quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Sorumbático

 

Sorumbático

 

Noite passada, começaram as luzes. Foi providencial esse começo, porque as cobertas estavam no chão. A posição fetal não indicava que o pesadelo decorria da espinha entortada em bicos de papagaio. Fazia frio, e o suor incômodo tinha se originado do frio da madrugada.

Acordar com a cabeça nos pés e os pés onde o travesseiro deveria estar, se não estivesse sobre os cobertores caídos, era o sinal de que houvera travado uma batalha, mais uma, e outra vez perdida.

Sem fazer publicidade do sofrimento que suporta, padece porque o osso no osso nas sete décadas de vida faz ombros e joelhos doerem quando dos gestos mais rotineiros, como subir uma escada ou segurar sacolinhas de compras.

Quando a circunstância recorda que viver tem agruras que as horas de sono não reparam, Olegário se reconhece um corpo.

É o seu corpo avariado que acordou com as luzes. É nele que o frio fez doer as juntas do esqueleto. Pobre caixa craniana que não isola da noite o fantasma que despertou, esse lamentável Olegário.

Numa noite de muitas dores, uma voz luminosa falou-lhe que sonha acordado o homem que não conhece pesadelos.

Quando uma luz fala a quem dorme, é dita uma verdade.

No fundo um crédulo, primeiro ele desconfiava do que lhe era dito, só depois é que depositava a fé em quem o incorporava à teia de gente informada de tantos segredos.

Sim, sob o sol forte deste país tropical, não há como ignorar que ele é exemplo de pessoa que se identifica com esses sonhadores que não sabem o que seja despertar por conta de um pesadelo enregelante.

Olegário revisitou-se nas diversas vezes em que acabou caindo na rua porque pisara em buraco escandalosamente visível.

Evita o ridículo quem não sonha de olhos abertos.

Havia luzes. Naquela madrugada, muitas eram as luzes.

Antes de perder o fôlego por causa do que estava ali fora, Olegário pôs os óculos e recostou-se à guarda da cama.

A primeira coisa que pensou foi uma situação impossível, que havia uma viatura policial à janela.

Seria assombroso que as cores azul e vermelha fossem do giroflex de uma patrulha, pois carro de polícia, caminhão de bombeiro, ônibus, táxi ou uma ambulância, nenhum veículo conhecido teria como flutuar àquela altura, porque ele morava no décimo andar.

Excluídos os automóveis, talvez fosse um drone.

Com luzes tão potentes, ocorreu-lhe que apenas celulares gigantes são equipados com tais recursos.

Putisgrila! Atacariam o apartamento com telefonemas.

Cáspite! Arrombariam as portas com selfies.

Oxe! Olegário foi novamente seduzido.

Havia muito, quando brincava aos pés de uma mangueira, algo veio clicar justo quem nem sabia o que era aquilo, um OVNI.

Como ninguém soube daquele disco-voador pilotado por um bando de alienígenas, só o garoto teria como contar o que acontecera, mas o Olegário tartamelo nasceu ali, alhures, naquele ventre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de fevereiro de 2023.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Complicado nada

 

Complicado nada

 

O último dia do mês não me motiva a fazer o balanço do que eu fiz neste último mês, uma vez que, aceitável ou decepcionante, feito está o que está feito.

Lembro isso, esqueço-me daquilo. Procuro não complicar o que não tenho de complicar, pois a vida pode ser menos confusa se eu for mais atento. Ainda que ande confuso, que eu ande levemente.

Eu sei, e admito que sei: ainda que siga em frente, irei adiante ainda que não vá. Sim, realmente não sei o que até ontem achava que sabia. Eu não tenho pleno conhecimento de ter feito o que julgo ter feito, pois, embora tenha feito, não estou certo do que não fiz, ainda que não tenha feito o que ainda agora julgo acertado o que eu deixei de fazer.

Pessoa persistente que não desiste de crer no que não crê, a cada dia deste último mês, banhei-me, alimentei-me, dormi e acordei, tolices fizeram-me sorrir, indignei-me com vilanias, vivi felicidades, aceitei as frustrações, e contive o desespero.

A cada noite: cochilei na poltrona; critiquei chatices repetitivas que a televisão dá como saudável entretenimento; comi ovo frito em vez de rúcula; com paciência estoica, me livrei de pernilongo irritante; pratiquei a arte de aguardar dormindo que a alvorada dobre a esquina; sinto que o Sol iluminando a Terra sensibiliza-me, pois a comunhão cósmica da aurora está em mim; sou mesmo é humano, cotidianamente humano, daí que me percebo outro a cada dia.

Se me fosse pedido que citasse um fato relevante, teria de apontar que as pessoas não concordam em tudo. Marcaria: o que merece ser destacado por uma pode não ter importância para outra.

No labirinto do mundo, a vida aborrece quando o Minotauro nunca está na rua seguinte. Por mais que se ande, jamais se anda, se anda por nada, pois a próxima rua é sempre a mesma, outra rua.

Neste último dia do mês, quero estar preparado para o primeiro dia do mês que vem. Nas próximas vinte e quatro horas, não quero pensar que, dobrando a esquina, me aguarda o passado.

O que eu vejo à frente?

Reparo que criança que gosta de brincar ganha mais balas.

Noto que criança que brinca tem aquele olhar de gente feliz porque a vida é bem divertida quando se ganha balas, balas de caramelo.

Insisto, o que eu desejo mais adiante?

Simples, é boa a bala de caramelo que dissolve na boca.

