terça-feira, 18 de julho de 2023

Verdadeira recíproca

 

Verdadeira recíproca

 

Ainda criançolas de chupeta, o mais inocente só mentia se percebia vantagens. A diversão alegrava pra valer quando a mentira era contada como história inacreditável. Porque nunca foram de bobear, os irmãos sempre foram vistos como indomavelmente criativos.

Depois de décadas experimentando emocionar, contentar, indignar, revoltar ou assustar, os dois induziam audiências aos sentimentos que tanto almejavam produzir. E as palmas eram inevitáveis.

Mas a história mais impressionante quem contou foi Atanagildo.

Era noite de nevoeiro. Os sapos não coaxavam. Ninguém zanzava nas ruas. Até os fantasmas não murmuravam junto às janelas. Não era inverno, mas a alma da gente concebia que fosse.

Numa noite mesmo invernal, daquelas de arrepiar os pelos da nuca, o bom seria ir bebericando um bule de café, não ligar a TV pra não ser assombrado pelo mundo dos vivos e, depois de discar um número ao acaso, avisar que as rádios acabaram de noticiar que o fim dos tempos não começaria às onze horas, cinquenta e nove minutos e cinquenta e nove segundos mas, precisamente, no instante seguinte.

Certo, meia-noite é o marco zero de muitas histórias, principalmente daquelas que não conhecem o esquecimento, particularmente porque, de geração em geração, revelam verdades que vêm do sono.

Quando o medo filtra cada palavra da história narrada, quem escuta pensa ter ouvido a voz do princípio das eras. E o abismo do tempo vem à tona, pois o fundo foi revolvido. Quem mergulha no poço traz a pérola que haverá de adornar o colo dos corajosos, que esses não se fecham ao que veem, embora temam de olhos abertos.

Há muito, quando beijos cheiravam a cigarro e porcos tinham asas, depois de um dia cansativo no banco, foi numa noite de densa cerração que Atanagildo achou o táxi que o levaria para casa.

Outros dias vieram e outros cansaços foram vividos, Atanagildo mal lembrava o dia em que o destino trouxe-lhe aquele taxista, que era seu conhecido havia mais de meio século.

Falaram aquele nome; Atanagildo recordou-se do socorro prestado pelo fulano.

Quando foi? Terá sido naquele ano? Não haveria engano?

Contaram que o dito fulano havia morrido um ano antes. Contaram que o táxi foi incendiado numa estradinha. Acreditaram de verdade que pudesse ter dormido naquele táxi queimado com o motorista morto ao volante, porque ninguém duvidaria da palavra de quem sempre soube colocar verdade em tudo que contava.

O irmão falou. As pessoas falaram. E Astrogildo ouviu-os.

Se todo mundo estava impressionado, Astrogildo achou que o certo era contar que, bebendo café à janela de casa, foi quando um raio caiu na figueira da praça.

Como a noite virou dia, Astrogildo viu bem o táxi, ouviu melhor ainda o nome da pessoa a quem o taxista deu boa-noite, pois, à vera, o fulano morto falou “Atanagildo” com todas as letras.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de julho de 2023.

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