Chove. Está chovendo faz horas. Como
chove forte desde ontem à noite, não parece que vá parar tão cedo.
Olho a rua. Vejo que estão passando
sombrinhas e guarda-chuvas. A eles não pretendo me juntar, deixando que as
rajadas de vento tirem de mim as roupas secas e a paciência.
Escolho ficar onde estou, porque aqui
sou amigo do café, da TV, do gato que dorme na poltrona.
Olho o gato que nem liga pra mim a
olhá-lo dormindo. Só não sorrio porque me ocorre a vaidade de recusar o papel
de bobo. O gato dorme sem saber que admiro a sua tranquilidade de bicho que dorme
quando quer, não porque receie que eu o ache bobo por dormir comigo a quatro
passos da poltrona.
Se desse o primeiro passo para mexer com
ele, concluiria que seria menos constrangedor se tivesse permanecido à janela,
sem contar pro dorminhoco quantas sombrinhas desfilaram no último minuto.
Talvez, como eu, você conheça gente
assim, que costuma projetar nos demais a sua energia de pessoa de bem com a
vida.
É ridículo acordar o gato, ou outra
pessoa, pra comunicar-lhe que a alegria que deixa a gente comovida tem mais é
que ser compartilhada, pois não é o entusiasmo que faz agir como bobo, é a
estupidez.
O segundo passo, outro passo adiado para
que o gato não venha a ser acordado para fitar a cara de um ser humano muito
penseroso, é o instante de refletir sobre o quão positivo é o desejo de dizer
ao mundo que, nessa alma positivamente alegre, só existe lugar pra sentimentos contagiantes,
esfuziantes, empolgantes.
Não me entristeço com a serenidade do
gato que dorme.
Assim como eu, quando estou triste,
talvez você evite descarregar a negatividade em quem nem percebe que os opostos
se atraem.
Olho o gato, ele não está alegre, ele
dorme. Daqui, a quatro passos, não me mexo porque não o quero importunar como
quem se alegra ao vê-lo dormindo. Sem nada pra dizer ao bichano, deixo-o dormir.
Por que perturbá-lo com irracionalismos?
Não sou racionalista, sou racional.
Sei que a racionalidade colabora com o
meu entendimento de que o gato tem o direito de dormir na poltrona sem que eu o
acorde pra que seja informado que xis automóveis com placa final par passaram diante
da minha casa em um minuto.
Não sendo irracionalista, não idealizo o
racionalismo como benção, pois entendo a irracionalidade de supor que o gato me
compreenderia em minha alegria mui comovente.
Se a ele me apresentasse como pessoa abençoada
pelo tanto que o amo, seria ridículo.
Como falso ato surrealista, o quarto
passo preterido seria, no vidro embaçado, tornar visível uma chave, riscá-la
com duas retas paralelas verticais cruzadas por duas retas paralelas
horizontais.
Lá pelas tantas, o gato acorda, espreguiça-se
e passa a lamber-se.
O contorcionista que se limpa todo
ignora o meu simpático tatibitate de pessoinha pouco irritante.
Sim, está chovendo há mais de doze
horas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de novembro de 2022.