quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A aberração

 

A aberração

 

E não é que a aberração existe?

Vi a foto que me foi enviada, assim, não vou negar o que vi, já que, conscientemente, ainda que espantosamente, eu realmente vi.

E vi que não era uma imagem fabricada com o intento de convencer o incauto de que tudo é possível neste mundo.

Nela não percebi sinais de manipulação vulgar, canhestra, bastante comprometida com o que se esconde atrás do rostinho bonito.

Bonitinho, mas fingido.

Pois é, quando a vergonha é tanta, trocando os pés pelas mãos, é preciso dar um jeito de ser alterado o foco.

Já que a compulsão desprezível de certa realidade política a está contaminando com algo mais do que execrável, apresentando-a como fato inacreditável ou de dificílima constatação, o logro é desvalorizá-la, dando-a como inverídica de antemão, ou insólita.

Se a imagem tem cara de que é uma mentira deslavada, então, cai bem disparar a torto e a direito que se trata de conversa fiada.

Entendo, é prática diabólica: pro truque dar certo, convém anunciar, de modo franco e bem transparente, que é truque mesmo.

Então, a foto não me foi compartilhada por aplicativo de celular, veio diretamente a mim através de e-mail. Ou seja, a estratégia adotada me fez confiar na autoridade de quem deu fé pública na autenticidade do documento.

Como legitimidade é tudo a quem passa a sua verdade de gente do bem, e pela forma bastante confiável pela qual foi enviada, achei que a notícia merecia ser levada a sério, apesar de assombrosa.

Certo de que estava contribuindo pro devido desmascaramento de quem vive afrontando a opinião criticamente livre, repassei tal imagem a um pequeno grupo de pessoas amigas e, evidentemente, ajuizadas.

Gente séria, que não contemporiza nem azucrina de pronto, pois é preciso ouvir, sem espumar, quem dá palpite idiota feito coice imbecil; é preciso conviver, sem se infectar, com quem saliva fácil ao espalhar preconceitos infames de fontes insalubres; é saber que vida social não se resume a reproduzir o adequado como pólen em bico de colibri.

Lobo que vence lobo guia a matilha ─ diz o oráculo.

Pois bem, dito isso, descrevo o bizarro recebido: há um bebê fofo, rechonchudinho, com a boquinha entreaberta, de olhinhos puxadinhos, sentado ao sol, enquadrado por sombras junto a porta fechada.

Será representação recorrente do futuro?

No descobrimento do instante, conta-se que a criancinha cresceu, mas não ganhou altura atemorizante; dizem que não fez abominações apocalípticas, apenas destroçou carrinhos de plástico; comenta-se que rabiscou algumas paredes, mas nunca quis virar reizinho de mil anos.

O que jamais profetizaram os falsos guizos?

Que a miopia me torna cantor dessa rosa tantas vezes desabrida, desalentada, ressentida, ignominiosa, monstruosa.

Num gole sem açúcar, duro retrato da prosa da vida?

Vivo que é só amargo, é jururu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de setembro de 2021.

Nenhum comentário:

Postar um comentário