terça-feira, 8 de novembro de 2022

Vingancinha

 

Vingancinha

 

Estão me chamando, olho para trás, mas não há ninguém.

Ninguém, só estão passando aquelas pessoas sempre apressadas. Aquela gente que segue em frente, gente que nunca diz nunca, porque a vida é o momento, a quem nada há de acabado, definitivo.

Estão me chamando, sim. Viro-me outra vez, só que não vejo quem me chame pelo nome. Paro, olho pros lados, olho até mesmo pra cima, não encontro quem tenha me chamado. Fazendo graça de me chamar e esconder-se, isso me atiça à curiosidade.

Vão as pessoas que vivem o dia, levam a vida de compromisso em compromisso. Ao que parece, vão leves, vão desembaraçadas do que ontem deixaram de fazer por algum motivo.

Elas vão adiante porque o mundo é lugar que muda o tempo todo. Vão sem parar, por adaptar-se às mudanças, aceitá-las. Que a gente o torne um lugar melhor.

É gente preocupada, mas que não torce o pé na caminhada. Quem se preocupa com a hora não perde tempo. Quando para, é pra retomar o fôlego, não para desperdiçá-lo chutando cachorro morto.

A hora é de buscar a felicidade, de não arredar das obrigações, de fazer o que seja possível, não apegar-se ao medo de fracassar quando mal tenha começado o dia. Quem se apega à desonra de desistir antes de começar a jornada é quem adoece, fica mal, perde o sono.

Falando nisso, tenho uma história curiosa que me aconteceu ainda outro dia, quando estava para atravessar a rua, porque tinha visto uma pessoa toda atrapalhada com os seus cachorrinhos.

Eu esperava o sinal fechar quando ao meu lado parou quem achava que me conhecia. Alguém que me deu um tapinha no braço, disse-me que estava feliz de encontrar-me porque a saudade é sentimento que faz a gente ficar feliz quando encontra quem se quer bem.

O sinal abriu pros pedestres mas empaquei, envergonhado.

O meu embaraço não a impediu de sorrir, porque ela me conhecia muito bem. Era pessoa que sabia que eu sempre fui de ficar ruborizado por não lembrar o nome das pessoas.

Sempre me desconcerto ao hesitar. É óbvio o quanto me perturba se vou dizer um nome errado.

ꟷ Você nunca foi bom pra reconhecer os outros.

Sim, eu nunca fui bom para certas coisas.

Nunca fui bom para jogar futebol, nem mesmo descalço.

Nunca fui bom para comentar jogos de futebol, nem depois de uma cervejinha no bar da esquina.

Nunca fui bom para defender o meu lado.

Nunca fui bom para bolar frases bombásticas.

Nunca fui bom pra escrever bonito.

Nunca fui bom com pincel atômico.

Nunca fui bom com cartazes.

Nunca fui bom pra segurar cartolinas em protestos contra a carestia, o desemprego e a falta de perspectivas.

Nunca fui bom para entender de política, menos ainda da chamada realidade política.

Falando disso, de atravessar a rua pra ajudar quem mais precisava, eu resolvi ser simpático ao apelar pros bons sentimentos que a maioria acha conveniente cultivar:

ꟷ Vamos tomar uma gelada qualquer dia, certo?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de novembro de 2022.

domingo, 6 de novembro de 2022

Lambanças

 

Lambanças

 

Sentado na praça, num banco que me põe de costas pro relógio da torre da igreja, se posso ignorar a hora certa, não tenho como controlar as lambanças que tanto me acossam à garganta que pigarreio.

Os pigarros, que fazer quando sequer os pigarros tornam límpida a voz que aderna o íntimo recatado ao baderneiro anterior?

Teve aquela vez em que, só de cueca, tive que entrar na maior das três fontes. Fazia frio; o esquisito era estar garoando frio naquela noite em fevereiro. Sim, a água da fonte estava fria, bem fria.

Como entrara na faculdade, era evidente que celebraríamos o meu feito com uns desafios imbecis, humilhantes.

Macacos me mordam!

Eu desmaiei segundos depois de aberta a contagem regressiva dos cinco minutos que deveria manter a cabeça mergulhada na água.

Comigo desacordado, deram-me tantos tapas na cara que acordei furioso, querendo briga com o desaforento que me estapeava.

Para não dizerem que enfeito o pavão, acho melhor nem mencionar que me urinei todo. Ora vejam, se eu senti o fio morno descendo pelas pernas, inventaria que assim foi tão somente para me degradar?

Sim, tais detalhes escatológicos dão horror, pois a mim me parece desprezível quem deles se vangloria.

Emocionado, soltou-se o que andava ancorado nos esquecimentos: bêbado de vodca com pinga com cerveja com gim com martini, quando a incontinência apoderou-se da compostura, bati-me pela coragem de pular noutra fonte, para nela gritar, espalmar a sua água.

Agitado, tiritando de frio, sim, eu urinei.

Águas passadas, bem sei que elas voltam já amestradas.

Para que desafoguem-me patético, vulgar, esse cretino que nem se encabula de repassar o que sustenta ter vivido, à vera?

Devera que sim, à vera.

Cretino mas sensato, uma vez que não busco ofender quem devoto de Nossa Senhora das Dores por me sentar pro largo da praça.

Na esquina de baixo, onde hoje há um posto de gasolina, ali outrora teve uma casa.

