domingo, 28 de novembro de 2021

Força maior

 

Força maior

 

Dispensando garfo e faca, devorando o galeto gorduroso, pururuca, felicidade a passarinho, num assanhamento moleque, nutrido por uma gula incontrolável, numa comilança pornográfica, dando adeus à carne saborosa, tão tentadora, caprichada, então, realidade, não estrague os prazeres desse instante fora do tempo.

Gozando não saber o que seja moderação, a boca fica babando, e peço. Quero a alegria de um pedaço de pudim. Quero-a toda, que seja infinita, apetitosamente doce, gostosa, abundante, irresistível.

Faço as contas, posso comer outras fatias, e peço. Quero a balança condicionada à aleivosia de estar tudo bem, que ela não penda contra esta minha álacre destemperança.

Assim, a questão não tem raízes no quanto de grana trago no bolso. É por causa dos açúcares que vão juntar forças com meus triglicérides, tão mais frenéticos com estes olhos muito ávidos.

Não estou com fome, curto a animação. Eu posso comer, quero. Só não mastigo devagar, não engulo devagar, não vivo devagar e sempre: tasco o pudim a colheradas que é uma loucura, deixo que me consuma a parcimônia, abocanho-o.

Apreensivo, chamo pelo garçom, que nem liga pro desespero deste freguês que deseja desgraçadamente um sorvete, um banana-real.

Agora! E não depois de acabar o papinho.

E uma mulher vai de mesa em mesa. E vindo, chega à minha.

Fala e aponta, seu cão fugiu de casa. Já faz dez dias. Caso veja o cãozinho, é favor mandar um zap pro telefone indicado no cartaz. Se estiver com o fujão, ótimo!, avise de pronto e irá buscá-lo conforme for conveniente.

Digo que a vi colando este cartaz, que informa tratar-se de pedido de socorro, pelo desaparecimento de bichinho tão estimado.

A dona do totó perdido nas ruas tem mais pra falar.

No começo, só lhe dou a atenção que a minha educação me orienta à gentileza de agir em solidariedade, que muitas dores nos aproximam, e, uma vez que me apiedo, aprovo a causa.

Gozada a cabeça da gente, né?

Engraçado que não vou ao restaurante vizinho na esquina de casa, prefiro andar cinco minutos pra vir sentar-me neste cruzamento de ruas mais movimentadas, barulhentas, poluídas, e muito perigosas.

Quando a mãe diz que o seu filho mais novo está sofrendo, admito que o vi retirando algo dos postes que vejo da varanda.

Não há de ver que o primogênito foi mordido pelo cachorro quando estava dando uma surra no menor, uma coisa feia que ficou nas duas pernas, mordida sobre mordida. Foi preciso ir fazer curativo no hospital e o seu menino vai tomar vacina antirrábica por seis meses.

Confesso que notei que o caçula ia tirando cartaz por cartaz que o irmão mais velho ia colando de poste em poste.

A mãe arremata:

ꟷ O amor faz dessas graças, o maior quer o cachorro de volta em casa, porque foi presente de aniversário do irmãozinho e o pequenino não quer saber mais de animal que ataca quem ele tanto ama.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de novembro de 2021.

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Vira, vira, vira

 

Vira, vira, vira

 

Aristeu! Aristeu!

Agora já nem me falta essa, ser acordado porque esse tal de Aristeu custa atender quem está se esgoelando debaixo da minha janela.

Ainda que o meu relógio biológico tenha dado duas horas a mais no aconchego do travesseiro, nem dá pra espreguiçar.

Aristeu! Aristeu!

Da cama à janela, faço dois metros num pé. O chão, sólido, nem se desmancha quando pisoteado pelo brutamonte em disparada, uma vez que a elegância paga com o escarcéu a gritaria descabelada a martelar os meus tímpanos de beija-flor.

Colérico, enfurecido, pela boca da janela, aberta num tranco, vomito uma revoada de palavrões cabeludos. E tomo uma lufada ensolarada, porque a energia cósmica que bafeja as coisas todas nem repara neste espírito, de pessoa sentida com o mundo.

Aristeu! Aristeu!

Portanto, faço o diabo pra tornar claro, muito claro, que Aristeu não dará as caras porque está com birra. Nada de ficar com essa balbúrdia dos infernos porque o danado do caipora tem o sangue do cão, e nem surdo não tem como não ouvir tamanha algazarra.

Em termos prudentes, traduzo:

Ê maritaca, maritaca das alvoradas, pare com o alvoroço.

Não é que funciona? Mesmo sem o Aristeu, a escandalosa voa.

Isso de ter jeito pra lidar com bicho é novidade. Talvez eu mude de profissão e vire adestrador. Sem gabolice, devo ter nascido pra isso.

Será que é fácil arregimentar uma clientela grande pra ficar rico e ir morar em apartamento com piscina e churrasqueira?

Chega de casa. Quero um apê que tenha piscina na sacada. Um lar maravilhoso que traga o mundo dos sonhos pro valor do IPTU.

