terça-feira, 14 de junho de 2022

O homem e seu cão

 

O homem e seu cão

 

Sentado ao sol, espio a praça.

Não saí da casa gelada para resolver algum assunto. Pela canseira de ver-me arrastado às pendengas do dia a dia, dei vazão ao instinto de zanzar sem arrependimento.

O sol não é nenhuma novidade sequer o céu azul. A luminosidade é agradável. À sombra, faz frio. Tudo nos conformes, é outono.

Há eventos que são acontecimentos memoráveis quando tem quem encontre argumentos pra sustentá-los inesquecíveis?

Não é notícia uma equipe da prefeitura limpar um chafariz. Não ter quem registre a manutenção também não é fato relevante.

Entre os funcionários que estão na praça, há somente uma mulher.

Ela subiu numa árvore, podou galhos, desceu. Subiu em outra e fez de novo aquele trabalho. E as árvores foram podadas. Os restos foram jogados na caçamba de um basculante.

Ela e os demais vão embora de micro-ônibus.

Outra equipe chega para substituir aquela.

É hora de capinar matinhos e caiar guias. Estes trabalhadores estão agitados. Falam alto, pelos cotovelos, gracejam, exageram nas piadas, gostam de brincadeiras de mão, não se acham impertinentes.

O serviço demora mais do que o estipulado. A encarregada adverte que a falta de seriedade compromete o desempenho do time. Ninguém a contesta, e tudo fica na mesma.

Sem ter do que reclamar, o motorista apoia-se no micro-ônibus para fumar os seus cigarros mentolados. Ele sabe aproveitar, e vai fumando devagar. Não precisa apressar quem quer que seja, ele tem o dia todo. E hora extra ajuda muito. Caramba, como é bom baforar em paz.

Os ônibus vêm e vão. Os barnabés ralam ou não. Vida que segue.

Não vim pra tomar sol. Lagarteando gostoso, mal sei de mim.

Há pessoas que passam, não param, não cumprimentam ninguém, têm tanta coisa pra fazer que o tempo é curto. E pernas ficam melhores quando usadas corretamente, mantendo a inércia de fins por atingir.

Há pessoas que não se apressam. Quando reconhecem outras, são educadas nos cumprimentos. Se íntimas, as gentilezas são naturais. E gestos espontâneos geram mais naturalidade.

Há pessoas que nem percebem o quão afetuosas elas são. Vivem sem medir o dia pelo bem que fazem aos demais. Tornam mais leve o dia a dia. Não se atrapalham nem estorvam, fazem uma coisa de cada vez e da melhor maneira, sem a aflição de terminar logo. Gostando do que fazem, a alegria e a leveza são contagiantes por contato.

Um homem vem vindo. Um cachorro vem trazendo aquele homem. Os postes balizam o caminho. Nenhum deles é ignorado, ele cheira um por um e todos recebem uma carga da sua urina. Como o cão quer que venham, eles vêm.

São novidade que não ganha destaque ao sol de cada dia. Uma vez que nem o cão nem o homem são os mesmos de ontem. Amanhã eles também estarão diferentes. Talvez se houver ventania ou se o intestino estiver solto. Talvez isso, talvez aquilo.

Com um cão, o homem não causa estranheza.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de junho de 2022.

domingo, 12 de junho de 2022

O desenlace

 

O desenlace

 

Sozinho, é solitário ouvir passos distantes. A cidade não dorme nem um segundo sequer. E há parapeitos em passarelas, pontes, viadutos. Encolhido na cama, o coração silva de vez em quando. E a paixão que rege a fadiga dos ossos estimula à febre. É difícil lidar com homem que treme ao menor sinal de euforia noturna.

A noite veio calma. Em maré crescente, a lua varre o céu com a sua luz silente. Recolhido à chama da mansidão, o namorado quer a flama de quem não se contenta com o futuro.

Querem que pense no que se avizinha. Vem que vem. Com fôlego que assusta um pouco, e faz duvidar que tenha freio. Que seja possível fugir quando a colisão apresentar-se inevitável.

Queria dormir, mas outubro é um meteorito vindo na sua direção. É um tiro disparado do escuro além do horizonte. É o futuro que vem de bem longe. E futuro come o que pega pela frente.

Ê namorado que não dorme, o escuro do quarto não o protege. Sem ganas de defender-se, peça o sono dos cansados, queira sonho menos violento. E o futuro corta o caminho, cruza o amor com a frustração.

A escuridão gela o ar. Respira-se sem conforto. O sopro do rancor confrange o coração. O amargurado inveja quem oferece o que tem de melhor. Não que seja o mais caro, muito especial, sem igual.

Ele vem, e vem pronto pra derrubar quem esbarra, nocautear quem esmurra, zombar quando estapeia, escarrar em boca aberta, topar feito pedra, tontear de fome, imbecilizar com historinha, e causar estragos, tantos, porque é assim, bem assim. E que assim não seja.

O disparate vem de encontro a quem acha de marcar bobeira bem no caminho. Que calendário tem agendas a cumprir, cumpram-se.

Não quer pensar além da conta. Quer o sono, que não vem. Porque outubro há de vir, mas que não venha outro tiro no escuro. Aqueloutro outubro? Não dispare a mentira. Aquele outubro segue evidente. E não houve segredo sequer surpresa. O que foi dito foi o que se cumpriu. E foi assim. Está sendo. Pra que não siga sendo, interrompa-se o fluxo.

Agora é junho. Hoje é domingo. Tem o Dia dos Namorados.

O namorado gostaria de ter comprado um buquê de rosas, enviou a foto. Queria jantar, bombons e motel, e não pôde. E o que pode?