Essa casa foi habitada por família, todavia desconheço quem tanto nela tenha morado. Anos depois, sem que lembre quando foi que tenha ocorrido, ela virou sede da Coletoria Estadual. Em seguida, o primeiro dentista pago pra cuidar dos meus dentes montou consultório ali.

Dei à praça outro vexame?

Quando a gente é dentuça, os dentões da frente chamam atenção, o recomendável é cuidar bem desse cartão de visita.

Putisgrila.

Eu cuidava mal. Vai um dia, tive um canal inflamado.

O socorro tinha que ser imediato, só que o dentista aplicou a agulha na raiz inflamada. Com a macaca! A minha boca adolescente, que dos palavrões tinha um vasto repertório, tanto esbravejou que desmaiei. E foi mijo e merda pela cadeira inteira. Ô dó desse dentista, até nunca fui consultá-lo de novo.

Caraca!

Sentado sob esse solzinho gostoso, sem nenhuma das fontes ainda na praça, será pelas futuras lambanças que entro a me tiritar todo?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de novembro de 2022.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

O mal-amado

 

O mal-amado

 

Que se dane a torneira que não para de pingar.

Que se dane quem não dá um jeito nessa torneira que não para de pingar desde que as pálpebras começaram a pesar.

Que se dane essa torneira que pinga e pinga, que pingo a pingo vai irritando mais e mais, como se cada batida agulhasse num único ponto em cada tímpano desde que vim deitar.

Que se dane a ideia de sair da cama não para ir marretar a torneira, para fechá-la.

Que se dane a dor no peito depois do susto.

Que se dane a dor surgida no lado esquerdo do peito depois que a campainha deu um baita susto.

Que se dane o aperto sufocante que deu no lado esquerdo do meu peito depois que um desgramado do caramba tocou a campainha bem no comecinho da madrugada.

Que se dane quem toca a campainha já passada a meia-noite, pois estar descalço no chão frio da cozinha é ocupar-se com o que tem que ser resolvido de uma vez, pois pingos são o inferno.

Que se dane a campainha depois de desligada.

Que se dane esse inferno de torneira mais campainha, que isso me obriga a desfazê-lo de uma vez, fecho o registro que fica na cozinha e desligo a campainha, antes que me enfureça, pois irei arrepender-me quando raiar a manhã.

Que se dane a alvorada que há de chegar.

Que se dane a aurora que virá, porque ficar pensando na manhã de logo mais me enfurece, e é pra já, enraivecido, que ligo a TV.

Que se danem as notícias repetidas que a TV de madrugada passa, passa, passa, não se cansa de passar, como se apenas eu merecesse assistir àquela repetição, a essa repetição diabólica.

Que se danem os canais que repetem as notícias como se os donos do mundo contassem com a audiência hipnotizada.

Que se dane a mesmice hipnótica dos canais que narcotizam quem busca o transe, quem deseja o abismo, quem se aproxima da beira do abismo, como se nunca mais acabasse a madrugada.

Que se dane a alucinação de estar narcotizado por sons e imagens que se repetem ad infinitum, ad nauseam.

Que se dane a alucinação estupefaciente que impede a loucura, só que provoca tédio, e tédio cansa, e cansaço esgota, o esgotamento dá um nó na mente, e a mente que não toma pé das circunstâncias sente mais e mais o fastio, como se bocejo seguido de bocejo exorcizasse a madrugada que não passa.

Que se dane a TV depois de desligada.

Que se dane esse barulho chato que começa só depois de apagada a lâmpada do quarto.

Que se dane esse ruído de barata roendo alguma coisa assim que me deito com a luz apagada no quarto de janelas fechadas.

Que danado, que me recordo dos chinelos.

Que se danem os chinelos ao pé da cama.

Que se dane a sola do chinelo suja de barata desviscerada por uma chinelada dada sem que a aurora fique impedida de raiar o sol de outra manhã, como se a primavera negasse o inverno nos meus artelhos de escrevinhador, ainda que certos abelhudos gostem de espiar o mundo por binóculos de lentes nada emboloradas.

Que se dane a higiene mental.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de novembro de 2022.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Irritante

 

Irritante

 

Chove. Está chovendo faz horas. Como chove forte desde ontem à noite, não parece que vá parar tão cedo.

Olho a rua. Vejo que estão passando sombrinhas e guarda-chuvas. A eles não pretendo me juntar, deixando que as rajadas de vento tirem de mim as roupas secas e a paciência.

Escolho ficar onde estou, porque aqui sou amigo do café, da TV, do gato que dorme na poltrona.

Olho o gato que nem liga pra mim a olhá-lo dormindo. Só não sorrio porque me ocorre a vaidade de recusar o papel de bobo. O gato dorme sem saber que admiro a sua tranquilidade de bicho que dorme quando quer, não porque receie que eu o ache bobo por dormir comigo a quatro passos da poltrona.

Se desse o primeiro passo para mexer com ele, concluiria que seria menos constrangedor se tivesse permanecido à janela, sem contar pro dorminhoco quantas sombrinhas desfilaram no último minuto.

Talvez, como eu, você conheça gente assim, que costuma projetar nos demais a sua energia de pessoa de bem com a vida.

É ridículo acordar o gato, ou outra pessoa, pra comunicar-lhe que a alegria que deixa a gente comovida tem mais é que ser compartilhada, pois não é o entusiasmo que faz agir como bobo, é a estupidez.

O segundo passo, outro passo adiado para que o gato não venha a ser acordado para fitar a cara de um ser humano muito penseroso, é o instante de refletir sobre o quão positivo é o desejo de dizer ao mundo que, nessa alma positivamente alegre, só existe lugar pra sentimentos contagiantes, esfuziantes, empolgantes.

