O
homem e seu cão
Sentado ao sol, espio a praça.
Não saí da casa gelada para resolver algum
assunto. Pela canseira de ver-me arrastado às pendengas do dia a dia, dei vazão
ao instinto de zanzar sem arrependimento.
O sol não é nenhuma novidade sequer o
céu azul. A luminosidade é agradável. À sombra, faz frio. Tudo nos conformes, é
outono.
Há eventos que são acontecimentos
memoráveis quando tem quem encontre argumentos pra sustentá-los inesquecíveis?
Não é notícia uma equipe da prefeitura
limpar um chafariz. Não ter quem registre a manutenção também não é fato
relevante.
Entre os funcionários que estão na praça,
há somente uma mulher.
Ela subiu numa árvore, podou galhos,
desceu. Subiu em outra e fez de novo aquele trabalho. E as árvores foram
podadas. Os restos foram jogados na caçamba de um basculante.
Ela e os demais vão embora de micro-ônibus.
Outra equipe chega para substituir aquela.
É hora de capinar matinhos e caiar guias.
Estes trabalhadores estão agitados. Falam alto, pelos cotovelos, gracejam,
exageram nas piadas, gostam de brincadeiras de mão, não se acham impertinentes.
O serviço demora mais do que o estipulado.
A encarregada adverte que a falta de seriedade compromete o desempenho do time.
Ninguém a contesta, e tudo fica na mesma.
Sem ter do que reclamar, o motorista
apoia-se no micro-ônibus para fumar os seus cigarros mentolados. Ele sabe
aproveitar, e vai fumando devagar. Não precisa apressar quem quer que seja, ele
tem o dia todo. E hora extra ajuda muito. Caramba, como é bom baforar em paz.
Os ônibus vêm e vão. Os barnabés ralam
ou não. Vida que segue.
Não vim pra tomar sol. Lagarteando
gostoso, mal sei de mim.
Há pessoas que passam, não param, não cumprimentam
ninguém, têm tanta coisa pra fazer que o tempo é curto. E pernas ficam melhores
quando usadas corretamente, mantendo a inércia de fins por atingir.
Há pessoas que não se apressam. Quando reconhecem
outras, são educadas nos cumprimentos. Se íntimas, as gentilezas são naturais.
E gestos espontâneos geram mais naturalidade.
Há pessoas que nem percebem o quão
afetuosas elas são. Vivem sem medir o dia pelo bem que fazem aos demais. Tornam
mais leve o dia a dia. Não se atrapalham nem estorvam, fazem uma coisa de cada
vez e da melhor maneira, sem a aflição de terminar logo. Gostando do que fazem,
a alegria e a leveza são contagiantes por contato.
Um homem vem vindo. Um cachorro vem trazendo aquele homem. Os postes balizam o caminho. Nenhum deles é ignorado, ele cheira um por um e todos recebem uma carga da sua urina. Como o cão quer que venham, eles vêm.
São novidade que não ganha destaque ao
sol de cada dia. Uma vez que nem o cão nem o homem são os mesmos de ontem.
Amanhã eles também estarão diferentes. Talvez se houver ventania ou se o intestino
estiver solto. Talvez isso, talvez aquilo.
Com um cão, o homem não causa estranheza.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 14 de junho de 2022.
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