quinta-feira, 18 de maio de 2023

O foco

 

O foco

 

A apresentação dos eventos pode ser dada com o realismo do osso, que é o que dispõe ereta a cerviz, no epicentro do que é dito: na manhã de outono dessa cidade: à sombra, o friozinho; vinte graus ao sol.

Qual é a versão da mulher sobre o que teria feito?

Ela não punha em dúvida de que chegara a tempo. Embora o último sinal tivesse sido tocado, era imperativo que o seu filho entrasse.

Para que não acabasse atrasada pro trabalho, ela pediu ao inspetor que fosse permitida a entrada imediata do seu menino.

Ela insistiu pra que lhe dessem a permissão pra correr à sala porque haveria prova e seria uma injustiça o seu filho ficar com zero por causa daqueles cinco minutos.

Achando-se convincente, a mulher narrou que: houve um problema com o despertador, que não tocou na hora; houve um problema com o gás, cujo botijão achou de esvaziar bem na hora de ferver a água a ser usada para fazer o café; houve um problema com a partida elétrica do carro, justo no instante em que acabou ciente, pelos dígitos do celular, que avançaram os atrasos: dela pro trabalho, do filho pruma prova.

Certa de que estava no direito de apontar terceiros como culpados, a mulher disse que o problema não fora agravado por ela, uma vez que a sirene tocou antes do horário. Sem dúvida! Seu menino tinha o dever de fazer a prova, mas ninguém podia sacanear com ambos: o seu filho nunca faltava, nem mesmo tossindo; e ela jamais admitiria ser vista no papel de vítima, ainda mais num processo tão abjeto.

Contudo, o inspetor de alunos disse que: o relógio da escola estava certo; o portão foi fechado no momento certo; a mulher estava certa ao reclamar como um direito de seu filho tirar nota maior do que zero, mas qualquer valor acima de zero era dever do professor não atribuí-lo, nem a um aluno cujo atraso do dia de ontem deu-se porque o seu cachorro teve de ser levado às pressas a uma clínica, nem ao citado aluno que, realmente febril e mesmo tossindo, veio ao dia de prova, veio, portanto, para confirmar por atos seu envolvimento pessoal com o futuro, como cidadão que conhece e preza os preceitos da Constituição Federal, um dos quais assegura que todo mundo é igual perante a Lei.

Por deferência às regras, o funcionário disse que a mulher atrasada responsabilizava-se pela acusação de que o relógio da escola estaria adiantado em cinco minutos, mas que só responderia verbalmente pela dita acusação porque teria mesmo de passar pela leitura biométrica da sua chegada ao posto de trabalho, sofrendo desconto do ordenado de acordo com o tempo de atraso.

Para maior credulidade, desloquemos o nosso olhar para a porta de entrada dos alunos que estão atrasados, pois aí o encontramos: assim como consultava as suas redes trinta minutos antes da saída de casa, o carinha nem dá pelota pros vinte graus Celsius, bacana é o Papa do Casacão atendendo o telefone lá no Vaticano.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de maio de 2023.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Censura livre

 

Censura livre

 

Abro a porta e Dona Cremilda, “este presidente não me representa”, chega de zap aberto pra mostrar que o meme inteligente, que debocha no ponto justo, fala por ela.

Tenho paciência, mas paciência não é condescendência. Peço-lhe que diga por quais razões a imagem merece aprovação e publicidade. Faço-o, não por ter achado o meme, que associa uma pessoa de roupa laranja com a marca de certo refrigerante laranja, uma piada fácil, faço-o, pois cabe à Dona Cremilda falar o que pensa.

Ao vê-la contrariada, cujo semblante diz que pessoa inteligente não precisa que lhe expliquem a sacada de uma piada engraçada, confirmo o desembaraço: quando aguardam benevolência, ajo com a tolerância de quem ri por dentro.

Seria divertido se me negasse espirituoso no que digo, mas ser uma pessoa preconceituosa não é bonito, lindo é chatear quem aborrece.

Faz bem ser o chato; mesmo que não levite, eu sinto.

Meu método pra levitação é simples: tolero como favas contadas as características que as pessoas elegem pra diferenciá-las das demais.

Dona Cremilda segue algumas figurinhas das redes sociais, mas só troca mensagens com quem pensa a vida tal qual ela pensa.

Discricionária, Dona Cremilda tem consciência de que é preciso ser rigorosa com o critério. Ela acha correto compartilhar o que as estrelas escrevem na internet, mas, do que vê, ela aprova apenas o que é útil, o que sirva de ajuda, ou o mundo seria pior. Sem precisar ser inventado a cada post, a Terra tem que ser esse lugar menos terrível.

O mundo horroriza porque não é mais como foi nos idos da infância: lá, quem trabalhava fora era o pai; lá, sua mãe cuidava do dia a dia da casa; lá, na ausência do pai e da mãe, quem lhe devia obediência eram os seus irmãos mais novos. Poxa, a sua casa era o mundo.

Dona Cremilda compartilhar o meme da Fanta é seu direito, mas a mim me parece mais engraçado irritá-la.

Se Floriano, Vargas, Juscelino ou Collor estivessem na presidência, a senhora os julgaria como seus dignos representantes?

ꟷ Quem vive de passado é colecionador de selos.

Dona Cremilda, curtidas carimbam, são a sua chancela pra memes, fotos e opiniões. Páginas são álbuns, e a senhora vai preenchendo-os, seja por amor, seja por raiva.

ꟷ Minhas redes só têm figurinhas de valor acentuado, pois não vou na onda. Eu só cancelo quem tem mesmo de ser cancelado. Sigo quem tem verdades pra dizer. Porque as verdades incomodam quem espalha mentiras, acodem os bobinhos seduzidos pelos espertalhões, afastam da beira do abismo quem pensa que basta falar que honra pai e mãe pra honrá-los de fato.

Sou paciente, também tolerante, mas o complacente pisca gostoso, para que diga o sal da ojeriza.

ꟷ Agora diga se estou errada no que vejo: quem casou com a fulana aparecida foi esse danado de sapo. Mas, olhe direito. Se a ridicularizo pela foto, é porque a censura ainda é livre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de maio de 2023.

domingo, 14 de maio de 2023

A confissão

 

A confissão

 

Por estar com dor na mão direita, estou impedido de escrever. Com tempo pra pensar, penso na ociosidade.

