terça-feira, 1 de março de 2022

Um minutinho

 

Um minutinho

 

Não tinha um minuto, dei-me um. Passando sem nenhuma pressa, resolvi parar um segundo para comer um pastel.

Não foi porque estivesse sem fome que fiquei comendo em câmera lenta, estiquei o minuto porque as mesas estavam bem animadas.

Enquanto a carne seca ia me deliciando, ouvir as conversas me fez querer o maior copo de garapa.

Saboreando aquele vento quente com açúcar gelado, para que não fugissem os detalhes, fui aguçando minhas orelhas de morcego.

“Hoje é o quinto dia da guerra. Santo Deus!”

“Hoje eu pago a última prestação do empréstimo. Ô glória.”

“Vai ter segundo turno. Será que vai?”

“Viu o vexame? O seu time está uma vergonha.”

“Domingo a gente fez churrasco. Que coragem!”

Não tinha nada que me meter em conversa alheia, não me meti.

ꟷ A sua menina melhorou?

ꟷ Que nada. Tem hora a febre abaixa, dali a pouco sobe de novo.

ꟷ Acho melhor você levar no médico.

ꟷ Vou mais tarde lá no postinho.

ꟷ Não brinca, não. Está tendo uma onda de virose, amiga.

ꟷ E eu não sei? Do lado lá de casa, todo mundo ficou mal.

ꟷ Nisso de não ligar, até a minha irmã que vive se enchendo de chá perdeu a manhã todinha no soro.

ꟷ Pode deixar, vou levar a menina assim que sair daqui.

ꟷ Leva mesmo, amiga. Porque a coisa vai ficando feia que a gente nem percebe. Começa com a barriga que não prende, daí que dá uma dor de cabeça que não passa de jeito algum, o pescoço fica duro, sem falar que nem água desce goela abaixo sem que doa um bocado.

ꟷ É, amiga, é mesmo uma coisa horrível.

ꟷ Quando a coisa é pra valer, a gente tem realmente que se cuidar.

ꟷ Eu sei, eu sei. Estou preocupada, sim. A menina começou a ficar ruim no sábado, mas estava chovendo e não quis arriscar que a saúde dela ficasse pior se ela pegasse chuva.

ꟷ Caramba, e ontem? Por que não aproveitou que era domingo pra correr com ela pro pronto-socorro?

ꟷ Ia ter reza em casa, daí que não achei como cancelar a oração.

ꟷ Que situação, amiga. Mas, nos momentos de prioridade, a gente tem que pesar a favor da saúde. O Senhor sabe que não é pouco caso com Ele. Ninguém está se desfazendo da Sua palavra quando põe na frente a urgência da doença. O Senhor sabe que uma pessoa fiel não menospreza a relevância dos Seus caminhos. Mas, amiga, pense com carinho: doente vai servir para quê? A gente tem que louvar a Deus de corpo inteiro. E corpo pra ser inteiro tem que incluir a cabeça.

ꟷ Eu tenho cabeça boa. Até fui tomar a dose de reforço.

ꟷ Ai, amiga, amiga. Não tem vacina que impeça de apanhar virose forte que vem de repente. Vacina mata só o corona conhecido. Quando tem vírus novo, como a gente fica protegida? Você entende onde quero chegar? Pessoa responsável sabe que não basta pôr comida na mesa, tem que brincar quando for pra brincar, mas entender também que não tem que deixar de dar xarope que seja amargo.

ꟷ Credo! Antes do dinheiro vêm os filhos, amiga.

Só abri a boca pra comer, beber e agradecer pelo troco.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de março de 2022.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Contagiante

 

Contagiante

 

Falo por experiência, o que não quer dizer que a vivência tenha me equipado a lutar por minha paz, o bumerangue da vida funciona assim: mando meus problemas pro inferno, eles desaparecem um tempo, mas voltam. Com a força que usei pra descarregá-los no mundo, voltam.

Apegados a mim, os aborrecimentos me descobrem pelo faro, pois transpiro medo. Queria me ver livre das complicações, porém o danado do cão do mundo sabe do osso pelo cheiro e sua fidelidade é mais que um rabo abanando. E há latidos, latidos bem altos, latidos de tão grande contentamento que fico ansiado.

Só que não tiro a gravata quando afrouxo o nó. Então, a carga volta com tudo. A coisa toda vem como se estivesse mais intensa, com maior poder de afetar um espírito como o meu.

Não vou negar que relaxado, alegre, satisfeito, à vontade, este meu bem-estar é fagulha que assa o cru, azeda o coalho, torra a mandioca, e me põe perdido, pois, mal-assombrado, tenso e triste, quero água.

Neste mundo cheio de incertezas, tem algo que não muda de modo algum: bumerangue não é treco chegado a quebrar expectativas: uma vez arremessado, retorna ao ponto do arremesso.

Não tenho mesmo como negar, sou uma figura.

Como tenho frente e verso, os meus problemas seguem as regras. Eles vão e voltam, batem na nuca. Pego de surpresa, já que não tenho olhos na nuca, fico atordoado, me desequilibro e tento não cair.

Fecho os olhos. Não olho pra baixo. Faço o que posso.

Nem sempre abismo cabe em caixa de fósforo. Caixinha útil é a que marca o ritmo. Um momento asfixiante perde pressão quando tem um respiro. E o alívio vem com um samba.

Quero o samba leve, que faça bater palma, que ponha as cadeiras pra balançar, que fale das tristezas, do coração partido em cacos, das mazelas do dia a dia, do almoço apertado pro sanduba de mortadela, da formiga cortando folha, de beija-flor namorando cravo amarelo, que o samba cante o fogo que pega tão logo a água evapore do graveto, e que peça por Momo.

Os baluartes de Momo passam. Bebem, cantam. Mijam nos muros, canteiros, fuscas, jipes e conversíveis. Vomitam vinho, vodca, cerveja. Vão passando, fumando charuto, cachimbo, cigarros. Tragam cigarros caseiros. Vão bebendo, fumando, cantando.

E apertando campainhas, eles avançam. Casa a casa, vão tocando campainhas. Gritam pra que venha pra rua quem está no escuro. Para que se perca o medo, gritam. Que a gente fechada no quarto vista-se com a alegria. Que a folia momesca ilumine quem vive nas trevas.

Vestidos de Papai Noel, dividindo garrafas, vão passando, gritando, batendo nas portas e janelas, forçando os portões, xingando correntes e cadeados. Toda gente tem lugar no cordão da cangibrina. Todos têm vez neste bloco de barrigudos do gorro vermelho.

