O
sogro
Livre da chateação de querer-se
perfeita, pessoa interessante que revela o que é capaz não pela felicidade que
possa alcançar, mas pelo que compreende de si ao entender-se com as coisas do
mundo, à flor da pele, Dona Cremilda faz-se brisa.
Sobrevivendo ao sufoco do tempo
rarefeito, não se dispensa de ver na folhinha que encargos terá no domingo: tem
anotado um churrasco de aniversário pra ir. Só depois do meio-dia, irá.
Com uma elegância sutil, chega sem
fanfarras, senta-se ao lado de quem não está cativado pelo celular. Conversa
amenidades, distrai-se, sorri de vez em quando. Com meninas e meninos que
brincam com os cachorros, diverte-se. Bebe suco, come quibe. Com a barra do
vestido suja de barro, sem temer um tombo nesta terra, corre com os cães.
Pelas cervejinhas a mais, a
aniversariante inventou de contar:
Precisamos que chovia e a chuva havida
foi a dádiva ansiosamente pedida e nossa súplica atendida caiu madrugada
adentro e madrugada afora, tanto que houvemos por bem que chorássemos e
emocionados choramos. Por nossa gratidão, por sermos ouvidos pelas nuvens, pela
água das nuvens, pela terra que acolheu a chuva, recolheu fecunda a água da madrugada,
o que nos encheu de alegria, convictos de sermos abençoados. Pessoas íntegras, inteiramente
humanos, que somos nós de corpo e alma, tanto que choramos e suplicamos, seres penhorados
de gratidão, fomos dormir e dormimos. Não sonhamos pesadelos com a morte pela
água nem com a carência d’água no chão, tanto choramos de contentamento que
fomos dormir e dormimos. E apenas dormimos, exauridos por dentro e extenuados
por fora, pois éramos os cansados. Agradecemos, e então, dormimos. Vivas!
Foi quando o bêbado entrevado na
sabedoria de seus fios cofiados, foi então que levou Dona Cremilda a recordá-lo
sábio justamente pelo imponderado, pessoa impulsiva, mente embebida no
conhecimento do mundo pela pele que sente, um ser humano belo, estúpido,
patético e emocionado, que se deixa emocionar pelo que conhece ao sentir-se à tona
do mundo, entregue à vida no instante:
ꟷ Vou buscar pastel. Quem vai querer?
Foi quando a irmã da aniversariante apareceu:
ꟷ Vai comprar ali na esquina?
ꟷ Vou, sim. Eu vi o carrinho ali na
esquina.
ꟷ Traz pra mim um pastel de vento.
ꟷ É sério que não leva nada a sério?
ꟷ Não faço piada. Achei cinco reais, e é
só o que eu tenho. E pastel de vento custa justo cinco reais, colega.
Dona Cremilda comia um coraçãozinho
quando lhe contaram que o pai do marido da aniversariante chegara bêbado, que
chegou tomando uma latinha, falava a língua engrolada dos bêbados, achando
graça de arrotar a cada gole, que ele estava mesmo se julgando em casa.
Gente que não menospreza a felicidade alheia,
quiçá para criticar a alegria desmesurada, Dona Cremilda deu àquele sogro solto
no vento a latinha que deram a ela, a ainda abstêmia.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de junho de 2023.