terça-feira, 1 de novembro de 2022

Irritante

 

Irritante

 

Chove. Está chovendo faz horas. Como chove forte desde ontem à noite, não parece que vá parar tão cedo.

Olho a rua. Vejo que estão passando sombrinhas e guarda-chuvas. A eles não pretendo me juntar, deixando que as rajadas de vento tirem de mim as roupas secas e a paciência.

Escolho ficar onde estou, porque aqui sou amigo do café, da TV, do gato que dorme na poltrona.

Olho o gato que nem liga pra mim a olhá-lo dormindo. Só não sorrio porque me ocorre a vaidade de recusar o papel de bobo. O gato dorme sem saber que admiro a sua tranquilidade de bicho que dorme quando quer, não porque receie que eu o ache bobo por dormir comigo a quatro passos da poltrona.

Se desse o primeiro passo para mexer com ele, concluiria que seria menos constrangedor se tivesse permanecido à janela, sem contar pro dorminhoco quantas sombrinhas desfilaram no último minuto.

Talvez, como eu, você conheça gente assim, que costuma projetar nos demais a sua energia de pessoa de bem com a vida.

É ridículo acordar o gato, ou outra pessoa, pra comunicar-lhe que a alegria que deixa a gente comovida tem mais é que ser compartilhada, pois não é o entusiasmo que faz agir como bobo, é a estupidez.

O segundo passo, outro passo adiado para que o gato não venha a ser acordado para fitar a cara de um ser humano muito penseroso, é o instante de refletir sobre o quão positivo é o desejo de dizer ao mundo que, nessa alma positivamente alegre, só existe lugar pra sentimentos contagiantes, esfuziantes, empolgantes.

Não me entristeço com a serenidade do gato que dorme.

Assim como eu, quando estou triste, talvez você evite descarregar a negatividade em quem nem percebe que os opostos se atraem.

Olho o gato, ele não está alegre, ele dorme. Daqui, a quatro passos, não me mexo porque não o quero importunar como quem se alegra ao vê-lo dormindo. Sem nada pra dizer ao bichano, deixo-o dormir.

Por que perturbá-lo com irracionalismos?

Não sou racionalista, sou racional.

Sei que a racionalidade colabora com o meu entendimento de que o gato tem o direito de dormir na poltrona sem que eu o acorde pra que seja informado que xis automóveis com placa final par passaram diante da minha casa em um minuto.

Não sendo irracionalista, não idealizo o racionalismo como benção, pois entendo a irracionalidade de supor que o gato me compreenderia em minha alegria mui comovente.

Se a ele me apresentasse como pessoa abençoada pelo tanto que o amo, seria ridículo.

Como falso ato surrealista, o quarto passo preterido seria, no vidro embaçado, tornar visível uma chave, riscá-la com duas retas paralelas verticais cruzadas por duas retas paralelas horizontais.

Lá pelas tantas, o gato acorda, espreguiça-se e passa a lamber-se.

O contorcionista que se limpa todo ignora o meu simpático tatibitate de pessoinha pouco irritante.

Sim, está chovendo há mais de doze horas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de novembro de 2022.

 

 

 

 

 

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário