terça-feira, 20 de julho de 2021

Ode ao copo d'água

 

Ode ao copo d’água

 

Um homem cochila na praça.

Por sua figura de sombra maldormida, sabe-se, houve obstáculos a impedir que a noite vingasse calma. Até aí, nenhuma novidade, uma vez que os dias imploram: é preciso cautela, pois há perturbações que, tão angustiantes, tiram o sono a todo aquele que pretendia comezinho outro dia de vida.

De fato, caiu esquisita no esqueleto a madrugada que precisava vir serena, já que a vida tem demandado entregas tensas à sobrevivência.

Como ao homem alquebrado saiu má outra noite, irmana-se a ele um cotó que se abana todo. Assim, não há fraquezas a uni-los.

Quando algum ser noturno apodera-se das carnes, sofre-se um tal desajuste obscuro que as horas não bocejam e não piam. Nenhuma coruja vai pousar na cabeceira da cama e sequer um andarilho bêbado mendiga gotas de orvalho às pálidas estrelas.

A mansidão escorre dos ossos, torna liso o piso, chão hostil a olhos de peixe. Se nuvens floreiam o céu, não apraz querê-las sopradas pelo canto do sono, porque não há sono nem escapatória.

Balas e bolos poderiam brotar, mas não brota nenhum sonho.

As carnes deixaram passar alguma coisa. E aquilo foi passando do dia pra noite, da noite pro dia. Foi isso, então, que o acordou, como um dedo frio na sua testa distraída.

Do contrário, se tivesse notado com discernimento a farpa na alma, os joelhos não estariam retesados, cobertos por uma escuridão gelada.

Então, cotovelos, doendo? Doloridos, dispensou movê-los.

Então, atrevido pensador, não se sentou na cama?

Então, cara mágica, sentiu a fisionomia enevoada, como Velásquez revisado por Bacon?

A cama, o trono ꟷ daria causa a tanto desassossego?

Sem deixar de fustigar a cabeça com a noite roendo seus nervos, até o comove guiar-se pelo fastio. Quase acordado, babando de lado, segue vivo. Pra guardá-lo dos vigilantes que não o farejam semelhante, ronda aos seus pés o tal pulguento só osso.

Sapatos batem nas pedras. Crianças gritam quando o cachorro late alto. Pombas arrulham nos fios. Uma velhinha dispara um palavrão dos mais cabeludos. Então, praça, sente a gravidade destas agonias?

Há o mundo. Com esperança, e por mais um dia.

Há a vida. Dá-se outro passo à beira do precipício.

Há o instante, essa fenda abissal. E essa, agora?

Assim desaba do sonho, posto que dormiu menos que o necessário pra entender o que precisa fazer pra não acordar feito eco qualquer.

Poxa!

Ele olha pro relógio da torre e calcula o tanto de atraso.

Nega que o fira a solidão. Nega que está querendo coçar a bunda. Nega que transpire sem ter nada na cabeça.

Será por nada que não tem dormido bem?

Desnorteado, sequer se lembra de ter lavado o rosto.

Está sem banho, e sem fome.

Como consegue deixar de pensar que a noite virá, e tentará dormir, e outra vez será tentado?

Prensado dentro do terno, força o pigarro. Consegue.

Há mãos que calam a boca com um copo d’água.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de julho de 2021.

domingo, 18 de julho de 2021

Que azar

 

Que azar

 

Parece que foi ontem, e não foi. A lembrança surgiu aparentemente sem motivo. Não dar com a razão do surgimento, porém, não anulava o sentido de ter lembrado de repente. Não só pela irrupção quase que instintiva, se não estivesse escamoteando pormenores, era um retrato muito rico que ganhava vida. Aliás, sua memória era pródiga em fusões sem pé nem cabeça, o que deixava difícil pro destino dobrá-la.

