Vingancinha
Estão me chamando, olho para trás, mas
não há ninguém.
Ninguém, só estão passando aquelas
pessoas sempre apressadas. Aquela gente que segue em frente, gente que nunca
diz nunca, porque a vida é o momento, a quem nada há de acabado, definitivo.
Estão me chamando, sim. Viro-me outra
vez, só que não vejo quem me chame pelo nome. Paro, olho pros lados, olho até
mesmo pra cima, não encontro quem tenha me chamado. Fazendo graça de me chamar
e esconder-se, isso me atiça à curiosidade.
Vão as pessoas que vivem o dia, levam a
vida de compromisso em compromisso. Ao que parece, vão leves, vão desembaraçadas
do que ontem deixaram de fazer por algum motivo.
Elas vão adiante porque o mundo é lugar que
muda o tempo todo. Vão sem parar, por adaptar-se às mudanças, aceitá-las. Que a
gente o torne um lugar melhor.
É gente preocupada, mas que não torce o
pé na caminhada. Quem se preocupa com a hora não perde tempo. Quando para, é
pra retomar o fôlego, não para desperdiçá-lo chutando cachorro morto.
A hora é de buscar a felicidade, de não
arredar das obrigações, de fazer o que seja possível, não apegar-se ao medo de
fracassar quando mal tenha começado o dia. Quem se apega à desonra de desistir
antes de começar a jornada é quem adoece, fica mal, perde o sono.
Falando nisso, tenho uma história
curiosa que me aconteceu ainda outro dia, quando estava para atravessar a rua,
porque tinha visto uma pessoa toda atrapalhada com os seus cachorrinhos.
Eu esperava o sinal fechar quando ao meu
lado parou quem achava que me conhecia. Alguém que me deu um tapinha no braço,
disse-me que estava feliz de encontrar-me porque a saudade é sentimento que faz
a gente ficar feliz quando encontra quem se quer bem.
O sinal abriu pros pedestres mas
empaquei, envergonhado.
O meu embaraço não a impediu de sorrir,
porque ela me conhecia muito bem. Era pessoa que sabia que eu sempre fui de
ficar ruborizado por não lembrar o nome das pessoas.
Sempre me desconcerto ao hesitar. É óbvio
o quanto me perturba se vou dizer um nome errado.
ꟷ Você nunca foi bom pra reconhecer os
outros.
Sim, eu nunca fui bom para certas
coisas.
Nunca fui bom para jogar futebol, nem
mesmo descalço.
Nunca fui bom para comentar jogos de
futebol, nem depois de uma cervejinha no bar da esquina.
Nunca fui bom para defender o meu lado.
Nunca fui bom para bolar frases
bombásticas.
Nunca fui bom pra escrever bonito.
Nunca fui bom com pincel atômico.
Nunca fui bom com cartazes.
Nunca fui bom pra segurar cartolinas em
protestos contra a carestia, o desemprego e a falta de perspectivas.
Nunca fui bom para entender de política,
menos ainda da chamada realidade política.
Falando disso, de atravessar a rua pra
ajudar quem mais precisava, eu resolvi ser simpático ao apelar pros bons
sentimentos que a maioria acha conveniente cultivar:
ꟷ Vamos tomar uma gelada qualquer dia, certo?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 08 de novembro de 2022.