O
mal-amado
Que se dane a torneira que não para de
pingar.
Que se dane quem não dá um jeito nessa
torneira que não para de pingar desde que as pálpebras começaram a pesar.
Que se dane essa torneira que pinga e pinga,
que pingo a pingo vai irritando mais e mais, como se cada batida agulhasse num
único ponto em cada tímpano desde que vim deitar.
Que se dane a ideia de sair da cama não
para ir marretar a torneira, para fechá-la.
Que se dane a dor no peito depois do
susto.
Que se dane a dor surgida no lado
esquerdo do peito depois que a campainha deu um baita susto.
Que se dane o aperto sufocante que deu
no lado esquerdo do meu peito depois que um desgramado do caramba tocou a
campainha bem no comecinho da madrugada.
Que se dane quem toca a campainha já passada
a meia-noite, pois estar descalço no chão frio da cozinha é ocupar-se com o que
tem que ser resolvido de uma vez, pois pingos são o inferno.
Que se dane a campainha depois de
desligada.
Que se dane esse inferno de torneira mais
campainha, que isso me obriga a desfazê-lo de uma vez, fecho o registro que
fica na cozinha e desligo a campainha, antes que me enfureça, pois irei
arrepender-me quando raiar a manhã.
Que se dane a alvorada que há de chegar.
Que se dane a aurora que virá, porque ficar
pensando na manhã de logo mais me enfurece, e é pra já, enraivecido, que ligo a
TV.
Que se danem as notícias repetidas que a
TV de madrugada passa, passa, passa, não se cansa de passar, como se apenas eu merecesse
assistir àquela repetição, a essa repetição diabólica.
Que se danem os canais que repetem as
notícias como se os donos do mundo contassem com a audiência hipnotizada.
Que se dane a mesmice hipnótica dos
canais que narcotizam quem busca o transe, quem deseja o abismo, quem se
aproxima da beira do abismo, como se nunca mais acabasse a madrugada.
Que se dane a alucinação de estar
narcotizado por sons e imagens que se repetem ad infinitum, ad
nauseam.
Que se dane a alucinação estupefaciente
que impede a loucura, só que provoca tédio, e tédio cansa, e cansaço esgota, o
esgotamento dá um nó na mente, e a mente que não toma pé das circunstâncias
sente mais e mais o fastio, como se bocejo seguido de bocejo exorcizasse a
madrugada que não passa.
Que se dane a TV depois de desligada.
Que se dane esse barulho chato que
começa só depois de apagada a lâmpada do quarto.
Que se dane esse ruído de barata roendo
alguma coisa assim que me deito com a luz apagada no quarto de janelas
fechadas.
Que danado, que me recordo dos chinelos.
Que se danem os chinelos ao pé da cama.
Que se dane a sola do chinelo suja de
barata desviscerada por uma chinelada dada sem que a aurora fique impedida de
raiar o sol de outra manhã, como se a primavera negasse o inverno nos meus
artelhos de escrevinhador, ainda que certos abelhudos gostem de espiar o mundo
por binóculos de lentes nada emboloradas.
Que se dane a higiene mental.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de novembro de 2022.