terça-feira, 14 de junho de 2022

O homem e seu cão

 

O homem e seu cão

 

Sentado ao sol, espio a praça.

Não saí da casa gelada para resolver algum assunto. Pela canseira de ver-me arrastado às pendengas do dia a dia, dei vazão ao instinto de zanzar sem arrependimento.

O sol não é nenhuma novidade sequer o céu azul. A luminosidade é agradável. À sombra, faz frio. Tudo nos conformes, é outono.

Há eventos que são acontecimentos memoráveis quando tem quem encontre argumentos pra sustentá-los inesquecíveis?

Não é notícia uma equipe da prefeitura limpar um chafariz. Não ter quem registre a manutenção também não é fato relevante.

Entre os funcionários que estão na praça, há somente uma mulher.

Ela subiu numa árvore, podou galhos, desceu. Subiu em outra e fez de novo aquele trabalho. E as árvores foram podadas. Os restos foram jogados na caçamba de um basculante.

Ela e os demais vão embora de micro-ônibus.

Outra equipe chega para substituir aquela.

É hora de capinar matinhos e caiar guias. Estes trabalhadores estão agitados. Falam alto, pelos cotovelos, gracejam, exageram nas piadas, gostam de brincadeiras de mão, não se acham impertinentes.

O serviço demora mais do que o estipulado. A encarregada adverte que a falta de seriedade compromete o desempenho do time. Ninguém a contesta, e tudo fica na mesma.

Sem ter do que reclamar, o motorista apoia-se no micro-ônibus para fumar os seus cigarros mentolados. Ele sabe aproveitar, e vai fumando devagar. Não precisa apressar quem quer que seja, ele tem o dia todo. E hora extra ajuda muito. Caramba, como é bom baforar em paz.

Os ônibus vêm e vão. Os barnabés ralam ou não. Vida que segue.

Não vim pra tomar sol. Lagarteando gostoso, mal sei de mim.

Há pessoas que passam, não param, não cumprimentam ninguém, têm tanta coisa pra fazer que o tempo é curto. E pernas ficam melhores quando usadas corretamente, mantendo a inércia de fins por atingir.

Há pessoas que não se apressam. Quando reconhecem outras, são educadas nos cumprimentos. Se íntimas, as gentilezas são naturais. E gestos espontâneos geram mais naturalidade.

Há pessoas que nem percebem o quão afetuosas elas são. Vivem sem medir o dia pelo bem que fazem aos demais. Tornam mais leve o dia a dia. Não se atrapalham nem estorvam, fazem uma coisa de cada vez e da melhor maneira, sem a aflição de terminar logo. Gostando do que fazem, a alegria e a leveza são contagiantes por contato.

Um homem vem vindo. Um cachorro vem trazendo aquele homem. Os postes balizam o caminho. Nenhum deles é ignorado, ele cheira um por um e todos recebem uma carga da sua urina. Como o cão quer que venham, eles vêm.

São novidade que não ganha destaque ao sol de cada dia. Uma vez que nem o cão nem o homem são os mesmos de ontem. Amanhã eles também estarão diferentes. Talvez se houver ventania ou se o intestino estiver solto. Talvez isso, talvez aquilo.

Com um cão, o homem não causa estranheza.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de junho de 2022.

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