terça-feira, 13 de setembro de 2022

O tempo passa

 

O tempo passa

 

Senhoras e senhores, a garoa é agora.

Ela não cai calma nem vem mansa, que isso é precipitação de quem se anima a dar espírito animal à natureza inteira. Sei não, acho mesmo espantoso esconjurar demônios de estalagmites.

Numa boa, a garoa cai à toa.

Os pingos vindos das nuvens vão caindo com uma regularidade que a minha mente, tão pragmática, não tem condições de dosar.

Ao ouvi-los algo barulhentos ao baterem no terreno, imagino que a água vá escorrendo pelas telhas, vá formando as gotas.

Pelos sons de certos impactos, separo balde de plástico e cerâmica do quintal. Dou crédito aos ouvidos, pois sei que o chão do lado de fora da janela do meu quarto não é de terra. Se divisasse os pingos batendo em outro material que não a cerâmica, eu estaria alucinando.

Reconheço o que ouço, pois garoa não é nenhuma novidade.

E essa queda me acalma.

E calminho, bem calminho, enfrento a dureza de outra jornada pelas veredas do mundo. Mesmo que me ofendam, não pretendo ofendê-las, pois às boas gentes que acho pelo caminho, a elas quero mostrar-me calmo, bem calminho.

Talião, Talião, não me apraz virar rapaz na multidão.

De repente, entre tantas outras, uma pessoa fala alto:

ꟷ Não tem ninguém que possa me atender?

Os pingos caindo, batendo no chão, entendo, a garoa é constante. Sei que poderia calcular o intervalo entre um pingo e outro, mas prefiro sentir o que a garoinha produz em mim. Quero dar paz ao espírito.

Quem há pouco falou alto, a tal pessoa fala alto outra vez:

ꟷ Dá pra alguém me atender logo?

Súbito, vejo nítido o quadro mental que cristalizo na calmaria.

A porta do corredor começou a bater de repente. De repente, nada. Foi quando o vento ficou mais forte que ela deu de bater intermitente.

Nem toda intermitência me desassossega, mas a da porta, sim.

De quando em quando, é isso que me fez sair da cama. Fui à porta, pus um calço e ela parou. Pois se não a calçasse, ela bateria, bateria, eu ficaria assaz irritado e perderia o restinho da noite, porque logo viria o momento de levantar e levantaria contrariado, aborrecido, querendo partir pra briga com quem a mim me dirigisse palavra.

Me virei, a tal pessoa era alguém que eu conhecia.

ꟷ Ninguém vai me atender?

Nem precisei me esforçar. Como sabia muito bem quem era, preferi pensar na porta batendo. O vento balançando a porta, fazendo-a bater sem alvoroço. E foi nisso que me concentrei.

E uma vez calçada a porta com um pedacinho dobrado de papelão, acho prazeroso ficar na cama. Mesmo que não durma de novo, a hora passa que eu nem vejo.

E pensar que algo tão simples produz um bem-estar que a princípio nem eu calculava que fosse possível.

Se não é besteira projetar o vento como corda retesada, mais besta é não tirar proveito dele passando.

Como relógio parado atrasa meio mundo, grita o chato:

ꟷ Que diabo!

Não, não. Nem o diabo é páreo pra tamanha concorrência.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de setembro de 2022.


domingo, 11 de setembro de 2022

O pão da vida

 

O pão da vida

 

Dá uma dor de ouvido de madrugada, acho melhor pôr um chumaço de algodão pro ar gelado não aumentar o desconforto. Quando a dor é aguda, irrito-me. Desconfortavelmente irritado, ponho o mundo a esmo. Caçando briga com a pinga ou atiçando rato contra gato, nada de novo acontece sob o sol. Por óbvio, uma dor de ouvido calha-me como farpa se vou à toa na vida, feito folha seca ao sabor do vento.

Que os acontecimentos do dia levem-me pro lado que me for menos conveniente. Para que eu tire algum proveito do ócio imprevisto, que a minhoca sirva de isca a peixe com fome. Que a cada passo, meu olhar, eivado de banalidades, fisgue do cotidiano alguma notícia.

O mundo todo fala muito da grande dama dos chapéus que morreu. Também tenho tanto a dizer, mas resumo: rainha morta, rei posto.

Poderia retomar uma historieta que me propus dar em crônica, mas, por sobrarem em mim inspirações medíocres, engavetei-a.

No causo escondido na cômoda, há um casal que viaja pela Europa. Na vadiação de quinze dias de férias, Eleanor e Osbourne passam por Edimburgo, Dundee, Perth, Inverness, Stirling, Aberdeen e Glasgow.

Acrescento que a frustração do bom casal de americanos do Maine é não ter achado tempo para ir a Skye, pela birita maltada, e Ness, pelo fóssil do lago.

Para dar cabo à anedota, o marceneiro aposentado e a inveterada crocheteira andavam pelos arredores de Aberdeen como se vadiassem por Aberdeenshire. Avistando Balmoral num vetusto castelo qualquer, espiavam-no extasiados. Realmente tocados pela realeza da mansão, inventaram de pedir ajuda. Viram um lorde, não um aspone irrelevante da rainha. E esse descendente shakespeariano de sangue quente lhes vendeu uma autêntica caneca imperial, relíquia dos tempos de César.

Como narrativa chinfrim engavetada, acho ocioso desfrutá-la.

Ocioso mas ansiado, pois o dia não entedia.

Eleitor nervoso com a brasilidade do futuro, assumo o compromisso de trabalhar além das minhas necessidades de burguês. Incluo no voto o custo de dar esperança a quem pede por pão, reclama por casa, tem um cão que nem o chama de seu.