O futuro continua o mesmo. Vem alargando anos, meses, dias. Vem comendo instante a instante. Fazendo cara de que sabe que isso tudo tem acontecido como imaginado, elaborado, implementado. No roteiro do previsto, o futuro são mágoas, feridas, fraturas, fissuras, chagas. O futuro é lágrima que não rola, é o amanhã que não sacia, é a fome da ampulheta desgovernada.

Outubro, outubro, outro rumo pro futuro. Outubro, está muito escuro em junho. Outubro, que futuro?

Amanhece, a namorada acorda. Não sonhou com macarronada ao meio-dia. Ela conta que são duas, são pessoas enamoradas.

Elas que se abracem, se beijem, se desejem.

Com afetuoso pudor, que o amor tenha praça pra se manifestar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de junho de 2022.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

O elefante

 

O elefante

 

Já sei, eu fui o elefante na sala de jantar.

Estava bem desconfiado de que um terremoto sacudiria a modorra, tomando café da manhã foi o que me surpreendeu. Fiquei paralisado, boquiaberto.

Via TV, a minha aposta pro dia foi ratificada.

E não acho café-pequeno sorrir abestalhado, até porque a corrente de eventos desconcertantes começou cedo.

Como se diz, a carranca me pegava de orelha a orelha.

Queria ter engolido o que mastigava. A vida, entretanto, não atende expectativas, nem as suplicadas de joelhos.

Fazer o quê, fui pego de boca na botija. A boca era a minha; a botija, a reação a opinião controversa.

Ouvi. Repeti-a em voz alta, pensei estar meio grogue de sono. Não estava, não. Tinha ouvido a barbaridade. Teve quem a analisasse.

Para que uma opinião seja compreendida com correção, não basta considerar os lados a favor e contra, recomenda-se escolher um deles.

Às vezes, no afã de esmiuçar até a raiz do problema, vai se tirando casca depois de casca, como cebola. Mas nem tudo tem no seu âmago um talinho verde que germina com o tempo. Muita coisa tem vento, tem só o cheiro que agrada ou incomoda.

Penso na água sanitária quando o ralo do banheiro é lavado. Passo mal quando respiro o ar que sobe. Pro nariz não arder, uso a mão. Até um corte de nada queima na hora. Poderia ter calçado luva.

Deve ser por isso que lavo o banheiro de quinze em quinze dias, só encurto o intervalo se a urina seca torna sufocante sentar um instante no vaso.

Costumo abrir uma revista. Leio sem pressa, que o mundo vai estar lá fora ainda que eu demore. Fico o tanto que me for necessário.

Quando as letras saltam da página, a mão agita mole a bandeira de todas as rendições, permaneço o que preciso. Minha digestão engrena melhor quando as tripas rodam sem amuamentos.

No fundo, trago cá dentro esse rebelde que não se sujeita dócil.

Quando criança, brincava de tudo com todos. Adolescente, entrava na moda da turminha. Como ligo pra não dançar, jogo como adulto.

Não sou adulto que se alimenta do bom e do melhor. Custa caro.

Uma bolachinha de banana adoça a boca, como numa boa. Gosto tanto que vou comendo sem calcular o custo. Me delicia o pacote todo.

Que a gastrite esqueça de mim por um momento, e me deixe comer. Acho bom que o estrago ocorra depois, bem mais tarde, que nem vou voltar à origem. Azedo, sem os porquês.

Uma vez empanturrado, com o estômago pegando fogo, quero mais é cutucar a ferida, achar o que muito me contraria.

Biscoito de gergelim não estorvaria o andamento natural do mundo, não mergulharia no contrafluxo. Eu experimentaria a ebulição de vibrar sem rubor, de boca fechada, o mindinho saliente.

Não falo pra inglês ouvir. Que bicho está pegando? Sei que piranha ataca jacaré, mas piracucu come piranha.

Controvérsia pra lá, controvérsia pra cá, controversemos.

No duro, morde em mim um Bakunin que adora pão integral.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de junho de 2022.


terça-feira, 7 de junho de 2022

Milonga da simpatia

 

Milonga da simpatia

 

Como saí com a alma que estava no corpo, tinha que me arranjar. Às vezes, sorrio como imbecil quando ouço besteira das grandes. E há reação que me surpreende, porque o fio afiado do humor solta na lata o que bem entende. Este espírito traz um porco pra chafurdar nas boas maneiras? Sou de ranger os dentes, debochar ou me apagar.

Sentei um instante. Assim que entrei, corri sentar na poltrona atrás da pilastra. Não estava a fim de me exibir, pois nem me acho um cara exibido. Teria de esperar, esperaria como se ali não estivesse.

Se fosse recostar-me no muro do jardim, daria uns cinco minutos à fuzarca dos passarinhos. Buscaria aviões no céu se tivesse realmente algum interesse. Mas, em pé, o meu pescoço latejaria em alarme.

Tenho um desvio num bendito ossinho na nuca, e xeretar no celular com a cabeça inclinada acordaria a dorzinha velha companheira. Tinha que ficar sentado e com o telefone na linha dos olhos, era razoável que me antecipasse aos dramalhões do esqueleto.

Que motivos eu tenho pra confiar em quem faz o que não deve?

Sabendo de antemão que poderia irritar ou irritar-me, sentei, cruzei as pernas, pus-me ereto. Com a cabeça apoiada na coluna, fiz questão de me proporcionar a melhor postura. Quis o estresse sob controle, pra que as chances de não incomodar ninguém aumentassem. Navegaria por páginas e páginas sem Penélope a espetar uma agulha de tricô na minha espinha.