Com tantos Karl Marx, Pedro II e Walt Whitman na galhofa do caco cheio, o jeito, crânio, é sumir debaixo da cama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de fevereiro de 2022.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Pula, caminha

 

Pula, caminha

 

Sempre que me vejo obrigado a realizar uma tarefa, isto é, quando o direito de não fazê-la me é tirado, fico bastante ranzinza. O suficiente pra ficar implicando com o mundo. Não que a implicância faça parar a roda do mundo, ela consegue atrasar apenas o que tenho que fazer. E ranzinza atrasado, vejo-me forçado a dobrar os esforços pra dar conta do que é preciso ser feito.

Ao estúpido, a batatada: se ontem o bocó não ficasse fazendo onda, a maré agora não seria lutar contra o relógio.

Subo e desço os degraus da escadinha. Subindo e descendo, baixo os livros pras caixas. Livro mais livro, vou passando a minha biblioteca pros volumes numerados. Apesar da mudança, pretendo minimizar os transtornos. Eu não quero ter mais trabalho do que desencaixotar tudo. Subindo e descendo, vou mentalizando, pedindo pra gastar somente a energia necessária pra voltar tudo às prateleiras.

Como sou mesmo um espertinho, não aprendo nunca com os erros. Já mudei muitas vezes e sempre fico torcendo pras coisas tomarem os seus lugares sem que eu tenha que intervir. Mas o mundo ignora meus mais nobres desejos, como se a voz da minha vontade fosse realmente inaudível, ou desencantada. Em outras palavras, como o universo não sabe de mim pelas virtudes que possuo, não alcançarei a redenção de uma jornada paradisíaca, maravilhosa, jubilosa.

Todavia, o caminhão virá. De acordo com o agendado, chegará. Por conseguinte, o futuro vai se fazer presente. Sem palavras que instruam a manipular a máquina do mundo, o amanhã vai se tornar hoje. De fato, sem a misericórdia da inércia, a realidade não conhecerá outro destino que não a de ver as portas do baú abertas às caixas e caixas de livros, que deverão ser ajeitadas considerando-se o estado de ruas, viadutos e rodovias, ou a mudança vai ser traumática.

Olho o que já fiz. Dos braços do L formado pelas estantes, só estão faltando um braço e meio pra encaixotar. Trabalhei pra caramba.

Sem dúvida, trabalhar cansa. E o torso suado pede pra parar.

Paro. Quero relaxar. Pego o violão. Dedilho.

Como nunca tive quem me desse aulas, sei que pressiono os dedos sem noção. Se as notas formam um acorde, é fortuito. Me importa é o ritmo, o som no ritmo. Só por curtição, vou tirando o meu som.

Este instrumento tem história, pois me acompanha de casa em casa faz tempo. Comprei-o quando eu fazia cursinho, nos anos 80.

Àquela época, recordo que o Gilberto Gil cantando Pula, Caminha me empolgou. Fiquei vidrado na música. De imediato, ela fez a minha cabeça. Tinha que imitar o Gil. Tirei o espelho da parede pra dispô-lo de tal maneira que me jogasse no palco assim que empunhasse aquele trem que nem o meu ídolo. Seria o máximo.

Ó vida, ó azar, ó quimera. Não virei nenhum cantor de rádio.

Pulo, caminho, não posso prosseguir parado, uma vez que os livros não entram nas caixas por conta própria.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de fevereiro de 2022.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Tudo ou nada

 

Tudo ou nada

 

ꟷ Você se lembrou de comprar a mistura do almoço?

ꟷ Tentei comprar. Eu juro que tentei. Porque a carne está um horror de cara, fui a três supermercados.

ꟷ Sei que está cara, mas por que não usou a cabeça? Você poderia ter trocado carne por ovos.

ꟷ Ovo aumenta o colesterol; isso é ruim.

ꟷ Ovo frito nunca me fez mal. Nem no tempo que pão com ovo era o meu almoço. E ralei um bocado só com pão com ovo na marmita.

ꟷ Sei... O chato que esse tempo bom não volta mais.

ꟷ Não era bom, nada. Eram dias terríveis em que eu não tinha mais o que comer. Sequer tinha um feijãozinho com arroz, nada além de ovo frito num pão duro, seco, amanhecido.

ꟷ Sério, era assim mesmo?

ꟷ Por que ficaria com história?

ꟷ Sei não. Talvez esteja querendo abalar meu coração para que eu pegue pena de você.

ꟷ Eu não quero que você sinta pena de mim. Só estou dizendo que pão com ovo enche a barriga sem que a gente tenha que gastar muito. O resto é luxo. E hoje está difícil inventar moda. Vamos ficar no que dá pra comprar, sem ficar se lamentando de que não dá para comer peixe na telha, lombo assado ou um frango a passarinho.

ꟷ Olha o colesterol, caramba.

ꟷ Nem preciso pedir. Você está sempre cuidando de mim.

ꟷ Sempre.

ꟷ Este é o problema. Você vive me impedindo de abusar de vez em quando. Essa marcação cerrada incomoda, deixa a pessoa a ponto de perder a calma, porque é irritante pra dedéu, caraca.

ꟷ Será possível! Querer o melhor é motivo pra briga?

ꟷ Não quero briga. Quero apenas curtir um momento gostoso sem que botem o dedo no meu nariz.

ꟷ Mesmo com você cometendo erro que poderia ser evitado?

ꟷ Mesmo que andando descalço eu pise num caco de vidro. Um pé cortado é só um pé cortado, e um esparadrapo resolve. Ninguém tem obrigação de me fazer calçar botina para proteger meus dedinhos.

ꟷ Você já disse, o dinheiro está curto. Então, se a pessoa sabe que o bicho vai pegar, é preciso ter cabeça boa e tomar cuidado.

ꟷ Parece que não sei. É uma chatice ter de viver sabendo que tem tanta coisa que não se faz. Mas não é sempre que chupar sorvete no sol dá dor de cabeça. Que triste correr trocar de roupa, pois pneumonia é amiga íntima de garoa. Ô infelicidade, para que abarrotar o armarinho com remédio, tem que saber esperar que o médico receite o antibiótico na hora certa, quando estiver realmente com infecção.

ꟷ Você está querendo dizer que exagero?

ꟷ Exagera. Não preciso de chá de alho só porque espirrei.

ꟷ É melhor remediar do que prevenir? Santa estupidez! Depois cai de cama e vai ficar dizendo que ninguém liga, o mundo é cruel e a vida seria muito melhor se tivesse quem se importasse com você.

ꟷ Quanto drama. Se preocupação rendesse alguma coisa, não teria ninguém mais rico do que você.

ꟷ Preocupação faz o cabelo cair, azeda o estômago e tira o sono. Eu, por mim, prefiro uma água de coco quando dá vontade.

