terça-feira, 11 de outubro de 2022

Pombas!

 

Pombas!

 

São três horas. Nem é necessário conferir no celular, pois o homem na praça é um personagem conhecidíssimo.

Ele solta uma pomba precisamente às três horas. E ninguém duvida que o seu relógio esteja certo, uma vez que esta história teve início há nove anos.

Era domingo de Páscoa e sua família estava reunida, pois uma das suas netas faria a primeira comunhão na missa das três.

Sem sinos que anunciassem a cerimônia, somente no dia seguinte soube o tanto de emoções que perdera.

Ele chegou para um cafezinho. E mais quieta que o costume, a filha resolveu lavar as xícaras, menos a que ela lhe deu.

A ele não entregara o café adoçado, que fizesse a gentileza de pôr o quanto quisesse de açúcar. Daquele mascavo, porque não tinha mais do refinado, o preferido dele.

O pai desconfiava que alguma coisa acontecera. E algo grave, pois até a neta, sempre tão carinhosa, nem tinha vindo pedir benção.

Pra seu desagrado, outra das suas filhas chegou como se estivesse com muita pressa, que não teria tempo para ficar conversando. Ela só passou pra deixar o catálogo dos cosméticos que revendia.

A filha apressada disse que, discretas porque sentidas, as lágrimas da irmã foram tão comoventes quanto às da menina emocionada com a primeira hóstia.

Menina?

Era uma adolescente dos seus doze anos, que nem viera pedir-lhe a benção. Ela era uma rebelde, pois as primeiras espinhas mostravam as perturbações que apagavam a garota que fora tão meiga, tão doce. A antiga menininha educada que ainda ontem não se negava a mostrar respeito pelos mais velhos, tal pessoa adorável não existia mais.

E ele não era apenas alguém mais velho, era o pai da sua mãe. Ela demonstrava despeito não só pelo avô, também, e principalmente, pela mãe. E mãe alguma merece ser afrontada de tal modo, ainda mais por uma guria de aparelho nos dentes.

Pra quem nem se dignou a mandar o recado de que não iria à igreja, era absurda e arrogante a cobrança de quem dispensa o remorso.

Educadas por uma pessoa que nunca vestia a carapuça de mulher afável que a tudo aceita sem questionar os porquês, as irmãs trocaram olhares de gente zombeteira que sorri diante de quem pede reverência automática em vez de entendimento amoroso.

E a adolescente despudoradamente rebelde estava no colégio, pois era dia de aula. A insurgente só faltava quando a febre, a tosse e a dor de cabeça eram maiores que a sua vontade de ir à escola.

O homem daria jeito naquela irresponsabilidade: todos os dias, com sol ou chuva, diante da igreja, soltaria um pombo às três da tarde.

Nem todos os caretas são carolas, porém, dos primeiros, estes são os mais chatos, porque não perdem a oportunidade de humilhar quem entendem os mais estúpidos dos sacripantas, os energúmenos.

Mas os elegantes rotulavam de pitoresco aquele protesto, Silviano de San Thiago, todavia, nada tem de doido ou extravagante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de outubro de 2022.

domingo, 9 de outubro de 2022

O mundo dos sonhos

 

O mundo dos sonhos

 

Depois de outra jornada com mais tarefas que mãos, queria dormir.

Como seis horas mais tarde teria outro dia com menos alegrias que aborrecimentos, que eu caísse no sono o quanto antes.

O mundo não tem que atender minhas expectativas apenas porque prefiro muito mais rir a engolir a seco de vez em quando.

Nem a realidade condiciona os acontecimentos pra que à minha voz sobrevenha uma rouquidão cavernosa nem levo uma vida muito louca para gargalhar com o pastelão da torta na cara.

A minha cama é firme, mantém os quatro pés pousados no carpete de madeira. Nela eu me deito quando estou cansado, com sono ou pra uma escapadinha das palhaçadas do cotidiano.

Por que não conseguia dormir?

Sem que a luz da rua invadisse o quarto pelas frestas da veneziana, era certo que a escuridão estava brincando comigo.

Uma luzinha me fez correr as cortinas para que o breu cortasse no nascedouro a tolice de me transformar num insone só pela suposição de que era noite de lua cheia.

Quando estou exausto, irrita-me ficar acordado.

Se há no mundo lugar melhor pra pensar na vida, desconheço outro que me cative mais que a minha cama. Mas no quentinho das cobertas, avesso a seguir pensando no que fiz de bom ou nos erros que poderia ter evitado, o que eu mais precisava era roncar.

Ainda que não houvesse claridade alguma, o sono não vinha.

Não vindo o sono, a impaciência tornava exasperante o diálogo de mim comigo. Enclausurado na ideia de que deveria estar dormindo, eu sabia que deveria ter necessariamente adormecido.

Estúpido foi confirmar que a escuridão a me envolver deixava ver o quanto estava escuro. Já o teto, podia senti-lo mais baixo.

Não apenas o teto. Como não conseguia vê-los, também os móveis davam a sensação de que espreitavam.

Ora, tudo seguia no lugar de sempre: a natureza morta continuava parada; quem estava irritado já se exasperava.

A cabecinha fazia do quarto um lugar desconcertante, um casulo do qual sairia o mesmo apesar de um tanto mudado.

Vivo, e não sou indiferente ao que vivo.

Se o tempo existe pra asseverar que o caráter faz o destino, não o contrário, lutarei quando for preciso, arrancarei do flanco os aguilhões, confrontarei quem me passa para trás na fila.