E digo que hoje é sábado e vem vindo um menino mais um cão.

E acho bom dizer que o guri vem latindo pro cachorro e o magricelo late de volta. Entendidos com a tarde mansa, estes bichos brincalhões vêm festivos. Um com outro, ambos inventam de viver em paz.

Ainda que um binóculo desconfie da ordem da calçada, o menino e o cão formam uma dupla bacana de ser acompanhada.

É notório: os olhos do décimo segundo andar põem em dúvida que o cão e o menino têm fome.

Mas dou vivas à vida.

E conto que uma senhora dá pão ao menino e a criança dá do pão àquele cãozinho.

E faço que é sábado e que o sábado não se faz de outro qualquer, pois são ridentes os dentes antes do domingo.

É imperioso que se diga que estou comovido, pois a vida, seguindo serena, dá de ser um riso solto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de setembro de 2022.


quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Muito barulho

 

Muito barulho

 

No dia 07 de setembro de 1922, a Rádio Sociedade fez a primeira transmissão radiofônica no Brasil. Cem anos depois, não liguei o rádio, a TV, nem entrei na internet. Por um dia, recusei informações ao vivo, em cores, em língua castiça ou português rasgado.

Passei o feriado a explorar alguns papéis que encontrei numa caixa de papelão. Como havia me esquecido dela, não estava preparado pra avalanche de lembranças. Vi-me aturdido por recordações a cada folha impressa ou papelucho manuscrito.

Direto dos anos 80 do século 20, dei com o primeiro cartaz da Rádio FM Totó Ternura, 106,3 MHz. Era o anúncio de que a rádio comunitária entraria no ar no dia 25 de setembro, a partir das 19 horas.

E assim foi.

Em 1985, no dia 25 de setembro, que no Brasil é o Dia Nacional do Rádio, o transmissor da Totó Ternura foi ligado. Bem na hora da cadeia obrigatória de programação oficial da ditadura, a famigerada A Voz do Brasil, os ouvintes passaram a ter escolha.

As cifras furadas do Milagre ou um Clapton pirata em Berlim?

Pôr no ar essa gravação do guitarrista inglês foi de última hora, pois a programação da estreia teve de ser deixada de lado.

O debut seria ao vivo. E haveria a leitura de textos políticos sobre a democratização dos meios de comunicação de massa. Além de serem lidos poemas de poetas conhecidos, faríamos de improviso os nossos. Como passamos o número de um orelhão, as opiniões e recados dos ouvintes seriam lidos na íntegra. Sem nenhuma orientação partidária, comentaríamos a nossa primeiríssima experiência de falar diretamente com as pessoas.

Como rádio feita por estudantes, os equipamentos da Totó Ternura estavam instalados num quarto na moradia dos alunos da USP. A partir do último andar de um dos blocos do CRUSP, a Totó falava pra Cidade Universitária, pro Butantã, pra uma parte de Pinheiros.

Em outras palavras, não tínhamos estúdio com isolamento acústico, e éramos amadores até no microfone de gravador caseiro.

Que peninha!

E britadeiras fizeram o barulhão característico. E operários gritaram sem parar. E a água jorrou com força, porque não foi um cano mixuruca que deu problema, foi a tubulação de uma adutora.

Alguém viu um caminhão com uma antena esquisita. Ele veio e foi. Dali a pouco, voltou por outro caminho. E foi pela marginal. Finalmente, alguém leu DENTEL na lateral do lado do motorista.

DENTEL!

O governo teve coragem de mandar agentes da delegacia nacional de telecomunicações atrás da gente?

Alguém raciocinou: se o caminhão da DENTEL apareceu, não veio por acaso; se o cano estourou bem na hora da transmissão, não havia coincidência; era óbvio, nossos cartazes anunciando a estreia da rádio mexeram com as autoridades.

Outro aluno quis saber: era delegacia ou departamento nacional de telecomunicações?

Putz!

Pelo sim e pelo não, tiramos o Deus da Guitarra do ar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de setembro de 2022.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Ótimo ponto

 

Ótimo ponto

 

A mulher está vomitando.

Horas antes, para que o marido não faltasse à festa organizada por ela, foi preciso contar-lhe os preparativos.

Sem gastos excessivos ou vexatória escassez, que o churrasco não causasse frustrações ou chacotas, talvez uma leve invídia.

Desfeita a surpresa, ele não teria de preocupar-se com a carne e a bebida, teria de ajudar com a lista dos convidados.

Sem boca-livre, viriam apenas familiares. Mas só os parentes cujas relações, apesar das diferenças políticas, continuassem cordiais.

Tais primos e tios estão acostumados com avisos em cima da hora, quiçá um ou outro reclame um pouquinho. E para manter o charme de gente crítica, reclamará quem menos esquece as datas importantes da família.

Também insatisfeitos, porque longe dos celulares, os filhos poderão dormir mais tarde. Como outras crianças virão, que elas corram, pulem, gritem, estapeiem-se, que formem uma trupe com arestas passíveis de beijos curativos e esparadrapos protetores.

Quando a mente se debruçar sobre o estado das coisas, os espetos não serão limpos com o pensamento. Quando a farofinha estiver cheia de formigas, da picanha restará o celofane. Quando o dia seguinte soar o alarme de outro dia, latejará no cérebro a sua voz e não a dele.

