Verdadeira
recíproca
Ainda criançolas de chupeta, o mais
inocente só mentia se percebia vantagens. A diversão alegrava pra valer quando
a mentira era contada como história inacreditável. Porque nunca foram de bobear,
os irmãos sempre foram vistos como indomavelmente criativos.
Depois de décadas experimentando emocionar,
contentar, indignar, revoltar ou assustar, os dois induziam audiências aos
sentimentos que tanto almejavam produzir. E as palmas eram inevitáveis.
Mas a história mais impressionante quem
contou foi Atanagildo.
Era noite de nevoeiro. Os sapos não
coaxavam. Ninguém zanzava nas ruas. Até os fantasmas não murmuravam junto às
janelas. Não era inverno, mas a alma da gente concebia que fosse.
Numa noite mesmo invernal, daquelas de arrepiar
os pelos da nuca, o bom seria ir bebericando um bule de café, não ligar a TV
pra não ser assombrado pelo mundo dos vivos e, depois de discar um número ao
acaso, avisar que as rádios acabaram de noticiar que o fim dos tempos não começaria
às onze horas, cinquenta e nove minutos e cinquenta e nove segundos mas,
precisamente, no instante seguinte.
Certo, meia-noite é o marco zero de
muitas histórias, principalmente daquelas que não conhecem o esquecimento,
particularmente porque, de geração em geração, revelam verdades que vêm do
sono.
Quando o medo filtra cada palavra da
história narrada, quem escuta pensa ter ouvido a voz do princípio das eras. E o
abismo do tempo vem à tona, pois o fundo foi revolvido. Quem mergulha no poço
traz a pérola que haverá de adornar o colo dos corajosos, que esses não se
fecham ao que veem, embora temam de olhos abertos.
Há muito, quando beijos cheiravam a
cigarro e porcos tinham asas, depois de um dia cansativo no banco, foi numa noite
de densa cerração que Atanagildo achou o táxi que o levaria para casa.
Outros dias vieram e outros cansaços
foram vividos, Atanagildo mal lembrava o dia em que o destino trouxe-lhe aquele
taxista, que era seu conhecido havia mais de meio século.
Falaram aquele nome; Atanagildo
recordou-se do socorro prestado pelo fulano.
Quando foi? Terá sido naquele ano? Não
haveria engano?
Contaram que o dito fulano havia morrido
um ano antes. Contaram que o táxi foi incendiado numa estradinha. Acreditaram
de verdade que pudesse ter dormido naquele táxi queimado com o motorista morto
ao volante, porque ninguém duvidaria da palavra de quem sempre soube colocar
verdade em tudo que contava.
O irmão falou. As pessoas falaram. E
Astrogildo ouviu-os.
Se todo mundo estava impressionado,
Astrogildo achou que o certo era contar que, bebendo café à janela de casa, foi
quando um raio caiu na figueira da praça.
Como a noite virou dia, Astrogildo viu bem
o táxi, ouviu melhor ainda o nome da pessoa a quem o taxista deu boa-noite,
pois, à vera, o fulano morto falou “Atanagildo” com todas as letras.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de julho de 2023.
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