Entre não fazer o que não devia ou um improvável arrependimento, a sala ficou interessante. Entrou uma mulher trazendo uma caixa.

Fiz que não era comigo. Embora acompanhasse a cena de soslaio, apostei no nonchalance. De vez em quando, ergui os olhos eletrizados pela bisbilhotice. Levantei-os com a discrição de quem não tem certeza de que esteja mesmo sendo discreto. Certo, fiz o que devia.

Já a mulher... Coisa encantadora foi vê-la em ação.

Sem exagerar-se fascinante. Ao natural, em sua leveza magnética. Ela foi à assistente, viu confirmado o horário da sua consulta e veio se sentar na poltrona à minha frente.

Eu não a conhecia. Nunca a vira. Nem mesmo ali. E olha que tenho vindo três vezes por semana nos últimos dois meses. Viria mais vezes se o doutor me ouvisse, e a probabilidade de vê-la seria maior.

Não morro de medo de dentista, o que me aborrece mesmo é ficar anestesiado numa cadeira odontológica.

Descartada a dor, o que dará nos nervos, o que me desnorteará, vai ser passar quase uma hora querendo descobrir se o bolo era de morango ou chocolate.

Se pudesse parar de pensar, eu suportaria o papo furado. Meteria o pau no preço da gasolina. Arrancaria a cabeça da inflação. Mandaria pelos ares tudo que aflige, e tanto tira o sono como o apetite.

Na sua hora, a mulher passou ao consultório. Voltaram com o bolo. O aniversariante nem usava luvas. Tinha uma meia dúzia aguardando a vez. Mas, todo mundo comeu um pedaço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de junho de 2022.

domingo, 5 de junho de 2022

Pas de deux

 

Pas de deux

 

A mulher ouviu que o mundo não é lugar muito fácil. Nele sobrevive quem faz o possível pra não ficar exposto ao perigo. Como não se deve correr riscos, fundamental é ficar atento. Quando a realidade apresenta um problema que parece sem solução, a inteligência humana descobre um jeito. Porque a humanidade é engenhosa, não há de ser um desafio que a impedirá de superar o que lhe barra seu caminho. Ela acha meios de avançar. Vislumbrando o ponto que lhe favoreça, o homem esperto assegura o passo adiante. E ele faz com que os demais progridam sem sacrifícios inúteis. Para que a sua jornada seja exemplar, o homem não luta em vão. Há propósito e há de haver perseverança. Se a suçuarana ronda a picada, que o facão abra novas trilhas. Se a montanha dificulta o caminho, que a broca esventre a terra. O generoso lega a sua marca. É humano contar com a tenacidade de quem vence na vida. Quem vem atrás que se oriente pelo destemor. Entretanto, há pessoas que não se deixam guiar. E perdidas na travessia sombria, cegas à luz do destino, ignoram-se sem norte.

A mulher soube escutar o que disseram.

O causo era pra parecer verdadeiro. Tinha que passar uma verdade moralmente instrutiva. Que tivesse a força de um pito corretivo. Porque adultos quando precisam tomar bronca, que se sintam sacudidos. Sem que haja espaço pra listar incongruências, falsidades, besteirinhas.

Quem contava começou mal, pois não soube dizer onde aconteceu. Numa cidade, no meio do mato, à beira de rio ou de piscina. À noite, à tarde, de madrugada. Se chovia ou estava abafado. No bar da esquina, comendo pizza, num carro estacionado, indo pro litoral.

Ô historinha mal contada, sem graça, cheia de furos. Precisaria que fosse falada por gente nascida pra mentir sem levantar suspeitas. Que as pessoas ficassem interessadas apenas no que era dito.

Acharam um lampião. Aberto o registro, em vez de gás pra manga, a luz não se fez. Em esplendor esquisito, cresceu foi uma sombra.

E aquela fumaça era opaca, inodora. Calada, ela flutuava.

O homem tinha o lampião como um tesouro. Se o lampião soltou o gênio, deveria atender os três pedidos. Não roubou e não comprou, foi a sorte que o fez ser o dono. Sendo dono, o certo era que tivesse poder sobre o demônio do lampião.

Como tinha a sensação de que era dono de um demônio do bem, o homem do lampião esperava que houvesse entendimento.

Enquanto pensava, o seu primeiro pedido fora aceito: ele perdeu o medo de falar em público.

Temendo virar uma besta sem freio, achando ridículo não fechar a matraca, ele sabia que um tagarela incomoda muita gente.

Travando ponto a ponto, o segundo pedido veio socorrê-lo. Deveria ter previsto a dificuldade de falar de modo lúcido, coerente, agradável de se ouvir.

Desaparecida a gagueira, o homem nem precisou formular o pedido derradeiro: ele gargalhou com todos os dentes.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de junho de 2022.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Assim, assado

 

Assim, assado

 

Amendoim torrando é tentador. Sem nada pra me tirar de casa, fico de água na boca. Imagino o salgadinho. Só preciso esperar que esfrie pra descascá-lo. Posto a nu, posso temperá-lo ao ponto.

Seco, sem casca, salgado ꟷ é comigo torná-lo irresistível.

Espero o tempo necessário no forno; a areia do gato já foi entregue. A ração dos peixinhos está servida; aguento o que for preciso para não queimar os dedos. Dou conta do cotidiano, vivo simplesmente. Se tirasse a assadeira antes da hora, confirmaria a precipitação.

Seguro as pontas. Assovio uma canção que o instante quer que lhe cante. Canto nada, cantarolo na cabeça. Consigo ouvir o que me põe na cadência do tempo certo. Acho que sim, eu posso cantarolar.

