marido mantivessem o ritmo.

Não se ofenda caso esteja passando por semelhante situação, pois a pessoa padecer de seguidas noites em claro por obra de terceiros é sofrimento; e a dor contínua amortece a sensibilidade; e a vítima acaba acostumada; em havendo resignação, mesmo que não haja deliberada condescendência, percebe-se em prazer involuntário.

Pasmado leitor, quem não dorme por amor é insone no paraíso.

Todavia, o sono da mulher foi interrompido por um barulho vindo de fora do quarto; disrítmico, era irritante; sem mensagem secreta alguma, era código indecifrável; se não alcançava decodificá-la, aquela era uma barafunda dos infernos.

Pilhada, ela deu com a filha no quintal.

Achando-se baterista, ela golpeava caixas de papelão com colheres de pau; eram baquetas, não precisava a mamãe gritar-lhe que parasse; o que fazia não era bagunça, aquilo era música.

E a mãe andava tiririca com aquela rebelde.

Se estudasse em vez de batucar, ela iria bem na escola. Não tirava notas mais altas porque vivia acelerada, pulando do celular pro tablete. Mal começava a ler a lição de casa e já ia jogar bola na rua.

A garota queria mesmo vê-la irritada.

Ela não poderia redundar contrariada, pois a língua passaria a jorrar bile tóxica, o chinelo desejaria sapecar nádegas e o tranquilizante mais eficaz era positivamente ir borboletear num shopping.

Que entrasse, fosse jogar no seu quarto, a menina obedecesse.

Com a obediente indo à sala para assistir ao jogo da seleção, o pai chega da rua exibindo um embrulho como se fosse um troféu.

ꟷ O presente é pra mim, papis?

Era, sim.

A menina tomou-o ao pai; ignorou o cartãozinho; rasgou o papel de presente como quem retira casca de banana; foi atirando as folhas de jornal amassado que recheavam a caixa: o presente era uma bola.

ꟷ Papis!

Ela sonhava ter uma bola, vivia pedindo que lhe dessem uma, como há lógica quando a esperança é atendida: teve a disparada do coração e o carreirão pro quintal.

Pra não machucar a bola, a felizarda passou a cabeceá-la.

Como aquilo ficou chato, achou de chutá-la contra a parede.

Batia com a parte interna do pé; dava bico; arriscava uma trivela; e tudo era felicidade, até quando errava uma chaleira.

Querendo-se uma senhora craque, a garotinha chutava com os dois pés e, vez ou outra, fazia a bola subir o tanto que precisava para matá-la no peito e soltar sem-pulos.

ꟷ Hora do almoço, amore.

Em vez de abrir o berreiro porque lhe foi tirado o doce mais doce, a menininha pulava e, a cada vez que as mãozinhas nem relavam a bola acima da cabeça, ela gritava um palavrão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de julho de 2023.

domingo, 2 de julho de 2023

Ouvidor

 

Ouvidor

 

Enquanto isso, enquanto continuar pisando a grama sem a arrancar para comer, longe dos parvos que, para cuidarem de si pelos outros, passam os olhos pelas folhas paridas pelas ruas, a pessoa que ignora a tabuleta sabe o que ela traz por escrito: proibido pisar na grama.

Deitando ao largo a parvidez, aquele homem postado a dois passos de uma sapucaia em flor é sujeito identificado pela cidade.

De modo geral, quando estão suficientemente perto para ignorá-lo, os locais costumam ficar divididos em três grandes grupos: há pessoas que não veem fantasmas mesmo que sussurros lambam os lóbulos de suas orelhas que incandescem devido a curtos-circuitos do que mal se reprime; embora não consigam vê-los, há cidadãos que se comunicam com espectros por meio dos murmúrios e grunhidos, porque o invisível existe ou anjos agora à solta continuariam engaiolados nas páginas de quem se autoajuda como livro aberto; e tem a turma que vivencia o que desconhece, sensibilizada feito filme antigo que conta com as químicas das salas de luz negra para que, de fato, algaravias e tatibitates tomem forma, com gramática e semântica compreensíveis.

Pra traduzir o que a cidade não diz, com os ouvidos livres de pios e cantochões, à sombra da sapucaia em flor no centro da praça no centro da localidade, ele não faz cera ao desentranhar tantos labirintos.

