Isso
e aquilo
Isso aconteceu já faz algum tempo, mas
todo mundo estava numa vadiação que ninguém punha importância nem no que ia
fazendo.
Serelepes de tanta infância, quem se
entregava por inteiro em ficar correndo entre as mesas eram aquelas duas crianças.
Garrafas e copos poderiam ir ao chão a
qualquer instante, uma vez que as travessas resolveram acelerar. Gritando mais
e mais alto, umas espevitadas, as meninas iam batendo as mãozinhas em tudo.
Contrariadas, duas bêbadas saíram do bar.
Cadeiras e mesas nada tinham de santificadas, só que ninguém bulia com as
buliçosas com o diabo no corpo.
No começo da fuzarca, e num nível de
embriaguez mais baixo, elas tinham achado graça, entretanto o barulho foi ficando
intolerável.
Seria muito ficarem de boca seca, então,
pediram copo descartável. E cada uma pegou duas latinhas de cerveja e um conhaque,
cuja dose acabou antes de pisarem a calçada.
A de maior irritação virou-se, queria mais,
queria outra dose, só que, agora, seu conhaque deveria ter mel e limão. Teve êxito
com a bebida, mas, em vão, chamou para briga a mãe daquelas barulhentas.
Mesmo crendo santificado o seu sangue na
carne das filhas, a moça não desceria dos tamancos. Com bêbada, com essa bêbada
oscilando nos chinelos, menos ainda que o faria. Ela permaneceu como estava, toda
entretida com seu celular.
A mulher insistiu, ficaria insistindo, ainda
bem que a ventania pegou de tal jeito que ajudou a botar a bocuda no olho da
rua.
De lá, de fora, não só as borrascas do
olhar crismavam impropérios contra quem não a atendia. A boca batizava a grana:
ela era sua e, por sê-la sua, exigia o privilégio de que valesse mais do que a
desfeita de pô-la esperando. Queria a prioridade de beber pelo quanto pagava.
A dona do bar, simples assim, cuidava
ouvir o que o rapaz queria.
Em meio àquela gritaria destemperada, ele
foi direto ao balcão pedir água. Se possível, se não fosse pedir muito, podia ser
água de torneira, que seria bom do mesmo modo. Tinha sede, e não queria incomodar.
Correspondendo à elegância do sereno pedido,
antes de lhe passar o copo d’água, a senhora quis saber se aceitava que fosse
gelada.
Pelo calor que estava fazendo, quanta amabilidade.
Sem vê-lo bebendo um gole, as meninas
não pararam um segundo.
Digitando no telefone, a mãe das crianças
nem reparou no segundo gole bebido em pé.
Talvez estivesse agradecendo, porém
aquilo, a maneira como dizia aquelas palavras pouco empregadas no dia a dia, fez
a senhora tomar da mesma água oferecida ao moço.
A ele não interessava somente agradecer,
queria muito deixar claro o quanto estava tocado. Porque o interessante não
estava no gesto da mulher, o importante foi entregar o copo d’água sem ficar
perguntando, bisbilhotando, querendo sondar o que a ela não lhe dizia respeito.
Sem ficar especulando, a ela importava atender
o que pediam.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 02 de janeiro de 2022.