Que não se perca que é do aniversariante, sempre dele, do palhaço paspalho pros filhos, do esposo embevecido de breja, jogador no truco da vida, é dele, deste sujeito que erra de raia no instante da inteligência sem astúcia, é dele a cartada vã, o blefe oco, o choque pelo choque, é dele a traição de não procurar alternativa à realidade.

Ao fim e ao cabo, sem arranhões profundos, que o lixo vá pra lixeira, as fotos às redes, e o buchicho dure somente o áudio de um zap.

Ora, o mundo é pau, é pedra, é a saliva que cola.

Como sabe que pode fazer o que não precisa pensar que seria bem capaz de fazer, por estar acostumado a não pensar direito quando está eufórico com a própria independência, ele dá no pé.

Se quem ama ficará pê da vida?

Se diz que ama, pois fique feliz de poder perdoar.

Quem censura toda embriaguez folgazã se decepciona?

Quando partir o último carro, o nosso homem de fala mais enrolada tomará lugar na última vaga. Porque dele é a vontade de curtir só mais um trago do cigarrinho sem filtro que sempre aparece. Porque nele se avolumará a ânsia de festejar com aquele uisquezinho que nunca falta. Porque o devolverão quando o dinheiro acabar, o cartão não passar e o leão de chácara tiver que descruzar aqueles braços musculosamente tatuados. Quando o automóvel voltar da última noitada, será dia.

Nem tanto ao sal nem tanto ao açúcar.

Há quem ache que os comprimidos pra dormir fazem efeito tão logo sejam ingeridos, daí que os abocanhem a mancheia? Ou será idiotice contar carneirinhos caindo no abismo?

Ora, ridículo é passar mal depois de ter bebido tubaína.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de setembro de 2022.

domingo, 4 de setembro de 2022

O violão do Martins

 

O violão do Martins

 

À espera de que o bar fosse aberto, o freguês de todos os dias corre ajudar o dono a descer mercadorias do carro. Sorrindo, ele sabe quem é que sempre pede a primeira dose, a que é bebida de um gole só.

Encontrar o Martins bebendo sozinho é fácil, difícil é vê-lo tocando violão sem que esteja bêbado.

Discreto, ele vai ficando bêbado sem que os outros o percebam já alegrinho. Ainda que beba a metade de cada dose que peça, ninguém o valoriza pelo silêncio de gente que não abre a boca quando não tem nada de novo a acrescentar.

Quando pigarreia, ajeita-se na cadeira, penteia-se, acerta o chapéu, levanta-se, embora pare de repente porque é preciso ajeitar a peninha do chapeuzinho de feltro, nem parece um bêbado.

Se realmente estivesse bêbado, não sentiria que está transpirando mais que o normal. Em todo caso, lava o rosto antes de urinar.

Se evidentemente estivesse bêbado, não lembraria que traz lenços consigo. E quando passasse a usar os do bolso esquerdo, nem saberia mais que tem que se enxugar com o menos úmido.

Enxuga-se com o primeiro que acha nos bolsos.

Sóbrio ou embriagado, o Martins sempre tem muito cuidado com o chapeuzinho de feltro, porque ele se vangloria de ter sido presenteado por um alemão.

Uma vez, durante um dos jogos do mundial, antes de vê-lo bebendo cerveja como quem bebe ouro líquido, um louro de sotaque carregado falou que era seu fã.

Será sábio dar valor à cerveja que vai mijar dali a pouco?

Supostamente bêbado, aprumado o chapeuzinho bávaro, engolido outro dedo da cervejinha estupidamente pilsen, o Martins solta:

ꟷ Skol! Skol!

E dá gosto ver o Martins enchendo a boca quando resolve brindar, uma vez que ele nem desconfia que a língua de Hamlet não é a mesma dos comedores de joelho de porco.

Quanto o Martins aguenta beber?

Contam que o dono do boteco teria separado as garrafas que o seu freguês tão fiel bebeu. Especulam que quatro caixas foram empilhadas à parte. Especula-se que nem teria sido o recorde que o Martins bebera sozinho, uma vez que ele esvaziava garrafas sem a ajuda de ninguém, pois ai daquele que ousasse pedir-lhe um dedinho.

Saúde, Martins, saúde!

Mas, quando foi a última vez que o Martins apareceu?

Foi no dia de uma partida complicada, um clássico, um embate que começara antes do apito, com os torcedores se digladiando longe das câmeras que monitoram o centro.

E era o Martins de sempre, que ajudou a descarregar o carro, bebeu a sua pinga numa golada, pôs o violão atrás de si e foi bebendo cerveja como se aquele domingo estivesse fadado a ser igualzinho aos demais domingos.

Com o bar entupido, com gente em pé, o Martins teria ficado irritado quando insistiram que boteco é lugar para falatórios paralelos.

Uma vez desaparecido o dono, foi aberto o estojo do violão e foram achados santinhos, apenas santinhos de candidatas, sem nenhum pra presidente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de setembro de 2022.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Laranja à vista

 

Laranja à vista

 

Depois de ter virado a noite bebendo vinho, quem diz que se lembra da mosca pousada na maçã não mente, imagina.

Como a maçã continua na fruteira mas a mosca sumiu, é preferível omitir a lembrança ou supor fora da cena um sapo.

Se ninguém ouve coaxos, fale-se de samambaia.

Haverá quem não molhe as suas plantinhas?

Tem quem goste tanto de planta que a trata como gente. Cuida tão bem que conversa com avencas como se lhes segredasse paixões. Mil vezes o coração arejado por muxoxos do que cravejado de rancores.

E rancorosos arrancam o trigo, lamentam manhãs sem pão, ralham que falte macarronada à mesa. Pôr sódio no joio é dar joia ao ódio.