Quem chupa uma bala gostosa de ser chupada é quem não perde tempo pensando na vida que poderia ter tido mas não tem.

Ora, neste último dia do mês, não perde nada quem pensa: pra que todo mês termine, é certo que haja o dia que seja o último.

Vamos lá, mude o foco. Pense o quão inspirador é saber que: o mês terminado há onze meses começa de novo onze meses depois; todo último dia do mês ocorre doze vezes ao ano; todo ano termina no último dia do ano.

De novo complicado, né?

A criança que chupa bala com gosto sabe que a próxima bala dará gosto de ser chupada porque toda bala é sempre outra.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de janeiro de 2023.

domingo, 29 de janeiro de 2023

A fonte

 

A fonte

 

Exceto nos momentos em que uma vontade irrefreável me controla, entro naquele bar pra comer um salgado, beber meu guaraná e, já que peguei deste hábito, assuntar a quantas anda o dia.

Não disfarço, sei que faz bem manter-me disciplinado a maior parte do tempo. Todavia, não penso na temperança como uma ilha bucólica em meio a um colossal oceano de bravatas devassas.

Levo uma vida melancólica. Não que nela eu tenha me abrigado por escolha, é que me são desnorteantes temporais, ventanias, mesmo os marasmos. A melancolia, porém, percebo-a como garoa ao meio-dia.

Levemente triste, sento-me a uma distância saudável dos fumantes, peço um quibe devera rançoso e, pra passá-lo por frugal às papilas, eu capricho na pimenta.

Como devagar, não que o salgadinho permita saboreá-lo como uma iguaria inigualável. Porque frio, oleoso e difícil de engolir, mordo-o com moderação, embora ponha mais pimenta.

Se é pra quebrar o ranço do apimentado roçando na garganta, tomo cerveja. Desculpem, não entro em boteco só para tomar cerveja.

No manual não escrito deste observador, fico longe das encrencas. Se não aprovo pacientemente minha rotina de abstêmio, não brigo por ninharias. Aproveito o dia para permanecer em dia com a vida.

Sei bem que vontades insondáveis surgem do nada, avolumam-se no peito e dão calafrios quando trato de pesar perdas e ganhos já com um pé no muquifo a que me resigno frequentar.

Quando incontrolável, a ânsia que me sobe à carne desanda a hora: guloso sem fome, entorno copos; baixem-me garrafas e garrafas.

Quando nem reparo no que faço, às pessoas sóbrias pareço à beira de uma brutalidade vergonhosa, que eu corra abraçar outro vaso.

Vaso em cuja água desentranha-se tal funda flor: o remorso.

Quem reflete sobre a realidade diz que vasos que transbordam não brincam em serviço. Deixam escorregadiços quaisquer pisos. E tornam nauseabundos os ambientes. São visceralmente escatológicos.

Segundo quem me conhece bêbado, subscrevo e dou fé: vasos são traiçoeiros quando me servem de casca de banana.

Enquanto ando tonto, bambaleando nos calcanhares, pisando torto na latrina imunda em que eu mesmo acabo entrando, o chão sujo me leva ao abraço.

Feito um libertino travesso, eu não sento no vaso.

Neste momento crítico, abraçado a este vaso de marca conhecida, quero trocar-lhe o nome, rubricá-lo Rrose Sélavy.

De posse deste novo status, preciso levá-lo do retrete pra depositá-lo na mesa do primeiro que reclame do vândalo que a mim me possui neste instante de fato estarrecedor.

Constrangido, recobrarei a sanidade.

Compungido, religarei o encanamento que detonei num repente.

Com o retorno da ordem, posso muito bem decidir na moedinha. Se der cara, continuo bebendo; se der coroa, saio de fininho.

Mas a vida é mesmo um caso perdido. Como não tenho moedas no bolso, pago a conta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de janeiro de 2023.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Varrido

 

Varrido

 

Cheia de prosa, a brisa passa por mim. Me percebendo perplexo, o ar faz assobiar o sabiá. Cheio de graça, se bem entendo a mensagem, acho normal a pessoa avaliar-se: será que sou ou será que estou?

Dizem, aqueles que se acham sãos é que dizem, que o sujeito com ideias estapafúrdias invariavelmente produz extravagâncias realizando bizarrices em série porque está consciente de que nada há de errado consigo, a sociedade é que não compreende a sua natureza.

Evidentemente, quem se pergunta o quanto tem de doido é alguém que está pronto pra saber que é ridículo parar a boca a um centímetro da boca que espera ser beijada.

Quem pede um beijo não duvida que beijar seja normal, beija. Como é perfeitamente normal que se desfrute do beijo desejado, beijem-se.

Normal não é quando essa pessoa persuade outrem a criticar-me: como não é se gosta de agir como se fosse?

Zanzo azedo, bramindo fogo, vociferando a mil, blasfemando como anjo insone, tenho estado tenso, ando abrindo abismo, de um instante pra outro cairei no riso, cuspirei a bel-prazer, pularei da corda bamba, sei que tomo pé do que ando fazendo porque a cabeça dói, a barriga ronca, a boca não se segura, direi o clichê, percebo a ideia batida, que o senso comum me acuda, é óbvio, na cômoda situação de definir-me, fico quieto, pois me colocam no lugar de quem eu julgo insano.

Certamente, nem passa pela cabeça da pessoa que me atende na farmácia que o meu sorriso de gente comum diz que me considero apto a demonstrar serenidade mesmo que o dinheiro seja pouco pro xampu.

Como pode o cabelo estar seco se o chuveiro está ligado?