Vou me esbaldar. Vou deitar no solário de jacarandá até que o sol torre os miolos. Chamarei na viola ponteios rasgados até que a alegria espiche o olho pro meu terraço. Beberei aquela água benta pela beleza da cana que nem urubu há de urucar com o bico torto.

Sim, quero muito ir viver num condomínio chique com jardineiro pra cuidar de tulipas, cravos, begônias, rododendros, rosas e samambaias.

Bailarina de vento, samambaia é admirável, leve.

As rosas, essas terão que ser amarelas, que é pra dourar o sussurro da brisa como prenda às samambaias.

Viverei no prédio chamado Fortaleza, que terá um heliporto no topo; os outros seis do condomínio também terão, porque vai ser bom pairar pelo mundo feito gaivota.

Serão sete, é que o número atrai fluidos excelentes, ou a semana não teria sete dias ou o arco-íris não teria sete cores ou a Branca de Neve não teria os sete anões pra protegê-la da Rainha da Maçã ou o sétimo filho não viraria lobisomem ou a independência não seria no sétimo dia de setembro ou as maravilhas do mundo não seriam sete nem as artes seriam.

E pra não errar na conta, brindo às sete dezenas da Virada.

Pois é o que digo, não falto à sinceridade quando falo que não minto que não falto à verdade quando digo que invento.

Eu não minto. Não minto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de novembro de 2021.


terça-feira, 23 de novembro de 2021

A alma do negócio

 

A alma do negócio

 

O negócio é o seguinte: não há cara ou coroa que faça a sorte vir cantar ao pé do ouvido de quem está dormindo, nem de olhos abertos.

Incompreensível, você diz, e fecha os olhos pra que o caminhão de lixo mude de ideia a respeito dos domingos e passe bem na hora que está desejando, mas ele não se materializa, nem com sua reza mansa, educada, de pessoa nascida pra ter a dignidade preservada, como um girassol solitário num canteiro de hortênsias.

O lixo, sim, é preciso dar um destino menos desafortunado ao lixo de todo dia, mesmo quando se está dormindo, até de olhos abertos.

Incompreensível, você pensa, e faz de conta que piscar três vezes seguidas fará com que um gás letal fulmine moscas, baratas e os ratos, ainda que continue sendo domingo e o latão tenha se empanturrado a tal ponto que um mililitro a mais dos restos desprezados por pratos e bocas passará à categoria de calamidade.

Até aqui, tudo bem?

O domingo de fato continua igual a tantos outros já superados sem maiores crises, porque, dormindo ou acordado, o filme da tarde é velho conhecido, um companheiro positivo que tem uma mensagem bacana, que é possível manter o astral lá em cima, que a falta de vontade para querer lutar contra o sono é uma capitulação benigna.

Incompreensível, você se lamenta, e trata de indignar-se com a vida que oferece a resignação como um prêmio por bom comportamento, e sai do sofá, vai à janela e não acredita que a montanha de sacos ainda permaneça indiferente ao chorume vertendo ao lado da casa.

Pode ser que na trigésima terceira vez a fedentina nem esteja assim tão nauseante nem a porcaria espalhada esteja mais convidativa às já citadas criaturas, sim, baratas, moscas e os ratos, agora contando com pombos no aproveitamento do que seja aproveitável.

Incompreensível, você parece entender, e tenta acreditar que está entendendo o domingo, como um organismo que produz excrecências ao preservar-se vivo, estando a mente alerta ou sonolenta.

Tudo bem persistir?

O próximo passo seria aceitar que os cavalinhos bem-informados relatassem os pormenores cafonas de outra rodada concluída dentro do combinado, com lixeiras destroçadas por bêbados uniformizados e puladores de catraca implorando pra que o domingo nunca termine.

Todavia, é na segunda-feira que a alma precisa estar nova e pronta pra outra, pro batidão de ganhar dim-dim, como quem ganha mais vida pro novo tempo que ainda não veio.

Afinal, na semana que começa, o corpo tem que estar preparado, a mudança da água pro vinho há de surgir a alcoólatras e regenerados, porque o jogo não para, não pode parar e nem se espera que pare bem no instante da sua vez.

Incompreensivelmente, para você, o celular não tem sinal, o ônibus não vem vazio, o crédito jura ser muito especial, e, não sendo elevador pra travar sem luz, o girassol do subsolo sobe pro sol.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de novembro de 2021.

domingo, 21 de novembro de 2021

No gatilho

 

No gatilho

 

Passou a raiva?

A pergunta está mal formulada. Do ponto de vista de quem se acha vítima, e não algoz, há uma inversão de papéis. E este comportamento ocorre a bel-prazer, sem que haja uma divisão de assuntos importantes sobre os quais se deva marcar território e os demais, secundários.

Achando que percebe o que está acontecendo, o olhar é de quem está a fim de continuar a conversa, uma vez que esta parte, a humana, deseja entender o que tinha acontecido. Pois é preciso situar-se, para evitar um novo ataque, uma outra investida contra a mão que só quer fazer carinho, um cafuné gostoso no cocuruto do seu bichaninho.

E que bichinho mais traiçoeiro, com sobressaltos violentos, que não sabe o quanto é amado. Até parece que não quer retribuir o amor.

