O dom natural
Ignorar não resolve. O clarão do curto
deu susto, que pulei para trás no ato. O cheiro de queimado impregnou o ar da
cozinha de imediato. O coração disparado retratou o alvoroço do impacto, e, até
porque sei o básico de eletricidade, corri desligar o disjuntor.
Há elétrons, correntes contínua e
alternada; e sei bem que bulir em fio desencapado dá choque. Já tomei muito
choque, com o pé molhado ou de sandália de borracha. E levar choque é de
arrepiar.
Deve ser simples trocar a resistência,
mas acho complicado querer me meter numa área que não domino.
Deve ser fácil seguir as instruções para
fazer a troca da resistência, só que eu me conheço, estou certo de que vou
errar a mão.
Ora, deixar desligada a força não vai dar
cabo do problema, o jeito, então, é chamar quem saiba consertar torneira
elétrica.
É melhor pagar a quem entenda do riscado,
faça o que tem que ser feito sem ficar enrolando e, o principal, não cobre os
olhos da cara.
Sem dúvida, a pessoa indicada é o Pedro.
O Pedro faz de tudo um pouco. Sem ficar
se gabando dos talentos, é jardineiro a quem precisa liquidar os pulgões nas
azaleias sem matar os crisântemos, é marceneiro que faz uma cadeira de balanço de
uma tarde pra outra, é serralheiro que reforma portão corroído por ferrugem antes
que a gente passe aquele cafezinho esperto.
Mas a qualidade que mais me faz
estimá-lo é a sua firmeza.
Não se espere dele que se travista de
conselheiro que a todos tenha um sermão unissex pra tudo. Inflexibilidade é a
sua fraqueza, uma vez que não lhe apetece transfigurar a sua discrição de
casmurro.
Em boa hora lembrei-me de Pedro, lamentável,
porém, foi saber de sua passagem, ocorrida há muito. Hesitei engolir que fora de
enfisema pulmonar ou câncer nos brônquios, porque nunca o vi fumando.
Não acredito nessas histórias que brotam
do nada. Aliás, a palavra de quem ataca sem fundamentar as críticas diz muito do
maledicente. Ora, que a flor da inveja seque por falta de saliva que a adube.
E o Pedro não merecia o tanto que o
achacavam.
Fulano achava gentil zombar das suíças
mal aparadas, não bastava ser Pedro, tinha que ser Pedro III. Galhofeiro
carrancudo, beltrano tinha que desmerecê-lo, apodando-o um qualquer Dom Pedro
III. Entretanto, a sordidez decrépita reduzia-o a Terceiro.
Pra mim, sempre será Pedro.
E eu digo o porquê.
Você entra numa loja e alguém pergunta:
“posso ajudar?” O Pedro não era desses, ele gostava de se fazer entender: “me
faça ajudar”.
A Pedro não ocorria a ideia de ter
permissão pra ser útil. Ficava feliz quando diziam o que queriam. Era mais que
atender a um pedido. Não era pra ficar satisfeito que vivia. “OK, tenho
consciência de que farei o que esperam de mim.” “Deixem comigo, sei que posso
fazer o melhor.” “Darei o melhor de mim.” Quanta barbaridade. A Pedro era
natural agir como instrumento.
Meu caro amigo, descanse em paz.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 20 de março de 2022.