Primeiro, quem toma banho não quer lavar a cabeça. Ou, a cabeça é careca. Outra possibilidade, chuveiro ligado não implica que estejam tomando banho, talvez limpem o box com a água da mangueirinha.

Talvez o mundo não fique melhor se eu permanecer sorridente, mas a pessoa que trabalha no caixa não precisa que mais um chato queira saber qual é o seu signo.

Que deficiência a minha, sei um pingo de nada de astrologia.

Primeiro, ver o céu à noite é maravilhoso. Depois, muito me encanta a escuridão do céu noturno. Pontos luminosos, distantes, acredito que tais corpos interfiram na felicidade humana que capta a força viva que a tudo liga, une e amalgama. Sim, o universo é deslumbrante.

Como joalheiro dado a pensamentos cabotinos, correndo o risco de soar mentecapto, digo que a realidade é diamante que me cabe ajudar a lapidar a cada segundo.

Como cobiço livrar-me de certas ideiazinhas, eu não vou varrer pro bueiro mais próximo quem me despreza.

À pessoa de mão espalmada, peço-lhe que se levante por um futuro melhor, pois a transformação fraterna depende da sua vontade.

Solidarizo-me com quem pede sorte. Acredito que merrecas dadas valham tal qual arroz, feijão e bife.

Por que sorrio?

Sorriso é camisa de força a energúmeno, sopro eu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de janeiro de 2023.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Suco de manga

 

Suco de manga

 

ꟷ Quem não repete a história, esquece-a.

Uma vez esquecida, é certo pôr uma pedra em cima. Como o vento leva o que não tem peso, que a lápide marque o que não mais viceja.

Dona Cremilda não é folha seca, jamais será página virada; sua raiz tem fibra pra pegar em pedra, areia ou barro ressequido.

ꟷ Quem tem família, tem berço.

Dona Cremilda retira a casca do pão de forma, deposita-a na mesa e arrepia-se ao ver: a forma dá moldura ao que não está ausente.

ꟷ O que a gente intui, a gente sente.

Ela não pensa que saudades sentidas prescindem de choro pra que sejam perturbadoras. Dia sim, outro também, ela chora à mesa.

Para que o desconforto com o que tenha feito de errado, ainda hoje ou ontem, não lhe agrave a antipatia por uma versão aprimorada de si, a ela não falta a dor de remoer-se em silêncio.

Acomodada a esta casa, cujas paredes estão entupidas por retratos de familiares, ela é petúnia que murcha quando não a regam lágrimas de compaixão, derramadas até a quem há de entrever-lhe os espinhos.

Cacto a partir de uma petúnia, criatura?

ꟷ Gente decente não se desculpa pelo descaso com o passado.

Ela não se deixa contrariar sem contestações. Quando aborrecida, chega a ser estúpida. Se insistem, irrita-se. Uma vez irritada, perde-se das boas maneiras, faz-se outra, uma pessoa beligerante.

ꟷ Quem cativa cuitelo com néctar, mata por vaidade.

Dona Cremilda detesta que a recriminem pela ociosidade.

ꟷ Ainda que eu não esteja fazendo nada, deploro quando chamam, batem no ombro, riem da suposta ausência da mente presente. Santo Deus! Deixem-me meditar um pouquinho.

Assim interrompida, declina de mesuras.

ꟷ Quem respeita limites põe razão em rebelar-se.

Ao meditar, Dona Cremilda respira de olhos fechados. É preferível que não veja as fotos. As recordações mais intensas até a confundem. Lugares que a alegram não devem ser misturados àqueles que lhe são indiferentes.

Mas, de onde vêm as tristezas? Vêm de algum lugar entre a alegria e a indiferença. Esta é a maior tristeza, fere tão profundamente que até anestesia. As tristezas não vêm da indiferença, mas a apatia não anula a dor, torna-a insuportável em tal grau que há amortecimento.

Sem arrependimento pela escolha feita, quando teve que escolher entre comprar ou não um apartamento na praia, Dona Cremilda pensou em ter filhos.

Caramba, crianças morrem afogadas.

E o apartamento na praia que não foi comprado fez com que a Dona Cremilda lamentasse não ganhar o suficiente para começar a pagar as parcelas, honrando-as por vinte anos.

Seus filhos não nadariam no mar nas manhãs de domingo. Mesmo se garoasse, ventasse frio e os vendedores de picolé reclamassem da nota de cem de Dona Cremilda, com água abaixo do joelho, as crianças gritariam felicíssimas.

É terça, não é dia da filha de Dona Cremilda pedir suco, até porque o copo sobre a mesa está vazio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de janeiro de 2023.

domingo, 22 de janeiro de 2023

Canta, canta, cantador

 

Canta, canta, cantador

 

Embora tenha um nome que reaviva muitas das alegrias de criança, do outro lado do muro, vive um cachorro que não para quieto.

Se soubesse serenar-se sempre que tem sede, o atabalhoado não ficaria lambendo água esparramada.

Se sossegasse um pouco, certamente seria menor a quantidade de ração espalhada ao redor da tigela.

Duas vezes ao dia enchem a tigelinha que o danado abocanha para ir atirá-la à porta da cozinha.

Como não conquistou a técnica de batê-la contra a porta, o serelepe late e fica latindo até que se disponham a entendê-lo.

Quando finalmente atendem-no, tão entusiasmado com o montículo de ração, Bidu abana o rabicho como ponteiro Geiger na presença de urânio, é cotó evidentemente frenético.

Dobermann com nomezinho fofo? É ironia, bidu.