Não me entristeço com a serenidade do gato que dorme.

Assim como eu, quando estou triste, talvez você evite descarregar a negatividade em quem nem percebe que os opostos se atraem.

Olho o gato, ele não está alegre, ele dorme. Daqui, a quatro passos, não me mexo porque não o quero importunar como quem se alegra ao vê-lo dormindo. Sem nada pra dizer ao bichano, deixo-o dormir.

Por que perturbá-lo com irracionalismos?

Não sou racionalista, sou racional.

Sei que a racionalidade colabora com o meu entendimento de que o gato tem o direito de dormir na poltrona sem que eu o acorde pra que seja informado que xis automóveis com placa final par passaram diante da minha casa em um minuto.

Não sendo irracionalista, não idealizo o racionalismo como benção, pois entendo a irracionalidade de supor que o gato me compreenderia em minha alegria mui comovente.

Se a ele me apresentasse como pessoa abençoada pelo tanto que o amo, seria ridículo.

Como falso ato surrealista, o quarto passo preterido seria, no vidro embaçado, tornar visível uma chave, riscá-la com duas retas paralelas verticais cruzadas por duas retas paralelas horizontais.

Lá pelas tantas, o gato acorda, espreguiça-se e passa a lamber-se.

O contorcionista que se limpa todo ignora o meu simpático tatibitate de pessoinha pouco irritante.

Sim, está chovendo há mais de doze horas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de novembro de 2022.

 

 

 

 

 

 


domingo, 30 de outubro de 2022

Bisnaguinha, bisnaguinha

 

Bisnaguinha, bisnaguinha

 

Firme na campanha por tripas menos assanhadas, tenho para hoje que me satisfaço nesse desejo de comer bisnaguinha.

Sem exagero, não resisto. Corro comprá-la porque não espero para comer bisnaguinha, trago-a, como-a. Até sem café, gosto de comê-la.

Ou isso ou acabaria em suposições, nas expectativas frustradas de quem gosta de dizer que sofre o que não sofre, mesmo que nem tenha medo de matar a vontade.

Eu não mato nada, nem mesmo as minhas vontades.

À vontade com o que penso: sacio o desejo, não o mato, pois desejo não some porque o satisfaço ao dar-lhe em objeto o que o funde.

Vou fundo no prazer de saciar a vontade de comer bisnaguinhas. E o pacote está à disposição, o tempo não me atropela. Posso ir fundo e não recuo de gostar de comê-las. E uma a uma, como-as.

Não mato a vontade porque não me desejo violento.

Espero que me tenha feito entender pelo que disse, que as marcas de violência estão à vista, pelo quê? Por me recusar a dizê-las.

‘Matar a vontade’ é fala que não uso.

Como pessoa que não sustenta a violência e dela não se alimenta, creio que permaneço sob controle, pacificando-me até onde sei que eu posso alcançar com as esperanças de gente ponderada.

Digo que me vejo como essa pessoa sincera que reconhece o valor de quem inventou a bisnaguinha. E não apenas, uma vez que também houve quem a pôs à venda, quem a aprimorou e quem se empanturrou dos lucros.

Não me sujeito a vender aos outros a ideia de que vou deixar para comer mais tarde a bisnaguinha que posso comer agora.

Não sou mesquinho quando não como por gula. Que o pacote ainda tenha bisnaguinhas pro lanchinho noturno, isso me agrada.

Gosto de me deitar depois de golinhos de café. Contentam-me dois dedinhos daquele que a garrafa térmica nem manteve quente.

Eu não me admoesto por deitar-me satisfeito com uma bisnaguinha comida sem pressa. Porque posso comê-la sossegado, gosto de ir pra cama sem achar que estarei faminto de madrugada.

Agrado-me ao pensar que a saciedade é um sentimento bom, pois me alegra, faz meu espírito sopesar os ânimos conflitantes.

Se como além da conta, contrario quem eu quero aparentar ser. Me complico ao dar aos demais a imagem de gente que come bisnaguinha como quem gosta tanto que, pela gula dos olhos, pouco sabe dominar-se.

A bisnaguinha não me domina. Sei que não, pois eu a mastigo sem fazer cara de que estou gostando de mastigá-la. Até porque nem passa por mim o pensamento de contar depois de quantas mastigadas engulo a bisnaguinha abocanhada.

Ao fim e ao cabo, comprei bisnaguinhas, mordi-as, mastiguei-as, e mastiguei-as tanto que nem precisei sentir a mente surpreender-me ao fabricar bisnaguinhas que nem sabia que estivessem faltando.

Considerando o que nem pensei que me faltasse, falto-me. Todavia não quero que as bisnaguinhas estraguem, porque acho bom não jogá-las fora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de outubro de 2022.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

A força da palavra

 

A força da palavra

 

Naquela classe, no terceiro ano do primário, em 1973, tudo decorria sem maiores surpresas. A professora seguia de carteira em carteira; e, à pergunta feita, cada um dos alunos respondia de pronto.

Um queria dirigir táxi como o pai fazia.

Tal qual um tio, outro iria vender roupas de porta em porta.

Aquela daria aulas que nem a sua querida professora.

Mas a turma era heterogênea. Havia alunos que se destacavam por serem mestres em chamar a atenção pela criatividade.

Como o seu irmão queria ser astronauta, fulano disse que precisava comprar um deserto pra poder construir uma plataforma de lançamento de foguetes para que aquela viagem à Lua fosse realizada.