Há pessoas que são guiadas pelo cheiro, não me tomo dessas. São pessoas que salivam porque têm farta imaginação, observo-as porque me quero diferente. Acham bom comer quando querem, negando-se o prazer de sentir as sutilezas do gosto. São essas pessoas arrebatadas que nem se percebem manipuladas pelos sentidos.

Têm olhos, boca e nariz distraídos pela gula, diz a razão.

Penso que vivo de modo simples, sereno, pé no chão. A maior parte do tempo, acredito que consigo dar conta de mim. Não presto conta do que penso. Me responsabilizo pelo que faço, me responsabilizem pelo que realizo. Não cedo um milímetro antes do próximo passo? Concedo a mim o direito de andar, parar, avançar, recuar, saltar, cair, falar, ouvir, morder e assoprar.

Gente que roga praga quando se vê obrigada a transformar desejo em realidade não é gente sem tempo, é quem tem muito que fazer. Pra comer amendoim torrado, precisa ligar o forno? Tem supermercado na esquina, é um pulinho. Paga no cartão pra nem lavar a mão, é óbvio.

Semáforo regula o trânsito, não quem dirige.

Só quem vai ao volante sabe o quanto dói tornar-se obediente a leis que engessam, imobilizam, paralisam. Raciocina o contrafeito.

Se controlam o cruzamento, ele burla. Nem que gaste dez minutos, contornará o problema. Ainda há ruas sem sinal pra asfixiar o livre fluxo de pilotos com suas máquinas potentes.

O amendoim torrado será conduzido em segurança do mercado até sua casa. O amendoim que vem embalado de fábrica pode muito bem ser consumido no carro. Se o amendoim tem código de barras, deveria pagar antes pra comê-lo depois? Coma-se na fila do caixa.

Há quem abra uma lata de refrigerante. Não qualquer refri, mas um guaraná. E um guaranazinho vai bem com amendoinzinho salgado.

Há quem se ache uma pessoa bacana, gente que não menospreza a estupidez quando a gente se manifesta.

Caramba, a gente também tem boca. Que nem é pra ficar engolindo sapo. Uma perna de rã bem temperada, porém!

Putz. Não é todo mundo que ousa fazer o que quer, como bem quer, onde quer, pois acha mesmo que é livre pra ser quem acha que é.

Não é a batata que está assando, é o amendoim.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de junho de 2022.

terça-feira, 31 de maio de 2022

O monstro

 

O monstro

 

Tentava organizar as ideias mesmo debaixo da garoa. Pensei: que faça sol. Mas a garoinha não me ouviu. Murmurei que o céu ficaria bem melhor se ficasse ensolarado. A garoa fina, irritante, deu uma de surda.

Não sabia como energizar o pensamento. Ainda não sei. Tanto que concluí que a situação me era adversa porque fraquejava. Pois é, nos momentos decisivos, costumo me descontrolar.

Deixo de ser positivo, duvido em demasia, tenho medo.

Quem dera despertasse em mim a potência de domesticar a minha vontade em obra, insistiria na bravura. Que o sol entendesse o pedido, poderia ter mudança. Mas a garoa, bem burrinha, se fez de difícil.

Precisava zombar da coragem que tanto imagino, veio o vento.

Eu podia inocentar a segunda-feira. Ou crer que a fina garoa gelada estava me fazendo um bem. Havia opções. A cabeça não tinha força o bastante pra parar de cismar.

Garoas são o tempo e o ser humano nasce perdedor. O remediável: usa-se guarda-chuva, busca-se abrigo em marquise, ou ambos.

Eu esperava o tempo melhorar quando Luisinho veio conversar.

Lamentamos o clima. Agouramos o dia. Pedimos um cafezinho.

O bom de um cafezinho é que ele nunca falha. Pensamentos bobos surgem. A gente bem que tenta segurar o riso, mas o alívio é maior.

Pessoas que ficam de bem consigo têm esse talento pra fazer o sol brilhar no céu. Basta esquecer-se enquanto ri.

Luisinho inveja os povos, os cientistas malucos, seus doutores que sempre aprimoram as ideias malucas. Ainda que a chuva aperte, o sol castigue como o diabo, o café esfrie no copo, eles nunca desistem.

Pessoa que ri de si vive melhor? Vive o instante.

Ideias malucas são serraia em calçada estreita às sete da manhã? A multidão nem vê o buraco porque tem logo que bater o ponto.

Discordamos por prazer. Gostamos de falar. A gente se desentende como duas cabeças num corpo único.

Ele bebia seu café com açúcar, o meu era sem.

Ele nem ligava pras gotas da garoa, eu me encolhia todo.

Assim na vida, assim na morte, que dá azar ter sorte. Ou não.

Pois um leão alado com bocarra maior que o juízo só tem condições mentais pra julgamentos sumários. Tem que pagar pelo erro. Errar todo mundo erra, e o caminho passa pela criatura porque as pessoas deram de passar pelo mesmo lugar. Elas vão pela via de mão única, passam às portas da caverna da guardiã das estradas e seguem pro abismo.

É abismo o IPVA, o IPTU, o ISS, o INSS.

Didi, Dedé, Mussum e Zacarias são o riso. Xô, abismo!

Devorado por dentro, e por acaso.

Nada de carpa ou cará? Quem dera saber. Não fora num domingo? Quisera lembrar-me. Tinha tratores descendo a Quinze carregados de verdura? Do Pocinho de São Sebastião pra Ibiúna sem TV a cabo, era sábado, o último de maio.

Paga promessa quem pode pagar, quem não pode mas deve, quem precisa dar jeito, quem perde por esperar, quem se desespera.