É irônico, porque o animal além do muro serve como metáfora para gente neuroticamente pilhada, a cuja proximidade cabe a advertência: mantenha distância.

Cuidado com o cão. Não se derreta frente à airosa criatura. Quando levada a defender-se ou proteger terceiros, usa as garras afiadas, seus caninos pujantes, ela tem mordedura nervosa.

Mesmo alimentada todos os dias, mesmo não ameaçada, esta fera ataca canelas de carteiros, calotas de automóveis e gatos com ou sem postura elegante, é brava, é cão ardilosamente bravo.

Não conhecesse macetes, truques e artimanhas, seria outro bicho domesticado, objeto de estima que encantaria. Cativante, este cão tem manhas. Quando fareja o medo, não ataca de pronto. Aguarda que se lhe ofereçam a vantagem de um assalto certeiro.

Muros e muretas não são muralha; salta-os como se brincasse.

Será Bidu o maior dos problemas?

Pra vizinhança, especialmente pros vizinhos separados apenas por um muro, problema dos grandes é outro, é o Clodoaldo.

Não passa dia sem que a mãe perca as estribeiras, pois o moleque é imune a água benta nos costados e petelecos na orelha.

Quando parece dar uma trégua pra que as novidades do zap sejam checadas, é outro golpe astuto, pois nem sova de cinta intimida o diabo no corpo deste espoleta.

Se corretivos bem dados domesticassem genética indomável, quiçá o Clô desautorizasse suas ousadias mais infaustas, que nem precisaria aquela amortecida de gelo no couro da bunda em carne viva.

Cadê o Clô, Bidu?

Putisgrila, pedir a pateta que faça coisa inteligente é torcer pra calça ficar seca enquanto urina perna abaixo.

Ô Sol, tordo não tarda cantar a toada da tarde?

Mouco a quem lhe grita o nome; balançando desengonçado os pés na beirada do telhado; inalcançável a olhares alvoroçados: tal pestinha continuaria contente se o cachorro bobo do vizinho não viesse dedurá-lo, latindo feito um lunático.

Seja o bom garoto que sabe ser quando é obrigado, jogue os cacos na lata de lixo, porque garrafas de refri só são malabares nas mãos de quem entende do riscado, Clô.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de janeiro de 2023.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Bela porcaria

 

Bela porcaria

 

Que bela porcaria é viver, hein Samuel?

Pelo que sei, você abre a janela do seu quarto todos os dias apenas para incomodar-se, ou bocejaria.

Tanto faz, bocejos ou espreguiçadas, a vida incomoda.

Se se houvesse por menos absurdo, daria uma espiadinha esperta pelos vãos da veneziana antes de refugiar-se na cama.

Refúgio, abrigo ou covil?

Se esperança positiva imantasse as traquitanas do otimismo, a roda cósmica pararia no bônus, de mais um dia não sendo um a menos.

Que vida sortuda, Samuel, porque o universo confirma seu ideal, de que a humanidade magnética não norteia larápios, mendigos ou pulhas a levarem a vida como se houvesse amanhã, um amanhã redentor, pra torná-los cândidos, esplêndidos, radiantes monólitos do bem.

Mas radiações expressivas são o cacete; tanto chateiam que Chico, Chicão e Chiquinho não passam de um mesmo Francisco.

Coberta ou descoberta, caro Samuel, a sua mente não tem força de impedir que pernilongo zuna, sugue-lhe o sangue, deposite ovos.

Ele zune e ziguezagueia, tudo por uma picadinha.

Com o inseto pousado, levante-se. Não para matá-lo com chinelada nem porque esteja irritado com o zunido, saia da cama porque não tem que salvar o mundo. Saia da cama, mas saia sem precisar escrever.

Mate o pernilongo ou beba Coca-Cola ou escreva um poema, saia da cama enquanto pode deixá-la.

Trate de arrumar a cama, dobre as cobertas, ajeite a colcha, tire as rugas da colcha, faça o que pode fazer, enquanto ache que possa.

Haverá quem o leia. Haverá quem o divulgue.

Não se mata um leão a cada texto. Nem precisa pôr por escrito onde o leão mata a sede. Vá, não se esconda. Vire a página, Samuel.

Samuca, meu caro Samuca, o pernilongo vem, pousa na sua testa, suga-lhe o sangue, e mais uma vez.

Você pensa: o dia é outro porque é outro dia, e de novo.

Então, mate o pernilongo, beba Coca-Cola, escreva poema, saia da cama, pois você sabe que nada do que faça mudará a verdade: há um dia a mais.

Apesar de tudo, você existe e pode escolher: que a manhã seguinte seja a de mais outro dia, como sempre ou como um dia feito novo; que o dia se renove; que haja renovação.

Achando mesmo que possa estar renovado a cada dia, você é novo. Renovado a cada instante, confie, faça-se novo. Não espere, inove.

Inovação é risco, é aposta pelo que nunca houve.

Samuca, o inédito é o novo que vem pelas mudanças, não somente por variações. Que deixe de ser só cálculo o que seja hipoteticamente plausível.

Agora, repense.

O pernilongo morto ainda há pouco não é o mesmo que será morto. Pois bem, há pernilongo vivo, há pernilongo morto, e sempre serão um pernilongo ꟷ são todos indivíduos da mesma espécie.

Que você cubra ou descubra a cabeça, seu sangue corre nas veias e pernilongo alimenta-se dele, zune e ziguezagueia por ele.