Sem nada para fazer, a pessoa fique à vontade para ter ideias. Sem necessidade de que suas ideias formulem respostas aos problemas do mundo, pense espontaneamente. Aliás, ideias gratuitas não precisam ser aberrantes, porque ideias familiares satisfazem a alma ociosa tanto quanto os pensamentos mais severos. A quem não apraz render-se ao choque pelo choque, a liberdade sugere à mente entusiasmar-se com ângulos não usuais. Ou seja, libertar-se é revelar-se felizmente outro.

Assim, ao destro impossibilitado de redigir a lápis, a felicidade pode estar na digitação com o indicador canhoto. Digito, logo eu sou feliz por catar milho enquanto penso. Alegro-me por ter encontrado a superação da dificuldade: com o dedo indicador, digito letra a letra; com o polegar, dou espaço. Tecla a tecla, as palavras brotam na tela; todavia a crônica ganhar corpo não enche a minha pança porque a fome que sinto é fruto do desassossego. O que quero dizer com desajuste? Não temo que as ideias sucumbem na cachola, meu desapontamento é comigo, pois sou sagaz o bastante pra registrar apenas as últimas impressões, uma vez que as originais estão dobradas, emaranhadas, enoveladas. Angustio-me, pois o fio a ser puxado talvez nem resista se esticado. E angústias dão esse nó, o pânico da página em branco. Enfim, preciso me segurar da euforia, preciso dosar a confiança na razão, pois ela não se mantém o tempo todo no comando, como se manejasse minhas vontades com alguma autoridade inquestionável, e verdadeiramente justa. Por sabê-lo um pensamento ilusório, isso de crer que ideia puxar ideia possa me entreter, isso empaca. Comigo empacado, haja frustração.

Já o sol...

Como o sol nada tem de decepcionante, largo a escrita da crônica.

Saio do quarto, mantenho a porta aberta. Passo pela sala, ignoro a TV desligada. Deito-me na rede da varanda; não, não esqueci o micro ligado. Ligado, o computador que fique de prontidão.

De repente posso confiar que posso dar conta do que posso pensar de repente, porque, assim, a confiar de novo que posso acompanhar a correnteza da vida, posso cochilar de olhos abertos.

Há tanta gente na rua. Há tanta vida no esgoto do meio-fio. Há o sol que brilha sem saber de mim que estou me preparando para escrever a crônica. Na rua, há dois meninotes chutando uma bola de plástico; o que irrita alguns motoristas, que buzinam e xingam e querem, na real, é juntar-se aos garotos nessa alegria gratuita que é chutar bola no meio da rua, como se a vida não cobrasse da gente um pouco mais de vida, outra vida festiva, outra vida alegre, uma vida mais gostosa, e com refri ou sorvete, ou ambos.

Agora, a vida são crianças a chutar de primeira, a dar de letra, a dar de bico, a cabecear de olhos fechados.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de maio de 2023.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Canoa furada

 

Canoa furada

 

Em pé numa escadinha, perco o equilíbrio porque pedem algumas palavras sobre a Rita Lee. Pelo enfoque, falar da morte da cantautora, faz sentido bater-me com o espanador. Mas só depois de reequilibrado é que me bato com o cabo; e uma batida basta pra constatar que estou mesmo desnorteado.

Pasmo de susto, justo eu que me asseguro que os arroubos sempre dão merda. Descontrolado, não hesito e me machuco. Exagero, e trago à pele o amor de fã. Logo quem odeia fanatismos, amo de paixão.

Não me envergonha o quanto dói a notícia.

Não fantasio. A dor lateja, pulsa, faz brotar a aflição. Meu corpo é a dor que aflige, e arrepia. O coração, a espinha, a cabeça, olhos, língua e ouvidos, estou mexido. Respiro com dificuldade. Com as dificuldades de pensar em pé na escadinha, ainda respiro.

Embarcado nessa canoa furada, remo rio acima e rio abaixo, a favor da correnteza, contra, remo porque remar é o meu jeito de lidar com a certeza da perda, com o ganho que possa ter. Remar é redimensionar-me. Não imagino: me afoga o que vivo; me afogo no que vivo. Faço da água a fonte, o rio, a canoa. E o que me faz vivo, eu experimento.

E essa, agora: viver é navegar numa escadinha?

Lutar para não cair, brigar para não afundar, batalhar pra subir, pirar pra ficar à linha d’água, beber da água, mijar n’água, sentar no degrau, descer um, descer outro, brigar para não pular, voltar a subir, pois sim: viver é manter-se de pé em uma escadinha.

Esta metáfora não é muito feliz; ela, no fundo, é ridícula.

Mas não é ridículo rir de si. Rir das próprias bobagens. Há situações que pedem o riso, que precisam do riso para serem melhor percebidas, para mais bem serem ingeridas, digeridas e excretadas.

Como diz Madame Lee: tudo vira bosta.

Orra meu! As coisas da vida, pepino e camarão; arroz e risoto; cerva e tubaína; uísque e cachaça; o pé-de-valsa e o rabo-de-saia; linho cru e a seda pura; bota e botina; o bocudo e o sisudo; carranca e pelanca; cocar e coqueiro; a cama e o sofá; ipê, saquê e a cana caiana; suruba e sururu; a mão amiga e a língua de sogra; o dente de alho e o olho de vidro; o dente de leite e a bala de prata; a colher de chá e a pá de cal; o papagaio do pirata e a mulher do padre, dão vida às coisas.

Faço festa. Acho bom me achar festivo. Ainda que a felicidade ande distante, difícil de vir, além do horizonte, nem que eu limpe a casa.

Não quero mais tirar o pó. Não quero saber dos livros empoeirados. Me desnorteio das palavras. Se os clichês falam da Rita Lee mutante, a mina maluca da Vila Mariana, puta, santa, a emponderada Santa Rita de Sampa, o meu discurso talvez constranja.

Criança distraída, nem noto que endosso os clichês que destacam, naquilo que todo mundo sabe, o que toda gente ama.

Então, carolas, caretas e cafonas podem xingar à vontade, mas eu não cancelo mais esta outra verdade, bem comum:

Rita Lee Jones virou pó; Rita Lee é para sempre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de maio de 2023.

terça-feira, 9 de maio de 2023

A busca

 

A busca

 

Alguém diz o que eu estava pensando nem faz um segundo, sorrio, porque a confirmação da ideia me tranquiliza. Penso o que mais gente tem pensado, isso indica que o tempo ao qual me vejo circunscrito está a me configurar como mais uma pessoa perpassada pelo momento.