De onde vem este ímpeto agressivo? Virá da natureza felina? Ou é por assimilação do dia a dia caseiro?

Verdadeiramente sem nenhum aviso, o bicho pula em quem esteja querendo fazer um agrado. E salta: já unhando, já mordendo. Como se desse um clique na sua mente, usa garras e dentes para defender-se do amor que recebe.

Gato não fala, mia. Mia e olha. Encara e serpeja a cauda.

Se falasse, é bem provável que estivesse dizendo o quanto se sente constrangido por ter seu nome escrito de maneira tão chumbrega, em letras douradas no interior de um coraçãozinho kitsch, como se o selo real na parte superior da cestinha tivesse que paramentar um forninho de pizza bizarro, horroroso, uma imitação vergonhosamente vulgar de uma casa de joão-de-barro, ainda mais sendo feito de pano aveludado, brilhoso, de um azul quase roxo, violeta, mais para cor da morte.

Chega de carícias, pois é ridículo o rei dos animais ser tratado como um brinquedo, um bibelô, sendo a joia que é. Ia dizendo a cauda.

A raiva não é a tônica deste dueto capenga, um duelo muitíssimo descalibrado entre a plebe e a realeza.

O lado humano do vetor cisca ao redor da fera, numa insistência de subalterno, de serviçal, de vassalo em busca de uma benção, embora prontamente ignorado, acintosamente desdenhado, ou pateticamente insignificante.

Talvez merecesse mesmo a repugnância, e tão somente um miado expressasse o estado da alma daquela criatura sem dono, indomável, dada a um humor mefistofélico pela castração não autorizada.

Pra que não reste dúvida: o gato exerce a função de soberano.

Senhor, um narcisista em tudo.

Se gato conhece a maldade, aquele indivíduo fofinho, rechonchudo, é um ser bastante perverso. Ou melhor, um gozador de perversidades a regozijar-se, pois nem se esforça transmitir os sentimentos de rei que ronrona à pessoa que ri e graceja à toa.

E por causar perplexidades em quem tanto o ama, mima, idolatra e adora feito criança, regozija-se.

Zuretinha da silva, acha graça rosnar pro gato.

O gato no gatilho deita e rola sobre o tênis, pois, quando um quer, um já faz a fuzarca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de novembro de 2021.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

A banalidade

 

A banalidade

 

Dessas duas, qual? Remexo os apegos à convivência com pessoas divertidas, que conseguem me fazer rir dos meus pequenos exageros de menino grande a pedir cuidados, ou divirto aquelas que gostam de relaxamento sem frescura.

Querendo esquecidas suas feridas tantas vezes latejantes, lutando não serem arranhadas de supetão ou levemente resvaladas, há essas que tocam a vida sem apelarem à procrastinação, como método, como se o muito bem explicadinho aliviasse o sofrimento.

Entre o dedo na ferida e a roçadinha na casca, o coração palpita.

Isso satisfaz a criança afeita a gostosura de usufruir das oferendas do mundo sem exigir que haja sentido no que lhe é apresentado, eis a surpresa da vida: dar-se por casual, irrecusável, cuja necessidade está em ensinar uma dura lição.

Aliás, nem preciso entender o que me fere, fico ferido.

Quero que continue, mesmo que me seja doloroso experimentar um instante de aprendizado intransferível, incomunicável, tão íntimo. Terei como aguentar, acaso prossiga acreditando que a dor ensina o que for difícil de apreender. Se hei de sabê-lo, é por vivê-lo.

Conservo-me lúcido, capaz de rir e de chorar, longe do tudo ou nada que pede utilidade às alegrias desatinadas.

Não se trata de sempre obter vantagem, trata-se de viver. Sem essa de medir a dor pelo positivo que ela possa produzir.

Xô, Auguste Comte, xô!

Seu Rodrigues, relaxe. O importante é que o amanhã dessa cirurgia chegou no momento certo, quando o dinheiro estava na mão e a areia virando pedra inflamava. O anedótico da vida.

Adeus, espontaneidade. Isso de controlar a dor é difícil, pois o corpo estranho causa incômodo, cólica, um mal-estar porreta.

Já para fora de uma vez, já!

Como uma fatia de muçarela é a dose fora do limite do suportável; esse queijinho bem digerido ultrapassa o tolerável; é além do razoável; esse volume aumentado, trabalhado, arredondado; os cuspes da areia são a dádiva estranha que provoca a reação.

Reagir é a videocolecistectomia? Pra ontem.

Tsc tsc. Metáforas não inflamam as entranhas. A bile existe, é real e tira o sono de quem baba por um torresminho.

Depois da intervenção, compartilho a experiência: sinto a novidade que permanecerá incicatrizável em mim.

O simplório confunde a sua compreensão de mundo com a dor de estar vivo, e os problemas somem dizendo os nomes.

O truque do esperto está em tornar inteligível o pouco lógico, porém querer que todo mundo chore com o êxodo é primário. Afinal, os outros não sofrem por aproximação.