Sem dar cabeçada, o Samuca tem razão:

incrível é ter gente que não acha a vida maravilhosa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de janeiro de 2023.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Aviso prévio

 

Aviso prévio

 

Entro na fila. Depois de uns cinco minutos, ela não andou. Aguardo a minha vez, pois sei respeitar o combinado. Não vou reclamar, mesmo que eu continue no lugar em que entrei.

Andarei quando houver de andar.

Mantenho a calma. Fico na minha, pois fila indiana é mesmo assim: comigo atrás de uma pessoa, comigo à frente de outra.

Nem minhas contas têm asas nem meus pés formigam.

Conservo-me lúcido, e calmo.

Paciente comigo, sei esperar a vez de ser atendido. Mas eu entendo quem perde a paciência com a vagareza dos outros.

Ainda que continue de boca fechada, impaciento-me com a lerdeza de quem me faz ficar um tempo maior do que achava que levaria para pagar o que vim pagar.

Me dou conta de que estou ficando inconformado.

Poxa, não são nem nove horas da manhã. E terei horas e horas até tomar banho, ficar descalço, cochilar na poltrona depois da janta.

Sentir cansaço às oito e pouco de mais um dia cheio dessas tarefas maçantes, admito que preciso descansar.

Que ideia boa para ser acalentada.

Acalento-a. Não me sinto menos cansado, mas minhas pernas não estão tão pesadas. Menos pesado, passo a passo: quase leve.

Aconchegada na esperança, minha alma me põe cordato em outra fila. Por hoje estou destinado a mais e mais filas, e a elas vou eu.

Amanhã enfrentarei outras filas. E depois de amanhã?

Embora um pigarro venha crescendo na garganta, não pigarrearei. A fila não é problema se os dias de folga puxarem meus pensamentos.

Sei que posso aliviar-me desta jornada fastidiosa se pigarrear com discrição. Sem carnaval pros demais, limpo a garganta.

Tanto quanto eu, as pessoas têm contas pra pagar, e pagamos.

Comentam as notícias da hora; concordam, discordam, nem abrem a boca; estamos organizados em fila.

Todos temos os nossos boletos e os pagamos. Com atraso, em dia, pagamos o que podemos, o quanto o dinheiro nos permita pagá-los.

Tenho outra fila para pegar, e não estou aliviado porque paguei dois ou três dos boletos do dia.

Resignação pouco tem de alívio, tem mais que ver com serenidade. Sereno, pois eu sei que estou derrotado.

Pago, não tenho escolha.

Posso deixar de pagar faturas, que elas se acumulem, que venham as cobranças, as novas cobranças, as cartas judiciais, as convocações inadiáveis, o arresto obrigatório, a capitulação.

Tenho mais uma fila, pouco importa se aceito-a ou não. Pego-a.

Como me apresentar aos demais?

Vou à fila com a cabeça banhada nas águas da melancolia, porque a vida segue o seu curso.

Vem aí o carnaval, e não quero estar cansado quando ele começar. Preciso estar pronto pra enfrentar a folia. Sei que não sou bom pra me antecipar aos problemas, mas posso tentar. Como não pretendo piorar tudo, que o dia seja uma tentação inspiradora.

Para que o cotidiano insosso de uma vida em débito automático não me estafe, vou logo avisando: pelos próximos três dias, virei vadio.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de janeiro de 2023.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Arte admirável

 

Arte admirável

 

Todavia, quem observa do outro lado?

Distinguir cores, isso não acarreta ações reparadoras como separar do verde o azul pra chegar ao amarelo. Como resto colateral, o amarelo restaurado à mistura segue sendo resquício do que fora.

Há o pervertido que fica excitado como agente a ativar reações que deixam sobras misturadas do que não se quer no desejado.

Há pervertido a quem o excita não reagir, não reativar, é aquele que deseja que o amarelo continue amarelo, sem haver mistura com o azul; assim o verde não resulta da soma do amarelo com o azul.

A apatia como um senão, por escolha e não por desconhecimento, pra que a natureza das coisas permaneça como retrato da inércia. Que a inércia humana continue a produzir a realidade tal qual é sentida.

Então, o inerte pervertido sente prazer ao constatar que: o amarelo e o azul são mantidos separados sem haver interferência; o verde siga sendo verde, sem que haja mistura, que inexista o produto do azul mais o amarelo.

Por omitir o que pensa, o perverso quer que a realidade do mundo continue sendo simples, de fácil percepção, de entendimento cristalino. Que o límpido prevaleça sobre o apurado, o depurado, o reparado. Que a realidade da vida possa ser indolor, que a verdadeira face do mundo enalteça o impassível.

Quem dera a água fosse o básico.

A água, ora essa, a água é fruto dos dois átomos de hidrogênio que se amalgamam com um átomo de oxigênio. Cáspite! Sequer a água é pura.

Como a química não mente, não subverte, não institui inverdade e não constitui paralisias, a vida não para de surpreender quem a ela se dedica a reflexões e pensamentos inesperados.

Sinapses novas, neurônios revigorados: ô coisa boa pro cérebro.

Na janela do outro lado, parece que tem um gato.

Embora me observe, faço perguntas, respondo as que posso, a ele não levarei dúvidas nem as certezas. Ainda que eu permaneça imóvel, a minha cabeça não se omite de pensar.

Será que uma pessoa conseguirá congelar os seus pensamentos? Haverá algum transe que deixe esvaziar-se em pensamento?

Cachola insensata, pulo o muro. De perto, vejo que meu reflexo não desfigura o objeto. Vejo bem: feito à mão, o gato não é empalhado.