ꟷ Água de coco, é? Você não faz ideia de quanto está custando um coco gelado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de fevereiro de 2022.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Luta livre

 

Luta livre

 

O zunido anuncia a presença, tem mosca voando. Ter asas não faz o bicho invisível, dá-lhe rapidez. Quando os olhos acham que estão no rastro, a danada está em outra rota. Ou seja, o zunido torna frustrante o olhar que não é rápido o bastante para pegar o tal bicho insolente na trajetória que o cérebro humano supõe traçar. Não adianta nada varrer a cozinha de cima a baixo, a mosca não se orienta por previsões.

Pobre homem, cujos olhos míopes não têm disparadores de gosma ácida que calcina bicho zombeteiro.

Em vão, a pessoa acha que tem como caçar a mosca apenas com o olhar. Nem que soltasse faíscas.

A raiva pode produzir espuma, mas espuma não vira rede de malha fina que pescador usa com agilidade nem fica armada no ar feito teia que sintetiza o orvalho da alvorada em prisma à luz do sol.

E não se conhece inseto algum que não adore badulaque reluzente que pareça saboroso?

Zumbido é mosca se coçando de rir de algoz incompetente?

Não tem jeito. Uma vez irritado com o barulho, tem que dar cabo do inseto ou o ruído amolador deixá-lo-á ainda mais amofinado.

Quisera a mente pudesse dar fim à barafunda, parando-a milésimos de segundo antes de os dentes rangerem. Sem ligação com o rangido excruciante, o voo é interrompido. Pelo lado bom, o silêncio adia a fúria; pelo ruim, não significa que facilite a localização da mosca pousada.

E a coisa só piora.

Com o olho cheio de pressa, o homem mostra que agir como se um terremoto fosse iminente só degringola o já precário. Lento, ele nem vê por onde diabos a mosca passa; estabanado, roda que roda que acaba suado e zureta em vez de frio senhor da razão.

Quanto mais demora matar a chata, mais o homem desconfia de si.

Chistoso, o inseto zune sua audácia no ouvido do néscio que já não está seguro do seu poder de cabeça comandante de músculos.

A mão do homem sente a comichão de um tapa se fortalecendo, se erguendo dos vazios da carne, se tornando um míssil programado para liquidar asas, olhos e antenas.

Essa mosca tem antenas que só uma mente apurada pode ver.

Esse bicho feio, que das borboletas sequer tem a leveza das flores, esse ser horroroso tem mais é que levar um murro bem dado na fuça.

Entretanto, engana-se o fustigado quando pensa que tal exorcismo desproporcional mandará pro espaço essa criatura, pois a endiabrada morrerá de fato com um tapa poderoso.

O poder do tapa não está na velocidade, está na agilidade; não está na potência, na precisão; nem na insistência, está na diligência.

Afrontado, que este bicho-homem tome pulso da situação, não cicie nem ronrone, segure-se da afobação, que o ato supremo leve ao êxito, à culminância, à derrota do asqueroso.

Por temer o próprio tapa, enfiar a mão em quina, quebrar um copo, cortar-se num caco; ao ver-se, entretanto, livre da inteligência turva dos parvos, abre a porta do quintal e um pardal fulmina aquele mosquito.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de fevereiro de 2022.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Uma alma honesta

 

Uma alma honesta

 

Devera, sei que não se lambe os dedos com a criançada vivamente interessada no pote de gostosura, mas, como não estou a fim de perder uma lambuzadinha, viro de costas.

De maneira alguma vou entrar nessa de fingir que não gosto: enfio a mão no sorvete e mando ver. Lambo com entusiasmo que pareço um cara amalucado. De tão delicioso, grunho de prazer.

Sei qual é o papel. Preciso ter cuidado, pois não pretendo servir de exemplo. Seria um exemplo péssimo. Para quem lamber-se diante de meninas e meninos é absurdo injustificável, agir assim não é coisa de criança mimada, é palhaçada de adulto pirracento.

Quem se faz de infantilizado apenas pra injuriar merece o desprezo de quem sabe se colocar na pele do outro. A essa gente não deve ser fácil se travestir de indomável, ver-se condenada à piedade.

A maioria dos presentes na festinha não quer o papel de vilão, fazer o quê. Se tem lição que precisa ser passada a quem carece aprender, que a pirraça ensine o quanto a vilania pode ser vergonhosa.

Não contava com o desdém entrando no figurino?

Tudo certo, a carapuça cai bem em mim. Porém, estar em cena não basta, é justo querer aproveitar. Por isso, uso meu corpo para esconder o pote de sorvete que estou atacando sem pensar em remorso.

Lúcido, por brincar com dedos e língua, não ignoro a revolta.

Estou para ser tocado porta fora. Só que nem comi do bolo que tem cara de estar uma delícia. Seria decepcionante não cantar parabéns.

Entendo a maldade, a deles e a minha.

Preciso disfarçar as demonstrações de volúpia.

Compreendo, causo choques de indignação.

Acordar o lado menos resignado às boas maneiras horroriza quem não se conforma comigo a lamber os dedos.

Todavia, não me peçam um real para comprar mais sorvete, porque não darei nada. Não me chamaram pra festa? O fato de ter dinheiro no bolso me permite agir da maneira que ajo.

Sem papas na língua, não tenho como negar que gosto de sorvete e que me lambuzar não é coisa rara. Assim, não me envergonha expor que sei viver satisfeito da vida com prazeres banais, acessíveis a quem queira senti-los.

Se pretendo chocar? Não é pra causar dor em quem deseja fazer o mesmo que estou fazendo. Muita gente, contudo, reprime o que quer, porque ficar lambuzada é coisa feia.

Eu não fico sofrendo, uma vez que, na realidade, não tem o que me faça gostar de sofrer. Também não penso que a dor motive ninguém a mudar sua visão de mundo.

Em outras palavras: durmo cedo, porque não sou de amanhecer na gafieira; acordo com o galo porque preciso suar a camisa; não reclamo que o sol brilhe numa hora errada; devoro o pote de sorvete até lamber os dedos, pois não sou de refugar o que eu gosto.

O resto é chororô.

Como gosto de coisa direita, não nego que o mocinho está careca de saber que a criançada não tem que ficar chupando o dedo.

Acredite: honestidade implica mesmo que seja dita a verdade.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de fevereiro de 2022.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Folgado

 

Folgado

 

Não prestei atenção às horas quando vim me sentar. Vim pra tomar leite. Deu vontade, vim. Sem ficar encasquetando, bastou querer. Pois vim, me sentei e mais nada. Quis e vim, uma vez que vontade dá sem hora marcada. Parece febre durante a noite, vem sem impor condição; ou melhor, no momento que acha de pegar na gente. E que se dane o mundo. Danei-me que vim, e sem tempestade em copo d’água. Vim, e fui enchendo o copo devagar até deixá-lo pela metade.