O inteligente da tarde dá passagem ao ora pro nobis que tanto pede o imediato da tradução, pra que assim o elo do universo com a vesícula já extirpada vá além do sentido.

Amém nós tudo, que amamos revelar essa amizade eterna novinha em folha que tanto nos faz bem, um bem danado.

Tenho os furos, fui operado. Tenho a pedra, chamo-a pérola.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de novembro de 2021.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Cara normal

 

Cara normal

 

Se prometi acolher mudanças depois de vacinado, mantive a minha recusa de virar caçador de passarinho só porque apareceu esse bando barulhento desejoso de estorvar o pouso das doses no braço.

Continuando desdenhoso de arapucas, bem ou mal camufladas, fui obediente ao calendário estabelecido pelas autoridades, e o crédito foi só às que fizeram soar os gorjeios das aves de bico acutilante.

Duplamente bicado, porém, permaneço fiel ao uso da máscara em público. Pode ser que a estabilidade esteja associada à produção dos anticorpos, mas nem irrita mais esse recurso, já que adotei um modelo, descartável e baratinho, com um metal que permite ajustar a borda no nariz, e meus óculos deixaram de retratar-me um bufante.

E este senão, a ansiedade, ainda testa a minha nova carapaça.

Convencido a abandonar as mil caretas antes de ostentar o sorriso gentil a quem me queira de volta à normalidade de cada dia, aceitei de pronto o convite para ir a um aniversário.

Cadê cabeça pra cervejinha descer belê?

Não bastasse ter chegado quando o pai descarregava um bolo com aquele formato anatomicamente muito aparentado à serpente eriçada do famigeradíssimo Jardim das Árvores Sagradas, estava envergando a Bocarra dos Stones.

Como complemento: as lentes espelhadas davam bandeira de que fumara uma erva natural e falar enrolado em câmera lenta era sinal da minha velha infantilidade.

A cara da mãe dizia tudo; entendi que se ficasse no meu canto nada de ruim poderia acontecer.

O garotão que estava comemorando cinco anos achava o máximo a Blue Origin ir ao espaço sem explodir toda vez que voltava pra casa; já imaginou como deve ser surreal dar um barro na gravidade zero?

A irmãzinha mais atirada quis saber por que eu não estava falando direito; achando que estava bonito no pedaço, sorri.

Como era um cara legal às pampas, o avô veio conferir se eu estava bebendo o presente que trouxera pro seu neto.

Exaltei-me e ri alto, saracoteando-me todo.

Ao lado da geladeira, formou-se a comissão.

Pra ir atrás de mais uma, entornei a latinha.

Na maior paz do mundo, o meu amigo, pai do menino louco pra ver as velinhas virando as labaredas escapulindo do foguete, encheu uma sacolinha com as latas que restavam e, numa cortesia sem igual, botou outra meia dúzia, mas das suas, muito estupidamente geladas.

Diante dessa demonstração evidente de amor, não conseguiria me conter mesmo se pensasse nisso.

Soluçando e lacrimejando, fiquei tentado a abraçar um pessoal tão bacana, gente que nem me viu entrando no carro porque era óbvio que colocaria o cinto de segurança, travaria a porta e partiria numa boa, na torcida pra achar um boteco.

Como ainda não sei resistir à ideia de homenagear toda pessoa tão humana, mandei várias mensagens. Ficou faltando dizer que o telefone e eu temos seguro contra poste metido a assanhado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de novembro de 2021.

domingo, 14 de novembro de 2021

O cronista cochilando

 

O cronista cochilando

 

Quando o cronista está pensando na vida, sua mente não se sente apta a controlar a velocidade do derretimento da pedra de gelo no suco de manga. Mais rápido ou mais devagar.

Se apressado, matando em três goladas, o gelado sensibilizaria os dentes, que padeceriam o incômodo da temperatura tão baixa.

Se demorasse, ficaria ruim de beber, esquentaria, mas não iria virar um tição pegando a acordar-se em brasa viva. É claro que não.

Entre o noroeste e o minuano, ache-se a brisa ideal, de acordo com as predisposições a tomar o suquinho: no conforto da poltrona ouvindo hits dos velhos tempos ou confrontando juventudes desconfinadas nas calçadas muvucadas.

Cronista, não calce as galochas de aporrinhador que não se manca ao brindar neuroses corriqueiras como nevroses excedentes. Exposto ao bafo de um verão permanente, faça-se aragem das primaveras.

As suas mãos ficam meladas quando descasca a fruta. Por querer aberta a caixinha, tem tesoura numa gaveta do gabinete. Com o suco já adoçado, não esqueça o açúcar em cima da pia. Como não liga pros impostos incidentes, beba. Queira ao menos o carbono calculado com a semente fora de todo mar de fogo.

Como cachorro lambendo o chulé? Melhor não, nada de desejar-se satisfeito, porque um dos passatempos do mundo é contradizer.

O que tem contra você? A estrada é longa, cheia de curvas, corta a floresta de árvores centenárias. Como nem desconfia dos quilômetros rodados, é preciso ter acostamento para que o motor seja resfriado. E quando não sabe mais o que não sabe, funde a cuca. E quando acha que sabe o que fala, a língua desenrola o silêncio. Acalme o facho.