Gostava de bagunçar, muito, e sem se esforçar. Vivia tomando para si o que nunca vivera. Achava-se protagonista em eventos que sequer presenciara, tal o grau de convicção com que pintava o só imaginado. A sua imaginação era mesmo dada a carimbar como verdadeiro o que concebia real, exagerado que era ao fantasiar tantas realidades. Mas se a realidade tinha falhas, sentia-se à vontade ao preenchê-las.

Numa ocasião, no lançamento de um livro, de mais um livro daquele poeta que não via há tempos, súbito trouxe-os de volta: o autor do livro sendo lançado e o episódio dessa noite de autógrafos.

Sem pensar que a sua vida não conhecera, por experiência própria, o que podem provocar acontecimentos dramáticos, ele estava tirando cisco do mindinho quando a senhora ao seu lado perguntou que horas eram. Batendo no vidro do relógio, certificou-se: ele estava parado.

Então, notando um zunzunzum na biblioteca, a pessoa responsável pela organização disse que os trinta minutos de espera bastavam. Pois o público presente não tinha que pagar por quem não veio a tempo.

O homem, cujo nome cintilava de ponta a ponta no alto da capa, se perguntou se a chuva não teria um dia melhor para cair. Emendou que chuva era coisa boa, porém fosse cair em lavoura ou cabeceira de rio, porque uma quarta-feira à noite, dia de jogo na TV, já era bem ruim pra quem queria casa cheia. Ainda mais quando se lança poesia neste Brasil que tem mais poeta do que leitor de Drummond, Cabral e Bandeira.

Todavia, a arte não tem plateia. A arte com a maiúsculo, essa arte não tem chamariz pro grande público. Essa gente prefere ficar em casa vendo novela em vez de vir prestigiar o artista que fala o que é preciso falar. O poeta de verdade não fica repetindo chavões sem saber o que já foi dito por Drummond, Cabral e Bandeira.

O homem, cujo nome em vermelho vivo ia de lado a lado no alto da capa, era alguém feliz, pois tinha sido honrado com a orelha escrita por uma pessoa realmente especial, muito importante na sua vida, alguém cuja amizade vinha de bem antes que a sua voz como locutora de FM servisse para identificá-la.

Pena que estivesse demorando. Provavelmente, culpa do tempo. O trânsito pesado, perigoso, isso poderia estar atrapalhando a chegada. Não que aquela presença fosse mais relevante do que a de quem já estava ali. Não iria se lamentar dos ausentes na frente dos presentes, isso ele não faria. Era só falta de sorte.

E a azarada comendo pizza...

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de julho de 2021.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

O choro e a vela

 

O choro e a vela

 

Morgado de tantas chalaças, a sua foto sem legenda diz:

ꟷ Pra que os mal-amados não digam pelas costas que sou leviano, já adianto que não tem alma em conflito coisíssima alguma. Podem ir caçar sapo porque não autorizo ninguém a falar asneira em meu nome.

Andei a esmo, meio amalucado, ouvindo coisas, vendo fantasmas, mas eu quero mesmo é dormir. Dormir pra caramba, porque estou bem cansado. Poxa, preciso dormir.

Como se pudesse acordar de uma noite tranquila, não queria ouvir a droga do despertador. Queria espreguiçar gostoso. Queria virar e dar com você dormindo. Com aquele sorriso maroto de quem vive o sonho de estar vivendo sem passar nenhum apuro.

Queria pegar você dormindo. Putz! Como eu queria.

Só que acordo com o vazio do meu lado. Dá um nó no peito acordar sem ter ninguém pra ouvir o pesadelo que nem quero lembrar. E esse indigesto embrulha o estômago que só consigo pensar direito quando ponho leite condensado no pão de forma. Adoro lamber faca.

De qualquer jeito, tenho que tirar isso de dentro de mim. Preciso pôr isso pra fora de uma vez, caramba. Senão o bicho vai pegar. E quando o bicho pega, quem me conhece sabe que solto fogo. Nem mesmo eu arrisco chegar perto. Dá medo a cara que eu faço quando viro jararaca. É mesmo algo muito feio, um troço danado de ruim.