Fulana falou que aquilo era impossível, porque não tinha deserto no Brasil nem ninguém tinha ido à Lua do jeito que a tevê tinha mostrado, pois nave espacial rodando em volta da Terra tinha que cair por causa da gravidade que faz a maçã cair na cabeça da gente, se bem que ela não conhecia quem tivesse levado maçanzada na cabeça, porque era bem difícil de ver porque os americanos sempre foram bambambãs em fazer truques para a mentira virar realidade.

Já que fulana se preocupava com a realidade passada na televisão, a professora disse que a aluna podia virar jornalista pra contar como a História era contada sem os macetes do cinema.

Se beltrano concordava com fulana porque era inteligente, beltrana falou que achava ridícula essa gente que ficava embaixo de árvore sem fazer nada de bom, por isso seria médica, pra tratar de quem era biruta de ficar esperando a maçã cair de madura na ideia do lelé da cuca.

Nem sicrana nem sicrano tiveram vez, pois a professora achou que tinha chegado o momento do seu aluno mais tagarela, mais sabichão, mais espontâneo, ela achou que ele tinha de responder logo:

ꟷ Então, menino, o que você vai ser quando crescer?

O garoto coçou a cabeça. Não sabia o que tinha de dizer. Se falasse que queria ser advogado como o avô, isso agradaria à mãe mas o pai não iria gostar porque filho tem que seguir a profissão do pai, que seria virar dono de padaria.

Notando que a professora estava para perguntar-lhe se ninguém o impressionava, se nenhum professor o inspirava, o menino disse que queria ser presidente.

ꟷ Hein? Repita, pois eu acho que ninguém ouviu direito.

Com uma voz que mal dava para ser ouvida na carteira ao lado, ele repetiu o que havia dito:

ꟷ Presidente. Quero ser presidente, professora.

De bom coração, embora pasma, a professora quis saber o que ele, feito presidente, faria pelo “nosso glorioso” país.

O menino viu as lâmpadas acesas, viu os passarinhos pousados no muro e, ainda que estivesse sendo encarado pela professora, falou que andaria de carro dirigido pelo fulano, usaria as camisas vendidas pelo beltrano, faria escola para ensinarem como fabricar foguete pra ir à Lua sem cair no quintal da casa da fulana.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de outubro de 2022.


terça-feira, 25 de outubro de 2022

Burburinho

 

Burburinho

 

Saio de casa assim que tenho vontade de unhar a parede do quarto. Não ficarei andando de lá para cá, como se fosse capaz de manter as mãos às costas. Com a casa carecendo de ser pintada, sofrerei o diabo sem o rangido das unhas contra as paredes.

Já que não desejo ver sangue, vou dar uma volta.

Pensando sem medo de transmitir a mensagem errada, esse atrito não serve para afiá-las nem nada tem que ver com as unhas poderem crescer como os cílios das coristas que só dançam samba de uma nota só, que não é nota de repúdio depois de crime cometido.

Piscar o olho dissimula, e mais pronuncia a fraude.

Sem ouvir unhas contra a parede, é normal querer escutar a grama deslocando um milímetro para cima a brisa da alvorada.

Não negarei que zanzar ajuda a descansar das grandes angústias e dos sofrimentos menores. Sim, caminhar ao bel-prazer da cachola é uma forma de tranquilizar-me.

Vago na maior tranquilidade, pois a luz da manhã não me cega, não me desnorteia, não me dispõe à direção do abismo. Aliás, posso beirar o precipício e, com medo, ouvir-lhe o burburinho.

Parece aquele zunzunzum tão familiar.

Penso no pernilongo que fica preso no quarto. Chego a conjecturar que pernilongos fogem do frio correndo pra dentro. Antecipo as ânsias desses insetos, tranco a porta bem antes do crepúsculo, por volta das quatro, pra que pernilongos, siriris e içás não entrem. Mas o zunido não faz com que a porta seja aberta antes do próximo crepúsculo.

Além de mim, o ruído incomoda os monstros que vivem embaixo da cama. Se ignorasse o bicho picando a minha orelha, poderia nanar que nem nenê depois de mamar.

E nanar assim me deixa muito a fim de escrever uma crônica leve, pois estou potente de palavras amenas. Quero palavras que afetem as pessoas e a mim sem causar alvoroço. Como quem tira uma coleira da mente, não me vejo um cão a espumar contra o mundo.

Tomado de raiva, melhor grunhir sem testemunhas.

Antes de digitar a crônica, rascunho-a. Para rascunhá-la, deixo que a mente não amarre meus pensamentos como cão preso a corrente.

Há situações em que é preferível ouvir poetas em vez de pacóvios. Porque poetas põem a girar estrelas, planetas e luas, suas noites não apagam o sol da manhã.

Se mapas, bússolas e contos apontam pro norte, no firmamento do horizonte, o céu dá poesia.

Sim, estou resolvido a entregar-me ao ócio, a recriar-me ocioso.

Saio. Gosto de zanzar. Salvo engano, zanzo quieto.

Encanto-me com as pessoas, mas há quem desconfie de mim. Sou olhado de soslaio, pois associam as olheiras à caça a pernilongos.

E sentado debaixo de uma árvore, ouço passarinhos cantando.