Quero respeito, mas fraco, covarde, ingênuo, não levanto a cabeça, não ergo a voz, não esbravejo nem esperneio, não sacaneio, nada faço por mim que me proteja dos outros, que me alie aos vulneráveis, a mim me aproxime de quem também é passado pro fim da fila.

Quem chega depois de mim, esse é chamado à frente. Quem passa à frente chama quem chega outra vez depois de mim, isso deixa a fila bem maior à minha frente.

Em pé na fila, meus pés me incomodam, minhas canelas formigam, flexiono os meus joelhos, endireito a minha coluna, meus olhos pedem colírio, urgente é ter o que não tenho.

Quero me livrar do que tarda a passar, hei de alvorecer.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de outubro de 2022.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Possesso

 

Possesso

 

Se nunca disse, já deve ter escutado alguém dizer “não posso ouvir o nome daquela desgraçada”, porque a essa maldita estão associadas reações, no mais das vezes coléricas pelos transtornos que a menção evoca, que nem lhe ocorre amenizar o tanto de “ódio e nojo àquela filha de uma figa”.

Não julgo a pessoa pelo excesso de bile que o fígado produz, pois não sou nem quero ser juiz. Não alimento o engano de achar que tenho cabeça boa, ajuizada, no lugar, centrada.

Reconheço que eu sou um sujeito esquentadinho. Como resistência de chuveiro, esquento fácil. Viro uma coisa difícil de engolir, tanto que muita gente sabe o meu nome e há quem invente codinomes, dos mais apropriados até os bizarros.

No tempo que eu não fechava a boca sequer no minuto de silêncio, os professores me chamavam de Chacrinha.

Eu achava o máximo que houvesse algo comparável com o Velho Guerreiro. Como era uma criança magra, eliminei o barrigão. Pela voz fininha de menino tímido, não podia ser a buzina. Continuei Chacrinha mesmo sem saber por quê.

Loiro aguado de cabelão pelo ombro, virei Vanusa.

Por que tem ouvido, adolescente escuta?

Eu ouvia. Talvez fosse pra ser ofensivo, mas eu ouvia sem me irritar com os adultos mais babacas. Entre nós, os meus amigos e eu, ríamos da venerável autoridade que professor possuía na sala de aula.

Sei lá o que acontece comigo quando recordo um ou outro nome.

Lembro-me das roupas, dos gestos, dos tiques, muita coisa me vem à mente, menos a voz. Imagino a lousa cheia de lição, visualizo a figura de régua na mão, e nada da voz querer revelar-se.

Quando dou com antigos mestres, eles ainda me são estranhos.

Passaram-se os anos. Foram-se as décadas. 20 virou 21.

Hoje, escarro quando não estão vendo ou tusso. Aprendi que minha garganta livra-se de incômodos com tossidinhas ou expectoradas sutis.

De todo modo, procuro passar despercebido.

Cultivo a invisibilidade porque eu gosto de andar por aí sem que me identifiquem. Mas é difícil sair à toa, pois muita gente sabe meu nome; e tem um pessoal que inventa alcunhas como se isso me irritasse.

Caramba, não cuspo fogo se me chamam de Dodói.

Sem dúvida, minha gastrite é folclórica.

Não vou a almoços imperdíveis, pois churrascos são marcados por gente que consegue comer até duas fatias de uma quatro queijos com borda recheada. O quê? Meus sábados só acabam comigo lambendo os dedos.

Muitos me acusam de misantropo enrustido. Se estivessem no meu corpo, saberiam que sofro um bocado depois de uma calabresa assada em forno à lenha.

Pode até ser que eu lhes pareça um bom de bico, mas não mentiria a queimação que realmente me tira do sério.

Doido, eu?

A cachola segue ligada ao tronco pelo pescoço, por isso não chupo manga quando assobio.

A careca brilha pela pele oleosa, não porque passe babosa.

Não acredito que me achem virado num Dodói Doido, grilo da cuca!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de outubro de 2022.

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Criancice

 

Criancice

 

Quando a campainha alertou qual era minha circunstância, que eu estava distraído para o mundo pelas tentações do celular, assustei-me que o palavrão foi mais defesa inútil do que ataque boçal.

Com o pastel à porta, desamarrotei roupas e rugas com a sacudida que sei providencial. Se bem que o pigarro foi para aliviar a garganta, não um recurso costumeiro de pessoa acomodada.

Tinha que me recompor para não ser visto amarfanhado na euforia de paspalho, porque eu estava babando com as minhas sacadas. Sim, gente esperta também zanza por gráficos e tabelas na perseguição das relações misteriosas que inventam a realidade.

O rapaz que entregava os pastéis percebeu meu esforço de mostrar uma carinha simpática, pois eu não estava muito a fim de compartilhar um tostão da minha riqueza interior.

Nem um pouco miserável com as ideias estapafúrdias, eu brincava como criança. Juntava voto envergonhado com voto mentiroso, antevia estradas íngremes, vislumbrava poços sem fundo, temia pelo equilíbrio mental de gente afim ao meu gênio.

A minha alma tem uma queda pelo sossego, um fraco pela paz, tem forte tendência a pedir abraços a quem dá um passinho atrás logo que me vê ansioso por um chameguinho o mais espontâneo possível.

Tolo carente de beijinhos, fingi que não me acanhava de oferecer a face a quem não a aceitava tão oferecida.

O moço era neto do doutor Zequinha, o dentista do grupo escolar.

Zequinha cujas brocas lapidavam dentes como pedras brutas, putz!

Por lembrar a maestria do avô, pedi notícias do pai.

Outro Zequinha, outro dentista, e outro partidário de tratamento sem aplicação de anestesia. Pois é, as pessoas têm que conhecer a dor pra valorizar as verdadeiras agulhadas da vida.