Sem que me faça excluído do presente, posso opinar.

Por índole e idiossincrasia, trago o desejo de afirmação como o ser humano que posso representar: não me satisfaço nos confrontos; uma vez que é necessário o pertencimento a uma comunidade, não afronto meus semelhantes; entendo a felicidade compartilhada, porque a mim me compreendo como um a mais, caso não subtraia.

Tanta gente no mundo e tanto em comum, viver é concordar.

Tanta gente vírgula porque o meu mundo é pequeno, umas poucas veredas de uma cidade de não mais do que trinta mil habitantes.

Dentro deste meu mundinho, é ainda menor o círculo das pessoas que conheço, por proximidade amistosa ou esbarrões fortuitos.

Por último mas não menos enfático, destaco que as concordâncias com quem pensa como eu são fundamentais pro meu equilíbrio.

Estar bem de cabeça é meio caminho andado pra estar sintonizado com o pensamento do dia. E fazer o que me cabe é dar elo ao corrente. Sei, faço minha parte para que as situações transitórias de convivência urbana sejam geradas e monitoradas amiúde.

Amiúde, mas sem as banalizações que causem apatia ou tédio. Só vulgarizo a vida social envaidecendo-me da realidade cidadã.

Todavia, se a pessoa não tem resposta própria frente às azáfamas da vida, trato de ouvi-las; reflito sobre o que escuto e busco estabelecer as relações entre o que dizem e o que julgo ter compreendido.

Dispenso maiores cordialidades com quem não responde de pronto aos desafios da hora, pois é gente que titubeia, e flerta com o acaso.

O acaso é perigoso pelas dissimulações, pela máscara que afeiçoa, que constrói a imagem apropriada, que fabrica o que se espera como se a esperança fosse o xis da questão ou outra bugiganga.

Vermelho de raiva, não mais um democrata socialista:

ꟷ Pra evitar discussões pouco gentis, não argumentemos contra os juros altos, falemos do calor absurdo em pleno outono.

Amarelando de fome, operário atarraxado à máquina:

ꟷ Não falemos de água encanada e coleta e tratamento de esgoto, paguemos pelos dividendos estatais.

Verde por dentro e por fora, com a melancolia até o pescoço:

ꟷ Torremos o pasto das emendas ou procriaremos outros monturos com a mais azeitada das inteligências, a artificial.

Como sinônimos perfeitos são arapucas da semântica, raciocina o reacionário: digo farol, ouço semáforo, vejo o sinal.

Ignoro os noves fora?

Até pra não dar a impressão de que me desonram os bons modos, não sorrio feito besta, não ignoro quem me ignora e cumprimento quem sequer cumprimenta.

Fazer do não outro talvez com cara de sim, isso eu também busco.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de maio de 2023.

domingo, 7 de maio de 2023

Coração bestificado

 

Coração bestificado

 

A taxista foi protocolar ao cumprimentar o passageiro, a quem pediu o endereço de destino e, antes da partida do automóvel, advertiu-lhe que colocasse o cinto.

Por conta da morosidade do trânsito, a motorista atalhou por becos e ruas transversais, o que alongou o trajeto mas encurtou o tempo de chegada.

Ela encostava o carro; ele tinha o valor exato da corrida.

Se soubesse que o médico atrasaria o começo da consulta, mesmo assim teria mantido as críticas à demora do táxi, que levou vinte e cinco minutos pra pegá-lo à porta de casa, onde ficou esperando por longos, esses longuíssimos vinte e cinco minutos.

Assim como foi educado ao deixar de dizer à taxista o que pensava, agradecendo-lhe como sói a quem educado, ele esperou calado que o cardiologista o recebesse com as banalidades usuais.

Continuava com aquele formigamento esquisito no braço esquerdo. Sentia agulhadinhas quando subia apressado uma escada. Demorava a pegar no sono. Embora mantivesse o copo d’água pra molhar a boca, não dormia. Mesmo sem perceber formigamento e quaisquer pontadas no peito, queria ouvir do doutor qual o diagnóstico exato do que estava acontecendo com o coração.

O médico conferiu os resultados de ecocardiograma, radiografia do tórax, eletrocardiograma, teste ergonométrico e exame de sangue: era um órgão nas condições esperadas a uma pessoa sexagenária.

Caso prosseguisse com formigamento e sensações sufocantes, ele agendasse nova consulta: pra solicitação de ressonância magnética e exames complementares de sangue, fezes e alergia à realidade.

Que o paciente evitasse os alimentos gordurosos, caminhasse uma hora por dia, dormisse bem, não se entupisse de notícias ruins.

O que é uma notícia ruim? A gordura da picanha é ruim pras veias? O preço da picanha afeta a circulação sanguínea? A cabeça pesa mais o que o coração já anda sentindo? Como dormir tranquilo sabendo que amanhã o quilo da salada vai mesmo estar mais caro? Tivesse nascido coelho, levaria facadas na carteira ao roer cenouras? Ostentasse alma de poeta, diria ditirambos à lua vista do táxi?

Sim, sempre vem outro táxi.

O trânsito seguia tóxico, mas o motorista era outra pessoa.

Como a lua tocou em cheio a sua alma lírica, disse-a bela. O lar de São Jorge punha feliz o dragão a ser vencido pela lança. Entre a ânsia pela próxima contenda e a alegria da vitória, o taxista era um poeta.

Pouco lírico, o passageiro queria ignorar a eterna guerra do dragão da maldade contra o santo guerreiro; nem pensava em escutar o disco novo do Jards Macalé.

Tirando fuligem e o para-brisa empoeirado, claramente ocorreu-lhe: haverá uma Associação de Poetas Anônimos?

Não outro círculo de poetas buscando a glória, mas um grêmio de gente que tenta não soçobrar aos enlevos rastaqueras.

Deixe estar que a lua nua o bestifique, coraçãozinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de maio de 2023.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

O grande teste

 

O grande teste

 

Preciso entabular uma conversa franca. De uma franqueza tal que só mesmo comigo eu consigo chacoalhar a minha galhardia de cidadão consciente da honestidade nas palavras.

