O
foco
A apresentação dos eventos pode ser dada
com o realismo do osso, que é o que dispõe ereta a cerviz, no epicentro do que
é dito: na manhã de outono dessa cidade: à sombra, o friozinho; vinte graus ao
sol.
Qual é a versão da mulher sobre o que teria
feito?
Ela não punha em dúvida de que chegara a
tempo. Embora o último sinal tivesse sido tocado, era imperativo que o seu filho
entrasse.
Para que não acabasse atrasada pro
trabalho, ela pediu ao inspetor que fosse permitida a entrada imediata do seu
menino.
Ela insistiu pra que lhe dessem a
permissão pra correr à sala porque haveria prova e seria uma injustiça o seu
filho ficar com zero por causa daqueles cinco minutos.
Achando-se convincente, a mulher narrou
que: houve um problema com o despertador, que não tocou na hora; houve um
problema com o gás, cujo botijão achou de esvaziar bem na hora de ferver a água
a ser usada para fazer o café; houve um problema com a partida elétrica do carro,
justo no instante em que acabou ciente, pelos dígitos do celular, que avançaram
os atrasos: dela pro trabalho, do filho pruma prova.
Certa de que estava no direito de
apontar terceiros como culpados, a mulher disse que o problema não fora agravado
por ela, uma vez que a sirene tocou antes do horário. Sem dúvida! Seu menino
tinha o dever de fazer a prova, mas ninguém podia sacanear com ambos: o seu
filho nunca faltava, nem mesmo tossindo; e ela jamais admitiria ser vista no
papel de vítima, ainda mais num processo tão abjeto.
Contudo, o inspetor de alunos disse que:
o relógio da escola estava certo; o portão foi fechado no momento certo; a
mulher estava certa ao reclamar como um direito de seu filho tirar nota maior
do que zero, mas qualquer valor acima de zero era dever do professor não atribuí-lo,
nem a um aluno cujo atraso do dia de ontem deu-se porque o seu cachorro teve de
ser levado às pressas a uma clínica, nem ao citado aluno que, realmente febril
e mesmo tossindo, veio ao dia de prova, veio, portanto, para confirmar por atos
seu envolvimento pessoal com o futuro, como cidadão que conhece e preza os
preceitos da Constituição Federal, um dos quais assegura que todo mundo é igual
perante a Lei.
Por deferência às regras, o funcionário
disse que a mulher atrasada responsabilizava-se pela acusação de que o relógio
da escola estaria adiantado em cinco minutos, mas que só responderia verbalmente
pela dita acusação porque teria mesmo de passar pela leitura biométrica da sua chegada
ao posto de trabalho, sofrendo desconto do ordenado de acordo com o tempo de
atraso.
Para maior credulidade, desloquemos o nosso
olhar para a porta de entrada dos alunos que estão atrasados, pois aí o
encontramos: assim como consultava as suas redes trinta minutos antes da saída
de casa, o carinha nem dá pelota pros vinte graus Celsius, bacana é o Papa do
Casacão atendendo o telefone lá no Vaticano.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 18 de maio de 2023.