Vertiginosa feito ferroada, a gengiva latejou que massageei o rosto de tal maneira que o moço não notasse meu desconforto. Acho até que ele entendeu que eu queria puxar assunto.

ꟷ Isso de entregar pastel é coisa temporária. Só estou ajudando um amigo. Assim que conseguir uma bolsa, volto pra faculdade de odonto. Porque o senhor sabe como é, isso de virar dentista é tipo uma tradição da minha família, né? E quem tem cabeça boa tem mais que se inspirar nos bons exemplos, principalmente quando eles têm o mesmo sangue que eu tenho. E com o sangue não se brinca de jeito algum.

Não tive tempo de falar o que fosse, já que ele, montando na moto, ficou grato pela gorjeta que achou merecida pela rapidez na entrega.

Em tempos bicudos não dá para ignorar um realzinho sequer, mas fiquei sem saber quanto era meu troco, pois o rapaz virou um cisco mal lhe entreguei o meu suado dinheirinho.

Ainda por cima, o fanfarrão fez o desaforo de buzinar sem ao menos olhar-me a gesticular como idiota no meio da rua.

Gritei. Pedi que parasse. Sem mais o que fazer, chorei de raiva.

Como fui tonto!

Ninguém ouve direito quando usa capacete.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de outubro de 2022.

domingo, 2 de outubro de 2022

O sol, o sal, o sim

 

O sol, o sal, o sim

 

Como pessoa a quem não se afiance responsabilidade pelo que diz, tendo adiantado que só no sábado estaria livre para vir, Luisinho veio na sexta-feira.

Soube que o fim de semana seria chuvoso o tempo todo, antecipou a vinda.

Ele poderia ter avisado que chegaria na hora do almoço, porque eu sequer havia preparado comida para mim.

Comeríamos salada. E beberíamos groselha.

A mistura seria sardinha em conserva. Eu abriria duas latas, porque meu amigo folgazão não chegou só. Acompanhava-o alguém que julgo o mais racional dos meus amigos, Erasmo.

A vida toda Erasmo foi a vareta que é, e com a sutileza elegante de Sócrates pra dar de calcanhar, ele cortou pro quintal.

Fôssemos colher verduras, pois, se resolvêssemos sentar-nos pro cafezinho, passaríamos a tarde a reviver fantasias.

É que, nas tartamudas leituras escolares, nas empolgantes peladas de tênis feito trave e nos degradantes cartões vermelhos às chacrinhas de coroinha, nós fomos meninos de turma.

E nossa patota era porreta.

Íamos comer biju na fecularia ainda que a aula de religião fosse de prova. Deixávamos ruas às escuras com nossas estilingadas certeiras. Uma vez que bem sabíamos que o éramos, éramos fogo.

Mais destrutivas eram as saúvas, porque elas faziam a festa com a horta do quintal. Mas, o que fazer com as daninhas?

Sem economizar no sal grosso, que repeliu de pronto as famélicas cortadeiras, Luisinho, Erasmo e eu cercamos os canteiros de legumes, verduras e hortaliças.

E alface, tomate e cebola foram à mesa como salada.

Luisinho acordou com barulho de água.

Tonto de tanto sonhar uma escapatória à situação constrangedora, ele concluiu que a vizinha tinha deixado aberta alguma torneira.

Mesmo que não fosse lavar roupa, ela tinha o costume de encher o tanque para que o filho se divertisse um pouco, deixando que enfiasse a cabeça na água, estimulando-o que, de fato, mergulhava no córrego que serpenteia além das árvores do quintal.

Suado, preso no pesadelo de acompanhar cada uma das bolinhas da loteria sendo cantadas a ele que tinha um lápis cuja ponta quebrava tão logo se punha a anotar os números, Luisinho achou que estivesse chovendo.

Erasmo cuspiu groselha no prato em que comia: carvalho!

Para quem olha da varanda, o carvalho da direita é uma goiabeira, o da esquerda é uma pereira; e bem no centro está o abacateiro.

Disse que não vingou a macieira que plantei na primavera passada: deu bicho nas folhas, fungo nas raízes e cupim no tronco. Fui obrigado a pagar que a sacrificassem e a sua lenha serviu para uma fogueira no último São João.

Depois de bebermos, comermos, rirmos, chorarmos de tanto rir, nós três, o Luisinho, o Erasmo e esse que conta a você que me lê e a quem você queira ler o que houve antes do sábado, nenhum fez segredo do voto a ser dado no domingo:

ꟷ Pelo Estado Democrático de Direito, sim!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de outubro de 2022.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

A matilha

 

A matilha

 

ꟷ Mestre, tenho feito muita coisa legal pro mundo ficar bacana.

ꟷ Nem me diga, gafanhoto.

ꟷ Pois, eu digo. Quando chove, não ponho boné nem me recrimino se esqueci do guarda-chuva. Pois ando com água escorrendo da testa pro olho sem ligar para chuvinha prazenteira, que nem iria parar só por causa das minhas implicâncias.

ꟷ É gente boa quem aceita a natureza como ela é.

ꟷ Ando na chuva com gosto, mas desgosto de caminhão fumarento na subida do morro. Respeito quem puxa a fila, mas lerdo atrasa todo mundo em estrada sem faixa extra.

ꟷ Desespero de quem se apega a destino sem sentido.

ꟷ Lá bem do alto dá para medir morros, vales entranhados e pastos verdejantes. A minha alegria é saber que águas represadas não negam peixe a pirão, braseiro ou panela de pressão.

ꟷ Também se vê ciclistas que nem minhoca pelo chão.

