terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Esculhambentos

 

Esculhambentos

 

Percebo um movimento pouco amistoso, e que não tem nada a ver comigo. Se eu sentisse que é comigo, complicaria. Quando avultam os sentimentos, a confusão prospera. Mas não pretendo me render.

Preciso manter sossegada a cachola, permanecer simples: quando o barulho é enorme, melhor tapar os ouvidos.

Nem surdo conseguiria silenciar o carnaval comendo solto. Vim pra lavanderia, aqui tenho uma rede; posso beber numa boa, nem engasgo com os cuspes da raiva que não tenho.

Sei, algo vem na minha direção.

Minha memória não me engana, e já que mal comecei a beber um vinhozinho, então, a sobriedade não me serve de estímulo pra imaginar outro bicho que não seja o meu parceiro mais assíduo.

Sou um cara de hábitos. Almoço e venho pra rede. Trago uma taça de vinho e beberico. Bebericando, que a hora passe.

É carnaval, mas não preciso aguentar bafafás.

Vim pros fundos porque não quis especular. Vi que três mulheres e um homem discutiam.

Parece que o homem mexeu com uma delas. Melhor dizendo, uma das mulheres mexeu com o homem de uma delas. Pode ser que uma delas tenha mexido com outra delas.

Eis uma condição que preciso que aconteça: ter sossego pra tomar a minha taça, dar-me esse tempo longe dos problemas.

O sábio sabe: se um não quer, dois não se entendem.

Não preciso ouvir discussão alheia. Sinto que preciso de um ar que não sufoque. Porque eu tenho contas a pagar, pessoas a quem prestar contas; tenho muito que me humilhar, por contas erradas, equivocadas e as nem levadas em conta.

Acontece que sossego o facho sem nem mesmo saber por quê.

Talvez a digestão amanse as ansiedades, ou delas me distraia.

Como a intuição atropela a razão, assim como o percebo vindo, sei que o cachorro da casa vizinha está vindo porque ele sabe que já estou na rede.

Admito que intuo o que não explico.

Sei por mim que mal sei, que desejos brotam porque não há como fazê-los brotar quando se pensa poder controlá-los, fazê-los acontecer.

Acontece sem que se deseje que aconteça.

O cachorro pula o muro. Senta no quintal. Olha pra mim. Basta uma vez, ele late quando assobio que venha pra perto.

Gosto da sua companhia, e bebo a isso.

Gostoso, o vinho desce. Suave, o bem-estar me toma. Balanço que balanço, e mais tranquilo eu fico. Simples, gosto do vinho que eu tomo.

A rede range nos ganchos. Gosto do rangido. Primeiro me sento na rede. Gosto do balanço da rede. Faço o balanço: com a digestão a mil, uma taça de vinho é o suficiente para me fazer deitar. Gosto de deitar na rede depois que eu como.

Coço a sua cabeça. O cachorro não rejeita afagos. Ele lambe o meu braço. Beijo a orelha que alcanço sem o risco de cair. Torço para que não vire. Como não estou em guerra comigo, me balanço numa boa.

Quando o cochilo acaba, cadê o restinho que estava na taça?

Se o objetivo é consagrar a experiência, pressagio:

quando dois querem, 100% é só o começo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de fevereiro de 2023.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

Dois irmãos e um degredo

 

Dois irmãos e um degredo

 

À espera de que fosse atendida, a grávida tossia. Punha um lenço à boca e tossia. Temendo-se tísica talvez, tossia voltada para a parede. Quiçá por que fora criada a não deixar que a criticassem pelo que sabia que iriam censurar-lhe as tosses ou sua gargalhada, tossia enrugando a testa e fechando os olhos.

Pra alguns, Maria Joana gargalhava que nem estrela de cinema em faroeste amalucado, com amáveis comediantes no lugar de pistoleiros valentões. De vez em quando vinha-lhe a ideia de autografar fotos suas a torto e a direito, Maria Joana gargalhava como se tossisse. De súbito, cobria a boca com as mãos, parava de rir, tinha um olhar vidrado.

Sequer sorrindo encabulada, surpresa por ocorrer-lhe uma censura ao doutor, achou-lhe grotesco o penteado domado por brilhantina.

Embora estivesse tossindo, por legitimá-lo em sua autoridade, não foi pelo bigodinho aparado daquele Cantinflas de jaleco que ela sorriu encabulada.

ꟷ Mas, doutor, eu não condeno o sorvete, terrível é a geladeira que ronca a madrugada toda.

Pulemos do imediato pós-guerra pros pandêmicos dois mil e tralalá, e o que mais temos a oferecer a você?

Dois eram os irmãos, Atanagildo e Astrogildo.

Não, senhora, Gildo não era o nome do pai. Sim, senhora, aquelas foram duas vidas gestadas em um único ventre. Apesar da mãe tê-los parido com a diferença de três horas apenas, não se presuma que suas almas estavam em sintonia. Distanciavam-se, mesmo nos assuntos de brutal relevância como política, religião e o amor pelos gatos.

Sim, senhor, ao guri Astrogildo jamais ocorreu amarrar bombardas no rabo de um gatinho, o que, entretanto, não o impedia de esculachar quem segredasse a amantes ter um angorá chamado Pimpolho.

Por avançarmos pela seara das intimidades, segredemos que Maria Joana nunca fumou. Tanto nunca fumou que ela nunca bebeu. Embora nunca tenha tragado, ela não tem fumaça de intragável. Moça certinha, sim; por óbvio, é mulher com um quê de careta; uma senhora com jeito de maluquinha, céus!, isso tanto nos maravilha.