O meu tabuleiro tem quitutes que me deixam preguiçoso, penso que não tenho que engolir brigadeiros, queijadinhas e quindins como se um telefone estivesse chamando, me testando.

Que coincidência! Mal eu penso: tem telefone tocando.

Aliás, nem me convidem pra festinha de marmanjo. Eu me conheço, fico à vontade quando digo que sou fiel à tradição de trair-me quando a pressão é pela estupidez. Embora produza pequenos estragos, acho notável que os adultos na sala usem bandejas como arma. Entre comer e defender-me, prefiro evitar a congestão.

Por leituras aleatórias soube que o estômago tem neurônios, o que me permite prever que panduio empanturrado afete as ideias. Uma vez que a leseira da cuca cheia possa gerar ideias das mais singelamente lógicas às violentamente estapafúrdias, reajo.

Pela razão de que sou pessoa com os nervos em dia, admito que é ridículo ir à varanda gritar que não preciso de celular pra confessar que as minhas virtudes de sujeito do bem fazem de mim um camaradinha astuto que não se esconde atrás do poste.

Postes têm lâmpadas; lâmpadas iluminam; e a iluminação da minha consciência quer deixar claro aos vira-latas bons de faro que não sou poste pra mijarem onde mais sou vulnerável, ao nível da calçada.

Aliás, nem toquem em mim quando falo ao telefone. Costumo tomar um susto quando o fluxo do pensamento é desviado. Isso de ser levado a entender o que pretende a mão que me agarre pelo braço é um fator desconcertante. Sim, por experiência, o mundo me desconcerta.

Que coincidência! Tem uma criança querendo atenção.

Olho pra baixo; o baixinho é velho conhecido; o infante quer que me abaixe, escute-o, que eu tome ciência do que tenho a dizer.

Como se falasse como eu falo com todo mundo, digo a mim mesmo que não tenho que atender o telefone quando ele está tocando. Talvez seja prudente eu deixá-lo sem som.

Pode ser que me queiram bêbado de euforia enquanto me vendem esse perfil de gente do bem que sabe que a digestão de picanha com guaraná é comparável à digestão de picanha com cerveja.

Que coincidência! Tem gente tocando a campainha.

A campainha está ligada, a porta está fechada, as cortinas estão cerradas; e por imaginar a cara de quem toca a campainha enquanto me telefona, eu fico eufórico.

Onipresente, onipotente, onividente, não apenas porque monitora a pressão, o pulso e o açúcar no meu sangue, tanto o telefone sabe mais sobre mim que ele já vem com a resposta sintomática:

ꟷ Posso ajudar?

Assimilado ao vício de não mais me corrigir por amargores, mesmo sem beijinho, o jeito é atacarmos o pote de napolitano que nunca falta no freezer.

Que coincidência! O menino que me abraça sou eu que o abraço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de maio de 2023.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Nem pro santo

 

Nem pro santo

 

ꟷ Seu Osman, o que me diz da volta da cobrança do sindicato?

O homem só moveu o charuto de um canto da boca para o outro.

ꟷ Romualdo, seu paspalho, o certo não é cobrança do sindicato, o certo é dizer que é contribuição sindical, não é, Seu Osman?

De volta pra esquerda, o homem moveu o charuto.

ꟷ Deixem ele em paz; disse a mulher atrás do balcão.

ꟷ Dona Josefa, a gente quer ouvir a opinião do Seu Osman porque ele trabalhou no sindicato até se aposentar.

ꟷ Dona Zefinha, Seu Osman trabalhou por mais de trinta anos sem nunca ter saído do sindicato, sempre fiel, né, Seu Osman?

O homem tirou-a, bateu-lhe a cinza e repôs a bituca na boca.

Trazendo em cada mão um menino, o pai pediu dois pastéis: um de queijo e outro de carne. Mas os filhos queriam, ambos, pastel de queijo e de carne, os dois. Se tivesse pimenta, queriam. Se tivesse mostarda, também queriam. Se o pai pudesse, queriam ainda um quibe cada um, desde que tivesse limão cortado na hora.

Pondo os salgados num prato, a mulher abriu-se em sorriso:

ꟷ As crianças de hoje em dia sabem bem o que querem. Dá gosto ver que fazem questão de pedir sem constrangimentos. No meu tempo da idade deles, era impossível de acontecer. Não se podia abrir a boca pra dizer qual a vontade que a gente tinha.

Quando ia enfiando na maquininha o cartão de débito:

ꟷ Não esquece da Coca família, pai.

ꟷ E tem que ser beeem gelada, pai.

Nisso, a TV exibia imagens relativas ao Primeiro de Maio.

ꟷ Aumenta o volume, Zefinha.

Apareceu um sindicalista, o presidente do sindicato que era o líder dos operários há mais de quarenta anos. Ele dizia da importância de o salário-mínimo ter aumentado. Pois os dezoito reais farão a economia girar. O povo não comprará somente o básico da sobrevivência. Além de bife, arroz e feijão, irá comprar um par de sapatos novo, realizará o sonho de ter um celular muito moderno. O mercado ficará satisfeito. A indústria aumentará a produção. O comércio facilitará o crédito. E todo mundo do Brasil vai sorrir outra vez. A dignidade do trabalhador estará no sorriso de quem paga as contas e pode planejar aquela viagem pra praia, pra montanha, pro parque aquático, pra pizza com a família. Pra dar o animalzinho de estimação pro filho caçula que tanto pede pra ter um pastor chamado Pequeno Polegar, igual ao do seu avô.

O homem que permanecera mudo durante a fala inteira do tal herói da classe trabalhadora, levantou-se, pediu café e virou o copo de vez; pegou um fósforo da caixa que ficava disponível para os fregueses em cima do balcão, acendeu o charuto; bebeu outro copo.

ꟷ Ouviu, Seu Osman. O trabalhador ajudará a reconstruir o Brasil. Ganhando mais, será feliz do jeito que tem que ser. Sem espertalhão pra doutrinar pra que não seja.

Sem abrir a boca, o homem pegou a gaiola ꟷ pena que o corrupião não cantou ꟷ e saiu.