Sem bússola nem facão, perca-se. Ou corte por atalhos, só evite os pastos onde vacas regurgitam a mansidão das tardes modorrentas.

Tem dia bom para viver em paz? Não há paz que pasteurize o leite apenas com o olhar. Pro dia bom que pareça com domingo? Que haja o que faça querer o parmesão no espaguete.

Pratique a esperança de superar tantos desejos desesperados.

Entre a aurora do sono e o anoitecer do sonho, houvera as histórias da madrugada. Entre este crepúsculo e aquele, aconteceu uma porção de coisas. Entre o que supõe ter ocorrido e o que poderia ter lembrado, aprofunde alegrias, narre outras dores.

Você até quer negar que gosta de tirar uma pestana no sofá. E daí? O mundo continua exalando suspiros, lágrimas e muitas lorotas.

Cronista, dê ouvidos à razão e não se divirta somente trabalhando. Você não é formiga e não se ocupa de querer ser uma. Embora goste de grama seca e terra molhada, não cava tocas.

Ressabiado, talvez esteja comendo manga. Sobe o cheiro da fruta recém descascada. Acha macia a carne da manga.

E essa ambulância que passa rasgando?

Por via das dúvidas, constata que os ruídos da mente não mancham o escrito da camiseta: amor da minha vida, eu sou mesmo exagerado.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de novembro de 2021.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

No pix

 

No pix

 

Passo pela praça todo dia, mas não mais que de repente as árvores abatidas mexem comigo. E a tentação extraordinária de falar mais que a boca? Extravasando pelos cotovelos as revoltas de órfão de galhos, troncos e raízes de uma época realmente fabulosa, meu crânio parece tirado de um tonel de birita.

De jeito algum saem puros os sentimentalismos de criança, embora a imaginação indulgente me queira acomodado às glândulas, pois este menino do futuro, bobo com a realidade desvelada pelo átimo do susto, faz do suor frio tanta bílis a quente.

E finjo um nada que posso soltar o verbo sem dar com a língua nos dentes. Verborrágico, com o verniz de pessoa de bem com sua infância irretocável, entregam-me as fantasias de gente amorosa.

ꟷ O lugar sofreu tantos ajustes que ele agora é outro.

ꟷ Maquiagens, meu amigo, maquiagens.

O copo de uísque está pago, então, dá gosto esvaziá-lo.

ꟷ É vergonhoso! O dinheiro gasto com as maquiagens deveria ter sido usado com hospital. E pra ter equipamentos funcionando direito e pessoal ganhando salário digno não dá pra ficar pondo fonte, trocando fonte, tirando coreto, erguendo palco, trocando piso, trocando de novo.

Como tenho audiência, não dissimulo o olhar de apaixonado.

ꟷ O senhor está coberto de razão.

Mais do que audiência, é público que merece outra rodada.

ꟷ Ainda bem que concordam comigo, porque falo a verdade e só a verdade. O triste é que tem gente que não entende nada. Cacildis!

O gole da caninha pede salaminho, e a porção evapora.

ꟷ Putz.

A carteira tem vazamento, e as notas de cinquenta vão sangrando.

ꟷ Putz.

O dono do boteco seca o balcão, não a solidão que escorre.

ꟷ Não vou mentir nem enganar.

Ocorre-me a ideia de fazer um quatro. Todavia... Percebo uma dor nas costas. Porém... Não fujo do ridículo da corridinha no lugar.

ꟷ Não é porque estou meio alegrinho que não consigo provar que tenho fôlego. Tenho, sim, senhor.

Afinal, a consciência é uma experiência dos sentidos. A carne sente o mundo. A mente entende a substância da realidade porque traduz os sinais elétricos da matéria.

ꟷ A barriga não impede minha disposição de atleta.

Estou ligado. Sinto-me uma pilha.

ꟷ Pra que ter gato solto no bar? Raios!

Mal faço outro pix, vem esse rasteiro, traiçoeiro, esse chão molhado de espelunca nojenta. Parece que urinaram. Vomitaram. O fedor gruda na pele da gente, putz.

ꟷ Putz uma ova, rua!

As luzes da praça estão todas acesas. Faz sol ao luar.

ꟷ Que desperdício de verba pública!

Moscas e mariposas são atraídas pelo calor das lâmpadas.

A água da fonte não é um espelho confiável, tem um camarada bem xarope, que nem disfarça.

ꟷ Vai ficar encarando, é? Não tem medo de levar na fuça?

O sujeito se acha o tal. É o tal da fonte.

Não vai dormir na praça. É melhor que tenha ônibus.

Subir no palco não é opção, tem a escada absurda de inclinada.

No ponto, sem grana? Apago na hora.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de novembro de 2021.

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Quebradas

 

Quebradas

 

O cenho fechado; a testa franzida; os pés de galinha pronunciados; o carmim do batom não escondia o enfezado de quem tivesse mordido a língua; sim, a funcionária tinha tanta raiva para descarregar.

Dona Benedita veio diretamente ao balcão.