Quede que ninguém morde a cachorra das gentes?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de maio de 2022.


domingo, 29 de maio de 2022

O cão da lua

 

O cão da lua

 

Acontece que desconfio, vem aí um velho conhecido e vem quando estou bem ocupado. Em geral, o ataque de nervos começa insinuante, como algo inseparável das coisas do mundo. E a lei do menor esforço diz que as miudezas do dia ajeitam-se por si.

Prefiro viver sem sobressaltos ou tomando cuidado pra cachola não desandar. A instabilidade é o móvel da vida e é natural querer controlar o que me afeta, mas os problemas crescem quando esqueço que não é razoável achar tudo tão natural. Preciso forçar algum equilíbrio entre o que ajuda e o que prejudica a ir em frente, embora isso possa causar mágoas leves ou sofrimentos.

Pisando e repisando a trilha cotidiana de trabalhar, não tenho tempo pra surtar. Por que agiria contra a bonança de ter as contas em ordem? Tenho aproveitado as tranquilas noites de sono. Não pretendo estragar este período bom, de pequenas alegrias. Quero que dure.

Confesso a minha resignação à sobriedade.

O que não significa que vivo em paz. Não confundo conformismo e paz. A tranquilidade está em aceitar que a paz absoluta não existe. Só que viro pensar sobre o pensado, remoendo-me, insistindo em moldar a realidade. Se ela é argila, acho pedregulhos pra ferir as minhas mãos no torno que não para.

Contradições e sínteses fazem a vida; antagonismos paralisam.

E paro porque não vejo saída. E não encontro saída. Sinto que virei jabuti que se debate de pernas pro ar, um agitado que não sai do lugar. No fundo, percebo que lutar contra quem sou é causa perdida.

Literalmente, abro a porta e saio. Não fui obrigado, eu quis.

No quintal, olho o céu. Sem especular, vejo as nuvens. Fico, gosto de acompanhar as nuvens. Gosto de fazer o que me acalma. De algum modo, preciso ficar menos agitado. Só não quero me forçar.

Estou à toa? Não sei. Percebo que um minuto não vai fazer falta ao dia. A hora não para. A Terra não para. Quem precisa ficar parado sou eu. Preciso dar essa paradinha. Paro um instante. Me disponho a ficar parado. Que seja só por um segundo, não muito. Pois um segundinho só não dá aflição, até anima.

Dona vida, não se preocupe comigo. Agora estou largado, tomando sol, mas voltarei em breve. Logo, logo estarei de volta, no batente. Sem reclamações à toa. Sem rechaçar as fraquezas. Sem buscar tentações pras minhas taras.

Não serei leviano. Sei que as nuvens passam. Sai o sol, entra a lua. A euforia come o tédio. Mas não beberei pinga pra dor de cabeça. Para não arrumar dores de cabeça, bebo água.

Bebendo, outra noite, fiquei vendo a lua.

O sono veio sutil. O sonho veio cheio de bichos. Não mato formigas nem mariposas. Se urubus rondam carniças, prefiro as andorinhas. Se as pombas bicam o chão, que os corvos voem na lavoura da gravura. Se bem que barata pisoteio sem dó e traças espremo sem piedade. No meu sono sem roncos, a lua brotou dourada.

Com esse cão que lambe a pinga da minha boca, faço o quê?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de maio de 2022.


quinta-feira, 26 de maio de 2022

Música pros ouvidos

 

Música pros ouvidos

 

ꟷ Está vendo a mulher ali, no primeiro andar?

ꟷ Ela é casada, cara.

ꟷ Que é isso, também sou casado.

ꟷ E casados não traem, sequer desejam. Sei...

ꟷ Desejar coisa proibida não é legal, e eu conheço o meu lugar.

ꟷ Tá legal. Não vou perder o feriado com discussão besta.

ꟷ OK. Vamos mudar de assunto.

ꟷ O que a mulher do sobrado está comendo?

ꟷ Não tenho olho biônico, mas parece que é caqui.

ꟷ Só falta ser caqui chocolate.

ꟷ E de onde você tirou tal palpite?

ꟷ Se ela tiver o gosto igual ao seu, é caqui chocolate.

ꟷ Não tem pandemia de gosto, existe nódoa. Então, você acertou. Caqui mole faz um aguaceiro quando mal a gente morda. Precisa muito cuidado para não acabar manchando a roupa. Por isso, gosto de caqui chocolate, que não produz tanta água. Isso é o que importa.

ꟷ Todo mundo sabe que caqui é campeão pra manchar roupa. Mas, por que você gosta tanto de caqui? Um almofadinha que sempre andou na estica, como pode ter esta tara por fruta que mancha tanto?

ꟷ Além de não enxergar bem, você está surdo? Eu disse que caqui chocolate é diferente dos outros tipos, ele não mancha à toa.

ꟷ Não queira me desmentir, pois me lembro muito bem. Você vivia comendo caqui. Não importava quem fosse à sua casa, você era um cara mesquinho. Comia sozinho, escondido.

ꟷ Nunca fui egoísta. Eu não comia o ano todo, era só na época.

ꟷ Comia, sim, senhor. Demorava uma eternidade, e a gente ficava esperando na rua porque a sua mãe não gostava que a gente chutasse bola contra a parede da sua casa. E aquilo era de encher.

ꟷ Você está insuportável hoje. Está ruim das ideias, é?

ꟷ Ouça-me bem. Você comia tudo e depois aparecia com a cara de pau de ficar limpando as mãos na roupa, como se estivesse vindo do banheiro.

ꟷ Mostrar as mãos limpas é sinal de asseio. E mais ainda, até hoje mostro as mãos quando vou cumprimentar as pessoas. Eu não guardo nada na manga. Eu comia uma bolachinha e mais nada.

