Lambanças
Sentado na praça, num banco que me põe
de costas pro relógio da torre da igreja, se posso ignorar a hora certa, não
tenho como controlar as lambanças que tanto me acossam à garganta que pigarreio.
Os pigarros, que fazer quando sequer os
pigarros tornam límpida a voz que aderna o íntimo recatado ao baderneiro
anterior?
Teve aquela vez em que, só de cueca,
tive que entrar na maior das três fontes. Fazia frio; o esquisito era estar garoando
frio naquela noite em fevereiro. Sim, a água da fonte estava fria, bem fria.
Como entrara na faculdade, era evidente que
celebraríamos o meu feito com uns desafios imbecis, humilhantes.
Macacos me mordam!
Eu desmaiei segundos depois de aberta a
contagem regressiva dos cinco minutos que deveria manter a cabeça mergulhada na
água.
Comigo desacordado, deram-me tantos tapas
na cara que acordei furioso, querendo briga com o desaforento que me estapeava.
Para não dizerem que enfeito o pavão,
acho melhor nem mencionar que me urinei todo. Ora vejam, se eu senti o fio
morno descendo pelas pernas, inventaria que assim foi tão somente para me
degradar?
Sim, tais detalhes escatológicos dão
horror, pois a mim me parece desprezível quem deles se vangloria.
Emocionado, soltou-se o que andava
ancorado nos esquecimentos: bêbado de vodca com pinga com cerveja com gim com
martini, quando a incontinência apoderou-se da compostura, bati-me pela coragem
de pular noutra fonte, para nela gritar, espalmar a sua água.
Agitado, tiritando de frio, sim, eu
urinei.
Águas passadas, bem sei que elas voltam
já amestradas.
Para que desafoguem-me patético, vulgar,
esse cretino que nem se encabula de repassar o que sustenta ter vivido, à vera?
Devera que sim, à vera.
Cretino mas sensato, uma vez que não
busco ofender quem devoto de Nossa Senhora das Dores por me sentar pro largo da
praça.
Na esquina de baixo, onde hoje há um
posto de gasolina, ali outrora teve uma casa.
Essa casa foi habitada por família, todavia
desconheço quem tanto nela tenha morado. Anos depois, sem que lembre quando foi
que tenha ocorrido, ela virou sede da Coletoria Estadual. Em seguida, o
primeiro dentista pago pra cuidar dos meus dentes montou consultório ali.
Dei à praça outro vexame?
Quando a gente é dentuça, os dentões da
frente chamam atenção, o recomendável é cuidar bem desse cartão de visita.
Putisgrila.
Eu cuidava mal. Vai um dia, tive um
canal inflamado.
O socorro tinha que ser imediato, só que
o dentista aplicou a agulha na raiz inflamada. Com a macaca! A minha boca
adolescente, que dos palavrões tinha um vasto repertório, tanto esbravejou que
desmaiei. E foi mijo e merda pela cadeira inteira. Ô dó desse dentista, até nunca fui consultá-lo de novo.
Caraca!
Sentado sob esse solzinho gostoso, sem
nenhuma das fontes ainda na praça, será pelas futuras lambanças que entro a me
tiritar todo?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 06 de novembro de 2022.
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