E
não é que a aberração existe?
Vi
a foto que me foi enviada, assim, não vou negar o que vi, já que,
conscientemente, ainda que espantosamente, eu realmente vi.
E
vi que não era uma imagem fabricada com o intento de convencer o incauto de que
tudo é possível neste mundo.
Nela
não percebi sinais de manipulação vulgar, canhestra, bastante comprometida com o
que se esconde atrás do rostinho bonito.
Bonitinho,
mas fingido.
Pois
é, quando a vergonha é tanta, trocando os pés pelas mãos, é preciso dar um jeito
de ser alterado o foco.
Já
que a compulsão desprezível de certa realidade política a está contaminando com
algo mais do que execrável, apresentando-a como fato inacreditável ou de dificílima
constatação, o logro é desvalorizá-la, dando-a como inverídica de antemão, ou
insólita.
Se
a imagem tem cara de que é uma mentira deslavada, então, cai bem disparar a
torto e a direito que se trata de conversa fiada.
Entendo,
é prática diabólica: pro truque dar certo, convém anunciar, de modo franco e bem
transparente, que é truque mesmo.
Então,
a foto não me foi compartilhada por aplicativo de celular, veio diretamente a
mim através de e-mail. Ou seja, a estratégia adotada me fez confiar na
autoridade de quem deu fé pública na autenticidade do documento.
Como
legitimidade é tudo a quem passa a sua verdade de gente do bem, e pela forma
bastante confiável pela qual foi enviada, achei que a notícia merecia ser
levada a sério, apesar de assombrosa.
Certo
de que estava contribuindo pro devido desmascaramento de quem vive afrontando a
opinião criticamente livre, repassei tal imagem a um pequeno grupo de pessoas
amigas e, evidentemente, ajuizadas.
Gente
séria, que não contemporiza nem azucrina de pronto, pois é preciso ouvir, sem
espumar, quem dá palpite idiota feito coice imbecil; é preciso conviver, sem se
infectar, com quem saliva fácil ao espalhar preconceitos infames de fontes
insalubres; é saber que vida social não se resume a reproduzir o adequado como
pólen em bico de colibri.
Lobo
que vence lobo guia a matilha ─ diz o oráculo.
Pois
bem, dito isso, descrevo o bizarro recebido: há um bebê fofo, rechonchudinho,
com a boquinha entreaberta, de olhinhos puxadinhos, sentado ao sol, enquadrado
por sombras junto a porta fechada.
Será
representação recorrente do futuro?
No
descobrimento do instante, conta-se que a criancinha cresceu, mas não ganhou
altura atemorizante; dizem que não fez abominações apocalípticas, apenas destroçou
carrinhos de plástico; comenta-se que rabiscou algumas paredes, mas nunca quis
virar reizinho de mil anos.
O
que jamais profetizaram os falsos guizos?
Que
a miopia me torna cantor dessa rosa tantas vezes desabrida, desalentada,
ressentida, ignominiosa, monstruosa.
Num
gole sem açúcar, duro retrato da prosa da vida?
Vivo
que é só amargo, é jururu.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 30 de setembro de 2021.