O que tinha de doida, tinha de engraçada. Falava o que tinham que ouvir, e riam. Não gargalhavam, sorriam. Por dizer o que era bom que fosse dito sem véus, nem se orgulhava disso.

Deram de escutá-la, que era bom que a cidade tivesse uma pessoa que dissesse o que tinham de ouvir. Mas ela não punha questão de ser ouvida pelo que dizia, uma vez que se apercebia do momento.

Sem que a demovessem pelo que dizia, não zombava. Tirava teias, batia o pó, sacudia as vestes. Mofava com precisão. Tanto era incisiva que os atarantados tiravam-na por insana, ria-se. Pela insanidade que nem era a sua, mais que a Maria Joana gargalhava.

Dá peninha tanta gente que nem ri?

Se o segredo para ser feliz é compartilhar travessuras de siameses e angorás, pra ronronar, o Atanagildo e o Astrogildo são feras.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de fevereiro de 2023.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Fôlego de folião

Fôlego de folião

 

Na ração diária de quem não vê a hora de cair na folia, sem o devido equilíbrio, entram as tolices dos políticos, os influentes cancelamentos e umas sacanagens safadinhas bem ultrajantes.

Por um ano inteiro, tanta intoxicação empanturra.

Com a necessária licença, que os quatro dias e as cinco noites de carnaval permitam alimentar-se das alegrias não instituídas por celular, TV e pombos-correio.

Da sexta à noite à manhã de quarta, que o obsequioso consumidor bata o pó do ordeiro e ouça o chamado para reerguer-se das cinzas só quando a realidade cocoricar.

Galo ouvido, mundo havido.

Como a gangorra do mundo depende do impulso das más notícias, o rotineiro pede ao público que garanta o seu lugar.

Pra cantar o samba na avenida, pague-se à vista. Já que custa caro apresentar um desfile primoroso, aceite-se crédito.

Se fosse de terceira, o espetáculo teria baianas cansadas, ritmistas abúlicos, puxadores afônicos, carros mixurucas, mestres-salas e porta-bandeiras desconectados e a comissão de frente fecharia o tempo por aditamentos não dedutíveis na fonte.

Ao fim e ao cabo, quem pagaria por sujos, feios e maltrapilhos?

Seu Rodrigues, ratos e urubus não são novidade.

Não havendo novidade sob o sol, o cronista informa que esta é uma obra de ficção. Sendo fictícia, ela não espalha desinformação, também não inocula fatalismos nem cultiva rancores.

A crônica diz a aparente banalidade de uma cena familiar.

Uma menina e um menino não estão agitados, eles brincam. Como crianças que brincam, elas correm, pulam e gritam. Sem saber o que são alvoroço e azáfama, o menino e a menina se divertem.

Observá-las brincando não precisa ter um caráter desopilante. Que a graça da vida sendo vivida baste ao observador. Ainda que o fígado destile fel, seja gratificante acompanhar duas crianças vivendo mesmo que ignorem jargões e métodos analíticos.

Por favor, não se diga que o analista consciente precisa esboçar e aplicar um método lúdico para apreender a diversão infantil como jogo espontâneo, improvisado, com regras próprias.

Por uma visão marxista, um método marxista? Que bananas sejam comparadas a bananas ꟷ verdes ou maduras, bananas? Duvide-se da visão barroca de um filme surrealista? Serão anacrônicas as reflexões sobre a luta de classes na Odisseia? Estarão confusas as mentes que embaralham alhos com bugalhos? Há saída na entrada? Há cobra que se coma pela cauda?

Uma menina e um menino correm, pulam, ralam o joelho, cantam, brincam, se estranham, brigam, choram, voltam a rir ꟷ estão vivos.

Num átimo, aquela mãe vê a árvore.

Ela nota o tronco. Ela chama a filha e o filho, que voltem pros seus braços. Ela repara que o homem atrás do tronco tira a barba, as botas, o gorro; ele tira a sua roupa.

Possessa que até suspira:

ꟷ Em pleno carnaval, nem Rei Momo sabe dar-se ao respeito?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de fevereiro de 2023.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Como se fosse ontem

 

Como se fosse ontem

 

Sem disparar alarmes nem sugerir evacuação urgente, arrisco dizer que sou uma pessoa tranquila, um tanto atabalhoada quando me põem pressão, mas entendo quem desconfia que eu possa provocar alguma coisa impressionante, oxalá uma aurora boreal repentina.

Alerto, porém, que não há estudos sérios sobre gases humanos na estratosfera, sequer aqueles produzidos por mim que perco a decência ao devorar meu feijãozinho favorito, com repolho cozido acompanhado de batata doce.

Defendo-me, que tenho digestão pacífica.

Advirto a quem me apostrofa por minhas ambições a uma rotina por demais invisível, urbanamente normal, que sou o tipo de gente que não sonha em ser abatida feito OVNI no Canadá.

Muita gente talvez me considere um extraterrestre justamente pelo aspecto familiar, como se as minhas pobres roupas puídas atribuíssem impossibilidade de pilotar um jipe a trinta mil metros acima do mar.

Se não for balão meteorologicamente chinês, cacem-no de pronto, pois espião de outra latitude que flutue sutil não existe.

Porque a favor de minha persona insignificante, é alvíssara o relato no qual me descrevo: um tanto arcado na cacunda, outro tanto zarolho pelos óculos na ponta do nariz, com o restante de mim empenhado em tirar sujeira de unha com a boca.