Mãos trabalham, dão realidade à apresentação irreproduzível, pois os detalhes são únicos, intransferíveis. Ainda que haja modelo, molde, mãos desejam. Ainda que a linha estabilize a forma, é o olho que vê o gato à janela.

Eu que pulei o muro posso vê-lo de perto, só com o vidro a separar-me do focinho. Sinto que não perdi o meu tempo: ganhei riquezas, até porque o tempo não cria verdinhas.

De pertinho, devasso-o.

Se o enxergo despido de fantasias, saberei empregá-lo melhor?

Num instante, percebo, sinto e penso que este gato não houve nem haverá de ser outro, nem mesmo algum mito desempregado.

Pelo tanto que anda pensando, dona Francisca está admirada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de janeiro de 2023.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

A manhã do pregador

 

A manhã do pregador

 

Da cabeceira da mesa, observando a chuva encharcando as roupas que não têm como dispensar o peso, de roupa ensopada pelo tanto de água que vem caindo desde antes da alvorada, que abaúla os arames do varal, o olhar baço confere ao senhor de longos fios amarelados da basta barba um ar de profeta com veras vivências sapienciais.

Sereno soberano de si, regente de um reino estreito, nesga urbana na malha da cidade, tal vassalo de verdades antigas impõe império de vontades inflexíveis do meio-fio da frente até o meio-fio dos fundos da propriedade, incluídos casa assobradada e pomar de quintal.

Altissonante é a voz que vem do quintal, do tronco da jabuticabeira, do coração entalhado a iluminar rubi a paixão outrora arborescente.

O homem que toma café deixa de tomá-lo desacompanhado porque Pedro vem sentar-se à mesa.

ꟷ Pedrinho, meu querido, se a manhã não fosse de chuva, você me ajudaria a construir uma casa na árvore?

ꟷ Tô de férias, Vovô.

ꟷ Justamente, Pedrinho. As melhores férias, aquelas que você não vai esquecer nunca mais, são quando a gente faz coisas diferentes do que faz durante o ano todo.

ꟷ Mas, Vovô, as férias acabam logo. Com tanto joguinho novo que acabaram de lançar, o senhor me perdoe, prefiro me concentrar só no celular. Não quero que as aulas voltem e eu volte pra escola sem jogar tanta coisa nova.

ꟷ Eu sei, Pedrinho, as férias são curtas, os dias passam rápido, as horas voam, pois a pessoa esquece da vida quando faz o que gosta.

ꟷ Que bom que o senhor me entende.

ꟷ Tudo bem, Pedrinho. Aproveite as férias do melhor modo.

ꟷ Com tanta coisa pra fazer, estou sem tempo, Vovô.

ꟷ Pedrinho, não está aqui quem lhe pediu pra se divertir de um jeito que você talvez nunca tenha experimentado. As férias são suas, então, meu querido, curta-as como bem entende.

ꟷ Não precisa emburrar, Vovô. Quinze dias passam rápido, logo já vou embora e o senhor nem vai ter que inventar essas maluquices que assombram gente nova que nem eu.

ꟷ Pedrinho, não vou aborrecê-lo. Tudo certo. Não é importante que você saiba que o lobo chegou pro porquinho e lhe propôs que sua casa fosse feita de palha. Sim, o lobo queria que o porquinho apanhasse a palha seca dos campos, porque o regime de chuvas estava diferente e não chovia quando deveria estar chovendo.

ꟷ Como raio provoca incêndio, o porquinho deveria construir a sua casa com toda essa palha espalhada por aí.

ꟷ Nada de palha, Pedrinho! O lobo tem que avisar o porquinho pra levantar casa que não pegue fogo fácil. A casa precisa ser de pau. Com tanto galho caído, tanta árvore, o lobo alerte que é melhor construir de modo seguro.

ꟷ Nem palha nem pau, é só pegar a história da Rapunzel pra saber que chuva, vento e fogo não abalam torre feita de pedra.

Depois de Pedro, Paulo e Maria terem opinado, o avô de longos fios da grande barba amarelada achou de ficar quietinho, feliz.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de janeiro de 2023.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Amor selvagem

 

Amor selvagem

 

Sinto muito, e por muito sentir o tanto que me aflige, o que primeiro me ocorre quando ouço que o circo está na cidade é: medo.

Outros, talvez a maioria, sintam alegria, busquem-na e a encontrem sem taquicardia, exsudação ou insônia, eu, pobre criatura medrosa, eu fecho meus olhos porque sei que preciso, sei mesmo que tenho de me desdobrar em esforços pra não compreender que o alto-falante reforça o que a faixa nos céus anuncia, que o circo está na cidade.

Agora e sempre, descontrola-me tal notícia.

Desde pequeno, no papel de guri com um bodoque no bolso de trás das calças curtas, eu corria ao pai pra implorar que não me levasse até os palhaços, porque aquilo de pagar entrada era desperdiçar pirulitos, balas e sorvetes, porque o circo, puxa vida, todo circo era passageiro, já o bar da frente, ele seguiria na frente de casa, que assim era desde sempre, mas o pai, tão comovente na sua função de surdo que manda na casa toda, achava divertido aflorar-me medroso, por minhas aflições de garoto.

Posto que bem me recorde: hoje eu temo pelo que eu temia.

Pra todo mundo ficar sabendo, o circo chegava à cidade com desfile na rua principal. Pra que todo mundo pudesse testemunhá-lo, o cortejo era lento, progressivamente lento. Pra que a cidade, meu pai inclusive, ficasse inteirada de que a boa nova era a vinda perturbadora do circo, no desfile triunfavam aqueles seres amedrontadores, os palhaços.