Quando cantam, procuro-os entre os galhos. Gosto de sentar-me à sombra de uma árvore, assim me dedico a achá-los. Mas a frustração de continuarem cantando sem que eu os veja é uma realidade que me chateia, e tanto me acabrunha que nem quero pensá-la.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de outubro de 2022.

domingo, 23 de outubro de 2022

O olho que tudo vê

 

O olho que tudo vê

 

Cansado de ser levado a sério desde que pediu para que realmente o levassem a sério, foi cabisbaixo como se não chovesse.

Seus passos pesados o conduziram até o riachinho mais escondido que conhecia, para ali sentar-se um pouco.

Lembrou-se daquela tarde, que poderia tê-la esquecido.

Antes nem tivesse ido ao barbeiro naquela tardinha de sol em que a canseira deixara-o pusilânime o bastante pra nem querer discutir com quem estava disposto a considerá-lo um tolo por achar que o deixariam de considerá-lo um tolo porque tinha achado que o levariam a sério só porque pedira que não o vissem como idiota.

Desde então, os fregueses da barbearia pediam a ele que opinasse sobre o diabo a quatro. E ninguém se importava de fazê-lo de supetão, bastava que o vissem de bigode sendo aparado para que tomassem o que dizia como se da sua boca saíssem comentários indiscutíveis, cuja sabedoria dependia efetivamente da franja bem aparada.

Debaixo daquela chuvarada, o sapientíssimo solitário da franja bem aparada estava contrafeito de pensar que precisava refletir com menos seriedade nos problemas que afligem todo mundo.

Em confronto, tinha dois lados.

Não era alegre nem triste o tempo todo. Saía-se mal quando sofria por não conseguir pensar além da alegria e da tristeza.

Sem saída, a amargura o prendia. E mais amargo, mais infeliz.

Como a desdita era aguda quando garoava, gostava que chovesse forte. Como ele não vagou a esmo, foi ao ermo mais próximo, foi àquele riachinho sem nome, ao fiapo d’água no meio do mato, chovia forte.

Esgotado, nem o preocupou querer outra saída que não fosse ouvir o murmúrio do riachinho.

Tão sério, foi sem isca e vara.

Na ressaca do remorso, a solidão o abrigava à margem.

Com os pés fora da água, queria silêncio. Bem que o mundo poderia sossegar-se, para ouvir a chuva caindo.

Se tinha bigode e franja bem aparados, por que ansiava que não o censurassem por atirar pedrinhas na linha d’água do riachinho perdido no meio do mato?

Parou com as pedrinhas quando viu baratas saindo do chão.

As baratas vinham à tona da terra molhada por uma fissura no solo, e não paravam mais de sair daquele buraco.

Não eram formigas, pareciam.

Em alvoroço, era horrível. Eram inúmeros indivíduos alvoroçados. Tantas baratas brotando da terra, era um exagero, algo incomum.

Sentado na margem, tomando-as por saúvas, começou a pisotear as baratas. E tanto pisou que a terra molhada desbarrancou e ele caiu na água barrenta do riachinho esquecido no meio do mato.

ꟷ Se faço o que posso, por que me desfazer do possível?

E poderia ter ouvido música, feito um lanche, ter ido brincar com os cães, tirado as roupas do varal, chupado jabuticabas no pé, ou fechado os olhos.

Cansado de ser levado a sério, o homem sério jamais admitiria que nada tinha feito de divertido, que nem boiar no riachinho embarreado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de outubro de 2022.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

As capicuas

 

As capicuas

 

Arrancaram-me um dente, mas não sinto dor.

Quando ainda o tinha na boca, evitava bebida gelada, rango quente e falar com empolgação. Embora vazia, a boca torta sorria.

Não imagino o horror que seria sofrer alguma disfunção neurológica que me tornasse insensível a dores. Tal condição não me paralisa, pois o dente foi arrancado na semana passada.

Dente é torrão de areia mascado como chiclete?

Para me desembaraçar da ansiedade, procuro controlá-la. Como se as complicações fossem um dente a doer sem mais nem menos, corto pela raiz a ideia da goma perdida do tutti-frutti açucarado.

A dor que poderia sentir acaso me distraísse, dela não guardo maior pavor que o momento da extração. Porque houve calafrios e apertei os braços da cadeira, pela aflição que eu poderia ter sentido.

Não senti, não sinto e não sentirei, pois acredito que a antecipação da dor faz muito para me convencer a parar com refrigerante, balinhas e bolos. Só preciso confiar em mim quando apresentarem bandejas de brigadeiros ou uma mesa coberta por copos de tubaína.

A semana passada mostrou-me a fortaleza que sei que posso ser: o dente extraído foi pro lixo, eu não o pus embaixo do travesseiro nem o joguei no telhado.

Se acreditasse na força dessas coisas eu as faria sem pestanejar. Contudo, não é porque não sou supersticioso que debocharei de quem as faça. Sou simpático a simpatias que não atormentam ninguém.

Aliás, agora me lembro.

Há duas semanas, outro dente foi subtraído a esta minha boca que tanto devora doces.

Da cadeira, observei os objetos, notei números e notei também que havia dezenas repetidas. Essas que se repetiam eram capicuas.

Mas as dezenas, aquelas com as quais não me importei de levar na cachola atulhada de fios soltos, elas mereciam outro olhar, a visão de que eu poderia torná-las a senha para um futuro menos escuro.

Se nas últimas semanas o futuro iluminado não me comovia, outro dia, nesta passada quarta-feira, não senti a agulhada na gengiva, senti pulsante o pensamento de que voltaria a sentir dor quando o efeito da anestesia passasse de vez.