ꟷ Comia pouco, é? Você se enfarava. Ficava com o bocão que até dava nojo. A bochecha inchada. Uma coisa horrível de se ver. Parecia papo de sapo. Como sapo quando fica coaxando, sabe?

ꟷ Você adora aumentar as coisas, cara.

ꟷ Mas você ficava com os olhos arregalados. Seu rosto virava uma máscara. O mais estranho que a sua cara meio que zombava da gente. De boca cheia, os olhos vidrados, fazendo uns ruídos esquisitos, você virava outra pessoa.

ꟷ Que besteira! Eu era o monstro comedor de caqui?

ꟷ Você não dava medo, cara. Na verdade, eu ria muito.

ꟷ Você ria de mim comendo caqui? Não me lembro disso.

ꟷ Ria um bocado. E sabe o que aquela sua careta lembrava?

ꟷ Como vou saber. Você que está inventando, desembuche.

ꟷ Lembra da música What a wonderful world?

ꟷ Cara, era o Louis Armstrong que tocava.

ꟷ Você parecia com ele tocando corneta.

ꟷ Não era corneta. Ele tocava trompete.

ꟷ Que seja. Pra mim é tudo a mesma coisa.

ꟷ Cara, você podia disfarçar e não ficar babando feito idiota.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de maio de 2022.


terça-feira, 24 de maio de 2022

Três vezes ao dia

 

Três vezes ao dia

 

Não basta acreditar que se pode ser útil, servir-se de instrumento a quem franquia alguma ajuda, é passível do passo aziago quem se acha a solução universal. Quando o inconsolável da vida manifesta-se, esse ridículo, que a muitos assedia com sutileza zero, transforma-se em um chato do caramba.

Sem querer, acorda-se nem um pouco xarope.

Bem-estar inexplicável é preocupante. Pois isso de ver as horas no celular sem curiosidade sobre as guerras em andamento, os hospitais precários, a escalada da inflação, isso é coisa de paspalho profissional ou aparvalhado mané.

Pra remediar o caso, aplique-se um incentivo fundamentado.

Toma-se a primeira dose de xaropismo depois que amanhece, indo pro ponto sabendo que os demônios devoradores de diesel passarão. Cedo ou tarde, lotadíssimos, passarão; ao deus-dará, os monstrengos acumuladores de metano têm mesmo que passar.

Equivoca-se quem acelera o passo, porque a experiência diz que o mau humor que minará a leveza conta com a espera prolongada pelo próximo ônibus. E a irritação aumentará dando-se confiança a ranzinza que desce a lenha no transporte coletivo de modo acerbo. O inopinado: já que motoristas não respeitam horários nem oferecem conforto, o povo que leve a culpa.

E xarope que hesita perdoa logo. Sabe superar os problemas, tocar em frente, é que tem que sair-se melhor que ontem. Mais que dinheiro no bolso, trabalha-se pelo bem do país. Ainda que mereça a falta de fé dos superiores, que aumentam a meta de produção como se fosse um desafio maior que os braços, é preciso querer dar o melhor de si. Nada de carregar rancor enquanto mantém o foco, pois a meta existe pra ser cumprida. Como cupim trabalha na muda, o bom xarope não para.

O corpo precisa da reposição de energia, para-se. Mesmo os heróis mais genuínos são máquinas que operam direito quando alimentadas a contento. Pra não deixar a peteca cair, almoça-se.

A segunda dose de xaropismo é sólida, concreta, para ser mordida. Começa pelos olhos, é marmita servida de modo bem ordenado. Com o feijãozinho coberto pela massa de arroz, o ovo frito ao lado do legume mais barato. Come-se o que dá pra pagar. E a garfada tem esse preço que sobe de elevador, e vai subindo. Quanto maior valor, maior o PIB. E produtor pensa no país enquanto o Cruzeiro brilha na TV.

Não há terapia que abra mão de umas boas horas de diversão. Sim, a terceira dose é ministrada por comentaristas mais bem instruídos que consideram futebol-raiz matar-se em campo. E quem ama futebol ama o próprio povo.

E que mão na roda é o povo. Porque tem povo que não acaba mais. Tem povo que ora o tempo todo. Tem povo que fuma no banheiro. Tem povo que chama pra briga. Tem povo que vota na foto. Tem esse povo brasileiro que vive como povo eleito. Tem povo que acha que dever do povo é ver-se como o povo que é.

Que o povo faça a sua parte.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de maio de 2022.

domingo, 22 de maio de 2022

O convite

 

O convite

 

Finalmente tocaram a campainha, mas não corri atender.

Se estivesse atrás da porta, a pessoa, com o dedo no ar, ficaria com cara de quem acha louvável quem torce pra que as notícias do mundo cheguem logo ao seu destino, à minha porta.

Também abriria rápido se estivesse em dia de faxina. Pra caprichar, tenho uma escovinha de dentes só pra limpar as ranhuras, frufrus que causam inveja em quem pensa que tenha me custado uma grana alta. Nada disso, porque a comprei em liquidação numa loja que estava pra abrir falência. Mesmo barata, dá trabalho mantê-la apresentável. É por isso que, sujinha, está dando na vista de quem passa na calçada.

Com as novidades tardando chegar, fui ficar no lado oposto da sala, na lavanderia, minha área favorita de casa, porque, coincidentemente, entre a cadeira de balanço e o fogão, tem essa porta tão minha amiga, por sua ojeriza a lingueta de tranca à luz do dia.

Apesar do frio, longe da comichão de querer que alguma mulher de lenço no pescoço viesse bater palmas no portão, nem percebi o quanto fiquei vendo as roupas balançando no varal.