Mas joia, joinha mesmo, é ligar o rádio.

Dá pra mudar a estação quando a música não agrada.

Dá pra dançar até a boquinha da garrafa.

Dá pra esquecer um pouco que o ano passa voando.

Dá pra gostar de setembro, porque setembro é o mês das flores.

Dá pra cantar avencas, ir a viveiros, comprar samambaias.

Dá pra deixar pra amanhã o que tanto aborrece.

Que amanhã o turrão continue turrão por outro minutinho.

Que amanhã o bruto dê um murro no espelho.

Que amanhã o chato vá ver quem está na esquina.

No cruzamento da alameda com a avenida, há automóveis que não precisam dobrar pra lá ou pra cá. Outros dobram, porque na floricultura que fica na avenida dá pra pedir orquídeas, mas cravos, nunca.

Quem não dirige, vai de táxi ou pede carona. O dinheiro é mais bem gasto com aulas. E quem aprende a podar vê vídeos que indicam qual a melhor época pros cortes e informam quando colher os frutos.

Banzai, bonsai.

Se laranjeira num vaso dá frutas na sala como árvore em pomar de fundo de quintal ou fazenda com pista de pouso, vou a pé à quitanda.

Não guio carro, não piloto moto nem patino, só que eu chego aonde laranjas são vendidas às dúzias, por peso, a dinheiro ou no cartão.

Quando dá, caminho sem me preocupar com cães que me seguem por razões que me são desconhecidas. Talvez porque eu seja um cara simpático e não os tema. Quando um cão ou outro esteja sarnento, sou forçado ao passa-fora previdente.

Às vezes espero a chuva diminuir, porque, esforçando-me para não temer tombos, costumo escorregar uma vez ou outra.

No verão, ainda que o sol de rachar não me parta ao meio, vou bem cedinho para poder escolher meia dúzia das laranjas mais bonitas, mas da variedade em promoção. E eu sempre pago em dinheiro.

Sou vivo, tomo suco no almoço e na janta. Se pensasse na saúde, sequer o adoçaria. Como eu acredito nas maravilhas que dizem sobre vitamina C, tomo laranjada todos os dias.

Há tempos, nem me recordo se foi num consultório médico, li que o corpo humano retém a quantidade de vitamina C que precisa, a sobra sai na urina. Em outras palavras, tal substância tão necessária pra algo de suma importância sai poucas horas depois da sua ingestão. Ela não dura mil anos nem mesmo uma vida, muito menos cem anos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de setembro de 2022.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Sorte danada

 

Sorte danada

 

Aproximam-se as eleições, a pressão aumenta.

Dou um tempo na esquina. Entregam-me santinhos. Bandeiras são agitadas. Como não vou decorar todos os números, salvo no celular os que digitarei na cabina de votação. Alertam que telefone está proibido, mas consultar cola está autorizado. Com tanta pressão, tenho certeza de que a minha cabeça vai dar chabu na hora do voto.

Parado na esquina, percebo que o mundo não está nem aí se estou perdido. Mas não vou negar que me embanano com tantas ideias que jerico não tem. Mesmo que o burro não as tenha, eu me preocupo com o que tem importância, relevância e dá ânsia.

No tocante à saúde?

É hora de pagar para ver quem enfrenta essa gente que traz garrafa vazia para quebrar na cabeça de quem está na praça pedindo à banda que vá tocar onde judas perdeu as botas.

No que tange à educação?

Não adianta arrancar os cabelos, arrancá-los não a fará passar de vez. Corre-se o risco de a onça parar de beber água e vir para cima de quem não tem jogo de cintura para capar o touro à unha. Sem falar que tocar dobrado não enche a pança de ninguém, enche o saco.

Pra falar com segurança?

Sinceramente, a verdade seja dita: saco cheio explode quando mais se recomenda pôr o coração na ponta do lápis.

Sim, sempre é bom pôr na ponta do lápis: custa votar?

Sem dúvida, que perereco é fazer a graça de botar o bloco na rua. E faz melhor negócio quem se dispõe a vender o berço esplêndido pra quem nunca cai do cavalo quando o circo pega fogo.

Embora eu não entenda o prometido, não quero que me adulem por minha estupidez, pois sufragarei como sufragam quem faz por onde.

Onde judas bateu com as botas é que não será.

Prefiro dar mais um tempinho na esquina. E não param de entregar santinhos nem de agitar bandeiras.

Viro estátua, que tudo vê, tudo ouve, e só não xinga. Pois não quero que tudo o mais vá pro inferno nem volte de lá.

É fogo cuidar da vida? Putz! Bota fogo nisso.

Tão perturbadora é a tragédia que a moça que normalmente vende flores está panfletando por um sanduíche de mortadela.

E com ela me solidarizo, pois ninguém merece ficar sem comer nem que seja um sanduíche de mortadela.

O rapaz que tira a sorte com o seu periquito adestrado não conta o que fez com o realejo. Pedindo que reeleja o homem íntegro que nunca desiste de lutar pelos legítimos indefesos, ele não tem papas.

Se eu sabia que sou um deles? Compreenda que é.

Compreendo. Que eu vote pela liberdade. Que meu voto garanta a igualdade. Que é direito beber água que passarinho não bebe.

Nada do que foi deixa de voltar?

Sim, a natureza não esquece. Se ninguém lembra, ela traz à mente o ar onde cantavam sabiás, voam urubus e zunirão balas.