ꟷ Mestre, a vida são ciclos. Nos dias de semeadura, não há messe. Sem dinheiro no bolso, não fico pelado como quem faz a nudez revelar modéstias. Coloco jornal cortado feito cédulas, encho a carteira até que fique parecida com o bojo estufado de leitoa a ponto de abate.

ꟷ Gafanhoto, cuidado, quando o salário é mínimo, que esse mínimo seja em notas de cinquenta, haja sessenta notas de cinquenta por mês, duas notas por dia, pelos trinta dias de todo mês, que fevereiro também tenha sessenta notas como os demais, e seja a mais nunca por menos, seja pela felicidade como bem lhe aprouver, meu justo aprendiz.

ꟷ Sim, aprendo com sabedoria, é sábio querer do bom e do melhor, até que a morte separe do espírito o que não seja carne.

ꟷ Cuidado, sábio que tanto aprende, o mundo é sujo.

ꟷ Que o mundo sujo se apresente como imundo inocente.

ꟷ Gafanhoto, sei tanto que até aprendo.

ꟷ Eu o defenderei. Blindado na lição, me fingirei convicto que tenho o que falta. Eu terei a vantagem de ostentar prestígio ao tê-lo como se fosse verdadeira honraria levar uma vida em tanto vantajosa.

ꟷ Gafanhoto, ninguém deixa rastro de lama no lamaçal.

ꟷ Mestre, gritarei para que o tirem do pântano.

ꟷ Mas grite que me tirem. Pois se o ignoram, insista.

ꟷ Não desistirei. E gritarei até que um cão comece a latir. E latirá e outro cão latirá e muitos cães latirão e haverá uma corrente do barulho e a madrugada será reconhecida pela cachorrada que não dorme.

ꟷ E haverá alvorada quando uma lâmpada for acesa no primeiro lar e outra residência terá mais uma lâmpada acesa e outra lâmpada será acesa em outra casa e muita gente temerá gatunos atiçando cachorros nos quintais, virão viaturas acionadas e, sem espantar quem ambiciona a gaita que lhes toca, a manhã será tecida por sereias desligadas.

ꟷ Deito cedo e saio antes que amanheça, ignoro o que late.

ꟷ Quem bebe leite e come pão é quem jamais defeca ouro.

ꟷ Mestre, existem madrugadores feitos de ouro?

ꟷ Pra que existem, isso eu bem sei.

ꟷ Eles escondem ossos?

ꟷ Cães! Sempre deixam tesouros na grama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de setembro de 2022.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Direito de resposta

 

Direito de resposta

 

Hora da janta. Mas, quede que a lâmpada acenda?

Ainda ontem passei pelo mesmo perrengue, e me fiz a mesmíssima promessa, pois me compromissei comigo que resolveria.

Como desmazelos desabonam, reforço a credulidade em mim e vou efetivamente dar jeito na coisa, de amanhã não passa.

Posso culpar a vida contemporânea que torna insuficientes as vinte e quatro horas. Que o dia tivesse mais horas, isso ajudaria.

Não vou calcular quanto a mais seria necessário, pois o tempo que se mede pela produtividade também se mede pela afetividade.

Falo por mim como se falasse uma verdade apreensível a qualquer pessoa, pois puxar sambas à boca da churrasqueira é voar a tarde pra noite. Poxa, quede a Jovelina que está faltando cantar?

Para que o salário não termine antes do final do mês, que os preços sejam pesquisados, seja confirmado o estoque em loja a uma pernada breve, seja a lâmpada comprovadamente durável.

Ter internet no telefone ajuda a encontrar loja, preço e tipo, contudo celular algum põe funcionários socorrendo relapsos com problemas de última hora. Putz, quede emergência durante o expediente?

Se bem que o gás geralmente acaba com o arroz no fogo. Todavia, há que se perdoar quem não tem que se preocupar com botijão trocado quando é preciso. Aliás, não reclamo de barriga vazia, porque lâmpada que não acende é o problema que chateia neste instante.

Ao longo do dia, não fiz da troca de lâmpada um assunto premente. Cuidei do que tinha pra me ocupar. Fiz os serviços que tinha pra fazer. Do supermercado, trouxe pãozinho e leite. Peguei fila, paguei contas e fiz aposta numa lotérica. Parei à porta dos comércios, porque a eleição é papo que não dá pra evitar. Caraca, quede que não se ilumina quem mais precisa de luz nesta hora?

Cá pra nós, que os radicais não nos puxem pelo pavio curto, só que olhar o céu pra afirmar em quais condições estará o tempo no domingo é coisa que não faço.

Não sei qual é a previsão do tempo pra domingo, entretanto sei que há computadores processando os dados coletados por vários satélites, privados ou públicos, de diferentes tamanhos, com lentes de recursos variados, mantidos em órbita pois são interessantes não só a ufólogos, porém, principalmente, a agricultores, pecuaristas, geólogos, biólogos, ecologistas, ambientalistas, militares, civis e muito mais gente de áreas que nem me ocorre especificá-las agora.

Estou de volta ao meu agora ao qual me volto.

A este presente, de escuridão porque deixei de ir comprar lâmpada na loja que fica a um quarteirão de casa, é por ele que devo responder e responsabilizar-me.

Quede que me faço útil pra enxergar o que janto já que de noite não tem sol mas tem luz vindo da rua?

Como sempre eu faço o melhor que posso, amanhã mesmo vou dar um pulinho na loja. E substituirei a lâmpada queimada, pois com minhas mãos porei a nova.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de setembro de 2022.

domingo, 25 de setembro de 2022

Fraco da ideia

 

Fraco da ideia

 

Durante o noticiário das quizílias que a muitos magoam, deixo sem som o telejornal. Por demais repetidas, as figurinhas de valor garantido fortalecem o que falam com a cara de gente honrada a carimbar futuros melhores, melhor ajustados às esperanças de quem não perde a ilusão de vivenciá-las em breve.