E o vento levitava de leve um vestido da vizinha, não um vestidinho, mas um senhor vestido vermelho sem alcinha. E vê-lo era bem menos estressante que ficar gritando com cachorro que não parava de latir pra gato arisco, bailarino de muro coalhado de cacos de vidro.

Haja suposições pra ter estourado tanta pipoca.

Por conta do frio, não passei café. Gelado, cafezinho fica intragável. Podia apreciar o sossego sem temer hesitações? Foi pelo gostinho que me decidi por abrir uma garrafa de guaraná. Por abri-la e bebê-la.

Mas não ia bebendo agradecido comigo, bebericava a cada vez que punha pipoca na boca pois tinha errado no sal. Tendo a língua salgada, que perereco não salivar fel em prosa e verso.

Tocaram a campainha. Fui ver quem era. Não tinha ninguém.

E não tinha, por que me demorei feito criança que disfarça as ânsias do coração aos pulos fazendo fita de birrenta infeliz?

Comia pipoca.

Demorei atender, mas mensageiro pode sair correndo como gente folgazã que nem ajuíza o quanto tal atitude tem de ofensa pirracenta?

Ofende, e muito.

Não é fácil esconder o sangue quente na cara enfurecida da gente, mas não chispei as frustrações em quem só estava passando. Calçada é lugar de passagem, mas que gente era aquela que resolveu passear, atravancando o caminho?

Cuspi os piruás pra sarjeta. Fiz questão.

Nesta minha trama de pessoa na iminência de receber convite a tão festejado evento, queria que aguardassem. Soubessem me esperar só um pouco. Pois eu vinha determinado a mostrar toda minha humildade, a minha respeitosa humildade.

Ternamente comovido com tamanha deferência a mim, logo eu que não tenho nome na praça nem como papador de pipoca, fui eu que abri a porta pra ninguém.

Mais chato do que ficar esperando? É acabar de mãos abanando.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de maio de 2022.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Terror noturno

 

Terror noturno

 

Inda tá linda a lua azul da melancolia da minha alma aconchegada no sereno silêncio da solidão. Ainda estaria, mas acordo estragado: o brilho azul da lua inebriante da madrugada não passa da lampadazinha da TV, cujo cabo de energia está sempre na tomada. Não é a luazinha, é a ansiedade que me estraga o sono.

Dormir a noite toda é coisa de boboca, é preciso temer as aranhas saindo das aranhas que se multiplicam nas sacolinhas de plástico que pegam poeira embaixo da cama.

Quem não acorda suando frio não tem como me desprezar porque desprezo quem acha normal não ter pesadelos com aranhas galgando os pés da cama.

Como não despertar por motivo tão pouco fútil?

Desperto com a careca enregelada. Tenho uma frente fria presa no meu quarto; e dela me livraria se fosse à cozinha.

Poupo-me, fico debaixo das cobertas.

Se desligasse a geladeira, iria pro lixo meu leitinho morno das horas congeladas. E não me controlo a ponto de não passar por essas horas, que me esticam o drama como estômago que ronca um vazio que leite frio algum há de saciá-lo.

Breve é a vida quando é longa a agonia.

Costumo afundar no breu da insônia, para que a noite fique dividida em duas partes antagônicas. De um lado, não me convenço a moderar as aflições. Doutro, elevo o desassossego de imaginar-me arrancando os cabelos que não tenho.

Posto que me aborrece à beça a careca exposta ao frio: dane-se!

Dou luz verde às aranhas que comem a mosca azul que me rodeia. Entrando em mim por minhas desesperanças de gente cansada. Pois muito me esgoto a pular etapas, correr com o andor, perder-me à toa.

Não sei dizer se me sinto bem. Ainda que esteja disposto a seguir às cegas, sem destino ungido, de improviso em improviso. Que a falta de assunto, embora não me falte agora, sirva-se de meu cansaço e em mim sejam injetados os pigarros, uma dorzinha no pescoço e o medo de esquecer o que tenho pra fazer quando o dia raiar e a cidade ficar cheia de gente querendo que seus problemas sejam logo resolvidos.

A noite não se mexe. O ar gelado não me acalanta. Não nino a mim que sou menino que se sente abrigado no seio noturno que apavora, enerva, desconcerta. Muito, mas muito mesmo?

Não há silêncio que faça a cidade ficar calada, parada, morta.

Sequer há mortos que estejam imobilizados, que a carne vai pouco a pouco sumindo dos ossos. Ficarão os cabelos. Ficará o universo.

Terei análise na hora do café. Se falarei de aranhas, moscas e TV? Contarei que me perdi do que inicialmente tinha pensado quando me sentar ao computador? Mentirei apenas um pouquinho só pra não ser desmascarado?

Na escuridão da madrugada, enfiado na cama, querendo que passe a vontade de urinar, me seguro como posso. Acho que posso.

É noite, não vou fugir da escuridão. Se acendesse a lâmpada? Nem assim. Se não pensasse no assunto? Muito menos.

Sabe, doutor, sou paciente porque não sei esperar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de maio de 2022.

terça-feira, 17 de maio de 2022

Caipora!

 

Caipora!

 

E traz as mãos enfaixadas quem conta que ficou descontrolado ao saber que seu cachorro morrera. Mesmo não sendo a responsável por essa morte, murros foram dados na parede mesmo assim.

Há pessoas que reagem muito mal quando informadas de supetão, ou pouco a pouco. Engana-se quem pensa que a gradação detalhada do infortúnio ajude a amenizar a dor. Pra quem exagera pra caraca, o impacto de notícia trágica é uma pancada brutal. De fato, a autoridade dos patéticos fica arranhada sem uma dose boa de canastrice.