Por sua verve vívida de moralista sedicioso, a segregar decadentes de crepusculares, há poucos que não fogem dele assim que o avistam e, menos ainda, há os que não o desaforam tal qual a um vira-lata, com balbúrdia e pontapés.

E o dia ia bom, sem que namorados brigassem por um beijo a mais, até que lhe contaram que os enamorados cessaram os beijos, pois foi um menino quem começou aquela encrenca.

E foi uma estilingada certeira.

Que infelicidade do mundo quando o desgramado é um menino que mata com mamona um passarinho que jamais poderia ter-lhe feito algo de mal, a não ser que seu canto, de bicho mavioso, soasse por demais ofensivo, a ponto de enraivecê-lo para o tiro do estilingue.

Raiva de quê, criatura?

Menino não tem que sentir raiva, precisa brincar, porque é divertido ser criança. Quando brinca, a criança aprende a ser furibundo somente de mentirinha.

Brinquedo quebrado, menino, custa dinheiro repô-lo.

Criatura, aprenda que não tem que bancar o destruidor do que seja belo, do que tenha vida, como o passarinho atacado à toa.

Então ali está, pisando a grama a dois passos da sapucaia em flor, tão logo soube da morte, o camarada veio escutar pardais, bem-te-vis, andorinhas, veio escutar o que estivesse na árvore àquele instante no centro da praça.

Já que a tristeza não pode ser ignorada, aviva-se o lamento.

De repente, na sapucaia em flor, o canto de um joão-de-barro vence falatórios, buzinas, marteladas e brocas de dentista.

E o tal camarada deita na grama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de julho de 2023.

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Prosaico aperitivo

 

Prosaico aperitivo

 

Domingo é para sentar sossegado, balançar na varanda, bebericar um suco, ouvir o canto dos passarinhos, sintonizar-se com a brisa que farfalha folhas. Domingo é para ignorar latidos, miados e ramerrames. Domingo é para caminhar pela cidade sem que seja preciso ir a algum lugar. Domingo é bom para zanzar até que o corpo diga o momento de voltar. Domingo é dia de errar sem ter perdido a melhor parte. Domingo é esquecer-se de olhos fechados, de suco à mão, no doce balanço de quem não escolhe, apenas intui que o melhor a fazer é não fazer nada. Contudo, que não seja de segunda o que for do domingo.

O telefone toca; o Luisinho diz que está vindo.

Chegando com uma travessa de maionese, Dona Cremilda diz que o Luisinho avisou que o almoço vai ser na minha casa.

Nem temos tempo de comentar o tempo, nisso quem entra em cena é o Aristeu, convidado por dona Cremilda, pra quem almoço sem violão é macarronada sem parmesão, passável porque insossa.

À espera do Luisinho, vamos pra cozinha.

Pitando esquecido do cigarrinho, Aristeu vai dedilhando o que acha mais apropriado a este domingo sem latidos, miados e motocicletas de escapamento estrepitoso.

Dá-nos Noel, Cartola, Caymmi e Jobim.

ꟷ Cadê a Dolores Duran?

E Aristeu capricha: Por causa de você e Estrada do Sol.

Dona Cremilda veste um dos aventais que pouco uso. Ao vê-lo fora do armário, reconheço a graça de tê-lo comprado. Como senhorzinho careca, creio que fica bem em mim a precisão da Mafalda: “Não estou descabelada, meus cabelos é que têm liberdade de expressão”.

Luisinho chega, põe na mesa o frango assado e, mesmo que esteja babando na rede, que pronto o chamem pra fazer a caipirinha.

Dona Cremilda, Aristeu e eu estamos de acordo: o preço de quase tudo está alto, bem alto; o dragão que achávamos extinto está de volta, nem dá mais pra fazer o mercado com menos de cem.

ꟷ Coitado de quem precisa viver de salário-mínimo.

ꟷ Tem que fazer mágica.

ꟷ Mágica é truque; no truque, o mais fraco não tem chance.

ꟷ Quando a chance aparece, o pobre bica pra longe.

ꟷ Pobre não desperdiça nem faz pouco caso, isso é coisa de quem bate o escanteio e corre cabecear.

ꟷ Cadê o centroavante matador que não amarele na área?

ꟷ Pois é, cadê?

