Lua
nova
Se fosse para colocar em uma frase de
impacto o pensamento que às vezes me seduz a fazê-lo, eu parodiaria o slogan de
um conhecido canal de notícias da TV: a realidade nunca vacila.
Como não pretendo vacilar, eu leio o
mais que posso.
A leitura pede concentração. Pode o
mundo cair feito jaca na minha cabeça, mas não sou muito newtoniano pra
assimilar o golpe como um convite à gravidade da lógica. Descontando o galo, eu
gracejo que não sou devoto febril da razão. Mantenho o foco. Eu olho até que
vejo; vejo até que enxergo: letras viram palavras viram ideias; se eu consigo
não somente manter esse fluxo quanto ainda me compreender nele, o livro são
páginas e cada página é uma janela.
Quando me entendo comigo, abro-a e vou
pelo livro afora.
Pego o caminho e afeiçoo-me à caminhada.
Acolhido pela poltrona, bato perna pro Eldorado, bato asas pra Laputa, mergulho
até Atlântida, não saio do lugar no qual não paro. Não me castiga ser andarilho.
Não me perco, eu ganho o mundo.
Todo livro é um mundo. Há mapas e tesouros.
Há céus e cavernas. Pode ter céu astrológico com previsões de um dia mais
afeito aos meus desejos de estrela cadente. Pode ser que haja cães de três
cabeças a destroçar almas bisbilhoteiras. Há em mim águas de memória e águas de
desmemória, beberico-as, saciam-me, mas tenho muitas sedes.
Todo mundo é uma vida contada como der:
do começo pro fim, do meio pro começo, do fim pro começo, do meio pro fim.
Alegremente radical, palpito feito outro
Spinoza cartesiano: cáspite!, o melhor meio de chegar ao fim é começar pelo fim.
Aí pelas tantas, reinicio: largo o
livro, abro a janela e verifico o que está acontecendo: por que você não para
de miar?
Como eu não entendo a gata,
interpreto-a.
Como não precisa se justificar, ela
estava miando para que alguém viesse ouvi-la. Esse alguém fui eu, que nem
preciso aprovar tudo o que ela diz, só tenho que respeitá-la com meu silêncio.
Porque não precisa mais chamar a atenção
sobre si, ela pode dizer o que tem a dizer. Um esforço infantil é afinar o
espírito pela seriedade, pois a gata não esgoela à toa. Para não gastar suas
cordas vocais com súplicas estúpidas, usa as patinhas até que portas sejam
abertas.
No mundo das explicações: quem tanto
quer agradar é quem acaba irritando; que valha a pena, quem quer ser entendido;
é cativante quem faz ronronar os seus grilos da cuca.
Que gata cristalina: apresentar-se
inteira à lua, que não é lua cheia, é lua nova; lua sem dragão nem guerreiro;
lua que não precisa de uma biruta porque não é nenhum campo de aviação; lua é
que nem chuveiro de quatro estações, pois gato que tem medo de água fria, tem também
de água pelando, ela fique morna feito saliva; aliás, a lua fala ao gato que
não seja lunático nem melancólico, seja lírico.
Soberba nos modos, a gata lambe as
partes íntimas e dá no pé. Já o Blake que estava aberto, nesse deu eclipse.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 16 de julho de 2023.
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