Acabaram de avisar que tinha boleto vencido e bloqueariam a conta se não pagasse a dívida naquele dia.

Como faltava uma quinzena para o pagamento, do poço sem fundo dos aborrecimentos só tiraria moedas podres.

Era urgente, o chão iria se abrir a qualquer momento. Precisava de socorro. Que lhe arrumassem o dinheiro. Pra que o celular não ficasse com a linha bloqueada, lhe emprestassem logo.

Bendita Benedita, que trazia nas mãos outra receita.

A atendente foi para a calçada.

Pediu com calma, tentando explicar a situação, porém o irmão mais velho negou-se a ajudá-la. Ela o mandou praquele lugar.

Ligou pro caçula, e o telefone chamou, e chamou. Mesmo enfáticas, as blasfêmias não fizeram o irmão mais novo atender a chamada.

Dona Benedita queria apenas os seus remédios.

Teria de ligar pra mãe.

Teria de aguentá-la reclamando da vida, das madrugadas em claro, do quadril que doía quando andava mais rápido, do tornozelo inchado, dos olhos que embaçavam nem bem começava a ver TV.

Teria de ter paciência, muita paciência, como a de Jó.

Dona Benedita aguardava sozinha na fila preferencial.

Ligou pro banco. Checaram os dados.

Sem direito a crédito, xingando o diabo pela vida desgraçada, bateu o aparelho no vidro da fachada.

Dona Benedita sobressaltou-se com tamanha virulência.

Ela só fez aquele telefonema porque era preciso.

Estava enrascada, cheia de dívidas. Iriam cortar a luz. Iria ficar sem telefone. Já não tinha um centavo na conta. A situação era crítica. Vivia uma tragédia infernal. Estava angustiada, que nem tinha grana pro leite dos meninos. Era uma situação horrível, que não desejaria a ninguém. Estava pra cair no abismo. Era mesmo um desespero.

Dona Benedita permaneceu como estava.

Se não ia falar nada, fosse caçar sapo. Se nem ao menos iria gritar, fosse lamber sabão. Se ficaria esnobando o sofrimento da sua filha, da própria filha, que fosse pra casa do caramba.

Resolvida a agir de acordo com seu cargo, a gerente a mandou que voltasse ao trabalho. Tinha gente esperando fazia um tempão. Ela não tinha nada de ter deixado o seu posto. Com razão pra tanto, tinha quem estava impaciente. Ela que agisse com responsabilidade. Não era bom que agisse feito criança. Dava para entender, ser compreensiva. Todo mundo tinha problema pra resolver, ela também tinha, mas era errado querer resolver bem na hora do serviço. Ou entrava ou iria ganhar uma advertência por escrito, ela escolhesse.

Sentindo o baque, a balconista pegou a moto pra ir achar o pai que devia estar nalguma birosca de quebrada.

Sem nenhum arranhão, dona Benedita cruzou a rua.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de novembro de 2021.

domingo, 7 de novembro de 2021

O incômodo

 

O incômodo

 

O dourado do líquido no copo era bastante parecido com urina, mas a cara do chinês à porta daquela loja de quinquilharias baratas não era de quem bebia mijo de golinho. Aliás, não beberia nem bêbado.

Pro seu poder de xamã continuar passando despercebido, ou ficaria prescrevendo poções purgativas a quem ignorasse a calma alimentada por seus chazinhos de ervas não avalizadas por vigilâncias, mormente a neurológica, o leitoso esbranquiçado era um véu protetor.

Com as sabedorias milenares tão enraizadas nos subsolos de seus pensamentos, como um buda cego de um olho, o velho bebericava sua infusão de folhas maceradas toscamente com as mãos.

As suas, trêmulas e amareladas, eram de fumante inveterado, não as de um feiticeiro invocador dos princípios ativos de plantas obscuras trazidas de contrabando de províncias exóticas.

Mexendo de vez em quando a beberagem com a longuíssima unha suja do mindinho, era o homem que vigiava as veredas.

Entretanto, não era guardião de caminhos quaisquer que andarilhos afoitos desejariam trilhar por se resumirem a farejadores adestrados a nunca perder o rastro, a rumarem pro reino da pacificação espiritual.

Do ponto de vista dos administradores, a correção diria que o idoso bebedor de chá estava na bifurcação pra orientar o fluxo no interior do estabelecimento: a entrada e a saída dos consumidores teriam de estar sob a observação aquilina dos donos, afiadíssimos no caixa.

Era óbvio que havia a sobreposição de significados, confundia-se o dever de agir com honestidade com a honestidade de agir obrigado.

Ou seja, uma vez dentro da loja de um e noventa e nove: nada mais natural do que pagar pelo que se compraria; nada mais anormal do que ter mão leve pra encher o fundo da bolsa com o que nem era preciso.

Como negócio claramente familiar, desabonavam-se furtos.

Sem prejuízos revoltantes nos ombros, o servo de olho morto tinha um tique sutil quando bafejado pelos acasos de algum lampejo. Era um raio, um fazedor de fogueiras, um redemoinho nas águas da mente.

