Força
maior
Dispensando garfo e faca, devorando o
galeto gorduroso, pururuca, felicidade a passarinho, num assanhamento moleque,
nutrido por uma gula incontrolável, numa comilança pornográfica, dando adeus à
carne saborosa, tão tentadora, caprichada, então, realidade, não estrague os
prazeres desse instante fora do tempo.
Gozando não saber o que seja moderação, a
boca fica babando, e peço. Quero a alegria de um pedaço de pudim. Quero-a toda,
que seja infinita, apetitosamente doce, gostosa, abundante, irresistível.
Faço as contas, posso comer outras fatias,
e peço. Quero a balança condicionada à aleivosia de estar tudo bem, que ela não
penda contra esta minha álacre destemperança.
Assim, a questão não tem raízes no
quanto de grana trago no bolso. É por causa dos açúcares que vão juntar forças
com meus triglicérides, tão mais frenéticos com estes olhos muito ávidos.
Não estou com fome, curto a animação. Eu
posso comer, quero. Só não mastigo devagar, não engulo devagar, não vivo
devagar e sempre: tasco o pudim a colheradas que é uma loucura, deixo que me
consuma a parcimônia, abocanho-o.
Apreensivo, chamo pelo garçom, que nem
liga pro desespero deste freguês que deseja desgraçadamente um sorvete, um banana-real.
Agora! E não depois de acabar o papinho.
E uma mulher vai de mesa em mesa. E vindo,
chega à minha.
Fala e aponta, seu cão fugiu de casa. Já
faz dez dias. Caso veja o cãozinho, é favor mandar um zap pro telefone indicado
no cartaz. Se estiver com o fujão, ótimo!, avise de pronto e irá buscá-lo
conforme for conveniente.
Digo que a vi colando este cartaz, que
informa tratar-se de pedido de socorro, pelo desaparecimento de bichinho tão estimado.
A dona do totó perdido nas ruas tem mais
pra falar.
No começo, só lhe dou a atenção que a
minha educação me orienta à gentileza de agir em solidariedade, que muitas
dores nos aproximam, e, uma vez que me apiedo, aprovo a causa.
Gozada a cabeça da gente, né?
Engraçado que não vou ao restaurante
vizinho na esquina de casa, prefiro andar cinco minutos pra vir sentar-me neste
cruzamento de ruas mais movimentadas, barulhentas, poluídas, e muito perigosas.
Quando a mãe diz que o seu filho mais
novo está sofrendo, admito que o vi retirando algo dos postes que vejo da
varanda.
Não há de ver que o primogênito foi
mordido pelo cachorro quando estava dando uma surra no menor, uma coisa feia
que ficou nas duas pernas, mordida sobre mordida. Foi preciso ir fazer curativo
no hospital e o seu menino vai tomar vacina antirrábica por seis meses.
Confesso que notei que o caçula ia tirando
cartaz por cartaz que o irmão mais velho ia colando de poste em poste.
A mãe arremata:
ꟷ O amor faz dessas graças, o maior quer
o cachorro de volta em casa, porque foi presente de aniversário do irmãozinho e
o pequenino não quer saber mais de animal que ataca quem ele tanto ama.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 28 de novembro de 2021.