Assistindo a tão valorosos porta-vozes do combate contra verdades putativas, creio ridículo situar aleatórias as conexões protelatórias.

Chafurdaria nos pântanos da apatia se fugisse da responsabilidade de responder pelo que não faço, escuto-os, tanto que a eles interpreto que a mim nem me percebo leviano de tão gaiato.

De modo algum me arvoro um roteirista profissional, me entretenho a adivinhar com quais palavras tantos devotados representantes vão à ribalta enaltecer a minha vulgaridade de eleitor.

Democrata dado a calmarias em copo d’água, não espumo de raiva porque saliva quando é muita até engasga.

E uma algazarra me tira da poltrona. Pela fuzarca, ponho graça que acompanharei o que se desenrola com interesse maior do que sustento por patacoadas políticas. O cínico que espia TV não mofa de quizumba em quintal vizinho.

Ó balbúrdia que fulmina minhas maníacas risadas demoníacas, não fico pasmo quando bisbilhoto camaradas baderneiros, emudeço.

Não vi o patético havido, mas o soube depois.

O filho mais novo da casa ao lado caiu da árvore. Quis salvar o gato que miava desesperado, mas deu com o peito no tronco. Meninão que muitos consideram tapado e não astuto como a irmã de treze anos, ele buscou uma escada pra subir. Mereceria elogios se um abacate não o tivesse abalroado em pleno pulo.

Cáspite!

Com a batida da bunda no terreno e o berreiro histriônico do menino com o galo latejando na testa, mais do que previsível, o sumiço do gato era evidente.

E ninguém fala que o gato está sumido?

A mão amiga da mamãe ampara o meninote.

Alguém sabe onde o gato está escondido?

A lábia mui amiga da maninha diz sem dizer que o franzino rapazote não é pintinho nem frangote, é um galinho muito fracote.

Nisso, todo mundo corre atrás da galinha.

Que galinha?

Preocupado com o gato, o menino não viu galinha alguma.

Chocando ovos no ninho que fizera em um galho acima do gato que miava alucinado, a pobrezinha, a desvalida, tão agoniada com o gato que não parava de miar, a ignorada que sequer piava, esse bicho que espreitava por entre as folhas do abacateiro, pois foi essa fera que veio do nada.

Tendo voado para lá do muro, a galinha sem ovos de ouro tem valor pelo que bota. É por isso mesmo, caraca, que eles gritam atrás.

Sem disfarce, sucumbo ao disparate: sorrio.

Melancolicamente, observo que guardo pra mim o que tanto me faz sorridente.

O trapalhão passa num tropé. Penso, assim não digo:

ꟷ Ô imbecil, qual é a cor da galinha carijó quando foge?

Ele não capta o meu pensamento nem mesmo a galinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de setembro de 2022.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

O espantalho

 

O espantalho

 

Vestido com a camisa do seu time, está na rua. Duas horas da tarde de mais um dia útil, por outra das tantas ruas da cidade, vai a esmo.

Percebe os olhares, tenta lê-los. Parecem aborrecidos.

Como se todo mundo estivesse incomodado com o tanto de serviço que se acumula em cima da mesa, ainda assim, toma sorvete.

Sairá do banco depois de acabá-lo. Comerá a casquinha. Lamberá os dedos. O guardanapo virará uma bolinha, arremessada a um metro e meio da lixeira. Errando feio, levantará pra jogar o lixo no cesto.

Cansaço mental é novidade que ninguém acalanta. Que chega aos poucos, sem fazer fanfarra, vai ganhando peso, tornando pesado o que não tem forma nem localização precisa.

Pra desanuviar-se, faz bem dar um rolê.

Como não fuma, rói a unha. Porque está cedo para cerveja, masca chiclete. É óbvio, faz bola. Gosta de tê-la feito. Pra estourá-la, faz outra. Desgruda do rosto os restos da bola. Cava caca da narina. Dá peteleco na bolota. Se não fuma, por que pigarreia? Não entende.

Passa pelo carrinho de pastel, e para.

Volta que nem pensa ao pedir um pastel frito na hora.

ꟷ De pizza acabou.

ꟷ Tem de carne?

Um menino joga um pedaço de pau. Um cachorro corre pegá-lo. O menino atira-o outra vez. O cachorro trá-lo de volta pro menino. O pau está babado. O cachorro late. O menino ri.

ꟷ Cara, você não tem uma nota menor?

ꟷ Me veja outro e inteire o troco com chiclete.

O homem com o dez às costas nem percebe que está rindo. Morde e ri. Rindo alto, o homem nem nota que está comendo de boca aberta. Ele mastiga enquanto ri. Espalhando farelos, ele gargalha.

ꟷ Também quero um copo de garapa.

ꟷ Pequeno, médio ou grande?

ꟷ O maior que tiver.

Olhando pro homem no carrinho de pastel, o menino atira outra vez o pau. O cachorro vai, pega e traz de volta o pedaço de pau.

O cão late. O homem ri. O menino gargalha.

A gargalhada do outro lado da rua faz com que a mãe corra pegar o menino. Mesmo no colo, o travesso ainda consegue atirar o pau para o cachorro ir pegá-lo mais uma vez. A mãe sequer sorri.

Ouvindo a mãe que ralha com o filho, o cão ignora o graveto atirado. Ele pula a mureta, e vem latindo pras bandas do barbudo.

O cachorro poderá atacá-lo? O homem para de gargalhar na hora.