E a chaga dói onde o calo canta, o folgado aperta e o drama da vida cai bem no olho cobiçoso do homem que não arregaça à toa a manga da camisa. Canoa a canoa, ele sabe com quantos jequitibás se monta um esquadrão. Que sorte!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de agosto de 2022.


domingo, 28 de agosto de 2022

Gente fina

 

Gente fina

 

Dói-me a face direita do rosto, suplico ao dentista que me atenda o quanto antes. Se a dor está de fato insuportável, que eu vá agora. Sim, de fato, preciso ser encaixado assim que possível, porque sou eu quem está sentindo esta dor terrível.

A radiografia mostra infecção. É prescrito anti-inflamatório.

Fiz o certo, pois cabe a especialista dizer qual é o problema.

Como a inflamação está acima da gengiva, provavelmente causada pela friagem das madrugadas, e para que o dano seja sanado, eu tome o remédio respeitando o intervalo entre os comprimidos e evite gelados e comidas quentes.

ꟷ A dor sumirá de pronto.

Como prudência recomenda discrição, não falo dos gargarejos com antissépticos alcoolicamente refrescantes depois das refeições.

Ainda que tenha consciência de que alívio é bom, não me vanglorio do abuso desta bondade.

ꟷ O estrago acabará em três dias.

Modesto, até porque ouvir elogios me acabrunha, também não digo que a semana foi de maçã dolorida coberta por capuz de blusa apesar dos trinta graus.

Já que as circunstâncias me fazem sensível à cautela, lembro o que preza aos físicos: entre gelados e quentes, há o morno.

Como a natureza visa ao equilíbrio, terei paciência: entre extremos de prazeres e sofrimentos, o meridiano é um intervalo de momentânea indiferença.

Mesmo que a sabedoria me falte, pela desagradável experiência da dor, agradeço à termodinâmica por este princípio tão simples. Sensato, compreendo que preciso suspender sopinhas e pudins ou sofrerei.

ꟷ O retorno fica pro dia anteriormente marcado.

O dentista fala devagar. Ele olha de modo sereno enquanto fala, até parece que estuda o efeito da sua fala sobre quem o escuta.

Penso que ele fala pausadamente para que suas palavras ganhem um acentuado sentido moral. Desconfio que ele, só de examinar minha boca, saiba que não dispenso goiabada depois do almoço. Ao imaginá-lo me censurando por meus caprichos, não fico nada contente com sua arrogância de gente sabichona.

Se açúcares fazem realmente um mal danado, não o refutarei pelos conhecimentos que o orientam. Que ele viva consciente e abstenha-se de um docinho. Quem sou eu pra criticar sua visão de mundo, mas da minha dieta cuido eu, caramba.

Até porque não sou de comer com os olhos, e já me é bastante bom um pedacinho mínimo. O que me satisfaz, entretanto, é não dar com a língua nos dentes, pois não lhe conto que gosto tanto que almoço duas vezes. E a cada prato lambido, ganho uma nesga de goiabada.

ꟷ Romeu e Julieta?

Como gente fina, elegante e muito sincera não conta garganta nem com a faca e o queijo nas mãos, não me dói nada fechar a matraca.

Não sou obrigado a reconhecer que ando comendo além da conta. Sei, a minha barriga está uma bolinha. Mesmo fora do peso ideal, não tenho cabeça pra balança desajustada. Tenho andado devagar pra não passar mal de repente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de agosto de 2022.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Urgente urgentíssimo

 

Urgente urgentíssimo

 

Estou animado. E minha animação é decorrente de um desejo que jamais imaginei que teria: quero escrever um roteiro.

Assumo a responsabilidade de preservar a sobriedade. Não quero virar personagem que se mete como se tivesse o direito de dirigir o que se há para contar. A história é minha, logo não desistirei de contá-la do jeito que é meu dever de contá-la. Não vou me entusiasmar a ponto de perder o foco. Direi apenas o que tenho a dizer, mais nada.

Feitas as devidas ressalvas, antes que a realidade conseguisse me ludibriar, já que estou bastante seguro da minha determinação pra agir dando pulso firme ao comando, digo que o mundo não me convence a esquecer qual o rumo da prosa que espero pegar.

Eu assistia a uma série sem outra disposição que não fosse passar o tempo depois de outra jornada fatigante contra os infortúnios do dia, quando o assassino disse algo que me foi surpreendente. No ápice da tensão, livrando-se das tibiezas que o apequenariam, o facínora disse que o fracasso do ídolo motivou-o a tornar-se seu próprio ídolo.

É óbvio! Não é vilão quem não recua do repugnante, é antagonista; e antagonistas são heróis negativos.

Tal ideia não me pegou de imediato, foi preciso que a torneirinha do filtro quebrasse. Ela quebrou na minha mão. Acontece, porque objetos de plástico acabam quebrando depois de anos de uso. Faz tempo, sim, tanto que nem lembro se tive de trocá-la. Acho que a torneira que agora está quebrada deve ser a mesma de quando o filtro foi comprado.

Minto; ou melhor, manipulo. E ajo assim para dar coerência ao que evidentemente não tem nem um pingo de ilusionismo trapaceiro.

Uma torneira quebrar não me faz avaliar que eventos fortuitos são obras do acaso. Penso que enxergar com lucidez não me desmascara, pois me esforçar como tapeceiro amador é apenas outro truque.

Sim, amo conectar o que aparentemente está solto. E o fio forte que me ajuda a fabricar o tecido do que digo é a linha do pensamento.

E conto comigo para deixar de ser odioso, outro procrastinador que não se envergonha de lidar mal com a realidade.