ꟷ Gente, domingo fica ótimo se a gente não se lembra da feira, dos políticos e dos boletos de farmácia e padaria.

ꟷ Bom seria a gente não surtar com boataria.

ꟷ Não perco um minuto com minuta do golpe.

ꟷ Pois eu viro num gole quando a cachacinha é de primeira ꟷ caído da rede, com jeito de quem poderia morgar a tarde inteirinha, adorando a carapuça de palhaço, o Luisinho entra na roda.

ꟷ Política não é apenas palhaçada, Luisinho.

ꟷ Dona Cremilda, nem circo é pra amador.

Sem prever esse presente, vamos combinar!, o franguinho assado, a maionese caseira, o papo-furado, A Noite do Meu Bem, putisgrila!, esse nosso almoço promete ser mesmo memorável.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de junho de 2023.

terça-feira, 27 de junho de 2023

Sem novidade

 

Sem novidade

 

Que eu vá acertar o valor do serviço feito, ligam do escritório. Tudo bem, irei depois do almoço. Ainda que eu lembre o combinado, cobram a mais. Por quê? Porque não enviei os recibos médicos, odontológicos e psiquiátricos. Aviso que passarei no banco, informo que pagarei em dinheiro, estou muito agradecido por justificarem o valor majorado que terei de pagar. O que não escapa do pensamento é um comentário que a mim mesmo me rebaixaria, mas, educados, despedimo-nos.

Contrariam-me, silenciam-me.

Ainda que ranja os dentes e mordisque os lábios, o emudecimento é recurso a quem se exalta com impertinências. Se é para ter mais uma discussão estúpida, agastar-se é uma das fraquezas menores.

Posto que ajo sabendo que não tenho poder bastante que faça valer o que penso, desejo, o que espero que aceitem como verdadeiramente justa a razão sobre o que esteja em discussão, eu dou como irracional quem ousa me contrariar.

Por não depreciar o bem que uma afronta quase sempre produz em mim, valorizo o que evidencia meu desajuste momentâneo, o riso.

Não sou o mesmo de quando saí de casa, porque, a quatro passos da porta que chaveei, elevaram a pressão:

ꟷ Quer comprar bombom?

Compraria se gostasse ou se estivesse disposto a ajudar.

ꟷ Tenha coração, é por uma boa causa.

Ainda que falte depois, é fraterno gastar sem medir o quanto?

Eu até tendia à colaboração espontânea, mas a insistência chateou tanto que não dei bola para a caixinha a cinco reais, um terço do preço cobrado em supermercado.

Não sou a pessoa que eu era antes de assistir ao noticiário, menos ainda depois dessa aporrinhação à saída da minha casa.

ꟷ Quer comprar capinha de celular?

Abordaram-me à entrada do contador, mas a minha situação era a mesmíssima de quando eu rejeitara a pechincha dos bombons.

ꟷ Não tenho celular.

ꟷ Tá tirando comigo, é?

ꟷ É verdade. Eu não tenho celular desde que fui assaltado.

ꟷ Roubaram, é?

ꟷ Se não tivessem levado meu relógio, diria que me assaltaram faz quinze minutos.

ꟷ Pensa que sou trouxa pra entrar nessa roubada?

Com a cabeça no travesseiro, quieto no quarto escuro, no momento de minimizar aflições, foi quando percebi que estava certo de que nada havia de errado comigo.

Sorrindo sozinho, meio dormindo, não estranhei a naturalidade com que rememorei o que eu ouvi na farmácia:

ꟷ Vovô Vivaldi, velhice pega ou só dá em velho?

Como Vovô Vivaldi nunca foi de varejar vivaldinos:

ꟷ Nelsinho, meu querido, seja um bom netinho e compre capinhas, bombons e bilhetes de loteria quando tiver o seu dinheiro.

Com a vivacidade dos dadivosos, virei sorrir, pois Vovô Vivaldi não era mais um mão-de-vaca, era mesmo um mestre.

Vovô Vivaldi, se nos carnavais da vida entrasse nas vestes de pirata da perna de pau, não me ratificaria nesse olho de vidro que não revela as maravilhas encruadas em quase tudo que a rua tem oferecido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de junho de 2023.

domingo, 25 de junho de 2023

O garboso Joaquim

 

O garboso Joaquim

 

Cientistas que se deslumbram com o admirável da natureza, ainda que compusessem redondilhas sobre o quão maravilhoso é entender-se consigo, porquanto pessoa sob o fluxo de desencantado lirismo que o cosmos carreia, por sentirem na mente a serenidade das marés, tais cientistas dispensam-se de explicar o poderio merencório da lua.