Pois é, tomando leite me pego a pensar que posso fazer o que estou fazendo, porque tenho calma. Calmo nem percebo que ignoro por qual razão quis beber. Bebendo calmamente, ganho um tempo pra mim.

Sei, é coisa de estúpido ficar sentado sem fazer outra coisa que não ficar bebendo leite.

Talvez pensando na vida, sem querer.

Pensando na vida, porque a morte não me encanta. Por isso, prefiro não pensar nela nem por descuido. Quando sobra tempo, aí a tentação de matutar sobre abobrinhas aumenta um bocado. E eu prefiro.

Serei sincero. Costumo achar desconfortável pensar na morte, seja a minha ou a de outrem. Me dá uma angústia que desassossega. Bem agora que estou só, sentando as minhas nádegas na madeira dura de uma cadeira vagabunda, gostaria muito de estar conversando sobre o sol, a chuva e o casamento da viúva. E falar de casamento me diverte, pois nunca me casei.

Por querer, confesso a sinceridade, a vida é muito mais divertida quando se tem tempo pra casar o sol com a lua.

Portanto, concentro meus pensamentos em como é bom tomar leite sem sair correndo porque tenho um mundaréu de coisas esperando. E tento pensar positivamente, porém me ocorre a ideia de que tem gente, e muita gente, que não toma leite, por alergia ou falta de dinheiro.

Procuro não fazer drama. Vim tomar leitinho, porque deu vontade e pronto. Bebo sem pressa. E é com gosto que bebo meu leite gelado.

Gosto de leite fervido. Mas, não sei explicar a minha preferência por copo de vidro. Fervo o leite e esqueço o copo. Chego a fechar os olhos. Ponho o tanto que gosto, o copo pela metade, e espero. Se sei esperar, é porque gosto de leite. Bebê-lo quente, sei que a temperatura alta dá despistes na língua. E que o leite não perca o que tem de melhor.

O importante, portanto, é estar em paz consigo, é ir vivendo um dia de cada vez. Sem passar o carro à frente dos bois. Sem desculpas pra quando melancolias tomarem as rédeas. Já viver em desalinho consigo afeta tanto a alma que gera intolerâncias.

Sei que não estou pedindo muito. Não sou de pedir muito. Entendo, quero somente ir adiante. Não se espera que haja mágica: um copo de leite ajuda a ir em frente, porque sustenta bem, nem empanturra.

Ao léu de mim, a favor de curtir um instante de tranquilidade, a vida tem desses fluxos, umas ideias de querer viver à vontade. E fico numa boa, até quando estou tão à vontade.

E gozo de beber leite num copinho de requeijão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de fevereiro de 2022.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Assim não vale

 

Assim não vale

 

O dia é realmente encantador. O sol brilha. Maritacas cruzam o céu. Nuvens boiam no firmamento esplendidamente azul. Embora pudesse ser incluído entre os encantados do dia, falta ao homenzinho avaliar o tanto de dor que o faz indiferente às maravilhas da hora.

Caminhando cabisbaixo sob as copas de uma fileira de arbustos na calçada esburacada, ele não pensa que toda pessoa ajuizada tem que olhar pro chão o tempo todo pra não acabar pisando em falso.

Com a grana curta, é mais do que prudente evitar tombos ou viradas de pé. Não que seja imprescindível à sanidade, mas ao bolso é. Afinal, gastar com analgésicos e anti-inflamatórios não é conveniente a quem faz meses pode apenas zanzar sem destino definido.

Aliás, fundamental é conservar a cabeça boa o mais que possa. Pra pegar no sono quando pretender dormir. Pra não ficar pulando da cama só pra ter certeza de que as lâmpadas estão mesmo apagadas.

Depois de ter as luzes apagadas e a televisão desligada, só depois de verificar que não tem bugiganga gastando energia à toa, é só depois da descrença confirmada que ele sai de casa.

E vai andando a esmo. Vai por aqui, entra por ali. Passa deste lado pro outro. A rua segue no leito. Os automóveis não voam, sequer a sua mente cria asas. Corvos voam. Os varredores continuam trabalhando, vão enchendo o carrinho de lixo. Há tanto a ser feito. Ele ziguezagueia, contudo nem fica atormentado com a falta de norte. Como o cheiro bom o atrai, ele troca moedinhas por café.

O cérebro sabe que asas são membros de pássaros assim como a capacidade de hibernação é de ursos. E todos os ursos hibernam, até os polares. A informação é processada pelo cérebro ou pela mente?

Quando a informação é nova, faz-se urgente uma análise. Para que a veracidade do conteúdo seja verificada, com aprovação ou rejeição.

A mente torna vulnerável o corpo que mais pensa que observa seu entorno. Nesse momento de fragilidade, fique enfatizado que não é um instante de fraqueza, nenhuma instrução deve ser dita, porque haverá confusão. Como se a boca pedisse pra seguir andando mas os ouvidos entendessem pra interromper o passo. Havendo conflito, há tensão; e, sem escolher como agir, há paralisia.

Nisso uma pomba passa rente à cabeça.

Com uma das mãos segurando firme um arbusto, desconfiando de que poderá se desequilibrar com o vento, o homenzinho ergue a perna para poder averiguar as condições do tornozelo.

A moça sentada no meio-fio se lamenta de dor no joelho direito.

Por sua causa, o antebraço direito machucado da moça sangra. Ele foi pro asfalto. Mais preocupado com a pomba, ele torceu o pé ao pisar numa garrafinha de água. Ele deu uma bicuda na garrafa, que foi bater na ciclista, que, assustada, freou bruscamente e teve queda imediata.

Que tristeza de vida. Sequer o cafezinho frio de esquina tem poder sobre urucubaca braba.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de fevereiro de 2022.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Nua e crua

 

Nua e crua

 

Você indo pela calçada quando mais à frente vai caminhando uma figura cujo jeitão lembra muito um amigo seu. Sem pensar, você chama pelo nome; a pessoa, no entanto, continua indo na dela.

Como o barulho da rua está bem alto, deve ser por isso que o sujeito não tenha escutado, pois qualquer um teria a curiosidade de virar para ver quem estaria chamando.

Você grita o nome, espera e, todavia, insiste. Afinal, não é possível que aquele velho amigo seu tenha ficado surdo desde a última vez que se falaram. E isso está fazendo o quê, duas décadas?

De tanto fazer alarde, você consegue a atenção do camarada. Ele finalmente se vira, mas teria sido melhor se continuasse indo em frente.

Seu amigo fez plástica.

Com o pasmo de vê-lo mudado, você olha para trás a fim de saber quem estaria fazendo tanto estardalhaço. Contudo, além de você, não tem mais ninguém provocando embaraço, e agindo feito criança.