Disse a dona:

ꟷ Seus idiotas, o nome dele é Altair, Altair Filho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de maio de 2023.

domingo, 30 de abril de 2023

A aura da inocência

 

A aura da inocência

 

Fotografias contam essa história que vai se desenrolando sem que se pense que ela pudesse ter sido manipulada, guiada pro sentido que garantisse coerência, ainda que as poses não escondam o recurso ao artifício, à virtualidade do espontâneo controlada pelo banal, pelo trivial de um cotidiano que se volta sobre si como originalidade, uma vez que o encadeamento das imagens narra uma identidade fictícia, obtida pela compreensão de que uma vida pode ser lida a partir do mundo passado pela sensibilidade, porque estes registros ideais permitem a revelação: um dia, esse garoto que não usava óculos passou a usá-los.

Adeus, menino triste.

Feita a transição dos fundos para a primeira carteira, a próxima foto, se não esconde a face do garoto de armação de tartaruga saboreando a manipulação freudiana da massa, acha-o deitado num colchonete.

Não é à toa que o assombrado está deitado, é para dominar-se, ter o controle físico da respiração. Na difícil prática de suportar-se sereno, é preciso esvaziar a mente, silenciá-la em tal grau que a entrada de ar nos pulmões não cale no cérebro a oxigenação necessária para que a consciência não apague o entorno.

Como festa atrai outra, embora o boca a boca alardeie que tomar cerveja por canudinho acelere a embriaguez, ficar doidão sem soluçar é assumir-se inepto pra bebedeiras, uma vez que, sem soluços, ânsias e ideias salvacionistas, pilequinhos apressados nem dão barato.

É preciso identificar autoridades que enchem a cara para remendar o mundo, a começar pela pátria. Mas, rebeldes que amam a revolução têm línguas, usam-nas também porque salivam pela carne.

É bom saber respirar. Faz bem livrar-se dos canudinhos. Age certo quem reaprende a viver pela dor. É bom crescer sem ser preciso.

Adeus, adeus.

De vez em quando, a terceira das fotos sobe à linha d’água. Respira e deixa respirar quem não se afoga nas mágoas, cujas cicatrizes não impedem que nuvens virem borrascas e copos enxuguem oceanos.

Ainda que o olhar não passe mais pelas lentes de Paulo Francis, as retinas seguem inquietas, severamente míopes, esteticamente éticas, retraídas à humildade; observe-se, um tanto torto.

Veja-se: há poucos dias do Natal, o shopping-center lotado, o rapaz anda em vão, a água do relógio prolonga a espera, as compras zanzam em sacolas, o barulho aumenta, pressiona, cola nos pensamentos, que os novos óculos digam que é possível arrancar a própria pele, trocá-la, desvestir-se em público.

Sorridente tagarela, adeus.

Da ótica do Iguatemi ao ponto da Rebouças: num fôlego, sem noção da caminhada; num lapso, sem a percepção de ter saído; noutra cópia de si, sombra desassombrada; sósia de si, tão familiar que estranha; o revelado se reconhece essa pessoa a reviver-se naquele 1984.

Grande Irmão, diga a que veio, não banque o sábio, perca a pose.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de abril de 2023.

sexta-feira, 28 de abril de 2023

O amigo do Raul

 

O amigo do Raul

 

Se não tivesse dito que levaria os documentos, eu ficaria em casa. Como garoou a manhã toda, decidi que sairia depois do almoço. Faria o prometido, ainda que continuasse a garoar, porque meus atos teriam que falar por mim. Como contava ser julgado pelo que faria, nunca pelo que escamotasse, não adiaria o que tinha para fazer. Entre cochilar no sofá e cair na malha fina, enfiei os papéis num saquinho plástico e abri o guarda-chuva.

Evidente, na praça nua de árvores, as rajadas de garoa pediam que agisse tal qual os prudentes, e foi o que fiz, agi racionalmente.

A última vez que o coreto me abrigou acabei dormindo, tão bêbado. Todavia sóbrio, desta vez, não rememorei as varejeiras no vômito nem me apoquentaram as pessoas passando.

Lá ia a senhora que organizava a tarde dominical no salão da igreja. Não gostei do primeiro prêmio que ganhei, pois me pareceu mixuruca aquele jogo, uma vez que não sabia que um pote ficava escondido no outro, indo do menor para café ao maior para arroz.

Embora quisesse ganhar a bicicleta, nunca responsabilizei aquela dona pelas suas mãos aziagas. Embora a bicicleta nunca tenha saído pra mim, sequer às vésperas do Natal, também comprei para a mamãe as seis pilhas grandes pra que Nat King Cole cantasse no rádio.

Cá vinha o senhor que esculpia pequenas peças sacras, uns cristos em pau-ferro para oratórios de mesa. O bom homem nem sabia dar-se o devido valor pelo seu artesanato apurado, vendia tudo que punha na bancada, mas, todo mês, davam-lhe a esmola básica de uma cesta.

Cuidando para não escorregar, ia indo a cantora das pedras; vinha vindo devagar o entalhador de ébano; e a ambos chegava aquela peça rara, desgraçadamente famigerada, o tal embusteiro a quem os justos jamais lhe suportavam as velhacarias.

ꟷ Não tem trambique, não. E a foto é verdadeira, sim.

A fotografia era do Raul Seixas. Empunhava uma guitarra. O colírio eram os seus óculos escuros. De cavanhaque ruivo e lenço vermelho no pescoço, era o próprio em carne e osso.

ꟷ Tenho certeza que ele estava fazendo tipo por causa dos óculos escuros. E a barba pintada nessa cor acobreada bem forte é de roqueiro exagerado, o tipo que ele sempre foi. Por isso, o autógrafo é autêntico. Confie na imagem, é o Raul Seixas sem tirar nem pôr.

A todo mundo que passava, o súdito fiel queria vender a única cópia do Rei do Rock pela bagatela de cem reais. Que lhe dessem cinco, era o mínimo que aceitaria pela preciosidade autêntica.

Educado na malandragem da vida, nos primórdios de sua trajetória, dava a impressão de espertinho, coisa que o deprimia.

