Varrido
Cheia de prosa, a brisa passa por mim. Me
percebendo perplexo, o ar faz assobiar o sabiá. Cheio de graça, se bem entendo
a mensagem, acho normal a pessoa avaliar-se: será que sou ou será que estou?
Dizem, aqueles que se acham sãos é que
dizem, que o sujeito com ideias estapafúrdias invariavelmente produz
extravagâncias realizando bizarrices em série porque está consciente de que
nada há de errado consigo, a sociedade é que não compreende a sua natureza.
Evidentemente, quem se pergunta o quanto
tem de doido é alguém que está pronto pra saber que é ridículo parar a boca a
um centímetro da boca que espera ser beijada.
Quem pede um beijo não duvida que beijar
seja normal, beija. Como é perfeitamente normal que se desfrute do beijo desejado,
beijem-se.
Normal não é quando essa pessoa persuade
outrem a criticar-me: como não é se gosta de agir como se fosse?
Zanzo azedo, bramindo fogo, vociferando a
mil, blasfemando como anjo insone, tenho estado tenso, ando abrindo abismo, de um
instante pra outro cairei no riso, cuspirei a bel-prazer, pularei da corda
bamba, sei que tomo pé do que ando fazendo porque a cabeça dói, a barriga
ronca, a boca não se segura, direi o clichê, percebo a ideia batida, que o
senso comum me acuda, é óbvio, na cômoda situação de definir-me, fico quieto, pois
me colocam no lugar de quem eu julgo insano.
Certamente, nem passa pela cabeça da
pessoa que me atende na farmácia que o meu sorriso de gente comum diz que me
considero apto a demonstrar serenidade mesmo que o dinheiro seja pouco pro
xampu.
Como pode o cabelo estar seco se o
chuveiro está ligado?
Primeiro, quem toma banho não quer lavar
a cabeça. Ou, a cabeça é careca. Outra possibilidade, chuveiro ligado não
implica que estejam tomando banho, talvez limpem o box com a água da
mangueirinha.
Talvez o mundo não fique melhor se eu
permanecer sorridente, mas a pessoa que trabalha no caixa não precisa que mais
um chato queira saber qual é o seu signo.
Que deficiência a minha, sei um pingo de
nada de astrologia.
Primeiro, ver o céu à noite é
maravilhoso. Depois, muito me encanta a escuridão do céu noturno. Pontos
luminosos, distantes, acredito que tais corpos interfiram na felicidade humana
que capta a força viva que a tudo liga, une e amalgama. Sim, o universo é deslumbrante.
Como joalheiro dado a pensamentos
cabotinos, correndo o risco de soar mentecapto, digo que a realidade é diamante
que me cabe ajudar a lapidar a cada segundo.
Como cobiço livrar-me de certas ideiazinhas,
eu não vou varrer pro bueiro mais próximo quem me despreza.
À pessoa de mão espalmada, peço-lhe que
se levante por um futuro melhor, pois a transformação fraterna depende da sua
vontade.
Solidarizo-me com quem pede sorte.
Acredito que merrecas dadas valham tal qual arroz, feijão e bife.
Por que sorrio?
Sorriso é camisa de força a energúmeno, sopro
eu.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 26 de janeiro de 2023.