Por que a sorte precisou relampejar justo na hora agá?

Neurótico, o azarado queria, insistia, puxava pelo ar; tinha que se lembrar de tudo, ansioso.

Era um cafifento, pigarreava, admitia estar confuso e sua confusão tirava a certeza de ter sonhado com a dezena.

Um caipora. O número que o globo disse era pra guardar. O destino foi dado como privilégio. Eram dois dígitos. Na cabeça, seria o 14.

Era um catingueiro, pois, nervoso, começou a disparar uns traques fedorentos. Pudera, a caneta surtou. Queria anotado o 61.

A dezena tinha vida. Girou no um, e virou 16.

E cadê a paz!

Se não ouvisse direito, perderia a bolada. Pra marcar no volante o que a tinta da esferográfica pedia registro. Precisava acalmar, pra ouvir de novo o metano profético.

Que crueldade! Os malvados o tocaram da loja vazia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de novembro de 2021.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

A chave do mistério

 

A chave do mistério

 

A leitura das mãos, conforme quem a faz com garantias tarimbadas de profissional, não tem nada de mágico nem de delírio, pois é maneira precisa de inspecionar o que dizem as linhas da palma quanto ao que está entranhado no amanhã.

Em outras palavras, o futuro está mesmo condicionado à fisionomia manual que o olhar treinado no ofício tem a capacidade de decifrar com segurança, ou o pagamento nem seria cobrado antecipadamente.

Sem necas de entender o que parecem querer dizer os volteios dos urubus no céu do meio-dia, veja-se a curiosidade lutando se esconder atrás da cegueira dos céticos.

Trazendo pro cotidiano: um molho de chaves revela muito.

A menor informa que o bairro tem ladrões de bicicleta. Se a corrente com cadeado não impede a ousadia dos cobiçosos, torna, no entanto, mais demorado o furto do camelo já bem surrado.

O sumiço da magrela não tem o poder de ocultar a azáfama da vida, porque fica difícil prestar atenção em tantas coisinhas à toa.

As tetras denunciam o medão de que seja roubada a casa que fica naquela rua mal iluminada, que tem um montão de poste com lâmpada apagada, todas queimadas só Deus sabe desde quando.

As três fechaduras são para forçar os ladrões a arrombar as janelas que dão pro quintal, território dos pitbulls de pouquíssimos amigos.

A penca tem outras chaves, que nem merecem destaque.

Afinal, quem liga para uma caixa de correio fixada no gradil de ferro cujo portão reforçado tem uns dois metros de altura?

Sem ver no que tropica, o idoso é interpelado.

O senhor é cego por acaso? Não é por acaso, está espumando.

O senhor é surdo por acaso? Nada disso, está com raiva.

O senhor é mudo por acaso? Está atacado.

Na bronca, precisando correr pro banco pra que não a declarem em bancarrota, topando fugir dos tontos que querem armar barraco, a anta tenta não bancar a tonta?

Como tem gente rota, escrota, sem norte nem rota.

Todavia, quando o amor ao próximo é incontrolável, as aparências não enganam. Pois cambalhotas, saltos mortais, mergulhos de cabeça, nada disso irrita quem se diverte com facilidade. Pouco adianta insistir com a ferocidade dos fatos, como se a realidade ferroasse.

Quem se mantém maduro, lúcido, saudável, curado do desespero, tem fé na firmeza do pensamento; sente-se robustecido pelas certezas; sabendo que ri como quem julga, esse vive opaco à luz das dúvidas.

Querem ir na roda-gigante, no carrossel, no jogo dos espelhos, mas pra sair no fim do túnel?

Quanto mais tolices são faladas, menos a cachola se desapruma.

A chave do cofre está no comedimento, na moderação, no equilíbrio que abre o apetite, mas apetite seletivo, muquirana, somente flexível a loucuras afáveis, devaneios administráveis, anseios lucrativos.

Como sua calça tem bolso dentro do bolso, o idoso desliga o alarme do seu super SUV assim que topa apertar o controle.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de novembro de 2021.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

O rouxinol

 

O rouxinol

 

Num belo dia, em que de repente a realidade do momento se impõe à ordem natural da vida, quebrando o conforto de se estar confiante de viver um instante de cada vez, rompendo-se a parede de se apresentar ao público, prelúdio em si, uma vez revelando-se ser no mais íntimo do tutano da cervical, como testemunha única, só uma pessoa só, mente transtornada com a circunstância de se descobrir fendida, por sujeita a variações de tempo e lugar, porque nem se via como objeto maleável, comum a seres de boa e má vontade, tomando-se refém do insatisfeito, do meditado pela respiração dos dedos, do melancólico, não como um roedor, já a emanar, piano piano, essa boniteza onírica.

Num belo dia, despertado pelo susto de descobrir-se desejando dar milho às pombas e, constatada a falta, providenciar sem detença, pois o que se abre nesse momento, se não fala com todas as letras, dá-se a perceber que seja sensivelmente efêmero, que o mundo obedeça às regras que as ciências humanas ainda não fabularam, que tal rouxinol fique pasmado com o nunca experimentado, avesso ao natural, então, que a pomba voe mais alto do que o cruzeiro e pouse no cimo antigo e enferrujado.