Houve isso com a história do canário que vendeu sem nem o ter em mãos. Cadê que o canarinho entrasse na arapuca? Haja paciência pra apanhar esse danado; e quem tinha pago o cobrava com a intolerância dos impacientes que não aceitariam sequer um pardalzinho travestido de sabiá.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de abril de 2023.

terça-feira, 25 de abril de 2023

A próxima atração

 

A próxima atração

 

23 de abril é o dia do escritor, porque William Shakespeare nasceu neste dia e, segundo alguns, ele teria falecido também neste dia. Mas nascimento e morte não justificam a eleição da data, Shakespeare tem fama mundial pela compreensão da alma humana, embora muita gente ache que o ser humano nem tenha alma para ser compreendida.

Sobre a alma, tenho certeza de que tudo o que eu disser vai gerar arrependimentos, tormentos e ventos, como se nas cavernas da minha mente, ao redor da fogueira da sabedoria, estivessem assando batata um ancião, um anacoreta, um eremita e um eremita ancião anacoreta. Caviloso, já que batata quente é refresco nas mãos dos outros, o meu inconsciente anarquista aproveita o vento infinito para girar o catavento dos desejos incomunicáveis, e deixo a alma me levar.

Arrastado de volta ao dia do escritor, acredito que instituíram a data para celebrar seja o dia do autor, o do dramaturgo ou o do ator. Sim, o Velho Bill foi uma pessoa de múltiplos talentos, tendo sido dramaturgo, autor e ator, e, segundo as más gentes daquela época, nosso Bom Bill, globe-trotter a seu modo, teria sido útil à sociedade como empresário, mandachuva de companhia teatral e dono de teatro.

23 de abril, em todo caso, também é o dia de nascimento de amiga minha muito fã do mesmíssimo William Shakespeare. Embora ela não seja nem escritora nem dramaturga nem atriz nem sequer inglesa, ela diz que Ariel e Caliban são unha e carne, cara e coroa, branco e preto, noite e dia, porque, amalgamados na tempestade cósmica, ambos dão em síntese o que seja a existência humana.

Existo, logo atraio e-mails e spams.

Minutinhos antes da meia-noite, já o calendário a ponto de virar dia 24, recebi e-mail da própria aniversariante agradecendo a mensagem que lhe enviei pela data importantíssima na sua vida.

Por óbvio, se eu tivesse mandado o tal e-mail, teria citado o dia do escritor por causa do nascimento do Bardo Inglês, mas fui devidamente lembrado que 23 de abril é o Dia Mundial do Livro.

Inteligente de minha parte foi vestir a carapuça do cético abismado que mora nas entrelinhas do que não digo. Desconfiado, a querer-me mais informado: busquei e li: 13 de outubro é o dia do escritor.

Como sábio que tira coelhos da cachola, pergunto:

1. Se a inteligência artificial em voga soube pôr no Papa o casacão da rapaziada antenada, não terá havido manipulação no famoso retrato do Bardo, por que o cara nem era ele e, sim, um lorde?

2. Se a rapaziada antenada trata russos na Crimeia como germanos nos Sudetos, que verdades ganharão o mundo quando libertadas pelos algoritmos do amanhã?

3. Quando o mundo for Edmundo lendo a um leão o Rei Lear, obra outrora dada a outrem que não o tal Shakespeare, que nunca foi visto ostentando o casacão da rapaziada antenada, será o Edmundo?

4. Mas, que amanhã?

Ao redator, as respostas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de abril de 2023.

domingo, 23 de abril de 2023

Cama quente

 

Cama quente

 

Não abro os olhos nem tateio as paredes, vou no escuro. A vontade de urinar é mais forte que titubeios. Sei, a confiança garante o próximo passo. Confiante, arrisco a integridade da testa. Acredito que paredes não precisam demonstrar estabilidade; não as impedirei de a mim me abalroarem como um corpo estranho. Não que a bexiga explodindo me faça agir feito imbecil, ajo por excesso. Excedo-me, alcanço a precisão de estar no lugar esperado no momento não calculado, mesmo porque é especulação vulgar os pingos na tampa serem dados como sintoma. De olhos abertos e mãos bobas, conheço a casa de cor e salteado.

A madrugada tem chão e não o quero alongado. Ainda que os olhos não ardam de sono, que ele, o sono, vença tal vigília imprópria.

Este inconveniente, ficar pensando na vida quando poderia dormir, não o debitarei na conta da imbecilidade. Credito-o porque fraquejo. E a minha pusilanimidade é tanta que me julgo feliz.

Me percebo imerso num estado contraditório: estou feliz porque me contrario. Ajo como um ser uniforme: sou essa pessoa que transita de forma segura, sou quem não receia as paredes, sou eu que dispenso bússola. Sei ir do quarto ao banheiro. Sei ir e sei voltar, pois vivo aqui. No entanto, contrariando a imagem que formo de mim mesmo, perdido por um instante, paro no corredor às escuras.

Parado nesse momento, calho de pensar: sem pensar que a parede do quarto é uma das paredes do corredor, a parede do quarto é parede do banheiro, a parede do banheiro também é uma das paredes da sala; sem refletir, levantei da cama, vim pelo corredor, urinei no vaso e dei a descarga; o que me perturba neste instante: estou pensando.

Se me permito uma leitura imaginativa do que acabei de fazer, diria que naveguei em águas tranquilas, boníssimas a veleiros; dirigido por ventos calmos, apreciei o horizonte; sem tédio, senti a realidade.

Penso, logo vejo que o corredor escuro é um espelho.

No filme O sangue de um poeta, na cena do espelho, entendo que é possível passar pela água do espelho, dá pra mergulhar no reflexo.

Compreendo, tenho dois lados: na cama, o pesadelo me põe suado, os meus demônios me querem acordado; na sala, o sofá acolhe quem se dispõe a conversar, a urbanidade me ajeita em bom camarada.

Onde me vejo unido a essas minhas duas faces?

O que sobra de mim, o que as entranhas descartam, vá pelo esgoto; o que suja, o que trago impregnado na pele, livra-me o chuveiro.

Há um vórtice na minha mente: estarei à boca de um ralo?

O sonho interrompido não tem importância. Como não o rememoro, não o escarafuncho aos pântanos da cachola. Quiçá regresse; quiçá o fio seja reatado para que outra história ganhe fluxo; quiçá meu cérebro trabalhe a favor.

Aliviado e satisfeito, volto pra cama sem nenhum arranhão. Aliviado e realizado, só penso esse senão: cadê o sonho?

Sou um cara de sorte, posso dormir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de abril de 2023.