Pela estampa com que me apresento, acredito ser uma pessoa sem nada de bizarro. Dou-me como alguém pacato, um cidadão sonolento depois do almoço, um fulano calmo, um beltrano que foge do caos, um sicrano andarilho porque nem tenho habilitação para andar de motocas envenenadas ou magrelinhas motorizadas.

Das mil e uma máscaras atribuídas a mim, só uma é a verdadeira, uma que já foi mostrada no escurinho do cinema.

O E.T. do Spielberg? O Bowie caído na Terra? O sonolento Klaatu?

Cáspite, que nem aposto qual personagem a que mais se aproxima de quem visualizo que sou.

Acho até que minha personalidade resulte da soma, da mistura, da confusão dos rostos das atrizes e dos atores que foram alienígenas em telonas, telinhas e mentalizações.

Sumo de vista feito um saci?

Pela imprevisibilidade, sou um saci. Imprevisível mas rastreável. E radares me apanham no ar: juro que sou um jumento mergulhando no espaço; e jumento que risca o céu não pode ser um cágado camicase; nenhum cágado digere bem as rochas plásticas da Ilha de Trindade.

Dá dor de cabeça assistir ao meteórico saci?

Assim como o tempo vira de uma hora para outra, pegando a gente desprevenida como um balão ao léu dos ventos, agora estou destinado a fazer da minha vida uma história nova em folha.

A partir de agora a sorte virou. De hoje em diante eu sou outro. Que amanhã acorde mudado, que me possa parir essa outra pessoa nova.

Enquanto houver amanhã, ontem siga sendo ontem, para eu seguir sendo um National Kid revigorado, repaginado, reciclado?

Sou simpático a ser o Saci.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de fevereiro de 2023.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Chocolate quente

 

Chocolate quente

 

Era pra eu estar podando roseiras na casa da minha cunhada, nisso veio uma abelha picar no meu pescoço nem bem me sentei para beber o café que me foi oferecido, afinal, como Deus adora ironias, Ambrósio, estou aqui, bebendo guaraná, enquanto você nem disfarça a satisfação de me ver com este vermelhão no pescoço.

Prefiro pensar que a irritação vai passar logo, porque sei muito bem que o guaraná não é antídoto pro incômodo que eu sinto ao ver no seu rosto a felicidade de me ver mais incomodado com a sua cara do que com o dolorido da picada da abelha.

O venenoso da situação é que a sua cara de bom amigo camarada me faz lamentar que fui obrigado a deixar para trás o sorriso sereno da minha cunhada. Porque a minha irmã culparia a mim, Ambrósio, como sempre ela faz quando algo de ruim acontece comigo.

Você poderia treinar no banheiro. É possível assumir a personagem de bom amigo camarada para que a gente perceba o quanto você pode ser sincero, Ambrósio. Tente agir com menos altivez, pois a sua rigidez o faz atuar como se as pessoas que sabem ouvir o que os outros dizem não são de sua confiança.

Ficar contrariado enquanto for preciso para defender-se dos demais é qualidade que se aprende. Invejo-o por sua soberba. Dá vontade de sair sem pagar, Ambrósio, apenas pra ensiná-lo a amar-se.

Se realizasse esta vontade, na certa, você bateria em mim. Sem dó, me sentaria a pua nas pernas com a vassoura. Me daria socos. Gritaria comigo. Entraria no papel de dono de bar que se irrita com desrespeito. Deixaria claro quem manda na sua espelunca.

Confie que possa amar-se ainda que odeie o próximo.

Eu ficaria com as sequelas do seu amor. Planejaria a vingança. Iria beber na concorrência. Falaria do ocorrido sem mudar uma vírgula. Por quê? Ambrósio, quando contada sem que se tome partido, toda história é verdadeira, fiel aos acontecimentos, sem nada fora dos fatos.

Proeza de vendedor? Veja bem, eu não vendo nada.

Se a sua interpretação do que digo é a de que tudo o que faço é pra me beneficiar de alguma forma, Ambrósio, você não vai me ofender ao reforçar o que tenho de bom.

Ora, eu sou mesmo muito bom em vender coisas, mas se não quer que eu venha mais aqui, Ambrósio, seja honesto, assuma o desprezo que você tem por mim. Do contrário, eu voltarei amanhã e continuarei vindo até que haja dignidade de sua parte.

Ambrósio, você não esconde que sua cara de sujeito grato é o mais cristalino nojo que sente por todos que trazemos as nossas pequenas verdades, as nossas minúsculas dores, as miudezas da vida.

Você não bebe guaraná, você toma chocolate.

Ambrósio, é lógico que dono de bar tem que correr bêbado que vive para atormentar, mas sóbrio também irrita a ponto de merecer que lhe seja negado um copo d’água ou uma lata de guaraná.

Não ache que sou idiota, Ambrósio, porque eu sei que nem quente guaraná tem o sabor do chocolate.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de fevereiro de 2023.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Quase à vontade

Quase à vontade

 

Aristeu fala.

Como só abre a boca pra enxaguá-la ao tomar banho, ele nem acha peculiar o regime que adota. Deveriam aprovar seu patriotismo, pois é bastante cidadão para encarar o chuveiro de três em três dias.

Será que os críticos não são capazes de reconhecer o esforço que faz pelo país? Analisem com isenção: embora os fios sirvam de poleiro a pombas e andorinhas, hidrelétricas prejudicam ecossistemas.

Porque o fedor bucal espanta, Aristeu fala pouco.