Não acho que seja pelo rosto carregado nas tintas, talvez seja pelos gestos súbitos que sintetizem o caótico do cosmos, quiçá que o cômico que desconcerta venha do âmago, de onde ignore mas sinta que física e metafísica não estão separadas, onde a regra engendre a exceção, porque o riso me recompõe emocionalmente desordenado, próximo do desordeiro que ri da balbúrdia, pelo riso desestabilizante.

Na corda bamba, adeus sombrinha.

Quero crer que a ansiedade instintiva que sinto seja medo de atuar como membro de uma turba convulsionada: de tocha na mão, subindo a colina pra incendiar o castelo vampiresco; com paus e pedras pra dar cabo do monstro que faz maluco o cientista; empunhando forcado, pra tirar do joio o trigo a quem mais padece da fome de pão.

Quando os palhaços estão na cidade, corro logo pro lado oposto.

Eu sei que serei humilhado por minha falta de humor. Mas não sou de rir de torta na cara, sequer na minha. Não pago pra ver que passem a perna pra tombo ridículo, mesmo o meu. Bobo de nascença, porque detesto sarcasmo e malcriações, desqualifico quem ri à toa.

Se fujo do picadeiro, é porque eu não hesito, sei que sou bem capaz de mimetizar aos palhaços sua pantomima recreativa, de leves toques arruaceiros, sutis pinceladas baderneiras, por nuançada anarquia.

Cá pra nós, pra que todo mundo nos ouça: palhaços são artistas, e tais artistas, ó ironia, dão colorido ao bom selvagem que a gente ama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de janeiro de 2023.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Uruca

 

Uruca

 

Rapaz, na ordem natural das coisas, sexta é minha folga. Então, eu estava vindo pra cá sem pressa nenhuma. Vinha vindo com alma leve, na certeza de que alguma coisa boa ia me acontecer no caminho.

Foi quando, logo do ladinho de casa, um cachorro muito brincalhão pegou de virar sombra minha, que achei engraçado o bicho ter comigo sem nem mesmo ser conhecido meu.

Tanto achei graça que fiz carinho nele que nem liguei que ele tinha pulga. Nem pus interesse em averiguar se se coçava por carrapato lhe chupando a carne.

Rapaz, sabe que eu senti um cheiro danado de mijo assim que pisei fora de casa. Pode ser que o danadinho tinha mijado; se não foi ele, foi algum pinguço. Olha que fedia, fedia muito.

Se ressalto, é que dou fé que o bicho era de rua, de virar latão, de mijar em poste, em lixeira. Vim de olho, no pé firme, atento com buraco, principalmente em merda mole no caminho.

Olhando o vira-lata tive na ideia que o pulguento empesteado tinha era fome. O bicho era um esqueleto sobrevivente de sua miséria. Tinha mais osso aparecendo que pele, até me deu dó ver tanta alegria.

Era alegre de dar pena, tão magro, algo feio de ver.

Sua figura era visão triste. Punha na gente o sentimento de ter dele a compaixão. Sozinho na rua, o bicho devia de estar sofrendo, levando essa sua vida vadia, bicho sem eira nem beira.

Muito triste isso, viver a esmo no mesmo de todo dia, em falta.

Rapaz, só imaginar o pobrezinho nas ruas, sem ter o que pra comer, na chuva, no calorão, sem ter onde ficar de fora do vento. Que ele tinha os ossos marcando sua figura, um bicho esquelético de feio. Tive pena dele na fome. Zanzando o tempo todo, bebendo água parada, correndo de enxurrada, lambendo lama, sem gordura como capa na chuva.

O vira-lata veio vindo brincalhão, foi quando logo na esquina, foi no cruzamento que ele deu mostras das coisas ordinárias da natureza, foi então que latiu, avançou, pulou pra morder a batata do pintor.

Ainda bem que ele estava mais no alto, longe dos dentes na canela. Que susto tomou o rapaz que pintava o letreiro da lanchonete nova.

Era outra naquele lugar, que ali tinha fechado outra lanchonete, que passou um bom tempo indo bem, com fila na porta e senha pra não ter nenhuma briga mais séria, pro garrote de segurança.

A lanchonete que fechou tinha movimento mesmo no inverno.

O meu pessoal do zap vivia vindo de sexta e sábado, vinha mais na sexta, dia de promoção: tomando o canecão, ganhava outro.

A turminha vive inventando aniversário, noivado, separação, chama pro diabo a quatro, quase tudo é azo de festa e mais festa.

Rapaz, ainda bem que o bicho não conseguiu alcançar a canela do pintor. Não vou mentir, eu ri. É que latidos e palavrões deram razão ao incontido, que nem eu me controlei da gargalhada.

No apuro de se safar, largou do pincel, foi num cisco que subiu, até pintou na praça uma bem-vinda porção: drumete a pur.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de janeiro de 2023.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

O olho do peixe

 

O olho do peixe

 

É tempo de renovação.

Antes que o engraçadinho zombe de mim nas minhas preces, peço às esperanças que retirem os enfeites, desmontem a árvore e causem-me entusiasmo por sumirem de vista.

Sim! É hora de guardar o que pegaria poeira se eu não conhecesse espanador. Mas me cansei de espanar guirlanda, Papai Noel, festão e bolinhas. Sim! Sim! Chega de rou rou rou.

Que hoje eu me faça o favor de não rezingar pelo fado de outro ano entronizado pela singela mudança do último dígito. Porque calendários e folhinhas fazem automaticamente a continha: 2022+1=2023.

Feito o ajuste, farei o desajuste.