É batata... Você não tem como disfarçar o desconforto de descobrir que justamente alguém que tinha em alta consideração, pois fizeram a primeira comunhão juntos, fosse pregar uma peça dessas.

Fazer mudanças no rosto sem nem mandar pelo zap uma foto com a nova cara chega a ser um ato de traição à sua confiança. Ele poderia ter pedido o seu número, pois você nunca se negaria a dá-lo.

Como fica a amizade que sempre imaginou que era transparente?

Sim, você está decepcionado. É frustrante encontrar outra pessoa vivendo em quem você jamais tinha pensado que poderia fazer aquilo, virar um estranho de uma hora para outra.

Quanta deselegância. Quanta falta de apreço.

Sorte sua saber se virar nos momentos de crise: se a angústia bota a cara na janela, você respira melhor com as cortinas fechadas.

Pensando bem, coloque-se no lugar desse que vai andando como se nada de anormal estivesse acontecendo. A pessoa mais indicada a dar explicações para ter torrado uma fortuna na transformação radical da própria aparência é ele, apenas ele.

Você sabe, não é nada fácil acordar cedo todo santo dia, pagar caro pelo pão que o diabo amassou e ir dormir com a barriga roncando.

Viver não dá folga a quem se esforça.

Você quer fazer o melhor. Você se dispõe a tomar para si as dores do outro. Você sabe que nem todo mundo está pronto para escalar as colinas que a vida vai colocando no caminho.

Subitamente, sem que precise parar, compreendendo com clareza o que tem que ser feito, você grita o nome que um dia um velho amigo usou como se fosse a chave mestra de portas e portões.

Então, desconfiando que o homem esteja a fim de enfiar a mão na sua cara, notando que aquela hostilidade pode estar relacionada com boletos, achando que a antiga aliança está morta naquele olhar de cão raivoso, precisando esclarecer tudo, mostrando que não tem medo de encarar a verdade, mesmo que tenha de estabelecer outros elos, você quer mais é se expor:

ꟷ Tem horas?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de fevereiro de 2022.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

O pão

 

O pão

 

Até que lhe pediu um pão, não tinha reparado naquela mulher. Mas a outra, a que acabara de ligar o alarme do automóvel, não olhou uma segunda vez, que o silêncio fosse loquaz o bastante como resposta à esmola pedida de modo tão impróprio.

A mulher que pedira pão à mulher que entrou no supermercado sem lhe dirigir obscenidades não esperou muito, porque um homem desceu sem pressa do carro estacionado de modo muito vagaroso.

Desta vez ela foi ouvida. Antes não fosse, porque o homem que não lhe deu dinheiro gritou que essa gente vagabunda deveria mesmo era morrer de fome.

Um homem saía do supermercado, parou, pôs as sacolas no chão, tirou dinheiro da carteira e entregou-o à mulher, que nem lhe disse para que iria servir aquela esmola.

A mulher agradeceu; sorrindo, o homem meneou a cabeça, pegou as compras, atravessou a rua e foi calmamente pela rua afora.

Sem perder tempo, a mulher entrou no supermercado, foi direto ao balcão da padaria e pediu que lhe fosse vendida a quantidade de pão até o valor da nota, que exibia na altura dos olhos da balconista.

Com um nada discreto pegador de aço inoxidável, a funcionária que trabalhava no balcão da padaria foi colocando pãozinho por pãozinho no saco de papel que tinha a mensagem “qualidade em primeiro lugar” sob a logomarca da rede de supermercado.

Assim que a balança mostrou um valor acima da nota exibida pela mulher que trajava puídas roupas ensebadas e estava recendendo a bodum de urina com suor, a balconista resolveu calçar um par de luvas de plástico transparente para retirar o peso que fosse necessário para que o limite não fosse ultrapassado.

Já o pãozinho a mais foi colocado de volta na grande cesta de pães.

Preocupada em ser simpática com a primeira pessoa que estava na fila atrás da mulher malcheirosa, a balconista foi logo lacrando o pacote com a etiqueta emitida pela balança e, como era obrigada, ela retribuiu o bom-dia dito pela mulher que empregara a esmola para comprar pão.

Como queria sair rapidamente do estabelecimento, a mulher com o saco de pães foi para o caixa que não tinha fila, entregou o dinheiro ao funcionário, pegou o troco e, já saindo do prédio, jogou fora a sacola.

Do outro lado da rua, sentada debaixo de um ipê amarelo, a mulher guardou as moedas do troco na bolsinha de pano que tinha sob a alça do vestido no ombro esquerdo.

Para não ter o saquinho danificado além do que fosse preciso para abri-lo, ela rompeu o lacre utilizando o indicador como espátula de abrir envelopes.

Sem frescura, a mulher partiu o pão, mordeu o pedaço, mastigou-o e um gole d’água ajudou a engolir o tanto que tinha mastigado. Ela foi repetindo aquilo tudo, cada uma daquelas ações, até que não sobrasse pão algum. Atirou o saco amassado. Então, a mulher bateu das roupas as migalhas. E foi limpando a boca com uma das mãos que, entretanto, lhe escapou um arroto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de fevereiro de 2022.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Putisgrila

 

Putisgrila

 

Depois de uma discussão política que não vem ao caso, na manhã de antes de ontem levei a minha fé na ciência tomar vacina, e, pulando o azucrinante da vida que é quitar contas e beber dois litros de água ao longo do dia, houve um dos previsíveis resultados: virei ameba.

Não uma ameba vulgar, catalogada em manuais de biologia, pois o bicho que me pegou tinha um quê de monstruoso. Sim, acabei virando uma ameba com consciência e sentimentos.

Viajante no inferno, todavia não sou fã de viver em coortes, mesmo nas invisíveis a olho nu, que ameba é microscópica representante dos inframundos, então, o corpo foi na onda da cachola: dramatizando.

O drama da rejeição aos corpos estranhos nas veias?

Queria entender o processo. Quis racionalizar o que vivia. E não me queria vestido de vítima, que o mal-estar prevalecesse durante a minha adaptação à novidade de antígenos no sangue.

Meia noite, por conta da febre, não fui pé ante pé até a cozinha atrás de paracetamol. Era outro o remedinho porreta que me convenceria de que as minhas roupas ensopadas não modelavam sexy este corpinho.

Ridículo, eu sei. Não dá para caminhar e analisar a caminhada sem enxergar as paredes; tateando-as, eu poderia me impedir a travessura de resvalar, apenas resvalar e não bater, a minha cabeça nas paredes do corredor às escuras.

Se faltava paracetamol, sobrava cerveja.

Certo de que o mal-estar se tornaria irrelevante se bebesse de gole em gole, beberiquei com gosto.