Ontem, depois de terem-me extirpado mais um dente, o terceiro em quinze dias, estava parado na calçada, não era hora para esquecer as capicuas que li nas plaquinhas.

Queria apostar, mas eu lembrava das agulhas, das pontas finas das agulhas, lembrava as agulhadas. Cáspite! Eu queria aqueles números, os que o otimismo identificou como os duplos da sorte.

Não me queria abatido, frustrado pela memória fraca, entrei na fila e nela fui avançando, senha após senha.

A tarde estava linda, tinha sol dourado brilhando no céu anil, mas o tempo fechou. Virou em chuva o que era esplendor.

Fulano falou:

ꟷ O Cara Lá De Cima devia ter vergonha de pregar peça na gente honesta que sai de casa sem sombrinha.

Beltrano emendou:

ꟷ Pedro, o aporrinhador? Esse eu não conhecia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de outubro de 2022.

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Um quarto de absurdos

 

Um quarto de absurdos

 

Desligo a TV, pois estão comentando o que não acho interessante. Quando a liguei, mostravam números num gráfico vistoso. Precisei de um segundinho pra entender que as fatias da pizza estão relacionadas com abstrações políticas, nada a ver com os preços de farinha, tomate, queijo e orégano, nem com a gorda gorjeta do garçom.

Porém, a razão precípua pra desligá-la é o silêncio pra cochiladinha depois que a gente descobre que está encrencada com a hora.

E o sono não apaga na mente a realidade do momento.

O real tem prioridades que o meu fastio com as eleições inventa de fechar a cara, pois os analistas projetam, por um mais um, que a parte significativa do eleitorado, que ajoelhará sem errar a reza nem mesmo ao imprecar pra cacete contra demônios que juntam pormenores sobre pormenores que mais confundem que explicam, esse quinhão exige de mãos juntas que tudo seja cobrado, tintim por tintim, a quem dorme no ponto.

Triiim! Triiim!

O alarme do celular soa como o clássico telefone de disco.

Triiim! Triiim!

Seu Rodrigues, o histórico do momento pede coragem para ficar na soneca a cada cinco minutos? Deixe-se ficar ou desligue-a.

Triiim!

Deve ser porque ando bebendo muita água que estou com sono, e não julgo correto dizer que quem quer dormir um pouquinho mais seja um camarada preguiçoso.

Sujeito preguiçoso encara dois litros de água por dia?

A água limpa o corpo, tira do sangue as toxinas e conduz o oxigênio ao cérebro sem maior consumo de energia; e o menor gasto de energia permite à mente trabalhar melhor sem que o cansaço prevaleça.

Logo, o sono é por esgotamento mental, não por fadiga.

Quando estou fatigado, procuro dormir na posição que nem me faça sentir o travesseiro, o colchão, os cobertores e a bexiga.

E o danado do diabo que se mija de tanto rir?

A consciência sabe o que é preciso pra conservar o colchão seco.

Já a fronha fica babada, porque sonho de boca aberta. Ao visualizá-la salivante, digo-a asquerosa, assaz nojenta, demais repugnante.

Fecha-se o círculo: pela visão, eu babo ainda mais.

É pela boca que demonstro a minha satisfação pelo copo d’água ao lado do celular. Algo útil, porque me socorre quando ronco até secar a garganta. É recurso que aprendi a utilizar de modo racional.

Como prefiro passar a noite sem consultar a hora, gosto de sonhar com o copo cheio, e eu babo que dá gosto.

Para que cinzeiro no criado-mudo se não fumo?

Acredito que o inconsciente até queira aprontar. Mas a memória dá a entender que piada contada de trás pra frente perde a graça. Mas a ansiedade, mal a história comece a ser contada, ainda que de trás para frente, a ânsia faz rir ꟷ de nervoso, mas faz.

Triiim! Triiim!

Pra neutralizar suposições disparatadas, falta dizer que achara que tinha acordado, desligado o alarme e me ligado na TV, mesmo com o quarto a recender a orégano às seis da madruga.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de outubro de 2022.

domingo, 16 de outubro de 2022

O caos nosso

 

O caos nosso

 

O vizinho trouxe um balde com garrafinhas e sentou-se na cadeira de vime. A sua varanda não o isolava e, depois de uma semana de céu cinzento, só os infelizes fechavam a cara, a desdenhá-lo pelo privilégio de beber antes do meio-dia.

Fumando as baganas que alcançava sem tirar a bunda do lugar, o homem tinha muito no que pensar. O curativo da canela precisava ser trocado; as unhas estavam compridas; além de imundas, suas roupas fediam a urina; desde outro dia, começou uma coceira que a cabeleira não deixava ver se eram lêndeas que a provocavam.

Do outro lado da rua, duas jovens arrancavam matos das jardineiras quando um grupo veio entregar-lhes panfletos. Elas agradeceram, mas não disseram os seus nomes. Que Deus abençoasse a todos, a quem pedia-lhes que aceitassem panfletos e orações personalizadas e a elas que estavam empenhadas em limpar as suas roseiras.

Do outro lado da rua, também surgiu um grupo que ia entregando o mesmíssimo material e ia solicitando nomes para orações.

Sentado no meio-fio, ao homem que desmontara a sua barraquinha quando o joão-de-barro começou a cantar no alto do poste não lhe foi lido trechinho algum do Novo Testamento nem a ele foi perguntado por que as suas coisas todas cabiam na mochila ao pé do poste.