Reis, meus reis, retirarei os enfeites e desmontarei a árvore, pois já elenquei o que vou fazer neste ano que acabou de começar e, pessoa sintomaticamente ajuizada que eu sou, a fim de evitar o olhar de peixe morto sobre mim, não ventilarei o que espero fazer.

Se o juízo é sintoma, sejam escarafunchadas as circunstâncias que me levam a agir moderadamente como sempre tenho feito: como quem afiança o que pensa, pondero porque creio em mim.

Creio que renovar as esperanças é manter o pé no chão, é dar força à consciência que especula sobre a realidade que a individualiza.

Já que minha máquina cerebral não para de avaliar, não interrompo o pensamento, pois azeito a cachola com reflexões autônomas.

Sem medo de emperrar quando balanço, ergo os olhos, levanto os braços e balbucio: Guirlanda, guardá-la na caixa é pra que o ano seja novo. Papai Noel, não ponha a barba de molho, já vem dezembro, que nem jujuba chupada por criança. Jano, Januário, Janaína, que os onze meses sequem o olho gordo que me figura azarado. Ó Ventura, peço que nos meus pés não brote olho de peixe.

Além de mim, quem mais ouvirá tais muxoxos?

Alimento o cansaço fazendo coisas que poderia evitar. Se evitasse fazê-las a cada vez que recordo o quanto me alegram, estaria livre do cansaço de ter exagerado. Quando coisas me dão verdadeira alegria, me divirto, me contento, me aborreço, cansa o blábláblá.

Quero-me só um pouquinho saciado das coisas que dão felicidade, pois nem empanturrado entenderia o que a guirlanda diz. Mesmo que não a compreenda, que a caixa fechada volte pro armário.

Não sei qual filósofo, ou algum vagabundo, tenha se surpreendido: sem compreensão, de que adianta o mistério?

Cadê quem venha criticar a circunstância da pessoa de bem com o mundo que não cobra na mesma moeda.

Espero que alegria gere alegria, pois acho justo que haja felicidade se ajo pensando na felicidade.

Pela felicidade de ter feito alguma coisa boa, não me orgulho. Certo, quem lacra caixas nem precisa acreditar que o Papai Noel exista. Ora, vender imagens não condena ninguém a comer panetone só depois de o Natal ter passado.

Olho no olho: ainda que o Menino na manjedoura tenha ficado todo tempo no armário, Ele Mesmo será símbolo espirituoso do Amor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de janeiro de 2023.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Moral da história

 

Moral da história

 

Não preciso de silêncio, preciso de lápis e papel.

Para dar uma animada geral na minha disposição de pessoa atenta aos detalhes, quero que fique registrada a ideia de que oportunidades aparecem, já para serem amadurecidas com cogitações pachorrentas, como o vira-lata a espiar de soslaio o canário cantando no galho mais alto da roseira, já pra não desanuviarem os anéis de fumo do cachimbo baforado pelo carequinha pigarrento balançando naquela cadeira que vai rangendo, como o fole da gaita simulando grave respiração.

Devagarinho, vim. Minudente, paragrafei o que vejo. Curioso é que, depois de escrito, enxergo o que via, sabia que estava vendo, mas não punha estabelecida a essência da cena vista.

Quem há de negar que a verdade prende a atenção da mente?

Eu é que não negarei, pois a esmiucei e apurei do narrado o ânimo pra prosseguir arando o chão desta minha crônica.

Crescendo pouco e pouco na folha, meu girassol semeado na terra seca precisa de irrigação, que ele conte com o suor que eu porejo. Que seja muito, que seja ácido, que não o mate no broto antes da plenitude de sorrir ao sol.

Queimo as pestanas, penso que sim. E escrevo, pois sim.

Ponho no papel, como não há canavial nas vizinhanças, que o fogo siga sendo a brasa no cachimbinho de barro na varanda. Ponho, sim, para que a história tome siso do sim. Agora, e por escrito.

Sem retomar das aulas de caligrafia o cursivo legível, está anotada a descrição do vira-lata tomando sol na frente da casa.

Pressa pra quê?

Gente boa que me lê, a cadeira não arremessará o velho tabagista, ainda que ele esteja praticando o que acredita ser o melhor que possa fazer, que é fumar, pigarrear e cuspir.

Quando equiparados, o meu fumante é menos danoso que a fila de caminhões que vão da roça mais próxima ao entreposto mais lucrativo.

Mas, alface, agrião e beterraba vencem a queda de braço de quem condena aplicações racionais de nitrogênio no solo e multa criminosos queimando carbono dia e noite.

O cheiro é horrível; as cuspidas, nojentas; o cão quer o canário.

Se soubesse das suas incontáveis vidas anteriores, o cão que vê o passarinho ou ficaria satisfeito ou teria engulhos por ter nas sinapses os conhecimentos predadores de felino astuto.

De ardis e risos debochados tenho minhas experiências.

Falo do garoto que colou moedinha na calçada. Quanta gargalhada deu o garotão esperto, pois não surgiu nenhum Sansão pra descolar a moedinha colada na calçada.

Vendo uma dessas no caminho, não me abaixei nem me abaixarei. Passei pela moedinha diversas vezes, e, maroto que sabe das coisas, sorrio. É sorriso previdente, que não me humilho.

Acho oportuno registrar o que vejo, e acabo de vê-la.

A moeda solitária tem companhia, colaram mais duas. Passo, olho ressabiado, somo de cabeça e chego à conclusão: se tais iscas derem um real, me deixarei fisgar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de janeiro de 2023.