Contudo, a afobação de pegar outra lata deu a clareza de que entre as paredes da caixa craniana e a meninge o papo era azedo.

Ora, ora, o quão maravilhosa é a sabedoria da ignorância. Faz bem quem esquece dos males alegrando-se com o que tem à mão.

Compreende-se a importância de tomar uma cervejinha quando um corpo, ainda mais este corpo já cinquentão, reage de acordo com o seu estado natural. Com o meu produzindo anticorpos necessários ao bom combate, conforme o estipulado pelas leis biofísicas, a isso me tocava experimentar da forma menos bizarra que valorizo: curtindo.

Bebi uma, bebi duas, bebi todas. Todas as que aguentei, é claro.

Sábia como sempre, a febre ignorou o uso embasado no melhor do empirismo patafísico.

Realmente, a mim me pareceu que bebendo cutucaria os demônios da insurreição às apoplexias mais bestas.

Suei, suei, suei, e tanto suei que até desisti das geladinhas.

Suado e gemebundo, corri botar logo os fones. (Porque a realidade dói menos quando não se lhe dá ouvidos. Surpreenda, Spotify!)

E soou a marimba de Anne-Julie Caron a serviço do Astor Piazzolla das 5 Piezas, mas o couro da cadeira do papai continuava pegajoso.

Oba! G-Spot Tornado do Frank Zappa tocada por Valérie Milot me fez esquecer a vontade de urinar.

Apaguei.

Sussurro pantanoso, o sono recobra: o mijo quente, fedido, amarelo escuro, espesso e baço será de jacaré.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de fevereiro de 2022.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Cuidado com o cão

 

Cuidado com o cão

 

Depois de jantar, imprestável pra ler, indisposto pra música, espero que o sono venha. O cansaço nem me pede argumentos, porque estou um bagaço. Sem necessidade de convencimento de que uma semana de realizações, felicidades e saúde para dar e vender deixou-me nesta prostração que não me engano: eu sinto que este estado lamentável é tanto que nem posso me lamentar. Estou realmente um caco.

Sem força pra pensar em desligar a TV, afinal sigo distraído de mim e da realidade do mundo. Estou desinteressado, e tem ruídos de fundo. A voz da moça vindo, a voz do moço indo; voz fina, voz grossa: o tédio murmura. No entanto, cansado, modorrento, pesado, incapacitado pra raciocinar, nem penso que estou desequilibrado, que muita indiferença decorre das frustrações em série, que os tempos andam tristes.

Trancado em casa, as cortinas corridas, a luz da sala acesa, tenho a estupidez a me afundar no sofá. As lâmpadas continuam acesas pela casa toda. Não olharei quem passa gritando que a chuva está gelada. Chove, nem tinha reparado. Sequer a hora me interessa, contudo o Big Ben que herdei de vovô soa as sete badaladas da noite.

Por falta de coisa melhor para fazer, aumento o som porque passam uma criança pedindo uma pá. Houve água de enchente subindo pelas paredes da sua casa, das casas vizinhas, do bairro inteiro. Na periferia, excluída da ilha central, houve o verão de sempre, houve água e barro e destruição e aflições e muita indignação.

Embora tenha visto tantas e tantas enxurradas mal curadas, anoto o nome daquele garoto. Sublinho o nome. Adenso as formas do escrito com a esferográfica. Dou ênfase ao traço forçando a mão.

No agudo do momento, acordo da sonolência crônica; que o fim de mais um dia não vença a minha vontade. Não quero deixar pra depois. Como quero que seja agora a vez da solidariedade, vou ao micro.

Busco e encontro. Leio páginas e mais páginas. Há tanto material sobre tragédias e superações. Tantos são os exemplos de como dar a volta por cima e continuar vivo. Tantos os infortúnios a que nossa gente segue sobrevivendo. E por muito ler as histórias do povo socorrendo o povo, ocorre-me a palavra resiliência.

Resiliência, pronuncio-a, experimento-a outra vez. É um pedregulho na boca, é abstrata. Uma vez que toda calamidade não deve ficar para depois, forço dizê-la até senti-la ferida.

E a chuva me ultrapassa. As chuvas vêm e vão. E a previsão aponta sol forte, muito calor e chuvaradas. Modelos calculam as formações de nuvens e a força dos ventos. E temporais caem, elevam-se rios, águas enchem ruas, arrastam carros, afogam ratos, derrubam árvores. Vidas são devastadas, arruinadas. Por que essas águas matam?

Quando soterradas, pessoas pedem socorro, podem ser escutadas, devem ser salvas. Portanto, é preciso ter cuidado com o cão que sabe o resgate não só pelo faro.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de fevereiro de 2022.

domingo, 30 de janeiro de 2022

O linguarudo

 

O linguarudo

 

Desde que o mundo é mundo, sempre tem quem apareça cheio de novidades. Esperta que só, tal pessoa atingida pelo raio da sabedoria ganha audiência porque a sua arte está em ir pondo pitadas pitorescas até no cochilo depois do almoço.

A pestana não chega a extirpar da alma estranhamentos, tanto que os olhos deixam-se possuídos por uma fatia de torta holandesa; ainda que continue intacta, no limite da obsessão, ela desaparece.

Sem nenhum garfinho, lambendo-se nos beiços, a guloseima entra no circuito nervoso. Faz a eletricidade do prazer pegar em correntezas, as que sobem ao coração e as descarregadas pelo cérebro. Sem tirar nem pôr, a língua saliva de felicidade.

E a boca quer outro pedaço. Não é gula nem é vício, a boca entende que é tortura ficar esperando outro bocado. Afinal, uma torta holandesa merece condicionar a ideia de ser saborosa até em pensamento.

Contudo, há vida; e vida depois de uma torta holandesa saboreada por uma mente deliciada é bem outra. Há o abismo da escassez.

De repente, o mundo parece ainda mais cruel quando a torta falta.

De fato, criar um mundo menos abjeto exige mais de quem se pega querendo transformar a fraqueza da carne em fortaleza da mente.

É certo aumentar a confiança de quem se põe a pensar ideias que não agradam. É bom diminuir o barulho pra que seja captado direito o que incomoda. Enfim, tramando para que tal sensibilidade dissimulada venha à tona sem as névoas da covardia, intua-se o alumbramento de que o desejo segue sendo senhor de si.

Sim, a autoridade do medo escusa ser reconhecida legítima. Quem acha que domina o que sente pode se gabar um legítimo representante da razão, todavia não passa de mero espalhador de vento.

Todavia, voltemos.