Pescadores, por sua vez, nem jogam minhoca fora nem buscam os porquês de certos cardumes pulularem de fase a outra, eles se dão por satisfeitos porque, ainda que manuseiem uma solitária vara, o coração, são amadores natos que amam o luar que os fisga.

Tarimbados, a turma da ciência e o pessoal do caniço não mordem a isca de quem torna difícil de acreditar em história contada como se o naturalmente maravilhoso fizesse verossímil a tilápia multiplicada entre o pigarro minguante e a cheia da tosse.

Todavia, os lunáticos confiam na auréola da lua, pois essa novidade sinaliza que o calor humano escapa da Terra mesmo nas madrugadas vazias, que o amor pode entusiasmar até mesmo as mentes distraídas, que o dragão de labaredas ceifadoras há milênios está de guarda pelo mais cavalheiro dos funâmbulos.

Corda bamba enamorada, por que se encanta a lua das eras?

Na rede do destino, o amor de Greta Garbo por Joaquim.

A atriz Greta por quem, Joaquim?

Cantam antiquíssimos alfarrábios que Joaquim nascera príncipe às margens do Ganges, mas, com obscuridades, um repentino sol brilhou às pessoas para que não pudessem mais cortejá-lo.

No lugar do adorável príncipe, embora passiva na suavidade da sua mansidão, viam a uma fera; ao paquiderme, temiam à besta o que eles não viam: transfigurada pela quimera, aquela alma desfortunada.

Joaquim, o príncipe, nesse elefante? Nesse, e neste.

Tal atração que o circo trouxe e expôs, subsumiu-se em cena.

Porque a natureza tem leis que os próprios legisladores hão de tê-las como suas, Joaquim ganhou o picadeiro, recebeu aplausos, causou arrepios, alvoroçou sensibilidades e magoou meninices, foi a fera que por ela houve rotundas paixões, tão abissais desejos.

Naquela noite de trovões e relâmpagos, no dia 24 de junho de 1947, no centro do Circo-Teatro Sonhos do Mundo, montado atrás da Matriz de São Francisco do Belo Monte, foi então que Greta Garbo parou de cantar Lili Marlene.

Frente a frente com Joaquim, o astro majestático que atendia dócil aos comandos de uma exibida amazona equilibrista, foi que a Esfinge Melancólica acabou petrificada.

Vendo-a terrificada, apaixonada pelo bicho de alma de príncipe, foi então que Marlene Dietrich, não a Cigana Feiticeira mas a pajem, tirou da ribalta a Greta alumbrada, outro Mito Mudo.

Quiçá possam contestar a patacoada, já que o bom pressentimento diz que emendar soneto ruim não faz melhor ao poeta mixuruca, tolere-se: o dito não passa de outra pérola extraordinária.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de junho de 2023.

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Redemunho

 

Redemunho

 

O barulho veio de fora; fui ao quintal. Olhei que olhei; sem nada que assombrasse, dei meia-volta. Com a mão na maçaneta, o pé-de-vento varreu de minhas expectativas a inocência do curioso: era chuva o que vinha, era a entrada de outra frente fria, a que trazia chuva.

Ainda que o tempo contasse a ladainha de temporal anunciando-se por rajadas súbitas, nenhuma vaca passou por sobre casas e nenhuns namorados largaram dos beijos pro espanto de ter uma vaca mugindo alucinada em sobrevoo pelos telhados familiares.

Nas cercanias de jardins bem podados, dado o fim do mistério, que a ventania, natural, pressupunha que alguma coisa caíra pela sua força à passagem, folguei em beber vinho, esticar as pernas, não me escorar em almofadas: melhor, a leitura era-me oásis cativante.

Outra vez houve ruídos; dos vários seguidos, destacou-se um. Uma vez estrondoso, e grave, foi o que alarmou o pavor; tal acontecido deu-se dentro, e perto, foi algo diverso do rangido dos dentes.

O saci que vira em um cisco não haveria de ser quem testemunhasse a meu favor. Tornado corajoso, compreendi que eu mesmo era quem, pé ante pé, averiguaria a origem do ocorrido.