Como me considero uma pessoa instruída no amor às boas coisas da vida, escolho bem as palavras pra que o texto não me contradiga.

O que topo fazer?

Com a torneira quebrada, usei uma concha pra encher uma jarra, e perdi tempo. Deu vontade de tomar água da pia, todavia não bebi.

Me recuso a beber água que vem da rua. Peraí! Não é nada disso. Que bobagem! Água encanada vem da caixa. Mas a caixa d’água deve estar suja. Nem sei quando foi a última vez que ela foi limpa.

E já que não me quis (como tampouco agora me quero) tão odioso, tomo a seguinte decisão.

Como a convicção é uma dádiva a quem pode transformar o mundo, como não posso ficar sem beber um litro e meio de água por dia, peço que venham entregar um garrafão de água, mas que seja da mais pura e cristalina fonte mineral.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de agosto de 2022.

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Pestanas ardentes

 

Pestanas ardentes

 

O homem que veio entregar o que comprei pela internet usa crachá com foto e nome completo. Como não o reconheço, ele diz que fomos colegas de escola. Vendo que continuo sem me lembrar dele, é o nome da professora do terceiro ano primário que confirma que estivemos na mesma classe em 1973.

Cinco décadas depois, ambos mudamos.

E a minha memória mudou para pior, porque não guardo lembrança das vezes que teria ido à sua casa pra fazer trabalho em grupo.

Eu era novo, bem novinho, tinha apenas nove anos.

Assim tão criança, acho improvável que minha mãe tenha permitido que andasse sozinho pela cidade, mas me convenço a não corrigi-lo.

Trabalho em grupo no terceiro ano?

Naquela época, minha timidez era muito grande. Eu não falava nas aulas. Mal erguia a cabeça. E quando olhava na direção da professora, mirava um ponto na lousa. Mesmo que nada estivesse escrito na lousa, me fixava na ideia de não ser constrangido a falar.

Pois eu não falaria aos demais alunos, falaria à professora.

Muitos colegas falavam errado. Muitos da turma faziam feio porque queriam responder primeiro. E a maioria vivia errando as lições.

Sempre séria, a professora corrigia tudo. Mesmo o menor dos erros lhe era estridente. E tudo merecia ser comentado de modo sério, a voz firme, com gestos comedidos, os olhos nos olhos da gente.

Se todos tínhamos que tomar cuidado pra não dar vexame, eu temia me afobar e passar vergonha na frente da classe. Porque não admitia ser como eles, que cometiam erros bobos.

Eu não era como os outros. De jeito nenhum faria besteira na frente de um bando de bobocas. Como era esperto, tinha que manter os olhos no caderno ou o abismo me engoliria.

Era um cacoete, algo imediato que me tornaria invisível.

Em vez de me interessar pelo que acontecia na sala, escancarava a perturbação: cabisbaixo, eu desenhava.

Era natural. Não imaginava que fosse uma atitude afrontosa.

Como sempre respeitei quem precisa ser respeitado, não seria em criança que desafiaria uma professora.

Fui chamado a responder sobre o que nem tinha ouvido.

Fiquei paralisado. Tinha que falar alguma coisa, mas não qualquer coisa. Tinha que acertar. Nem poderia gaguejar. Queria ter sumido.

Àquela vez, naquele distante ano de 1973, surpreendido rabiscando enquanto todo mundo prestava atenção na aula, a professora pegou o caderno, viu o meu desenho e, mesmo que ainda estivesse inacabado, recusou-se a exibi-lo à classe toda.

Quando acho que vou me sair bem, sou desastroso.

Porque à minha porta veio bater esse entregador de livros que nem sei dizer quem seja, só agora me recordo do soberbo homenzinho de palitos por mim esboçado num caderno que não guardei.

Sem ninguém pra me reprimir, imploro que compreendam:

ꟷ Senhoras e senhores, quem poderá acordar no adulto tagarela a criança tartamuda que teima permanecer esmaecida?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de agosto de 2022.


domingo, 21 de agosto de 2022

Aggiornamento

 

Aggiornamento

 

Bendita seja a quarta-feira.

Se a segunda pressupõe que não seja queimada a agenda de mais uma ferrada semaninha, a quarta é canário cantando.

Ainda que o despertador insista em martelar nos tímpanos que hora certa é a que está programada, tem gente que não enrola para sair da cama, porque sabe que ela existe.

Sabe, sim, que a quarta não falha por bagatela, ela é porreta.

Mesmo numa segunda braba, levanta e toca em frente. Pois é difícil, bem difícil, apagá-la. Como a cachola sabe que a quarta tem realidade, nem é preciso agendá-la nem ficar surdo ao seu chamado.

Não há de tardar a quarta que vem.

Ainda que seja razoável pensar que a sua existência não torne leve uma alma ancorada em compromissos inadiáveis, não se há de ignorar a boa ideia que é o canário cantando no coração do cotidiano.

Não o ignorando, também é lógico imaginá-lo num lugar aprazível, que lhe seja aconchegante. Sim, projetá-lo em um ipê amarelo não tem nada de prepotente; aliás, tal pensamento revigorante é bem bom.

Afinal, amarelo é cor que apazigua, serena, faz suportável a chatice de feira, feira, feira, por cinco vezes, a feira é feira. E ninguém é feirante o tempo todo, e é bem bom um sossego de vez em quando.

Canário cantando em ipê amarelo, pouco há que se lhe compare.

Mal comparando, insuportável é a quinta-feira a quem vai à padaria pelo café com pão. Não um qualquer a outro qualquer. Tal par supimpa: o café está adoçado e o pão vem da chapa.