Quem tem que se horrorizar com o seu bafo é dentista, mas ele não marca consulta à toa, só mesmo quando a dor de dente o força.

Aristeu diz que os seus hormônios precisam de banhos demorados. Ele não economiza porque a água do chuveiro abranda a sua agitação. Não é bobagem. Ainda que não esteja livre dos remédios, ele sabe que pessoas que não tomam banho cansam bem menos.

Aliás, nas sessões da terapia, Aristeu fala pouco.

As sessões são muito boas, pois ele entende como as dúvidas mais cortantes ocorrem no caminho para sua casa.

Se pode gastar menos, por que certas musas têm preferência de vir a ele no banho? Que poder misterioso tem esse instinto coletivo que o arrebanha? Será tarada a pessoa que dá satisfação a fantasias?

Com consciência insidiosa, Aristeu se lamenta.

Despido do gemebundo, quem testemunha o noticiário da TV é um cidadão seco, salivando frente a tantas raivas, umas cretinas.

Sozinho, mesmo que não precise falar baixinho, ele fala. Ainda que o gato se interesse apenas pelos agrados feitos, ele comenta como se cometesse um crime. Pela vergonha de indignar-se com o que assiste, ele fala ainda mais baixo.

Acossado pelo que traz de taciturno, Aristeu telefona.

Surdo às desculpas, pela urgência em dar voz ao tremendamente reles, ele diz o que acha da realidade apresentada na TV, que ela é vil porque humilha, é ofensiva porque parcial, é muito injusta.

Aristeu não para mais de falar, embora ache justo cochichar.

Como deseja ater-se ao escancaradamente revoltado, ele sussurra que podem estar na escuta. Teme que suspeitem de que há muito mais coisas nas entrelinhas do que fala. O que não diz é que parece afronta gritante a quem conhece quais os mecanismos da mente humana.

Porque lhe falta acurácia, Aristeu não se cala.

Por repreender-se como destravado tagarela, ele percebe o passo em falso para cair no escandaloso. Em calamitosa euforia, percebe-se instado a renunciar à impotência de permanecer mudo. Sem surdinas nem socapas, uma persona muito falante, quem o escuta sabe que lhe sobra o indispensável aos sorrelfos, que é esse apelo ao êxtase.

É premente que vá banhar-se. Ele sabe que precisa agir rápido. Os olhos giram nas órbitas. Saliva tanto que baba. Não dá para terminar a ideia. De modo algum, não quer trair-se. Ele deseja resguardar-se.

Despudoradamente deslumbrado, Aristeu desliga o telefone.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de fevereiro de 2023.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Prática de inspiração

 

Prática de inspiração

 

Haja vista o momento presente, inspirado autodidata que não alega insanidade quando a realidade obra por mim que eu me paute por uma postura racional mesmo em ambientes e situações em que a emoção sobrepuje a coerência, acho conveniente que refaça os passos que me trouxeram à esquina onde eu me acho.

Todavia acho muita coisa, de tal maneira descabida que pareço lelé da cuca, por cuja fleuma desatino-me de uma coisa em outra.

E não acho, tenho certeza. Assim que me vir, ela me cumprimentará porque nos conhecemos. Contudo, ela passa por mim que nem me vê feito poste fincado no meio do passeio.

Nada sendo dito, bendito seja que dito a mim que eu medite.

Sujeito à verificação aleatória, entendo que os acontecimentos que não se comprovam fatos tornam difícil a digestão da realidade, porque a reconstituição da consciência passa pelo autoconhecimento.

Sem interferências alheias, alheio-me.

Há luz, logo me declaro: eu penso.

E a moça que passa sabe que soltar pipa no quintal é atividade bem pouco lúdica quando comparada a soltar pipa em terreno baldio.

Além dos muros, a fiação aérea é séria ameaça. Causa desastre o soltador de pipa que se ocupa apenas em dar linha. Sua pipa cabeceia, perde altura, caindo até ficar enroscada. Pronto! Tal brinquedo é butim a piratas urbanos que ululam de vacilo em vacilo.

Como o Sol bate nas andorinhas, não oscilo na esquina.

Os seres humanos sabem que o Sol é fonte natural de energia, que sua energia é renovável, embora deitássemos com as galinhas.

Chateados por deitar cedo, arranjamos energia elétrica para emular a luminosidade solar, incandescemos filamentos nos bulbos de cristal que afixamos no teto das nossas casas.

Pela forçada adaptação humana à crescente redução do sono, são as lâmpadas tecnicamente as culpadas. Eram doze as horas dormidas na escuridão do horizonte, passaram a oito com a penumbra de abajur, até nos restarem as seis intermitentes horas de insones pestanas.

Se pessoas conhecem a fome que as acometem em jantares, ceias e baladas, é que vale a pena pagar pela luz solar sem sol ou elas teriam de pegar no sono com as assustadoras histórias de gambás, raposas e gerentes de granja.

Cloaca de vida! Toda galinha sabe onde os juros arrocham, porque gerentes de granja enchem a poupança por papar milhares e milhares de dúzias de ovos.

A realidade é algo chocante?

Choque maior tenho eu com a galinha que passa de ônibus, porque nunca pensara que tal bicho topasse ser transportado entre nós outros que lhe somos predadores.

Se bem que tem motorista tartaruga que não freia bruscamente, ele obviamente pensa na coitada da galinha, cuja angústia de presumir-se esborrachada no para-brisa é um pulo pro panduio dos esfomeados.