Quando falaram que um ônibus atropelara seu bicho de estimação, a resposta furibunda quem deu foi a direita, de encontro à parede.

De imediato, o gesto mostra que a distância da orelha ao cérebro é curta em pessoas que tomam banho de modo modelar. Sem dúvida, a perfeita remoção do cerume merece louvores, evidentemente.

Disseram que a vítima do atropelamento era um pastor.

Inteligências fulminantes, que estreitam meia palavra a conclusões, reafirmam que o pior surdo é aquele que ouve muito bem.

Ouvira bem, muitíssimo bem. O seu pastor não voltaria mais, nunca mais. Como o cachorro massacrado era o seu, não era do vizinho que vivia se vangloriando de madrugadas mal dormidas, era irrelevante que os pneus assassinos fossem de um micro-ônibus.

Pode parecer que os latidos do mundo não estejam sincronizados com as batidas do coração de quem dorme de orelha em pé. Contudo, é normal acreditar que uma noite de sono entrecortado torne plausível sentir o peso de pulgas pulando na escuridão. Ou os leves movimentos dos cílios ocorreriam de forma gratuita. E compreender o ritmo da vida por algum absurdo qualquer é sustentar argumentação estapafúrdia.

Insistiram que o cão atropelado trazia um pingente no qual o nome inscrito era Rex. Pastor chamado Rex? Só conhecia um, o seu.

Tem gente fingida que se faz de tonta apenas pra tirar vantagem da situação, pois, entre a necessidade e a liberdade, o camelo passa pelo buraco da fechadura.

Quem entra no espelho não tem outra finalidade que não seja a de lucrar com a especulação, sobrepondo o positivo no negativo. Uma vez que uma ação raivosa nada tem de pecaminosa, é honroso deixar que os sinos dobrem.

Rex morreu porque a van precisou jogar pro lado para não pegar a bicicleta que trocou de faixa de repente.

O acaso tem leis que o azar perde tempo quando quer justificar.

Mesmo não sendo obrigatório ir olhar o quintal, já que não precisava ter certeza de que o Rex morto era mesmo o Rex, tão logo viu que não tinha coleira na corrente, a esquerda socou a parede.

O fato é que a pessoa que dirigia a van, cheia de crianças indo pra escola, evitou bater no ciclista que levou um susto danado com o cão que saltou pro meio da rua. E foi desse jeito, foi escancarando caninos assustadores de capa preta que ele teve morte na hora.

Rex, seu amado Rex, era pastor, mas era alemão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de maio de 2022.

domingo, 15 de maio de 2022

Faro fino

 

Faro fino

 

Tem cheiro horrível à entrada da casa. Com sol forte, o troço piora. É preciso que chova logo ou as pessoas terão de prender a respiração pra não ficarem nauseadas.

Apertar as narinas. Não respirar pela boca. Tudo pra estar certo de que é possível diminuir o fartum que tanto desgraça o ambiente.

Em vão se o céu azul não facilitar. Sensibilizado, o outono suaviza o tom, mas nada pressupõe uma aragem benéfica.

Chuva, chuva boa, chuva que faça a faxina na área, tal desejo não será atendido. Mesmo que se tome providências como pular três vezes na perna direita, girar no sentido horário por sete segundos e sussurrar “sim, eu posso” até que venha alguém dizer que “sim, eu posso” é ideia ridícula que não ajuda bulhufas na formação de nuvens benfazejas.

Com um céu tão espaçoso, o bodum seguirá nauseante.

Não é preciso exagerar, pensar que condescendentes não têm foco pro motivo dessa carniça a céu descoberto.

É simples, basta postar-se em posição de vigilância estrita pro fato ser revelado.

A verdade dos fatos sempre transparece, é só interpretá-la de modo lúcido, imparcial, justo. Sim, quem anda no caminho da justiça encontra a verdade ainda que haja gente que ache cansativa a mentalização de um mundo melhor.

Indo do desejo ao ato, qualquer um pode achar a razão pra tamanha fedentina à porta de casa.

Habitar o mundo é algo muito aborrecido a quem se recusa a fechar as cortinas quando o sol incomoda. As pálpebras existem porque têm função, todavia mantê-las abertas torna difícil enxergar direito quando a luz está irritante. Dá pra fazer viseira com a mão, mas o braço cansa. Já o sol, o brioso sol, esse daí não conhece lassidão nunca.

Com dose generosa de limão na caipirinha do almoço, espantoso é buscar conforto depois de bater um pratão de feijoada. O sofá regurgita quem traz nas tripas a paz por empanturramento. E pavoroso é comer como se o preço da comida fosse dobrar a cada remarcação.

Caída depois do susto de estar salivando a mais não possa, expulsa do soninho bom, a camaradinha socializa seu pesadelo.

O que não existia passou a existir com o tapume. O terreno que não tinha semelhança com área baldia entra nessa especulação. O que era propriedade sem ninguém a cuidá-la com o agrado de uma capinagem de vez em quando, veio o dia em que o madeirite floresceu. E foi-se a invisibilidade. E houve porta e nela pôs-se em aviso: entrada restrita a pessoal autorizado. Deu-se o milagre da valorização que tem a ver com a falta de olho mágico que permita seguir a construção. Subirá vistoso o prédio, cuja posse dos apartamentos iluminados pelo sol cortês será concedida a quem pode rir à toa, já que tem crédito que faz a gentileza de não cabalar dez mil por cento de sua renda.

Ela não diz o que tem tramado.

Baixinha, a vigilante quer ter uma bexiga grande que nem gente alta que não passa vexame ao batizar um poste.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de maio de 2022.