terça-feira, 8 de novembro de 2022

Vingancinha

 

Vingancinha

 

Estão me chamando, olho para trás, mas não há ninguém.

Ninguém, só estão passando aquelas pessoas sempre apressadas. Aquela gente que segue em frente, gente que nunca diz nunca, porque a vida é o momento, a quem nada há de acabado, definitivo.

Estão me chamando, sim. Viro-me outra vez, só que não vejo quem me chame pelo nome. Paro, olho pros lados, olho até mesmo pra cima, não encontro quem tenha me chamado. Fazendo graça de me chamar e esconder-se, isso me atiça à curiosidade.

Vão as pessoas que vivem o dia, levam a vida de compromisso em compromisso. Ao que parece, vão leves, vão desembaraçadas do que ontem deixaram de fazer por algum motivo.

Elas vão adiante porque o mundo é lugar que muda o tempo todo. Vão sem parar, por adaptar-se às mudanças, aceitá-las. Que a gente o torne um lugar melhor.

É gente preocupada, mas que não torce o pé na caminhada. Quem se preocupa com a hora não perde tempo. Quando para, é pra retomar o fôlego, não para desperdiçá-lo chutando cachorro morto.

A hora é de buscar a felicidade, de não arredar das obrigações, de fazer o que seja possível, não apegar-se ao medo de fracassar quando mal tenha começado o dia. Quem se apega à desonra de desistir antes de começar a jornada é quem adoece, fica mal, perde o sono.

Falando nisso, tenho uma história curiosa que me aconteceu ainda outro dia, quando estava para atravessar a rua, porque tinha visto uma pessoa toda atrapalhada com os seus cachorrinhos.

Eu esperava o sinal fechar quando ao meu lado parou quem achava que me conhecia. Alguém que me deu um tapinha no braço, disse-me que estava feliz de encontrar-me porque a saudade é sentimento que faz a gente ficar feliz quando encontra quem se quer bem.

O sinal abriu pros pedestres mas empaquei, envergonhado.

O meu embaraço não a impediu de sorrir, porque ela me conhecia muito bem. Era pessoa que sabia que eu sempre fui de ficar ruborizado por não lembrar o nome das pessoas.

Sempre me desconcerto ao hesitar. É óbvio o quanto me perturba se vou dizer um nome errado.

ꟷ Você nunca foi bom pra reconhecer os outros.

Sim, eu nunca fui bom para certas coisas.

Nunca fui bom para jogar futebol, nem mesmo descalço.

Nunca fui bom para comentar jogos de futebol, nem depois de uma cervejinha no bar da esquina.

Nunca fui bom para defender o meu lado.

Nunca fui bom para bolar frases bombásticas.

Nunca fui bom pra escrever bonito.

Nunca fui bom com pincel atômico.

Nunca fui bom com cartazes.

Nunca fui bom pra segurar cartolinas em protestos contra a carestia, o desemprego e a falta de perspectivas.

Nunca fui bom para entender de política, menos ainda da chamada realidade política.

Falando disso, de atravessar a rua pra ajudar quem mais precisava, eu resolvi ser simpático ao apelar pros bons sentimentos que a maioria acha conveniente cultivar:

ꟷ Vamos tomar uma gelada qualquer dia, certo?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de novembro de 2022.

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