Escrupulosos consumidores militantes, todos à luta:

ꟷ Chega de gracinha! Passe livre pras galinhas!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de fevereiro de 2023.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Claro estigma

 

Claro estigma

 

Ando a pé.

Isso, andar a pé, permite que eu divague sobre a realidade.

Quando não preciso sair pra quitar minhas dívidas rotineiras, divago como um vagabundo, com a despretensão dos distraídos.

Caminho, vou sem pressa.

Vou olhando o mundo como certa gente que não procura o que lhe acalme a mente, amanse os ímpetos, adestre os instintos.

Vou descobrindo encantos porque não me propus achá-los.

Há detalhes adornando a fachada de uma casa, tento lembrar, onde mais eu vi aqueles detalhes?

Não me recordo, não me censuro.

São portuguesas as pedras que partem da calçada diante da casa, adentram o portão em duas faixas paralelas, fazem o piso da garagem onde a lataria de um fusquinha está sendo polida por um idoso.

Tranquilo nos gestos, visivelmente cuidadoso ao espalhar a cera no capô do carro, o homem cuida do automóvel como se desse banho no seu mais estimado cachorrinho.

Trocamos bons-dias com meneios e acenos.

Acho educado ser educado, mais ainda quando sou correspondido.

Arrisco dizer que aqueles detalhes na fachada da casa eu os vi em Paraty, ou Iguape. Certamente, em alguma cidade que preserve traços de arquitetura colonial. Quiçá em Congonhas do Campo ou Mariana.

Sossegadamente, sigo andando.

Minhas pernas curtas agradecem o passo desacelerado. Ainda que minha garganta não esteja seca, bebo água de quando em quando. A mente descansada ajuda-me a seguir discreto, de alma desarmada.

Como gosto de andar sem rumo, deixo-me ir pelos ziguezagues que o acaso vai me oferecendo, sem motivo aparente para recusá-los.

Se o destino sabe de mim pelo que nem penso saber, divertida é a ideia de que me perco na cidade onde eu nasci e fui criado, porque ela agora nem me percebe cúmplice do acaso ou vivo inocente.

Subo uma ladeira onde outrora não havia uma, aqui era mato.

Não me quero abatido.

Pelo menino de minhas andanças, tento recompor a mata. Mas, os passarinhos gorjeantes descendem dos moradores naturais? Também preservo cipós, ipês, jequitibás, nomeando-os.

Como óleo e água não se misturam, quem fui e quem sou têm vozes que me fissuram em dois monólogos. Isso é triste.

Tenho achado bem chata a realidade do mundo.

Chata e cansativa, pois o mundo ao meu alcance depende de meus pés, que me espalhem além de banco, dentista e supermercado.

Entro numa ladeira de terra.

Sem placa que a coloque em um mapa, cujo CEP a localize e GPS a situe, registre-se o veredito: jardins sem gnomos, casas indefesas.

Para que tal visão não fique perdida, mas o celular, cadê que nunca o trago comigo?

Queria que a rua acabasse num mirante, com vista esplêndida da cidade lá embaixo. Todavia, ela termina num muro grosseiro.

No muro, um portão; no portão, uma porta; à porta, tem câmera.

Camarada sozinho em rua sem saída, porque é irresistível fantasiar que estou roncando na rede, disparo tocar a campainha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de fevereiro de 2023.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Sorumbático

 

Sorumbático

 

Noite passada, começaram as luzes. Foi providencial esse começo, porque as cobertas estavam no chão. A posição fetal não indicava que o pesadelo decorria da espinha entortada em bicos de papagaio. Fazia frio, e o suor incômodo tinha se originado do frio da madrugada.

Acordar com a cabeça nos pés e os pés onde o travesseiro deveria estar, se não estivesse sobre os cobertores caídos, era o sinal de que houvera travado uma batalha, mais uma, e outra vez perdida.

Sem fazer publicidade do sofrimento que suporta, padece porque o osso no osso nas sete décadas de vida faz ombros e joelhos doerem quando dos gestos mais rotineiros, como subir uma escada ou segurar sacolinhas de compras.

Quando a circunstância recorda que viver tem agruras que as horas de sono não reparam, Olegário se reconhece um corpo.

É o seu corpo avariado que acordou com as luzes. É nele que o frio fez doer as juntas do esqueleto. Pobre caixa craniana que não isola da noite o fantasma que despertou, esse lamentável Olegário.

Numa noite de muitas dores, uma voz luminosa falou-lhe que sonha acordado o homem que não conhece pesadelos.

Quando uma luz fala a quem dorme, é dita uma verdade.

No fundo um crédulo, primeiro ele desconfiava do que lhe era dito, só depois é que depositava a fé em quem o incorporava à teia de gente informada de tantos segredos.

Sim, sob o sol forte deste país tropical, não há como ignorar que ele é exemplo de pessoa que se identifica com esses sonhadores que não sabem o que seja despertar por conta de um pesadelo enregelante.

Olegário revisitou-se nas diversas vezes em que acabou caindo na rua porque pisara em buraco escandalosamente visível.

Evita o ridículo quem não sonha de olhos abertos.

Havia luzes. Naquela madrugada, muitas eram as luzes.

Antes de perder o fôlego por causa do que estava ali fora, Olegário pôs os óculos e recostou-se à guarda da cama.

A primeira coisa que pensou foi uma situação impossível, que havia uma viatura policial à janela.

Seria assombroso que as cores azul e vermelha fossem do giroflex de uma patrulha, pois carro de polícia, caminhão de bombeiro, ônibus, táxi ou uma ambulância, nenhum veículo conhecido teria como flutuar àquela altura, porque ele morava no décimo andar.

