quinta-feira, 3 de novembro de 2022

O mal-amado

 

O mal-amado

 

Que se dane a torneira que não para de pingar.

Que se dane quem não dá um jeito nessa torneira que não para de pingar desde que as pálpebras começaram a pesar.

Que se dane essa torneira que pinga e pinga, que pingo a pingo vai irritando mais e mais, como se cada batida agulhasse num único ponto em cada tímpano desde que vim deitar.

Que se dane a ideia de sair da cama não para ir marretar a torneira, para fechá-la.

Que se dane a dor no peito depois do susto.

Que se dane a dor surgida no lado esquerdo do peito depois que a campainha deu um baita susto.

Que se dane o aperto sufocante que deu no lado esquerdo do meu peito depois que um desgramado do caramba tocou a campainha bem no comecinho da madrugada.

Que se dane quem toca a campainha já passada a meia-noite, pois estar descalço no chão frio da cozinha é ocupar-se com o que tem que ser resolvido de uma vez, pois pingos são o inferno.

Que se dane a campainha depois de desligada.

Que se dane esse inferno de torneira mais campainha, que isso me obriga a desfazê-lo de uma vez, fecho o registro que fica na cozinha e desligo a campainha, antes que me enfureça, pois irei arrepender-me quando raiar a manhã.

Que se dane a alvorada que há de chegar.

Que se dane a aurora que virá, porque ficar pensando na manhã de logo mais me enfurece, e é pra já, enraivecido, que ligo a TV.

Que se danem as notícias repetidas que a TV de madrugada passa, passa, passa, não se cansa de passar, como se apenas eu merecesse assistir àquela repetição, a essa repetição diabólica.

Que se danem os canais que repetem as notícias como se os donos do mundo contassem com a audiência hipnotizada.

Que se dane a mesmice hipnótica dos canais que narcotizam quem busca o transe, quem deseja o abismo, quem se aproxima da beira do abismo, como se nunca mais acabasse a madrugada.

Que se dane a alucinação de estar narcotizado por sons e imagens que se repetem ad infinitum, ad nauseam.

Que se dane a alucinação estupefaciente que impede a loucura, só que provoca tédio, e tédio cansa, e cansaço esgota, o esgotamento dá um nó na mente, e a mente que não toma pé das circunstâncias sente mais e mais o fastio, como se bocejo seguido de bocejo exorcizasse a madrugada que não passa.

Que se dane a TV depois de desligada.

Que se dane esse barulho chato que começa só depois de apagada a lâmpada do quarto.

Que se dane esse ruído de barata roendo alguma coisa assim que me deito com a luz apagada no quarto de janelas fechadas.

Que danado, que me recordo dos chinelos.

Que se danem os chinelos ao pé da cama.

Que se dane a sola do chinelo suja de barata desviscerada por uma chinelada dada sem que a aurora fique impedida de raiar o sol de outra manhã, como se a primavera negasse o inverno nos meus artelhos de escrevinhador, ainda que certos abelhudos gostem de espiar o mundo por binóculos de lentes nada emboloradas.

Que se dane a higiene mental.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de novembro de 2022.

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