Todavia, maldito e autoritário, o resultado do futebol azeda a média. Negando o direito de passá-la batida, que a quinta-feira fosse rotineira, na mesa ao lado, porém, comentam o jogo, elevam a jogaço a partida da noite passada. E tchau, tchau, mavioso canarinho da terra.

Se a quinta já era, não se negue à sexta o desejo de um futuro mais suingado. No salão, ergam-se canecas de chope. Pelas mesas, bailem as bandejas. Entre pessoas extrovertidas por natureza e as bailadoras por golinhos e golinhos de felicidade, cantem, encantem-se, vibrem de tanta alegria. Não seja administrada com moderação, porque sexta boa pra valer não acaba quando termina, dá ressaca.

Como corvo aborrece o sábado, que a biriba no boteco fique adiada pro dia seguinte ao dia seguinte?

Quando urubu bica o domingo, deveria ter tomado banho completo, deveria ter lavado atrás da orelha e passado bucha embaixo do braço, pois trocar de roupa, pôr nova cueca e outras meias, que assim nem o canário barra a brisa nem as folhas param no galho?

Amanhã, belo amanhã, pelamor!, venha, voe ligeiro, e voe pelo céu, é anil o céu à luz do sol.

Pessoal que sustenta que sábados e domingos tiram o estresse dos engarrafamentos nas ruas com o congestionamento em idas e voltas pelas estradas, perdão pela perspectiva?

Agora, agorinha, no meio deste instante, não grassa às cinzas outra semente, pulsa, que a feira farte, já.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de agosto de 2022.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Uma baita confusão

 

Uma baita confusão

 

Na parede atrás da máquina de café expresso, bem visível, o cartaz deixava explícito: CONVERSA FIADA SÓ NA ESQUINA.

Lendo a placa, o rapaz de rosto empipocado de espinhas parou um instante de comer um quibe. Porque o barato dos botecos é justamente o papo furado, querer impedir as pessoas de conversarem numa boa? Que ridículo! O dono deve andar nadando em dinheiro pra vir com essa de obrigar a gente a gastar, seu bar vai perder muito freguês.

ꟷ Ora, meu caro, não está errado achar que tempo é dinheiro. E as pessoas podem ir comendo salgadinhos e bebendo sucos enquanto se comprometem a salvar o nosso amado planetinha.

Engolido o guaraná, o ancião completou:

ꟷ Quem trabalha apenas pra cobrir água e luz é burro, que dá sopa pro azar. Cadê o agrado de levar a patroa comer pizza numa sexta que nem tinha nada de especial?

Mas, o dono não tem que ficar controlando o que ocorre do lado de cá do balcão. Se tem quem passe do limite, é bom que a encrenca seja resolvida numa boa. E falar abobrinha não faz mal a ninguém.

Falando baixinho, meio gaguejando, o garoto vestido como o Pato Donald foi ignorado ao perguntar:

ꟷ Abobrinha é aquela coisa azeda que tem no vidro?

O adolescente não parava de pensar que o dono do bar deveria se achar um cara certinho, alguém que faz o que todo mundo considera o certo, o bem. Pois o importante é dar inveja, ser apontado na rua como pessoa honesta, íntegra. Quem trabalha direito merece ser respeitado. Ele não é que nem essa gente que não respeita a verdade. Quem não acredita na verdade não é nada exemplar. O homem tem que acreditar que faz o bem, que não mente à toa. Para que o seu nome se imponha como gente respeitável, ele tem que ser um cara de classe.

A mente do marinheiro-mirim se divertia ligando barriga vazia, prato vazio, mãos vazias, cabeça oca e o oco que faz eco no vazio da cabeça é ronco, pois a barriga vazia da gente ronca tanto que dói.

O mais velho dos quatro concordava com o dono do bar. Não faltam bares na cidade. Quem joga conversa fora sem gastar um centavo que vá aonde isso não seja um problema. Ninguém é obrigado a ficar onde não é bem-vindo. Se bem que tem gente que arruma confusão sem pé nem cabeça. Feito bobo, começa a discutir. E fala alto, berra, gesticula que nem doido e ainda acha que não faz papel de palhaço.

Como o mais novo à mesa prestava atenção nas moscas, ele parou de pensar que ali não tinha nenhum pote de abobrinha azeda. E lascou um tapa num mosquito.

ꟷ Seu besta!

Com a bronca, tentando enfiar-se debaixo da mesa, o guri bateu a cabeça. Com a batida, os copos tombaram; um até caiu e quebrou.

O homem mais experiente disse que um tapa na mesa pode matar quem está ocupado em pedir os ovos de codorna.

O rapaz das espinhas estava tão bravo que nem se deu conta que acabou concordando com o velho que matar de susto é coisa que não se faz com quem tem medo de morrer de repente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de agosto de 2022.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

O leão do cafezinho

 

leão do cafezinho

 

Doutor Viola tomava café. Como sempre, de costas pra rua. Em pé, postura que adotou quando viera pra cidade há quarenta anos.

Menos aos domingos, vai diariamente àquela lanchonete. Gosta de tomar café depois do almoço. Aos sábados, na ida, paga seus boletos no caixa que nunca tem fila, porque fica dentro da loja de conveniência de um posto de gasolina.

Aquela era uma segunda-feira, ele caminhara devagar, fumara sem pressa, parara pra conversar de quando em quando. Mesmo com hora pra voltar ao escritório, fora lento.