Já que o homem cuida apenas da garapa com o pastel, o cachorro recua. Sem parar de latir, o bicho pula de volta pro quintal.

Que cara mais esquisita a dessa mulher!

O moço do carrinho não responde, pois está concentrado, tem que fritar os pastéis que as duas mulheres acabaram de pedir-lhe.

Na sua opinião, ele não fez nada de errado. Só achou engraçada a risada do menino. Como tem gente de mal com a vida. Então, a pessoa que está de bem com o mundo, então, ela não pode nem rir à toa?

Ninguém respondeu nem deixou de franzir a testa.

Dando-lhe os chicletes, o rapaz estranhou a camiseta.

De peito estufado, beija o escudo três vezes e tasca:

ꟷ Bá! Deus me livre de ser tricolor!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de setembro de 2022.

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Juras de artista

 

Juras de artista

 

O telefone tocou logo cedo. Preocupada com o dia seguinte, Leonor não o desligara ao deitar-se. Uma vez que o filho estaria na cidade pro festival, o celular soando antes das sete não a sobressaltou.

Ele chegaria na hora do almoço.

Se não ousou avisá-la que não tiraria a pestana da tarde, pediu, se não desse trabalho, aquele frango que ninguém mais sabia fazer.

ꟷ Santo Cristo!

Fernando pensou que agradaria à mãe se pedisse o prato preferido da irmã, frango com batatas, pois foi o que comeram da última vez que almoçaram juntos.

Ela mordeu os lábios para não discutir pelo telefone, pois fazia vinte anos, desde o enterro de Juliana, que estiveram à mesa.

Quando soube que Juliana adoecera, Leonor ficou muito irritada.

A filha merecia era cinta, mas o tratamento estava num estágio em que havia náusea, fraqueza e não apenas aparência de gente doente. Ainda assim, deu-lhe a bronca que entendeu bem dada, daquelas com cobras e lagartos a um passo do imperdoável.

Outra vez Juliana ouviu calada, porque era um jeito de defender-se. Que soltassem o verbo, gritassem, xingassem, até trocassem sopapos. Fosse quem fosse no buchicho, ela nunca foi de altercações.

Confrontada com o silêncio, Leonor rangia os dentes.

Reconhecendo o ruído, imediatamente ele falou que estava sendo um baita sucesso a temporada em Minas, e contou que fazia três anos que a sua cambada circulava por Furnas.

E o herdeiro do circo disse que a turnê passou por Alfenas, Carmo do Rio Claro, Conceição da Aparecida, São João Batista do Glória, Boa Esperança, Muzambinho, Nepomuceno, Formiga, Três Pontas, Fama, Lavras e Varginha.

Sempre séria, a ela nem ocorreu fazer piada com o ET.

Leonor sabia que aquilo era mentira, coisa decorada, papo de quem procurou no Google. Seria verdade se tivesse vivido na realidade. Mas, ele teve a quem puxar, e como puxou.

Mesmo sem saber se também viriam os netos, faria brigadeiro.

E há tempos não passava horas na cozinha. Queria que as crianças comessem o quanto aguentassem. Ela experimentaria uma colherada, poria mais açúcar. Experimentaria outra, colocaria canela em pó. Para que os doces ficassem perfeitos, precisaria prová-los.

O que tivessem ouvido a seu respeito era reversível, porque o papel de avó quituteira poria abaixo o de megera rancorosa.

Não era ódio, raiva ou rancor. Sofria de amor em demasia.

Fernando não teve coragem de falar o que os seus netos faziam no circo. Ele sequer falou os nomes dos meninos.

Ela sabia que os gêmeos eram Flávio e Fábio, eram palhaços desde o berço, tinham os olhos verdes como o avô, eram loiros de quase dois metros, eram felizes na estrada, tinham no sangue a anarquia libertária dos artistas da família.

Ela também tinha laços com os rincões de Itália e Espanha, só não gostava de brigadeiros, quindins e algodão doce.

De fato, é pipoca que Leonor adora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de setembro de 2022.


domingo, 18 de setembro de 2022

Ontem, hoje e domingo

 

Ontem, hoje e domingo

 

Pensei que ontem fosse sábado, mas estava enganado.

Dormi muito mal a noite passada e igualmente a noite anterior, mal à beça. Imagine como estou, bem mais confuso do que ontem. Embora tenha hoje amanhecido normalmente outro domingo, estou mal.

Acordei ainda no dia anterior ao domingo. Nada mais lógico do que estar xarope, ainda pensando na vida que poderia ter vivido. Se ontem fosse sexta e não sábado, embora tenha ido dormir na quinta achando que conseguiria acordar menos exausto.

Zureta, checo no celular qual será o dia de hoje. Não me surpreende a folhinha, ela marca que o dia primeiro do mês foi quinta. Me esqueci de procurar qual é o dia corrente.

Cacilda! Estou condenado a me arrepender de ter acordado um dia antes, ainda no sábado, mas antecipo que Jimi Hendrix morreu no dia 18 de setembro de 1970.

Que inferno! Bem que eu queria ter dormido setenta e tantas horas. Precisava muito ter pulado da quinta pro domingo. Acordaria sabendo que era domingo, e fugiria à desordem de tirar o tempo pelo espaço.

Como fusquinha de encontro ao muro, vejo no telefone que a cama não viaja nos céus. Quero mil e uma histórias, ou a noite seguirá presa na garrafa, ou fora do tapete, ou, muito pior, debaixo dele.

Me custa crer que o domingo será ontem quando for amanhã. Como espero que o futuro venha a ser o amanhã, que o domingo continue no calendário de 2022 um dia antes do dia 19, que será segunda-feira.