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Somente a verdade

 

Somente a verdade

 

Houve uma confusão qualquer no quintal. Volta e meia, as crianças brigavam; e nunca era por pouca coisa, sempre havia motivo. Primeiro pintavam as rusgas, o chororô vinha depois. Ao que parece, foi a vez de o menino ter apanhado da irmã; ele entrar pedindo que o apoiassem era sinal disso.

Como a mãe estava no trabalho, cabia à filha mais velha cuidar dos dois irmãos. Ela tinha tanta coisa para ver no celular; que viessem com encrenca era demais. Seria ótimo se ficassem brincando, a deixassem em paz, ou ela contaria tudo na hora do almoço. E a mamãe daria jeito nos dois, como ela sempre dava.

O menino voltou pro quintal; ali ele não ficou nem cinco minutos.

A mais velha não quis saber, empurrou o irmãozinho pro quintal; ele e a irmãzinha se entendessem ou rolassem no chão, isso era com eles; ela tinha mais o que fazer, e trancar a porta da sala foi a primeira coisa que ela fez.

O problema é que a porta da cozinha estava aberta; o chorão voltou e veio pra cima dela. Deu-lhe tapas nos braços, esmurrou a poltrona e, se ela não cobrisse o rosto, teria recebido a cusparada.

O menino teria de limpar o chão; mesmo o limpando, que soubesse que haveria de haver-se com a mamãe. Ele teria de confessar, porque dele seria exigido que falasse a verdade, nada de choro ou mentiras.

O que as crianças não sabiam nem tinham como saber é que a mãe e o pai estavam na rua; mais exatamente, estavam na frente do prédio onde houve outra reunião produtiva, sobre a guarda dos filhos.

Foi preciso que guardas interviessem, ou haveria mais do que uma simples discussão. A contenda envolveria pugilato e unhadas.

De acordo com ele, quem queria briga era ela, uma vez que ele não era de gritar nem de gesticular; no duro mesmo, era um cara pacato.

Segundo ela, quem começou foi ele, porque ele dizia que a amava, mas, apesar desse amor, ele a traiu. Que amorzinho mais ordinário, de gente que não era capaz de empenhar-se na fidelidade. Nem que fosse pela lasanha de berinjela aos domingos, nem que pedisse picanha bem passada nos espetinhos. Truco!

Enquanto isso, na televisão, informavam que uma frente fria estava chegando. O certo seria os móveis ficarem meio metro acima do chão. Anunciaram, choveria forte por horas. Previam deslizamentos, haveria terra na pista, estradas acabariam interditadas. Que transtorno.

Enfim, a irmãzinha que bateu no irmãozinho apareceu. Lambuzada de manga. Subira na mangueira. Comera o quanto quis. Sem ninguém para aporrinhá-la, foi uma maravilha ficar comendo enquanto quisesse. Teve enjoo. Achou de pular, o pé não firmou, ralou os joelhos, mas não mancaria. Sendo a agredida, tinha que manter o ar bem carrancudo.

Felizardos à parte, no centro onde prosperaram birras e dissuasão, os bons de lábia tomavam vinho, beliscavam fritas. Proibidos de fumar, os bons doutores pescavam mil e um tucunarés.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de abril de 2023.

terça-feira, 18 de abril de 2023

O homem lírico

 

O homem lírico

 

Venta frio e não quero banalizar, dizer que o frio do vento enregela. Intermitente, o vento que passa silvando pelas frestas da porta esfria o quarto. Não há canção, há ruído, é irritante porque descontínuo. Tanto silva que abro a porta, e uma luz tênue acentua em mim a melancolia. E sobre as coisas pouso o olhar melancólico. Sobre os livros, as folhas, os badulaques, em tudo há essa camada de tristeza serena. Embora a poeira recubra as coisas, gosto do cheiro da terra molhada que o vento aviva. Sobrepõe-se em mim o ar gelado ao cheiro de um quarto parado no tempo. Venta frio e não pretendo escamotear a contradição: estou trancado em mim, me sinto mofado e reconheço que a poeira recobre os livros empilhados porque não me renovo a cada dia. Tenho pra mim que abrir a porta não se fundamenta na necessidade de renovação. A luz que vem de fora é fraca, não tem poderes mágicos nem me faz ver que o tempo pousado nas coisas é a pátina que trago em mim. Dentro de mim não me percebo úmido, digo que o ar gelado é úmido. O vento frio e úmido é que traz a umidade do mundo para dentro do quarto. Se respiro o bolor, não o condiciono ao tédio. Se transpiro o mofo, sei que não suo. A manhã é úmida e vazia. Parada na percepção de que estou amortecido para senti-la móvel, embora vente. Imóvel, vejo a parede do quarto. A parede me faz pensar: há poeira no ar. Compreendo que respiro o bolor. Compreendo, produzo mofo. Não morrerei do tédio que transmito às coisas do quarto. O gato olha a parede, a parede que olho, e a ele ocorrerá o pensamento de que a imobilidade nega o dinamismo da vida? Sem mexer a cabeça, sem abanar o rabo, sem baixar os olhos e sem me ver a observá-lo, o gato olha a parede. Ele não a recobre de outro significado a não ser o de que ela o impede de ver o que há além? Sem sombras, rachaduras, manchas. É apenas a parede parada diante do gato parado. Intuirá a metafísica a que a imobilidade induz? Que o tempo imóvel é o que não para? A porta aberta pode bater? Entre uma batida e outra, pode ser medido o intervalo? Que o tempo soprado pelo vento é que faz crescer o mofo na pilha de livros? O tempo respira; faz mofar, murchar e quarar. Não é o tempo que quara o que está mofado, é a luz do sol. As nuvens são água; a água está em mim e nas coisas. O tédio que sinto dita o instante. E percebo, é o vento que me contradiz. Sem necessidade de me enganar, digo ser essa pessoa ludibriada. É outono e não há sol. Ainda que o frio aumente quando sopra o vento, permaneço de porta aberta. Nuvens não anulam o sol, e não me anulo quando estou só. Não me apago, sinto o fastio. Entendo, o tempo que passa não silva nas frestas, só o vento. Mesmo que eu veja o gato que não me vê, eu não assobio uma canção triste. Isso não impede de me achar triste. Melancólico, um tanto vazio, ocupo-me de mim, ocupo-me da mente em que me penso.

