Bela
porcaria
Que bela porcaria é viver, hein Samuel?
Pelo que sei, você abre a janela do seu quarto
todos os dias apenas para incomodar-se, ou bocejaria.
Tanto faz, bocejos ou espreguiçadas, a
vida incomoda.
Se se houvesse por menos absurdo, daria uma
espiadinha esperta pelos vãos da veneziana antes de refugiar-se na cama.
Refúgio, abrigo ou covil?
Se esperança positiva imantasse as traquitanas
do otimismo, a roda cósmica pararia no bônus, de mais um dia não sendo um a
menos.
Que vida sortuda, Samuel, porque o
universo confirma seu ideal, de que a humanidade magnética não norteia larápios,
mendigos ou pulhas a levarem a vida como se houvesse amanhã, um amanhã redentor,
pra torná-los cândidos, esplêndidos, radiantes monólitos do bem.
Mas radiações expressivas são o cacete;
tanto chateiam que Chico, Chicão e Chiquinho não passam de um mesmo Francisco.
Coberta ou descoberta, caro Samuel, a sua
mente não tem força de impedir que pernilongo zuna, sugue-lhe o sangue,
deposite ovos.
Ele zune e ziguezagueia, tudo por uma
picadinha.
Com o inseto pousado, levante-se. Não para
matá-lo com chinelada nem porque esteja irritado com o zunido, saia da cama porque
não tem que salvar o mundo. Saia da cama, mas saia sem precisar escrever.
Mate o pernilongo ou beba Coca-Cola ou escreva
um poema, saia da cama enquanto pode deixá-la.
Trate de arrumar a cama, dobre as
cobertas, ajeite a colcha, tire as rugas da colcha, faça o que pode fazer, enquanto
ache que possa.
Haverá quem o leia. Haverá quem o
divulgue.
Não se mata um leão a cada texto. Nem
precisa pôr por escrito onde o leão mata a sede. Vá, não se esconda. Vire a
página, Samuel.
Samuca, meu caro Samuca, o pernilongo
vem, pousa na sua testa, suga-lhe o sangue, e mais uma vez.
Você pensa: o dia é outro porque é outro
dia, e de novo.
Então, mate o pernilongo, beba
Coca-Cola, escreva poema, saia da cama, pois você sabe que nada do que faça mudará
a verdade: há um dia a mais.
Apesar de tudo, você existe e pode
escolher: que a manhã seguinte seja a de mais outro dia, como sempre ou como um
dia feito novo; que o dia se renove; que haja renovação.
Achando mesmo que possa estar renovado a
cada dia, você é novo. Renovado a cada instante, confie, faça-se novo. Não
espere, inove.
Inovação é risco, é aposta pelo que
nunca houve.
Samuca, o inédito é o novo que vem pelas
mudanças, não somente por variações. Que deixe de ser só cálculo o que seja
hipoteticamente plausível.
Agora, repense.
O pernilongo morto ainda há pouco não é
o mesmo que será morto. Pois bem, há pernilongo vivo, há pernilongo morto, e sempre
serão um pernilongo ꟷ são todos indivíduos da mesma espécie.
Que você cubra ou descubra a cabeça, seu
sangue corre nas veias e pernilongo alimenta-se dele, zune e ziguezagueia por
ele.
Sem dar cabeçada, o Samuca tem razão:
incrível é ter gente que não acha a vida
maravilhosa.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de janeiro de 2023.