Excluídos os automóveis, talvez fosse um drone.

Com luzes tão potentes, ocorreu-lhe que apenas celulares gigantes são equipados com tais recursos.

Putisgrila! Atacariam o apartamento com telefonemas.

Cáspite! Arrombariam as portas com selfies.

Oxe! Olegário foi novamente seduzido.

Havia muito, quando brincava aos pés de uma mangueira, algo veio clicar justo quem nem sabia o que era aquilo, um OVNI.

Como ninguém soube daquele disco-voador pilotado por um bando de alienígenas, só o garoto teria como contar o que acontecera, mas o Olegário tartamelo nasceu ali, alhures, naquele ventre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de fevereiro de 2023.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Complicado nada

 

Complicado nada

 

O último dia do mês não me motiva a fazer o balanço do que eu fiz neste último mês, uma vez que, aceitável ou decepcionante, feito está o que está feito.

Lembro isso, esqueço-me daquilo. Procuro não complicar o que não tenho de complicar, pois a vida pode ser menos confusa se eu for mais atento. Ainda que ande confuso, que eu ande levemente.

Eu sei, e admito que sei: ainda que siga em frente, irei adiante ainda que não vá. Sim, realmente não sei o que até ontem achava que sabia. Eu não tenho pleno conhecimento de ter feito o que julgo ter feito, pois, embora tenha feito, não estou certo do que não fiz, ainda que não tenha feito o que ainda agora julgo acertado o que eu deixei de fazer.

Pessoa persistente que não desiste de crer no que não crê, a cada dia deste último mês, banhei-me, alimentei-me, dormi e acordei, tolices fizeram-me sorrir, indignei-me com vilanias, vivi felicidades, aceitei as frustrações, e contive o desespero.

A cada noite: cochilei na poltrona; critiquei chatices repetitivas que a televisão dá como saudável entretenimento; comi ovo frito em vez de rúcula; com paciência estoica, me livrei de pernilongo irritante; pratiquei a arte de aguardar dormindo que a alvorada dobre a esquina; sinto que o Sol iluminando a Terra sensibiliza-me, pois a comunhão cósmica da aurora está em mim; sou mesmo é humano, cotidianamente humano, daí que me percebo outro a cada dia.

Se me fosse pedido que citasse um fato relevante, teria de apontar que as pessoas não concordam em tudo. Marcaria: o que merece ser destacado por uma pode não ter importância para outra.

No labirinto do mundo, a vida aborrece quando o Minotauro nunca está na rua seguinte. Por mais que se ande, jamais se anda, se anda por nada, pois a próxima rua é sempre a mesma, outra rua.

Neste último dia do mês, quero estar preparado para o primeiro dia do mês que vem. Nas próximas vinte e quatro horas, não quero pensar que, dobrando a esquina, me aguarda o passado.

O que eu vejo à frente?

Reparo que criança que gosta de brincar ganha mais balas.

Noto que criança que brinca tem aquele olhar de gente feliz porque a vida é bem divertida quando se ganha balas, balas de caramelo.

Insisto, o que eu desejo mais adiante?

Simples, é boa a bala de caramelo que dissolve na boca.

Quem chupa uma bala gostosa de ser chupada é quem não perde tempo pensando na vida que poderia ter tido mas não tem.

Ora, neste último dia do mês, não perde nada quem pensa: pra que todo mês termine, é certo que haja o dia que seja o último.

Vamos lá, mude o foco. Pense o quão inspirador é saber que: o mês terminado há onze meses começa de novo onze meses depois; todo último dia do mês ocorre doze vezes ao ano; todo ano termina no último dia do ano.

De novo complicado, né?

A criança que chupa bala com gosto sabe que a próxima bala dará gosto de ser chupada porque toda bala é sempre outra.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de janeiro de 2023.

domingo, 29 de janeiro de 2023

A fonte

 

A fonte

 

Exceto nos momentos em que uma vontade irrefreável me controla, entro naquele bar pra comer um salgado, beber meu guaraná e, já que peguei deste hábito, assuntar a quantas anda o dia.

Não disfarço, sei que faz bem manter-me disciplinado a maior parte do tempo. Todavia, não penso na temperança como uma ilha bucólica em meio a um colossal oceano de bravatas devassas.

Levo uma vida melancólica. Não que nela eu tenha me abrigado por escolha, é que me são desnorteantes temporais, ventanias, mesmo os marasmos. A melancolia, porém, percebo-a como garoa ao meio-dia.

Levemente triste, sento-me a uma distância saudável dos fumantes, peço um quibe devera rançoso e, pra passá-lo por frugal às papilas, eu capricho na pimenta.

Como devagar, não que o salgadinho permita saboreá-lo como uma iguaria inigualável. Porque frio, oleoso e difícil de engolir, mordo-o com moderação, embora ponha mais pimenta.

Se é pra quebrar o ranço do apimentado roçando na garganta, tomo cerveja. Desculpem, não entro em boteco só para tomar cerveja.

No manual não escrito deste observador, fico longe das encrencas. Se não aprovo pacientemente minha rotina de abstêmio, não brigo por ninharias. Aproveito o dia para permanecer em dia com a vida.

Sei bem que vontades insondáveis surgem do nada, avolumam-se no peito e dão calafrios quando trato de pesar perdas e ganhos já com um pé no muquifo a que me resigno frequentar.

Quando incontrolável, a ânsia que me sobe à carne desanda a hora: guloso sem fome, entorno copos; baixem-me garrafas e garrafas.