Fico mal, pois o país continua à espera. Haverá domingo depois de sábado. Fico doido para dormir a tarde toda. Pelo menos a tarde deste sábado, conforme pus nos meus planos. Decididamente quis, pois para mim: hoje não é sábado, já é domingo.

Sonado, mais essa!, me distraio que é coisa louca.

Quando passo a noite a abrir livro e fechar livro, sem pegar firme na leitura, misturo Lobo Antunes com Saramago, e isso não se faz.

Quando me lembro de que um ao outro se bicavam, este com Nobel e aquele sem, como galos na rinha de egos, sinto que extrapolo.

Não pensei no centenário do Saramago, que será em novembro. E não visualizei o Pepetela e o Lobo Antunes a cumprimentarem-se nas fotos de algum evento.

Nem tanto ao perdão nem tanto à desculpa?

Se li pouco nessa sexta, sem o gosto de ter lido algo marcante, sei que muito me amolo a querer lembrar o que teria posto aqui se o gosto de ter lido não fosse o que mal abri, interrompi e esqueci.

Digo que fiz.

Não sou metódico tampouco original, não dou por origem o mal que me destinam as estrelas. Digo que escolho o que posso ter sentido, ou que houvesse percebido. Porque nem soube que tinha escolhido o que outrora me foi apresentado como escarrado no cuspido, cumpro o meu dever de respeitar direitos.

Mesmo sendo domingo? Sei a razão desse mal? Entre Tancredo e Maluf, sempre sobra o Sarney? Sinto que o Hendrix veio a mim por que não soube me controlar?

É confuso pacas, eu sei.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de setembro de 2022.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Em dose dupla

 

Em dose dupla

 

Além de bravas, Malena e Milena eram gêmeas.

Irmãs que não se desgrudavam, sempre que necessário, provavam que se amavam indiscutivelmente, não só nos álbuns da família.

No tempo em que eram moças normalistas em colégio mariano para meninas, resolveram viajar sozinhas. E fizeram rodar o automóvel que o papai comprou-lhes porque a ele alegrava bajulá-las.

E era um veículo potente, caro, trazido de Hamburgo por navio.

Não era segredo que o coronel tinha orgulho de gastar como queria, antes que o governo abocanhasse o dinheiro da venda de leite e queijo produzidos nas suas terras.

Certa feita, durante esse périplo pelo vale do Jequitinhonha, deram uma surra na primeira-dama de um lugarejo que jamais tinha visto um espetáculo tão grotesco, foram verdadeiramente furibundas.

Cidade serena, de arbustos podados, praças e ruas limpinhas, com um povo cuja gentileza pouco indicava ser capaz de revidar na mesma moeda. Só que o troco foi igualmente colérico, e patético, com o veículo das mocinhas atirado em esgoto, e dessa valeta pro ferro-velho.

Se ligaram o ventilador, que aguentassem o fedor.

Como ordem a ser cumprida imediatamente, a bocarra do mandrião fez valer que fosse passado o corretivo nos desrespeitosos do vilarejo, cujo nome provavelmente constava nos mapas, sobre os quais nunca passara os olhos, sequer ao ditar o castigo àqueles vilões.

Fazendeiro que não lia gráficos mas detonava fuças, o pai da dupla mandou queimar pastos, celeiros e peruzinhos carregados de alfafa. O porém é que fossem poupados pernas e braços, que só esmurrassem narizes, todos, os aduncos, aquilinos e até os esbeltos, pois era preciso cobrar àquela gente a bonomia, ao preço da causa justa.

Pagava mal os capangas, por que pedia lealdade acima de tudo?

Sim, cobrava dos cupinchas que mirassem nele a honra do sangue legitimado no sangue. Sem chalaças nem remorsos, pois o herdado ao pai do pai estava ao conforme do não escrito pelo que era sabido.

Sim, jagunço tinha que manter assegurado o silencioso do costume, ou sofreria as punições inevitáveis. Guardasse respeitosa distância do rio invisível, que aí corre a vida por segredos, degredos e vilanias.

Quem da bica bebe na taça a quem não bebe apõe desgraça?

Com a vingança, entusiasmou-se. Fortalecido, temido. Abrigado na hospitalidade energúmena, rechaçado a torto e a direito, ele sabia que não tinha inimigos à altura.

Se nada o fazia melhor, tudo o punha menos vulnerável.

Pra evitar que o amanhã chegasse sem que houvesse legado outro destino, desejava ter meninos que jamais fossem mimados pela gente boa do futuro.

Por esses outros frutos, mais almejou semeá-los.

Entretanto, dizem que o universo desconhece coincidências. Deve ser por isso que Melissa e Marissa vieram a ser gêmeas, e gêmeas em tudo, até nas gentilezas de gente boa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de setembro de 2022.


terça-feira, 13 de setembro de 2022

O tempo passa

 

O tempo passa

 

Senhoras e senhores, a garoa é agora.

Ela não cai calma nem vem mansa, que isso é precipitação de quem se anima a dar espírito animal à natureza inteira. Sei não, acho mesmo espantoso esconjurar demônios de estalagmites.

Numa boa, a garoa cai à toa.

Os pingos vindos das nuvens vão caindo com uma regularidade que a minha mente, tão pragmática, não tem condições de dosar.

Ao ouvi-los algo barulhentos ao baterem no terreno, imagino que a água vá escorrendo pelas telhas, vá formando as gotas.

Pelos sons de certos impactos, separo balde de plástico e cerâmica do quintal. Dou crédito aos ouvidos, pois sei que o chão do lado de fora da janela do meu quarto não é de terra. Se divisasse os pingos batendo em outro material que não a cerâmica, eu estaria alucinando.

