O
tempo passa
Senhoras e senhores, a garoa é agora.
Ela não cai calma nem vem mansa, que isso
é precipitação de quem se anima a dar espírito animal à natureza inteira. Sei
não, acho mesmo espantoso esconjurar demônios de estalagmites.
Numa boa, a garoa cai à toa.
Os pingos vindos das nuvens vão caindo com
uma regularidade que a minha mente, tão pragmática, não tem condições de dosar.
Ao ouvi-los algo barulhentos ao baterem
no terreno, imagino que a água vá escorrendo pelas telhas, vá formando as gotas.
Pelos sons de certos impactos, separo
balde de plástico e cerâmica do quintal. Dou crédito aos ouvidos, pois sei que
o chão do lado de fora da janela do meu quarto não é de terra. Se divisasse os
pingos batendo em outro material que não a cerâmica, eu estaria alucinando.
Reconheço o que ouço, pois garoa não é
nenhuma novidade.
E essa queda me acalma.
E calminho, bem calminho, enfrento a
dureza de outra jornada pelas veredas do mundo. Mesmo que me ofendam, não pretendo
ofendê-las, pois às boas gentes que acho pelo caminho, a elas quero mostrar-me
calmo, bem calminho.
Talião, Talião, não me apraz virar rapaz
na multidão.
De repente, entre tantas outras, uma
pessoa fala alto:
ꟷ Não tem ninguém que possa me atender?
Os pingos caindo, batendo no chão, entendo,
a garoa é constante. Sei que poderia calcular o intervalo entre um pingo e
outro, mas prefiro sentir o que a garoinha produz em mim. Quero dar paz ao
espírito.
Quem há pouco falou alto, a tal pessoa
fala alto outra vez:
ꟷ Dá pra alguém me atender logo?
Súbito, vejo nítido o quadro mental que
cristalizo na calmaria.
A porta do corredor começou a bater de
repente. De repente, nada. Foi quando o vento ficou mais forte que ela deu de
bater intermitente.
Nem toda intermitência me desassossega,
mas a da porta, sim.
De quando em quando, é isso que me fez
sair da cama. Fui à porta, pus um calço e ela parou. Pois se não a calçasse,
ela bateria, bateria, eu ficaria assaz irritado e perderia o restinho da noite,
porque logo viria o momento de levantar e levantaria contrariado, aborrecido,
querendo partir pra briga com quem a mim me dirigisse palavra.
Me virei, a tal pessoa era alguém que eu
conhecia.
ꟷ Ninguém vai me atender?
Nem precisei me esforçar. Como sabia
muito bem quem era, preferi pensar na porta batendo. O vento balançando a
porta, fazendo-a bater sem alvoroço. E foi nisso que me concentrei.
E uma vez calçada a porta com um
pedacinho dobrado de papelão, acho prazeroso ficar na cama. Mesmo que não durma
de novo, a hora passa que eu nem vejo.
E pensar que algo tão simples produz um
bem-estar que a princípio nem eu calculava que fosse possível.
Se não é besteira projetar o vento como
corda retesada, mais besta é não tirar proveito dele passando.
Como relógio parado atrasa meio mundo,
grita o chato:
ꟷ Que diabo!
Não, não. Nem o diabo é páreo pra tamanha
concorrência.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de setembro de 2022.