Sentia-se bem, percebia que a caminhada não era boa somente pra digestão, era principalmente pra cabeça. Ainda que o aguardassem no escritório, gostava de pitar um cigarrinho enquanto andava. Como seria deselegante não opinar sobre os assuntos do dia, vivia parando.

Em pé, de costas pra rua, mais ouvindo do que falando, no lugar de sempre, ali estava a simpatia em pessoa: Viola, doutor e boa gente.

Fumava, mas soltava a fumaça pro alto. Sabia que muitos puxavam conversa porque o queriam irritado, pois conhecia expressões vulgares em muitas línguas. Não só brasileiras e italianas, diziam que era fluente em inglês, francês e alemão. Contudo, ninguém nunca o viu mandando às favas os chatos.

Às vésperas das eleições, surgiam sujeitos que tinham argumentos pra tudo. Se havia alguma guerra, estavam do lado errado. No caso de briga entre torcidas rivais, pediam cadeia imediata, apenas pros rivais. Já os salafrários, essa escumalha que rouba do povo, esses deveriam fritar em cadeira elétrica, com a conta cobrada à família dos safados.

O digníssimo era paciente, fumava em silêncio. As pessoas tinham muita coisa para falar, que falassem. Eram tantos os problemas que as incomodavam, imploravam que fossem resolvidos.

Achavam-no capaz de proezas além de suas condições de homem simples, outro eleitor frustrado com o voto sufragado.

Bradavam por façanhas? Fossem fustigar outra freguesia.

Ora, não há café que faça do reles cidadão um gênio demiurgo.

Como a infâmia enfraquece a reputação de quem se engrandece à honra, faz-se estrago permanente quando o difamado titubeia, na ação equivocada ou pela demora ao agir.

Há quatro anos, embora pensasse em não assumir a missão a ele atribuída como candidato, o doutor recorrera às cestas básicas quando deveria ter repassado os telefones de organizações humanitárias.

Antes, nas eleições anteriores ao mais recente pleito, o imprudente inebriou-se de vaidade, uma vez que o seu nome ganhou ruas, fez sala nas casas, hipnotizou juízos, conquistara corações.

Fruto legitimado da vasta família desta terra, seria pouco assediado pelos irmãos mendicantes se tivesse ceifado o joio de uma candidatura de fato inexistente.

Se tem quem peça recibo pelo cafezinho de cada dia?

Tem burro que não zurra quando bebe café.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de agosto de 2022.

domingo, 14 de agosto de 2022

Pela raiz

 

Pela raiz

 

Súbito apareceu aquele bicho que tinha fome. E não importava por onde entrara, mordia o pano porque o cérebro de roedor farejou onde havia comida. Pouco lhe importava saber se o saco era de arroz, aveia, farinha ou soja, queria comer. Possuído pela ideia de que tinha mesmo que comer, devoraria o que encontrou.

Se não fosse prontamente repelido dali, causaria prejuízo maior que ter um saco amaciado pela saliva asquerosa, enfim furado por aqueles dentes mais do que vorazes, ensandecidos.

Bicho pestilento, imundo, nojento, repugnante, que o matassem de imediato. Antes que lhe atribuíssem direitos de estar vivo, como animal cuja vida nada tinha de boçal. Se nascera como era, se não escolhera agir do jeito que agia, era um bicho qualquer, não o personificassem a peste, era apenas um rato.

Os ruídos denunciavam a presença, mas nenhum dos funcionários estava presente para evitar os danos. Faltavam gatos no depósito; não espalharam chumbinho pelos cantos; e sequer funcionavam os sensores de movimento instalados.

A situação só piorava: atraídos por barulho ou cheiro, vieram outros ratos, mais e mais ratos atacavam as sacas. Sem exagero, havia uma alcateia desses famélicos, bestiais, ferozes roedores.

A rataria era muita. Tais ratos chiavam, rinchavam, guinchavam de fome. Sem ninguém pra impedi-los, sacos e sacos foram atacados. As pilhas do estoque foram o pasto. Àquilo tudo não haveria outro destino que não o lixo. Na caçamba cheia de um caminhão, fosse levada toda aquela comida: perdida, comprometida, contaminada.

E nos confins da cidade, urubus e homens disputariam o que nem prestava comer. No monte fétido, baratas e ratazanas brigariam. Nesse monumento: que reis, rainhas e infantes sobrepujem a ratos e urubus.

Ao largo, entre pedras limosas, latas enferrujadas e pneus carecas, espreitavam lacraias, aranhas, besouros, cobras, escorpiões. Que eles sabiam esperar, pois, uma hora ou outra, o alimento acabava vindo.

Como a natureza não desperdiça práticas e sabedorias: a primeira norma diz que não morre de fome quem come de tudo; a segunda das lições, sobrevive quem na hora agá não dá um agá.

Pra não acabar com os burros n’água?

Que a pessoa pense. Pra que lixão não mais exista, construam-se usinas. Para que não se formem montanhas de lixo, seja repensado o consumo. Pra que seja mais ainda reduzido o descarte, haja reuso. Pra que se fabrique saudável o ambiente, recicle-se a mente.

Que a pessoa não tema ao ter raiva, cobre mudanças. Preserve-se lúcida, lute pelas mudanças. Aja com ódio, garanta as mudanças.

Para que o ódio seja fecundo?

Saber-se imbecil enquanto os ratos roem os pés. Em vez de tiro no pé, dar bicudas nos ratos. Armar as ratoeiras, e trazer gatos. Ainda que os pensamentos hesitem, ganhar coragem.

Ironias à parte, o ódio vencer o medo é transformador.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de agosto de 2022.