Condiz a tal pastiche: alma lírica também mofa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de abril de 2023.


domingo, 16 de abril de 2023

Realidade virtual

 

Realidade virtual

 

A campainha bateu. Bateu de novo. Foi batendo, e batendo, até que a porta fosse aberta. Só fui escutá-la com o chuveiro desligado, garanti a quem chiou comigo pela demora a atendê-lo.

Se eu fosse uma máquina, estaria programado para abrir a porta ao primeiro sinal, mas a mecânica dos meus componentes funciona tendo a irracionalidade como combustível e os sentimentos, por graxa.

Como não gosto de receber visita na hora da janta, deixei a pessoa esperando. Fiz-me entender que não atenderia a porta enrolado numa toalha. Já que optei por vestir um moletom, escolhê-lo demandou que considerasse a previsão: é burrice calcular que não haverá queda de temperatura só porque não sinto frio no momento.

Sem unir os pontos, o visitante não percebeu que banho pra mim é sagrado, é o tempo que tenho pra me desligar da adrenalina, é quando começo a me preparar pra dormir.

Se à pessoa que chegou sem ser convidada eu não tivesse omitido a contrariedade pela sua vinda, não me veria enredado:

ꟷ Gente fina, peça a pizza, pois eu trouxe vinho.

Que esperem de mim que me mantenha esse camarada boa praça que confirma a opinião alheia, essa camisa de força me ajusta porque dissimulo com louvor o desprendimento de quem abraça o mundo com a sensibilidade de acolher a ideia de outrem: se eu trouxe o vinho, está garantida a qualidade.

Mantenho a barra da camiseta por dentro da calça. Conservo a risca do cabelo penteado da esquerda pra direita. Preservo o bom humor de abrir a garrafa como se entendesse de vinho para classificá-lo bom.

Lendo o rótulo, disse que a marca era respeitada, a uva era do tipo que aprazia pela leve acidez e a origem, todo mundo sabe que o clima chileno se parece muito com o francês.

A consciência pesou. E repesou. Foi sopesando e sopesando, sem que a porta fosse fechada. Só vim a me escutar com o telefone ligado, ao me ouvir pedindo que fossem rápidos com a entrega.

A fluidez da vida é de fato um espetáculo, que nem pede aplausos mas nem penso em me vaiar; comigo fluindo: viva!

Pedaço a pedaço, a primeira pizza sumiu ainda quente; a seguinte precisou do micro-ondas. E a primeira garrafa acabou.

Mal respiramos, outra garrafa foi aberta. Na falta de mais uma pizza, uma tábua de provolone nem esquentou na mesa; e cubinho a cubinho, comemos o queijo como se a larica tivesse derretido os neurônios.

Por óbvio: noite de vinho e pizza tem que acabar em sorvete.

Meu amigo queria picolé de trufado de café.

ꟷ O mercado, meu amigo, não faz picolé de trufado de café.

Passamos à massa, mas a negociação foi tensa: queríamos passas ao rum, dissemos papaia com cassis; pensávamos abóbora com coco, falamos pistache.

Os potes chegaram.

E o motoboy contava com a gorjeta de sempre, dez reais.

Afora a alegria ao pegar a notinha de cinquenta, o entregador saiu-se com a novidade de que o pagamento poderia ser em remimbi.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de abril de 2023.

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Continuação

 

Continuação

 

Como a vida é rio que não para de passar e suas águas são o novo a cada instante, antecipo que não tenho natureza incomum. Tento não ser arrastado e, momento a momento, trato de manter a leveza.

Então, ontem vim casmurro e amanhã também virei o mesmíssimo casmurro, e tudo bem que não me contradigo?

Ao pé da letra, se me mantivesse lucidamente coerente, digo que o tempero que mais me satisfaz é mesmo a contradição.

Nem tão casmurro nem tão carismático, pois a vida é instantânea e vivo como me sinto, entre curioso e entediado, indiferente e antenado, ardiloso e mentecapto, distraído e cativo, como sempre, sento e, para não chamar atenção, deixo que outros me puxem à conversa.

Mais silencioso que a média, muitos pensam que sou um camarada fechado, que pareço ter vivido muitas complicações, que essas minhas muitas feridas me angustiam tanto porque não as trato como deveria, pois eu poderia parar de sofrer se não me adaptasse a tais chagas.

Quando não se lhe reconhecem os palpites certeiros que julgam ter, decepcionam-se estas pessoas tão solidárias. Porque eu não as quero frustradas, ouço-as em silêncio e agradeço-lhes pelas palpitações.

Na maior parte das vezes, venho sentar-me ao balcão sem ânsias de querer compartilhadas minhas impaciências.

Se dormi mal, as pessoas não precisam saber.

Se cochilei vendo TV, fui eu que escolhi o filme.

Se acordei de madrugada, é que meus rins funcionam bem.

Se bebi muita água, melhor que tenha sido água.

À padaria, eu procuro chegar por volta das sete. Enquanto há mais lugares vagos do que gente de garganta boa, que tem certeza de que levantar a voz ajuda a apressar o aquecimento da chapa.

ꟷ O de sempre, patrão?

Eu penso: as orelhas de pessoas estúpidas não queimam por causa da estupidez mesmo que tenham sobre a nuca olhares neuróticos?

Como o rio do mundo tem margens que serpenteiam de acordo com o terreno, divago entre apático e resignado, rebelde e tolerante, sóbrio e apaixonado, por isso olho o espelho e reconheço que não fiz a barba, que a testa enrugada diz que estou positivamente neurótico.

Pelo ridículo da ideia, dissimulo que estou surdo. Por não responder à pergunta, parado à minha frente, o balconista repete:

ꟷ Vai querer o mesmo de sempre, patrão?

Como eu não assobiei nem esbravejei, sou atendido por quem acha melhor ignorar minha famigerada casmurrice.

De fato, eu quero pão com manteiga nas duas metades.

Tenho outra ideia brilhante: o problema de quem conta um segredo é a ilusão de controlar a rede por onde circula o dito em confiança?

Para que meu pedido fique completo, acrescento que eu quero café expresso, o grande, e dispenso açúcar e adoçante.

Sobressaltado com minha voz, berro ao chapeiro como se estivesse falando a meus botões:

ꟷ Boa gente, capricha aí na manteiga porque ela não é de nenhuma marca que eu já tenha experimentado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de abril de 2023.