Pois então, mesmo cismado, lá fui eu.

E dei com gatos.

Vi a janela pela qual os dois entraram, corridos pela chuva. Lembrei-me do vidro espatifado que derrubara à tarde. A janela escancarada, porque já esvaecido o cheiro de álcool, fechei-a. Os cacos, no chão da despensa, que ali eles restassem pro dia seguinte. A dupla, ela correra para longe do meu alívio, que nenhum E.T. viera abrigar-se na mesma residência em que ambos nos encontrávamos, os bichanos assustados e eu aflito, porque me acutilavam intuições sobre o ouvido.

Minha mente não esquece, nem de repente, o que me atormenta.

Como não dormia, apelei aos barbitúricos; passava de uma da tarde quando fui acordado por uma sede danada.

Já que a luz me feria nas retinas, e para não dar na cara, pus óculos escuros de lentes espelhadas e fui ao bar.

E fui penhorado desse mantra: 1, 2, 3, fico melhor a cada vez.

E pedi o meu refri: 1, 2, 3, estou de bode, Marinês.

Me sentei e informaram-me que houve uma briga no bar; foram dois chapas conhecidos que vieram, beberam, jogaram dardo e resolveram que a desordem começaria por uma coisa qualquer, até banal.

Quem primeiro testemunhou o que houve na noite de ontem foi um barbudão com uma tatuagem de uma risonha caveira fumando charuto no bombado tríceps esquerdo.

Ele disse que a briga foi por causa de umas fotos que não deveriam estar no celular de quem as exibiu mesmo sabendo que a pancadaria começaria tão logo elas fossem vistas.

Outra testemunha refutou o barrigudo tatuado, porque, nesta outra versão, o quebra-quebra só ficou perigosamente descontrolado assim que o dono do bar reconheceu a filha de treze anos naquelas poses.

ꟷ 1, 2, 3, me exclua dessa, Marinês.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de junho de 2023.

terça-feira, 20 de junho de 2023

A fila anda

 

A fila anda

 

Estou com sono. Mas não vou, não quero, não posso dormir em pé, em público. Com todo mundo olhando, além de muito me desagradar, é patético. Além de patético, é ridículo babar com todo mundo olhando.

A caçoarem de mim, todos sorrindo, rindo, indo.

Só eu é que não vou. Eu cochilo, toscanejo, ronco e babo.

Estou com sono, mas não cochilarei sentado, seja num ônibus, seja esperando ser chamado pra consulta. Prefiro, preciso, quero muito não ser pego pelo sono, seja sentado, em pé ou em público.

Faz tempo, na adolescência, eu aprendi que bobear é acordar com o rosto pintado. Tornado um arremedo de palhaço, eu aprendi que não se deve cochilar em qualquer canto. Porque há lugares melhores para roncar sem medo, sem temer a fanfarrice alheia.

Tenho onde dormir, tenho casa.

O sofá já está moldado, a forma do meu corpo deformou-o, que nele me assento como mamão com açúcar. É mesmo uma delícia cochilar sem que me olhem, tenham pena, não queiram me acordar pra que eu dê vexame, babe, que, ao respirar, eu ronque feito leitoa.

Estou com sono, e cansado. Mas não o bastante, tanto que continuo sentado no sofá. Não estou esgotado, tanto que não me deito, não vou me deitar na cama.

Estou com sono, cansado, mas me decido: como não tem problema deitar no sofá, tirar uma pestana, eu pego um livro, o primeiro da pilha, e retorno à leitura pela página que está marcada.

Que coisa boa. A opção pela leitura mostra que escolhi bem: o sono me abandona a pouco e pouco, o cansaço se dissipa a cada página, o sofá não é mais um incômodo, tanto que penso, repenso, recompensa-me pensar e repensar: não perco tempo achando que sou um bobalhão que baba a qualquer tempo, a qualquer lado.

Tenho contas para pagar, irei pagá-las. Tenho coisas para comprar, comprá-las-ei. Quando não tenho tempo para ler, faço que sim.

