Pombas!
São três horas. Nem é necessário conferir
no celular, pois o homem na praça é um personagem conhecidíssimo.
Ele solta uma pomba precisamente às três
horas. E ninguém duvida que o seu relógio esteja certo, uma vez que esta
história teve início há nove anos.
Era domingo de Páscoa e sua família
estava reunida, pois uma das suas netas faria a primeira comunhão na missa das
três.
Sem sinos que anunciassem a cerimônia,
somente no dia seguinte soube o tanto de emoções que perdera.
Ele chegou para um cafezinho. E mais
quieta que o costume, a filha resolveu lavar as xícaras, menos a que ela lhe
deu.
A ele não entregara o café adoçado, que
fizesse a gentileza de pôr o quanto quisesse de açúcar. Daquele mascavo, porque
não tinha mais do refinado, o preferido dele.
O pai desconfiava que alguma coisa
acontecera. E algo grave, pois até a neta, sempre tão carinhosa, nem tinha
vindo pedir benção.
Pra seu desagrado, outra das suas filhas
chegou como se estivesse com muita pressa, que não teria tempo para ficar
conversando. Ela só passou pra deixar o catálogo dos cosméticos que revendia.
A filha apressada disse que, discretas
porque sentidas, as lágrimas da irmã foram tão comoventes quanto às da menina
emocionada com a primeira hóstia.
Menina?
Era uma adolescente dos seus doze anos,
que nem viera pedir-lhe a benção. Ela era uma rebelde, pois as primeiras
espinhas mostravam as perturbações que apagavam a garota que fora tão meiga, tão
doce. A antiga menininha educada que ainda ontem não se negava a mostrar
respeito pelos mais velhos, tal pessoa adorável não existia mais.
E ele não era apenas alguém mais velho,
era o pai da sua mãe. Ela demonstrava despeito não só pelo avô, também, e
principalmente, pela mãe. E mãe alguma merece ser afrontada de tal modo, ainda
mais por uma guria de aparelho nos dentes.
Pra quem nem se dignou a mandar o recado
de que não iria à igreja, era absurda e arrogante a cobrança de quem dispensa o
remorso.
Educadas por uma pessoa que nunca vestia
a carapuça de mulher afável que a tudo aceita sem questionar os porquês, as
irmãs trocaram olhares de gente zombeteira que sorri diante de quem pede
reverência automática em vez de entendimento amoroso.
E a adolescente despudoradamente rebelde
estava no colégio, pois era dia de aula. A insurgente só faltava quando a
febre, a tosse e a dor de cabeça eram maiores que a sua vontade de ir à escola.
O homem daria jeito naquela
irresponsabilidade: todos os dias, com sol ou chuva, diante da igreja, soltaria
um pombo às três da tarde.
Nem todos os caretas são carolas, porém,
dos primeiros, estes são os mais chatos, porque não perdem a oportunidade de
humilhar quem entendem os mais estúpidos dos sacripantas, os energúmenos.
Mas os elegantes rotulavam de pitoresco
aquele protesto, Silviano de San Thiago, todavia, nada tem de doido ou
extravagante.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de outubro de 2022.