Num belo dia, reconhecendo-se alquebrado pela faina de seguir na cantoria angustiada de querer o bocado de um pão, do pãozinho de sal que a boca compreende que precisa, sem que os suores, os calos e o pigarro noturno convençam os ratos de que a ratoeira necessária nem é traiçoeira, é instrumento de matança dos mais práticos.

Num belo dia, apaixonado pelo amargo dos entusiasmos que fazem tremer os dedos, deixam cansadas as coxas, inclinam as retas pra que as fraquezas esgotem mais e mais as forças de suas pernas e de seus braços, deseja que o rato vá ao queijo, a mordida dispare o aço certeiro daquele treco ceifador, ainda que o rouxinol recomece a gorjear.

Num belo dia, mesmo que o medo traga a sua escada, que os pés subam temerosos cada um dos degraus, que a subida continue apesar do erro de medir a distância entre a chegada e a despedida, ainda que seja móvel, instável e perturbadora a impressão que a realidade esteja à margem do raciocínio lógico, ao que se arroga impecável, ao singelo que a arrogância diz emocionalmente compreensível, então, o coração solta outro pulso, acelera e desacelera, comprime e imprime e reprime, sufoca e expande, a ponto de querer o que desconhece, o que ignora, o que busca dar por sabido, entendido e classificável, assim se espera que o rato, atraído pelo cheiro, saiba ao menos morrer de vez.

Num belo dia, a boca quer o porquê da coalhada, da muçarela e do parmesão, mas a vaca, ruminante leiteira, nem sabe do pasto, quer ele esteja limitado em aparência, escritura e porteira, quer ele esteja verde, ocre, seco, úmido, apertado, amplo ou barato, e raro.

Quando penas e canto fazem o rouxinol, sua belezura desencanta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de novembro de 2021.

domingo, 31 de outubro de 2021

Oração de são Niemals

 

Oração de são Niemals

 

Estou precisando de um gingado mais agitado, pois vivendo minha vidinha de pessoa pacata, sensata, meio caricata, nem notei quando a maritaca calou, já que ouvia mal as estripulias do coração.

Se me observasse com descontração, provavelmente teria sentido a calcificação das entranhas. Não que tal cuidado pudesse evitar o que agora constato: não foi súbito que virei pedra.

Como pedra inconsciente dos meus limites, posso apenas imaginar o que podem fazer comigo. Suspiro, e arrepio.

Se souberem da minha condição, vão querer tirar onda. Com o nível baixando, e baixando, ficarei mais seco, muito arredio, deserto a subir sarcasmos áridos, como gente escassa de molejo.

Pedra não samba?

Sei não, pode ser que eu seja estorvo a quem não quer interrompido o fluxo. A quem a vida é que nem correnteza, rio em movimento, águas renovadas a todo instante, barreiras tanto estancam que estagnam.

Cadê a primeira pedrada na vidraça da pretensa estagnação?

Que o bico da pretensão cante os metálicos de brocas de dentista, aqueles zunidos que chispam dores impiedosas antes de tocar o dente da gente, e bem antes.

E o dente vira pelota a estilhaçar a fachada da pessoa adormecida, já pegando sentir uma dorzinha. Como vulcão furibundo, é a sensação enregelante de que o futuro dói, e dói tão abruptamente.

Posto que é dor, não me convém descartar como absurda a questão de empacar à beira desse Vesúvio. Eu deveria sair correndo, uma vez que a lama dessa história não é flor que se cheire. Pois magma é terra ardente e, por fazer estátua quem bobeia diante da cólera, é mortal.

Sem dúvida, pedras que quebram vitrais também quebram vitrôs.

Aos pulos, perereco no lugar.

Rapidinho, fico certo de que os engenhos psíquicos que me deixam governar os instintos dão graça ao sentimento de entender o mundo. Pressa curtição bacana, a realidade sugere o ritmado.

Que espirituosa é a vida no flauteado.

E confio em mim quando sinto a areia quente da praia acarinhando a sola fina dos pés, ouço o mar ninando os carneirinhos mansos, bebo o que o coco oferenda quando rachado, a sua água deleitosa.

Pena que esse eldorado além do horizonte não tenha buracos como os buracos do meu mundo; e os pedregulhos do acostamento dão uma sova nos joelhos.

Ralado, ardendo, pedindo beijinho doce na pele avariada, quebro a corrente e atiro a bicicleta no poço dos medos atávicos.

Xô! Vatimbora! Suma no poeirão!

Que venha quem possa acorrer.

Santo das causas imaginárias, ouça esse clamor, acuda quem não dança nem quer dançar. Ainda que saia da cadeira, requebre conforme a música, se errar o passo, que eu fique no compasso. Mesmo que eu não seja diamante no Danúbio Azul coreográfico, que eu possa flutuar, turmalina no miudinho, e vá adiante, e vá devagar, devagarinho. Afinal, não é só o bamba que samba no pé todo santo dia, são Niemals.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de outubro de 2021.