Desde que o mundo é mundo, andará no caminho do conhecimento quem se der ao trabalho de encadear os eventos como fatos. Vem essa ideia à mente alvoroçada: aquele bicho que olhava sombras não soube juntar o sol esplêndido com a vida projetada na parede? Na sequência, a matraca traz notícias de outro mundo, do mundo iluminado pelo fogo brilhando no céu. Se o sol existe, por que a pele está molhada?

Como a curiosidade dá ânsias para sondar o desconhecido, alguns arriscam botar o nariz para fora da caverna. Desses indomáveis, muito menos gente aposta colocar a cabeçorra sob os raios de luz que vêm lá do alto. Finalmente, os raríssimos gatos-pingados comem dos frutos, nadam nos rios e fornicam na relva macia.

Este mundo é mesmo muito ordinário.

A vida moderna é bem melhor do que a dos cavernícolas ignorantes da própria sombra. Hoje não precisa fazer fogueira, porque celular tem lanterna. Nem precisa correr atrás da torta holandesa de cada dia, pois entregador atende por aplicativo. Aliás, nem convém andar com grana no bolso, pra não rodar na esquina com a cuca pilhada de açúcar.

A beleza da vida pesa na gente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Vento solar

 

Vento solar

 

Zanzando por aí, ganho abraços de amigos da velha guarda, gente da minha idade, um pessoal que adolesceu nos anos setenta, é patota que sabe dizer o nome dos três patetas sem recorrer à Wikipédia.

Que experiência boa poder abraçar uns e outros sem a angústia de desconfiar, sem recusar as demonstrações carinhosas de afeto. Prefiro abraços calorosos a constrangimentos boçais.

Que delícia encontrar pessoas que elogiam quando recebidas com elogios. Que maravilha saber que podemos compartilhar alegrias com entusiasmo, que sobrevivemos ao pandemônio causado por um vírus. É muito bom seguir vivo apesar do cotidiano insistir em inocular em nós uma torrente de infelicidades.

Ter sobrevivido ao medo me autoriza a mudar de calçada ao avistar quem vem sem máscara. Sobrevivente, não faço drama algum ao virar as costas a quem vive a azucrinar as vacinas.

Condescendência não me fortalece e o que não fortalece deixa-me triste. E ficar reprisando um filme hediondo tantas vezes visto é burrice. Prefiro receber beijinhos a ter que denunciar velhacarias.

Com astral lá em cima, nada macambúzio, eis que meu cérebro vai abrindo janelas a cada cumprimento amistoso. E o ar flui, a brisa dá a renovada necessária, e o ambiente fica mais agradável, com muita luz, menos tóxico. Porque as tristezas derrubam e prostram, delas eu quero distância. Eu ando feliz da vida. Naturalmente contente, aliás.

Atualmente, quero muito ter distância de pessoas de mal com a vida porque, depois do susto da doença sem controle, quero manter o foco no que for positivo para todo mundo, exclusive os velhos babacas.

Estou de bem comigo. Penso nas borboletas polinizando laranjais. Imagino filhotes mamando. Mentalizo bagres limpando o leito dos rios. Tenho o dia todo para seguir desejando que o dia prossiga bom.

Como eu não quero discutir que o ar mortiço de ambiente fechado intoxica, mofa e repele quem gosta dos espaços aprazíveis, arreganho as janelas.

E o vento gira as pás, o moinho produz a farinha, a moagem reduz a pó o que é milho. Sendo ainda milho na substância de sua essência, o grão tem transformada sua existência, feito fubá. E fubá vira polenta, broa, torta, bolo. Gosto muito de angu. Então, o vento destrói a matéria, transfigura-a, dá-lhe outra condição e, nessa nova configuração, segue sendo alimento a quem tem fome. E há que se digerir com o estômago que se tem. No fundo, o milho sempre serve para fortalecer corpos.

E como não hei de pipocar...

Embora soe uma fantasia absurda a quem adepto do realismo, cuja prédica fundamental diz que é razoável evitar comparações aleatórias, porque a maioria das pessoas quer entender, compreender e repassar o que lhe dizem sem parecer confusa, enfatizo que não dá para reduzir a beleza solar da vida a cheiro azedo de milho de lavagem que o vento escarra na minha cara.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de janeiro de 2022.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

A gorjeta

 

A gorjeta

 

Como prezo a paciência, não refreio o ímpeto de dar cabo de inseto que vem sugar sangue. Ora, antes ele morto do que eu irritado.

Outro dia, veio pernilongo fazer gracinha nas minhas pernas. Levou tapa, foi zonzo ao chão, fulminei-o de sola.

Ao lado do morto, achei cinco centavos. E poderia ter mais. É como diz o ditado: a sorte faz o sortudo; moeda com moeda, o rico.

Como a lucidez dos atentos ensina a ouvir as ruas, não tirei os olhos da calçada. Fui andando lento, nem que encontrasse apenas migalhas. Por intuição, eu sabia que estava na trilha da fortuna. Boa, e muito boa, nem me pus a duvidar do quilate da minha lavra, e fui projetando uma escultura com os excrementos da sorte.

De modo algum que iria descuidar da escuta, nem por miado fortuito nem por freada bruta. Sendo homem que acredita em muito do que diz o povo, segui, calado e confiante, à cata da mina. Vi baganas, também vi tampinhas e, alegrando-me com minhas esperanças, fui prevendo o ouro relinchando um futuro menos sombrio.

Não estava perdido, certo de que minha mente, como a de qualquer outro, tinha o poder histórico de produzir boas notícias, ia desejoso de uma felicidade construída apesar dos acasos. De fato, sentia os meus pulmões fazendo subir mais e mais aquele monumento de indiscutível valor. Mango a mango, lavando o meu espírito com a arte da boa ação, com milhares de moedas desemporcalhando o caminho.

Como não deixaria pra outro o que eu poderia fazer, ainda que haja tanta dispersão nas ruas, não desistiria de separar e recolher moedas.

Por temer ficar suando em bica, a minha boca secou. Precisava do refresco de uma sombra. Perto tinha uma pracinha e, sob as árvores, eu queria beber um suco. Sabendo que tomaria uma limonada gelada, ainda que desabasse o temporal, eu ia lento, atento, e ia sem medo.

O mormaço era de tempestade. Mesmo que a chuva fosse intensa, a ideia de ficar onde estava foi crescendo em mim. Carregado de folhas secas, o meu cansaço dizia que a natureza tinha ciclos. Entretanto, sou fraco. Tenho essa fraqueza de ver as copas ressecadas, ainda que não estejam. Penso como idiota, um triste e fraco idiota que vê estabilidade no desespero, todavia a primavera virá.

Luisinho apareceu. E uma vez aparecido, disse que a máquina de lavar pifou de repente. Como quem faz não fica contando papo, o rapaz foi ágil: desmonta daqui, aparafusa dali e o troço voltou a funcionar.