As pessoas dirigiram-se ao homem que bebia cerveja na varanda e ofereceram-lhe os panfletos, pediram autorização pra pôr seu nome na oração da noite e vendiam os livros que eram fonte confiável de ações cristãs, e verdadeiras pechinchas.

Da varanda, o vizinho disse o nome, desejou boa sorte com a venda dos manuais e que a tarde fosse mais bem-aventurada que a manhã.

Pela banda de lá e pela de cá, compenetrados em passar a Palavra a quem a acolhesse, os homens e as mulheres iam devagarinho.

Como o casal da casa ao lado da minha tinha deixado o quintal, a mulher que aparentava ser a mais jovem do grupo não pediu ordem a ninguém para enfiar, dobrados, na caixa de correio alguns folhetos que fora encarregada de divulgar.

Sem intenção de receber agrados do homem sentado na sarjeta, o vira-lata cotó foi direto à esquina, uma vez que seu olfato o tinha guiado à cadela acochada por uma cachorrada muito entusiasmada.

Se ficasse nisso, noutra manhã de sábado como outra qualquer, eu nem teria atravessado a rua, mas aceitei o convite quando vi o vizinho da frente abrindo passagem àquele vagamundo.

Sentamos os três e conversamos. Bebemos e soltamo-nos.

Menos constrangido, o nosso mais recente vizinho disse que estava cansado de ficar drogado. A sua mudança para esta rua foi necessária, pois ele queria parar com “ganja e caninha”. Se conseguisse dominar-se, os filhos viriam vê-lo, pois birita o transtornava, deixava-o intratável, violento, exemplo da pior espécie.

Foi a essa altura que a conge do dono da casa apareceu pra acabar com a nossa festinha na varanda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de outubro de 2022.

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

O lápis

 

O lápis

 

Tenho um gênio terrível?

Uma vez que nem o almoço atrasa porque refugo alterar o cardápio tendo as panelas no fogo nem o açúcar em demasia põe-me suarento depois do jantar, a minha alma pacificada prepondera.

Em dias assim, não há terror que me descalibre o humor.

O que me estimula a sentir o mundo de modo sereno, a aceitá-lo tal qual a mim ele se apresenta, é cuidar do momento, sem me preocupar que eu bufe por ninharia ou nem note que não respiro pela boca.

Pretensamente, pacifica-me pensar um pouco menos.

No vazio de outra tarde sem tarefas, um lápis calha de orientar-me para uma diversão singela: rabiscar.

Não sei desenhar. Se copiasse quem admiro, adestraria a mão.

A mão treinada de gente sem talento torna indisfarçável que não se aprimora o que não se tem, revela-se a vocação para simulacros.

Talvez eu aproveitasse melhor a folha em branco se a cobrisse com palavras. Se eu escrevesse alguma crônica ligeira, certamente poderia me contentar, porém não busco contentamentos.

Nem escrevendo que rabiscos são rabiscos nada mais que rabiscos num papel outrora em branco, tal redundância não me alegraria.

Como o coração palpita tranquilo e a cachola matuta sem astúcias, meus pensamentos assobiam melodias como nuvens.

Compondo e recompondo, traçando e traçando, não ponho a árvore ao lado da casinha com chaminé, pois não quero que as minhas curvas e retas arremedem a realidade bucólica de uma criança feliz.

A ideia de que sou feliz feito criança é um pensamento bom.

Bom para mim que rabisco como se a folha fosse o céu; e nele vejo um sol virar flor, a flor virar cachorrinho, o cachorrinho virar um homem de palito que vira nuvem; e nuvens que não param se transformam.

Minha carranca é faceira. Faço caretas, ponho a língua de fora, ergo o mindinho, sorrio, grunho baixinho: me entusiasma desenhar.

Não é porque meus borrões vão surgindo e adensando-se que me sopro pelas fumaças de Rembrandt, Monet, Pollock. Daria por ridículo se me desanuviasse em artista, que nunca fui nem sou.

Sem afobação, sem supor rancores nem ardores e sem me inflamar pelo que deveria estar sentindo como brasa, desenho, desenho, e tudo muda porque minha mão é viva, não se detém no desenhado.

Tanto serena desenhar, que nem temo o estilete ao apontar o lápis, aponto-o e pronto, sigo numa alegria benfazeja.

Não percebo nem preciso perceber, mas continuo esse menino que acha divertido passar a tarde sem fazer nada que não seja usar o lápis como lápis.

Criança afeita a parir caraminholas sem se vexar de tê-las no papel, me identifico com esse menino caraminholado.

Criança que sempre gostou de traçar linhas sem direção e sentido obrigatórios, fico sossegado, tão sossegado, que nem sinto vontade de tomar café com biscoito.

A tarde está quieta e pouco amedrontadora, mas nem assim eu me retrato outro menino, menos abstrato.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de outubro de 2022.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Pombas!

 

Pombas!

 

São três horas. Nem é necessário conferir no celular, pois o homem na praça é um personagem conhecidíssimo.

Ele solta uma pomba precisamente às três horas. E ninguém duvida que o seu relógio esteja certo, uma vez que esta história teve início há nove anos.

Era domingo de Páscoa e sua família estava reunida, pois uma das suas netas faria a primeira comunhão na missa das três.

Sem sinos que anunciassem a cerimônia, somente no dia seguinte soube o tanto de emoções que perdera.

Ele chegou para um cafezinho. E mais quieta que o costume, a filha resolveu lavar as xícaras, menos a que ela lhe deu.