Quando nem reparo no que faço, às pessoas sóbrias pareço à beira de uma brutalidade vergonhosa, que eu corra abraçar outro vaso.

Vaso em cuja água desentranha-se tal funda flor: o remorso.

Quem reflete sobre a realidade diz que vasos que transbordam não brincam em serviço. Deixam escorregadiços quaisquer pisos. E tornam nauseabundos os ambientes. São visceralmente escatológicos.

Segundo quem me conhece bêbado, subscrevo e dou fé: vasos são traiçoeiros quando me servem de casca de banana.

Enquanto ando tonto, bambaleando nos calcanhares, pisando torto na latrina imunda em que eu mesmo acabo entrando, o chão sujo me leva ao abraço.

Feito um libertino travesso, eu não sento no vaso.

Neste momento crítico, abraçado a este vaso de marca conhecida, quero trocar-lhe o nome, rubricá-lo Rrose Sélavy.

De posse deste novo status, preciso levá-lo do retrete pra depositá-lo na mesa do primeiro que reclame do vândalo que a mim me possui neste instante de fato estarrecedor.

Constrangido, recobrarei a sanidade.

Compungido, religarei o encanamento que detonei num repente.

Com o retorno da ordem, posso muito bem decidir na moedinha. Se der cara, continuo bebendo; se der coroa, saio de fininho.

Mas a vida é mesmo um caso perdido. Como não tenho moedas no bolso, pago a conta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de janeiro de 2023.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Varrido

 

Varrido

 

Cheia de prosa, a brisa passa por mim. Me percebendo perplexo, o ar faz assobiar o sabiá. Cheio de graça, se bem entendo a mensagem, acho normal a pessoa avaliar-se: será que sou ou será que estou?

Dizem, aqueles que se acham sãos é que dizem, que o sujeito com ideias estapafúrdias invariavelmente produz extravagâncias realizando bizarrices em série porque está consciente de que nada há de errado consigo, a sociedade é que não compreende a sua natureza.

Evidentemente, quem se pergunta o quanto tem de doido é alguém que está pronto pra saber que é ridículo parar a boca a um centímetro da boca que espera ser beijada.

Quem pede um beijo não duvida que beijar seja normal, beija. Como é perfeitamente normal que se desfrute do beijo desejado, beijem-se.

Normal não é quando essa pessoa persuade outrem a criticar-me: como não é se gosta de agir como se fosse?

Zanzo azedo, bramindo fogo, vociferando a mil, blasfemando como anjo insone, tenho estado tenso, ando abrindo abismo, de um instante pra outro cairei no riso, cuspirei a bel-prazer, pularei da corda bamba, sei que tomo pé do que ando fazendo porque a cabeça dói, a barriga ronca, a boca não se segura, direi o clichê, percebo a ideia batida, que o senso comum me acuda, é óbvio, na cômoda situação de definir-me, fico quieto, pois me colocam no lugar de quem eu julgo insano.

Certamente, nem passa pela cabeça da pessoa que me atende na farmácia que o meu sorriso de gente comum diz que me considero apto a demonstrar serenidade mesmo que o dinheiro seja pouco pro xampu.

Como pode o cabelo estar seco se o chuveiro está ligado?

Primeiro, quem toma banho não quer lavar a cabeça. Ou, a cabeça é careca. Outra possibilidade, chuveiro ligado não implica que estejam tomando banho, talvez limpem o box com a água da mangueirinha.

Talvez o mundo não fique melhor se eu permanecer sorridente, mas a pessoa que trabalha no caixa não precisa que mais um chato queira saber qual é o seu signo.

Que deficiência a minha, sei um pingo de nada de astrologia.

Primeiro, ver o céu à noite é maravilhoso. Depois, muito me encanta a escuridão do céu noturno. Pontos luminosos, distantes, acredito que tais corpos interfiram na felicidade humana que capta a força viva que a tudo liga, une e amalgama. Sim, o universo é deslumbrante.

Como joalheiro dado a pensamentos cabotinos, correndo o risco de soar mentecapto, digo que a realidade é diamante que me cabe ajudar a lapidar a cada segundo.

Como cobiço livrar-me de certas ideiazinhas, eu não vou varrer pro bueiro mais próximo quem me despreza.

À pessoa de mão espalmada, peço-lhe que se levante por um futuro melhor, pois a transformação fraterna depende da sua vontade.

Solidarizo-me com quem pede sorte. Acredito que merrecas dadas valham tal qual arroz, feijão e bife.

Por que sorrio?

Sorriso é camisa de força a energúmeno, sopro eu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de janeiro de 2023.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Suco de manga

 

Suco de manga

 

ꟷ Quem não repete a história, esquece-a.

Uma vez esquecida, é certo pôr uma pedra em cima. Como o vento leva o que não tem peso, que a lápide marque o que não mais viceja.

Dona Cremilda não é folha seca, jamais será página virada; sua raiz tem fibra pra pegar em pedra, areia ou barro ressequido.

ꟷ Quem tem família, tem berço.

Dona Cremilda retira a casca do pão de forma, deposita-a na mesa e arrepia-se ao ver: a forma dá moldura ao que não está ausente.

ꟷ O que a gente intui, a gente sente.

Ela não pensa que saudades sentidas prescindem de choro pra que sejam perturbadoras. Dia sim, outro também, ela chora à mesa.

Para que o desconforto com o que tenha feito de errado, ainda hoje ou ontem, não lhe agrave a antipatia por uma versão aprimorada de si, a ela não falta a dor de remoer-se em silêncio.