Com a lava-roupa novinha outra vez, Luisinho sugeriu um desconto porque pagaria à vista, só que o moço dava garantia do serviço feito. Embora não pretendesse ofender quem sabia o justo pelo tempo gasto no conserto, Luisinho insistiu no choro camarada.

Obtido o abatimento, a bondade em pessoa tratou como generosa gorjeta a quantia abatida que foi reposta ao valor pedido inicialmente.

Caramba, isso não é ridículo nem mesquinho, é brilhante.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de janeiro de 2022.

domingo, 23 de janeiro de 2022

O décimo segundo

 

O décimo segundo

 

Se a vida fosse um jogo, teria regras. Porque, sem regras, não seria simples determinar se há vencedor, ou mais de um, quando a disputa acaba. Aliás, sem fixar o fim, e consequentemente definir as posições de cada jogador, acarretaria embaraços e confusões. Note-se que não se está sugerindo injustiças ou erros de julgamento, aponta-se que há começo e fim ꟷ tais salvaguardas admitem emparelhar vida com jogo.

Aceita a brincadeira de dar à vida o sentido de uma partida, que se faz ludicamente mórbida quando a contenda considera integrantes: os tolos que se matam de trabalhar a troco de merrequinhas de nada; os pacóvios que entregam o que não têm a quem não recusa ter mais do que tem; e os inocentes que sentem que precisam bandear-se para os bobocas com câimbras dolorosas que lutam pra nunca deixar a peteca cair ou brigam para serem vistos como gente que gosta de se lambuzar enfiando a mão na cumbuca alheia.

Pois é, fala-se da imparcialidade do jogo como se não houvesse um determinismo cruel desde o nascimento. Sim, há certos joguinhos que ludibriam pela leviandade desde o berço, que são os que escondem a carta na manga porque trazem marcadas as cartas, todas elas, desde a seleção dos felizes perdedores escolhidos a dedo para cometerem o erro de pensar que jamais deixarão de perder.

Naturalmente, vence quem não conta com a sorte pra alcançar uma vitória consagradora, porque pode manipular sem parecer estar agindo como se a neutralidade estivesse instituída de antemão, com as regras indo pro papel como instruções estabelecidas pro jogo limpo.

Como a honestidade pede, nada mais cristalino do que avisar quem pode ganhar no final. De todo modo: quem pode, ganha mesmo; e não precisa fazer muito esforço; com um pé nas costas, sagra-se vencedor quem calça luvas de pelica pra lidar melhor com batata quente.

Muito bonito ficar falando assim, da vida feito jogo, mas que jogo se estará imaginando? De xadrez, com sua malha fina em que peões dão o sangue ao bispo que parte pra cima bradando lealdade ao trono real? De damas, com os seus ziguezagues que dão tontura mal a gente veja que jogou fora a chance de um baile menos indigno? De truco, que não faz conta de querer controlada a gritaria bestial de seis, nove, marreco! Ou se está propondo uma pelada em que a bola nossa das divididas é sempre a favor da zaga truculenta?

Para evitar que a bola se perca pela linha de fundo, estrile-se o apito pro intervalo regulamentar. Sim, é bom ter um tempo pra respirar, ainda mais com a camisa já pesada, bem encharcada, tão calorosa.

Dá um nó nas tripas ter de dividir o ar com quem chama o tira-teima apenas pra confirmar que a jogada besta só serve para detonar a infeliz da nossa equipe.

Justiça seja feita a quem leva vermelho sempre no banco: nada tem de esportivo ter de contar até dez atuando na cancha adversária.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de janeiro de 2022.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Momento crítico

 

Momento crítico

 

Fiz algo simples. Não o fiz por escolha ou pela recusa ao poder de decidir o que faria: eu simplesmente apaguei a luz.

Tendo apagado a lâmpada da sala, quis ir à geladeira; também me propus que chegaria lá sem esbarrões nem joelhadas. De estranho, os móveis portaram-se indiferentes ao meu deslocamento.

Minha sensibilidade acendeu o alerta. Por que uma poltrona ou uma maçaneta poderiam achar que minha presença era irrelevante, que eu nem merecia tomar uma topada bem dada?

Me moveria sem ficar tateando o espaço à volta com algum respeito aos móveis, fossem os comprados por mim ou os herdados.

Se bati com os cotovelos, não foi para abrir passagem: quis marcar a epiderme das coisas com fragmentos da minha pele. Por minúsculas que fossem, tais lascas contaminariam com minha realidade a genética artificial de um cenário que se porta afrontoso aos fantasmas de gente viva, porque sou fonte claudicante de desejos.

Se não há em mim um traço de desastrado, forço derrubar um vaso. Mas o diabo do vaso fica que nem aí pro meu despropósito, o que fere o orgulho que tenho da minha vaidade de pessoa ativa.

Não me perco, reajo de maneira transparente às circunstâncias.

Sei de mim pelo comportamento de ser vivo, que busco me localizar entre paredes, portas, janelas. Como viro sondar o desassossego, trato de lapidar as farpas que agudizam as dores e sofrimentos. Quero tanto que a casa sinta que estou circulando em suas entranhas.

Como a um bebê é permitida a gestação com os desconcertos que transformações acarretam, ajuízo: vida é permanente mudança.

Todavia, não preciso de me conformar congelado na sala da minha casa, que não é nem um palco nem uma cela. Não quero esbarrar por esbarrar, quero-me vulnerável, frágil, quebrável. Quero ser tocado.

Sinto a treva. Pela confiança de não me ver barrado, alegrar-me-ei com a deselegância de arrepiar os pelos da nuca.

Sinto, e me arrepio.

Chove forte na escuridão de minhas angústias. Há rajadas de vento que uivam pelas frestas de minhas vergonhas. Suo, não patino na urina das minhas temeridades infantis. Sem dó nem piedade, a consciência arrepiada estarrece os olhares tão familiares dos retratos.

Como não gosto nada de perder, aposto?

Perco quando não consigo o que quero, e quero um vaso em cacos. Mesmo tentando, minhas mãos dão na porta da entrada. Perdido, não encontro a mesinha de centro. Giro, rodo, rodopio, desabo de joelhos. Bato com tudo no chão. Tonto e tendo os joelhos doloridos, fico pê da vida, é patética a incompetência pra quebrar um vasinho de violeta. As mãos buscam os pés da mesa. Ergo-me, endireito-me o quanto posso, como consigo. A dor não é tanta. Não finjo que não sinto dor. Que doa onde estiver doendo.

Quero ir à geladeira, e decido que vou. Pegarei o copo sem dar com a boca na borda. Respiro fundo: beber água não mata sede alguma.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de janeiro de 2022.