Vou lendo, sigo lendo, tanto aprecio que eu nem vejo: estou comigo, suspenso em mim, viajo a céu aberto, vou a pé, vou em velocidade de santo de barro, ando devagar e caminho tranquilo, vou pisando o chão da rua, pisando a calçada, sentindo pedras, pedrinhas e pedregulhos; sem prestar conta do que sinto: estou no mundo, sou o mundo.

Já que muito me entretém, não largo do livro nem me quero livre do gosto que me dá a leitura: com espírito entretido, cativado de contente, entro na fila que tenho, posso, escolho eu para entrá-la.

Umedeço a ponta do indicador que nem percebo, na gostosura que é ir lendo sem que me aborreça do entorno.

Reflito aos sussurros; vou na vazão dos pensamentos que nem ligo que me ajuízem atormentado da ideia.

Muito empolgado, eu encaro que nem vejo quem encaro.

E o encarado diz que sou o seguinte a dar um passo adiante.

Como não adianta nada, que a fila ande o que tenha para andar, eu sigo lento, ajustado, sigo feliz: o próximo que vem atrás, que ele passe.

Dar lugar, pois sim? A vida é curta para não ser solidário.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de junho de 2023.

domingo, 18 de junho de 2023

Assombroso

 

Assombroso

 

Se era pra perder dinheiro, aquele homem tinha sorte.

Devoto de Judas Tadeu, agradecia ao santo por cada real que tinha o privilégio de desperdiçar ou as suas orações seriam vazias. Para que os centavos fossem repostos, era preciso malbaratá-los.

Como não era de esperar a banda passar, corria atrás do prejuízo.

Porque assumiu a missão de tocar pessoalmente o lava-rápido, que funcionava, sem pausa para o almoço, das oito às cinco de sábados e domingos, contava que o boca a boca tornasse popular a sua empresa, que foi à falência somente um mês depois de aberta.

Tal lição foi aprendida: a vantagem de ser empregado é não ter que arrancar os cabelos quando falta grana para cobrir despesas, o patrão que se vire pra honrar o salário depois do mês trabalhado.

Embora falido, estava pronto pro vindouro sucesso.

Pra maior alegria pessoal na superação dos fracassos, pela dor de ter falhas, sem medo da felicidade coletiva que há de vir, saber-se qual legítimo agente para mudanças ꟷ tal tentação é tabu.

Precaver-se dos próprios impulsos?

Saber o que a vida ensina é estar consciente de que o aprendizado é mesmo para valer quando a pessoa não mente apenas para angariar vantagens a todo momento; só nas circunstâncias em que o saldo será positivo é que escamotear o negativo não será fingimento vão.

Motivar-se pro futuro? Espelhar-se em famigerados sortudos.

Como não era de lamuriar-se de trabalhar pra não passar fome, ele não jogaria fora a graninha contada porque há sempre uma lotérica na esquina mais próxima das suas ansiedades.

Sem bufunfa sobrando, só apostar quando a dobra é certa?

De fato, invejável é quem remedia a pobreza acertando no bicho, uma vez que é quem vai de ônibus e volta em carro elétrico.

Há de ver que ultimamente estava bem mais sensível aos anúncios de que bastava jogar para ganhar. Ora, o que ganhasse com facilidade, perderia facilmente. Quanto maior fosse a fortuna, maior o valor de se entregar ao fiasco.

Aceitou que o orientassem. Havia dezena, centena e milhar. Jogou cem, ganhou duzentos. Apostou no milhar, dobrou o mil apostado.

Que fazer com a experiência adquirida?

Quando menino, sonhara alto, sonhara com a Europa.

“Quero passar um mês jogando. Irei de cassino em cassino. E tudo o que ganhar, eu hei de perdê-lo”.

A Mega da Virada? Melhor evitá-la. E máquinas caça-níqueis? Isso.

Jogar nas maquininhas, isso o atraiu aos botecos mais fuleiros.

Jogar discretamente, isso o limitou a tirar mil reais por máquina.

Jogar anonimamente, pelos mil reais, isso o fez jogar apenas uma vez por semana em cada máquina.

Sem que ninguém jurasse, juntou um milhão de reais.

Pronto, foi à Europa. Ganhou aqui, ali, acolá. Chegou ao milhão de euros. Dobrou-o? Pois, ousou triplicá-lo.

Fez a festa na Europa toda? No Mediterrâneo.

Casou-se com a crazy crupiê do primeiro cruzeiro? Bingo!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de junho de 2023.