Acomodada a esta casa, cujas paredes estão entupidas por retratos de familiares, ela é petúnia que murcha quando não a regam lágrimas de compaixão, derramadas até a quem há de entrever-lhe os espinhos.

Cacto a partir de uma petúnia, criatura?

ꟷ Gente decente não se desculpa pelo descaso com o passado.

Ela não se deixa contrariar sem contestações. Quando aborrecida, chega a ser estúpida. Se insistem, irrita-se. Uma vez irritada, perde-se das boas maneiras, faz-se outra, uma pessoa beligerante.

ꟷ Quem cativa cuitelo com néctar, mata por vaidade.

Dona Cremilda detesta que a recriminem pela ociosidade.

ꟷ Ainda que eu não esteja fazendo nada, deploro quando chamam, batem no ombro, riem da suposta ausência da mente presente. Santo Deus! Deixem-me meditar um pouquinho.

Assim interrompida, declina de mesuras.

ꟷ Quem respeita limites põe razão em rebelar-se.

Ao meditar, Dona Cremilda respira de olhos fechados. É preferível que não veja as fotos. As recordações mais intensas até a confundem. Lugares que a alegram não devem ser misturados àqueles que lhe são indiferentes.

Mas, de onde vêm as tristezas? Vêm de algum lugar entre a alegria e a indiferença. Esta é a maior tristeza, fere tão profundamente que até anestesia. As tristezas não vêm da indiferença, mas a apatia não anula a dor, torna-a insuportável em tal grau que há amortecimento.

Sem arrependimento pela escolha feita, quando teve que escolher entre comprar ou não um apartamento na praia, Dona Cremilda pensou em ter filhos.

Caramba, crianças morrem afogadas.

E o apartamento na praia que não foi comprado fez com que a Dona Cremilda lamentasse não ganhar o suficiente para começar a pagar as parcelas, honrando-as por vinte anos.

Seus filhos não nadariam no mar nas manhãs de domingo. Mesmo se garoasse, ventasse frio e os vendedores de picolé reclamassem da nota de cem de Dona Cremilda, com água abaixo do joelho, as crianças gritariam felicíssimas.

É terça, não é dia da filha de Dona Cremilda pedir suco, até porque o copo sobre a mesa está vazio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de janeiro de 2023.

domingo, 22 de janeiro de 2023

Canta, canta, cantador

 

Canta, canta, cantador

 

Embora tenha um nome que reaviva muitas das alegrias de criança, do outro lado do muro, vive um cachorro que não para quieto.

Se soubesse serenar-se sempre que tem sede, o atabalhoado não ficaria lambendo água esparramada.

Se sossegasse um pouco, certamente seria menor a quantidade de ração espalhada ao redor da tigela.

Duas vezes ao dia enchem a tigelinha que o danado abocanha para ir atirá-la à porta da cozinha.

Como não conquistou a técnica de batê-la contra a porta, o serelepe late e fica latindo até que se disponham a entendê-lo.

Quando finalmente atendem-no, tão entusiasmado com o montículo de ração, Bidu abana o rabicho como ponteiro Geiger na presença de urânio, é cotó evidentemente frenético.

Dobermann com nomezinho fofo? É ironia, bidu.

É irônico, porque o animal além do muro serve como metáfora para gente neuroticamente pilhada, a cuja proximidade cabe a advertência: mantenha distância.

Cuidado com o cão. Não se derreta frente à airosa criatura. Quando levada a defender-se ou proteger terceiros, usa as garras afiadas, seus caninos pujantes, ela tem mordedura nervosa.

Mesmo alimentada todos os dias, mesmo não ameaçada, esta fera ataca canelas de carteiros, calotas de automóveis e gatos com ou sem postura elegante, é brava, é cão ardilosamente bravo.

Não conhecesse macetes, truques e artimanhas, seria outro bicho domesticado, objeto de estima que encantaria. Cativante, este cão tem manhas. Quando fareja o medo, não ataca de pronto. Aguarda que se lhe ofereçam a vantagem de um assalto certeiro.

Muros e muretas não são muralha; salta-os como se brincasse.

Será Bidu o maior dos problemas?

Pra vizinhança, especialmente pros vizinhos separados apenas por um muro, problema dos grandes é outro, é o Clodoaldo.

Não passa dia sem que a mãe perca as estribeiras, pois o moleque é imune a água benta nos costados e petelecos na orelha.

Quando parece dar uma trégua pra que as novidades do zap sejam checadas, é outro golpe astuto, pois nem sova de cinta intimida o diabo no corpo deste espoleta.

Se corretivos bem dados domesticassem genética indomável, quiçá o Clô desautorizasse suas ousadias mais infaustas, que nem precisaria aquela amortecida de gelo no couro da bunda em carne viva.

Cadê o Clô, Bidu?

Putisgrila, pedir a pateta que faça coisa inteligente é torcer pra calça ficar seca enquanto urina perna abaixo.

Ô Sol, tordo não tarda cantar a toada da tarde?

Mouco a quem lhe grita o nome; balançando desengonçado os pés na beirada do telhado; inalcançável a olhares alvoroçados: tal pestinha continuaria contente se o cachorro bobo do vizinho não viesse dedurá-lo, latindo feito um lunático.

Seja o bom garoto que sabe ser quando é obrigado, jogue os cacos na lata de lixo, porque garrafas de refri só são malabares nas mãos de quem entende do riscado, Clô.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de janeiro de 2023.