Reconheço o que ouço, pois garoa não é nenhuma novidade.

E essa queda me acalma.

E calminho, bem calminho, enfrento a dureza de outra jornada pelas veredas do mundo. Mesmo que me ofendam, não pretendo ofendê-las, pois às boas gentes que acho pelo caminho, a elas quero mostrar-me calmo, bem calminho.

Talião, Talião, não me apraz virar rapaz na multidão.

De repente, entre tantas outras, uma pessoa fala alto:

ꟷ Não tem ninguém que possa me atender?

Os pingos caindo, batendo no chão, entendo, a garoa é constante. Sei que poderia calcular o intervalo entre um pingo e outro, mas prefiro sentir o que a garoinha produz em mim. Quero dar paz ao espírito.

Quem há pouco falou alto, a tal pessoa fala alto outra vez:

ꟷ Dá pra alguém me atender logo?

Súbito, vejo nítido o quadro mental que cristalizo na calmaria.

A porta do corredor começou a bater de repente. De repente, nada. Foi quando o vento ficou mais forte que ela deu de bater intermitente.

Nem toda intermitência me desassossega, mas a da porta, sim.

De quando em quando, é isso que me fez sair da cama. Fui à porta, pus um calço e ela parou. Pois se não a calçasse, ela bateria, bateria, eu ficaria assaz irritado e perderia o restinho da noite, porque logo viria o momento de levantar e levantaria contrariado, aborrecido, querendo partir pra briga com quem a mim me dirigisse palavra.

Me virei, a tal pessoa era alguém que eu conhecia.

ꟷ Ninguém vai me atender?

Nem precisei me esforçar. Como sabia muito bem quem era, preferi pensar na porta batendo. O vento balançando a porta, fazendo-a bater sem alvoroço. E foi nisso que me concentrei.

E uma vez calçada a porta com um pedacinho dobrado de papelão, acho prazeroso ficar na cama. Mesmo que não durma de novo, a hora passa que eu nem vejo.

E pensar que algo tão simples produz um bem-estar que a princípio nem eu calculava que fosse possível.

Se não é besteira projetar o vento como corda retesada, mais besta é não tirar proveito dele passando.

Como relógio parado atrasa meio mundo, grita o chato:

ꟷ Que diabo!

Não, não. Nem o diabo é páreo pra tamanha concorrência.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de setembro de 2022.


domingo, 11 de setembro de 2022

O pão da vida

 

O pão da vida

 

Dá uma dor de ouvido de madrugada, acho melhor pôr um chumaço de algodão pro ar gelado não aumentar o desconforto. Quando a dor é aguda, irrito-me. Desconfortavelmente irritado, ponho o mundo a esmo. Caçando briga com a pinga ou atiçando rato contra gato, nada de novo acontece sob o sol. Por óbvio, uma dor de ouvido calha-me como farpa se vou à toa na vida, feito folha seca ao sabor do vento.

Que os acontecimentos do dia levem-me pro lado que me for menos conveniente. Para que eu tire algum proveito do ócio imprevisto, que a minhoca sirva de isca a peixe com fome. Que a cada passo, meu olhar, eivado de banalidades, fisgue do cotidiano alguma notícia.

O mundo todo fala muito da grande dama dos chapéus que morreu. Também tenho tanto a dizer, mas resumo: rainha morta, rei posto.

Poderia retomar uma historieta que me propus dar em crônica, mas, por sobrarem em mim inspirações medíocres, engavetei-a.

No causo escondido na cômoda, há um casal que viaja pela Europa. Na vadiação de quinze dias de férias, Eleanor e Osbourne passam por Edimburgo, Dundee, Perth, Inverness, Stirling, Aberdeen e Glasgow.

Acrescento que a frustração do bom casal de americanos do Maine é não ter achado tempo para ir a Skye, pela birita maltada, e Ness, pelo fóssil do lago.

Para dar cabo à anedota, o marceneiro aposentado e a inveterada crocheteira andavam pelos arredores de Aberdeen como se vadiassem por Aberdeenshire. Avistando Balmoral num vetusto castelo qualquer, espiavam-no extasiados. Realmente tocados pela realeza da mansão, inventaram de pedir ajuda. Viram um lorde, não um aspone irrelevante da rainha. E esse descendente shakespeariano de sangue quente lhes vendeu uma autêntica caneca imperial, relíquia dos tempos de César.

Como narrativa chinfrim engavetada, acho ocioso desfrutá-la.

Ocioso mas ansiado, pois o dia não entedia.

Eleitor nervoso com a brasilidade do futuro, assumo o compromisso de trabalhar além das minhas necessidades de burguês. Incluo no voto o custo de dar esperança a quem pede por pão, reclama por casa, tem um cão que nem o chama de seu.

E digo que hoje é sábado e vem vindo um menino mais um cão.

E acho bom dizer que o guri vem latindo pro cachorro e o magricelo late de volta. Entendidos com a tarde mansa, estes bichos brincalhões vêm festivos. Um com outro, ambos inventam de viver em paz.

Ainda que um binóculo desconfie da ordem da calçada, o menino e o cão formam uma dupla bacana de ser acompanhada.

É notório: os olhos do décimo segundo andar põem em dúvida que o cão e o menino têm fome.

Mas dou vivas à vida.

E conto que uma senhora dá pão ao menino e a criança dá do pão àquele cãozinho.

E faço que é sábado e que o sábado não se faz de outro qualquer, pois são ridentes os dentes antes do domingo.

É imperioso que se diga que estou comovido, pois a vida, seguindo serena, dá de ser um riso solto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de setembro de 2022.