A ele não entregara o café adoçado, que fizesse a gentileza de pôr o quanto quisesse de açúcar. Daquele mascavo, porque não tinha mais do refinado, o preferido dele.

O pai desconfiava que alguma coisa acontecera. E algo grave, pois até a neta, sempre tão carinhosa, nem tinha vindo pedir benção.

Pra seu desagrado, outra das suas filhas chegou como se estivesse com muita pressa, que não teria tempo para ficar conversando. Ela só passou pra deixar o catálogo dos cosméticos que revendia.

A filha apressada disse que, discretas porque sentidas, as lágrimas da irmã foram tão comoventes quanto às da menina emocionada com a primeira hóstia.

Menina?

Era uma adolescente dos seus doze anos, que nem viera pedir-lhe a benção. Ela era uma rebelde, pois as primeiras espinhas mostravam as perturbações que apagavam a garota que fora tão meiga, tão doce. A antiga menininha educada que ainda ontem não se negava a mostrar respeito pelos mais velhos, tal pessoa adorável não existia mais.

E ele não era apenas alguém mais velho, era o pai da sua mãe. Ela demonstrava despeito não só pelo avô, também, e principalmente, pela mãe. E mãe alguma merece ser afrontada de tal modo, ainda mais por uma guria de aparelho nos dentes.

Pra quem nem se dignou a mandar o recado de que não iria à igreja, era absurda e arrogante a cobrança de quem dispensa o remorso.

Educadas por uma pessoa que nunca vestia a carapuça de mulher afável que a tudo aceita sem questionar os porquês, as irmãs trocaram olhares de gente zombeteira que sorri diante de quem pede reverência automática em vez de entendimento amoroso.

E a adolescente despudoradamente rebelde estava no colégio, pois era dia de aula. A insurgente só faltava quando a febre, a tosse e a dor de cabeça eram maiores que a sua vontade de ir à escola.

O homem daria jeito naquela irresponsabilidade: todos os dias, com sol ou chuva, diante da igreja, soltaria um pombo às três da tarde.

Nem todos os caretas são carolas, porém, dos primeiros, estes são os mais chatos, porque não perdem a oportunidade de humilhar quem entendem os mais estúpidos dos sacripantas, os energúmenos.

Mas os elegantes rotulavam de pitoresco aquele protesto, Silviano de San Thiago, todavia, nada tem de doido ou extravagante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de outubro de 2022.

domingo, 9 de outubro de 2022

O mundo dos sonhos

 

O mundo dos sonhos

 

Depois de outra jornada com mais tarefas que mãos, queria dormir.

Como seis horas mais tarde teria outro dia com menos alegrias que aborrecimentos, que eu caísse no sono o quanto antes.

O mundo não tem que atender minhas expectativas apenas porque prefiro muito mais rir a engolir a seco de vez em quando.

Nem a realidade condiciona os acontecimentos pra que à minha voz sobrevenha uma rouquidão cavernosa nem levo uma vida muito louca para gargalhar com o pastelão da torta na cara.

A minha cama é firme, mantém os quatro pés pousados no carpete de madeira. Nela eu me deito quando estou cansado, com sono ou pra uma escapadinha das palhaçadas do cotidiano.

Por que não conseguia dormir?

Sem que a luz da rua invadisse o quarto pelas frestas da veneziana, era certo que a escuridão estava brincando comigo.

Uma luzinha me fez correr as cortinas para que o breu cortasse no nascedouro a tolice de me transformar num insone só pela suposição de que era noite de lua cheia.

Quando estou exausto, irrita-me ficar acordado.

Se há no mundo lugar melhor pra pensar na vida, desconheço outro que me cative mais que a minha cama. Mas no quentinho das cobertas, avesso a seguir pensando no que fiz de bom ou nos erros que poderia ter evitado, o que eu mais precisava era roncar.

Ainda que não houvesse claridade alguma, o sono não vinha.

Não vindo o sono, a impaciência tornava exasperante o diálogo de mim comigo. Enclausurado na ideia de que deveria estar dormindo, eu sabia que deveria ter necessariamente adormecido.

Estúpido foi confirmar que a escuridão a me envolver deixava ver o quanto estava escuro. Já o teto, podia senti-lo mais baixo.

Não apenas o teto. Como não conseguia vê-los, também os móveis davam a sensação de que espreitavam.

Ora, tudo seguia no lugar de sempre: a natureza morta continuava parada; quem estava irritado já se exasperava.

A cabecinha fazia do quarto um lugar desconcertante, um casulo do qual sairia o mesmo apesar de um tanto mudado.

Vivo, e não sou indiferente ao que vivo.

Se o tempo existe pra asseverar que o caráter faz o destino, não o contrário, lutarei quando for preciso, arrancarei do flanco os aguilhões, confrontarei quem me passa para trás na fila.

Quero respeito, mas fraco, covarde, ingênuo, não levanto a cabeça, não ergo a voz, não esbravejo nem esperneio, não sacaneio, nada faço por mim que me proteja dos outros, que me alie aos vulneráveis, a mim me aproxime de quem também é passado pro fim da fila.

Quem chega depois de mim, esse é chamado à frente. Quem passa à frente chama quem chega outra vez depois de mim, isso deixa a fila bem maior à minha frente.

Em pé na fila, meus pés me incomodam, minhas canelas formigam, flexiono os meus joelhos, endireito a minha coluna, meus olhos pedem colírio, urgente é ter o que não tenho.

Quero me livrar do que tarda a passar, hei de alvorecer.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de outubro de 2022.