Porque se tem uma coisa que todo mundo precisa saber é que sou do tipo de pessoa que gosta de tudo certo, sem mimimi e feito conforme manda o figurino. Porque não gosto nada de ser contrariado.

Tratem de obedecer sem nhenhenhém. Porque é insuportável ter gente que fica exigindo o que ninguém gosta de dar. Eu não gosto.

Danem-se os chatos que vivem apenas pra ficar reclamando, como se a coisa mais importante fosse ficar dando explicação pra tudo.

Ora, sou somente quem sou.

Se estou falando às paredes? Que sei do feijão pela hora da morte? Pra que escancarar as queimadas das Amazonas? Um índio não pode tirar foto da oncinha pintada com celular? Uma garota pode sair por aí acusando um tiozinho mais carinhoso? Jogo bom tem que ficar apenas no rádio? Cadê a liberdade se não ouvem a verdade que tenho a dizer?

Que tristeza, acordo sozinho. Olho pro lado e bate o vazio. Só com reza forte pra desanuviar o peito. Deus me livre e guarde do olho gordo que jogam em cima. Tenho mais que clamar aos céus que me protejam da urucubaca alheia.

Para que a paz aventada oriente os surdos à verdade do amor que a todos nós deveria nos unir, peço por mim e minha família.

Ilumina o momento, pois a escuridão das baratas vem dos esgotos.

Dá ciência a quem foge do verbo arruinando o que nem foi erguido.

Servo de Ti, Senhor, cobro a Ti, Senhor, que, humildemente, afasta de mim a serpente de todo vil, Senhor.

Em outras palavras:

ꟷ Vai, perdoa os soluços que me fazem o que se sabe.

 

Com a autoridade de vestir-se de branco, muito diz quem fala:

ꟷ Calma! Não é laxante, é a hidroxi.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de julho de 2021.

terça-feira, 13 de julho de 2021

Deus ex machina

 

Deus ex machina

 

Súbito, a vontade de urinar quebra o encanto. Levanto-me rápido e dou de cara na parede. Saído da cama pro corredor, sem luz acesa, a desorientação fica evidente quando enfio o nariz na parede do lado de lá da porta do quarto. Um desastre, não o apocalipse.

Me desencanto.

Frustra-se o idealista, pois a realidade é descontrolável. Acontece, está acontecendo. Até quando desconfio que nem esteja, está mesmo. Não se tem controle sobre o que acontece, nem como ideia. Afinal, até as ideias têm autonomia, e vêm de tudo quanto é canto. Aprovando-se ou não, os pensamentos brotam que é uma beleza. Encharcam a alma. Dão calafrios na espinha. Por que o inconsciente apronta tanto?

Como a cachola me faz desconhecido até pra mim, a realidade que conheço é um mistério. Tem vez que fico bem desanimado.

E a solidão vem de mansinho. Quando vejo, já estou na garupa.

A brisa na cara minimiza o processo. A bicicleta vai macia, disfarça. Sem solavanco, a paisagem fica maior. O horizonte se afasta. Vou que nem percebo que o ar que me circunda pesa nas coxas. Permanecer em movimento fica difícil. Os músculos doem. Há esforço. Respiro com dificuldade. Penso que não vou dar conta de prosseguir. Preciso parar.

Solitário, quero um remanso para poder descansar um pouco. Mas não vejo onde plantar os pés.

Se devo tomar pulso de mim? Tomo.

Deito-me no escuro. Em descompasso, quero um tempo pra dar ao metro a medida exata. Se resolve? Acredito. Tenho esperança de estar realmente acalmando o desequilíbrio. Porque a decisão que me afeta cabe a mim tomá-la. A mais ninguém cabe decidir o que a mim me seja melhor. Mesmo sem clareza do que preciso fazer para acertar o passo no vai-da-valsa. O calo dói. Se a solidão machuca, sofro ao vivê-la.

Feito bicicleta, resolvo parar. Escolho.

As rodas parecem paradas. Parece que a corrente não passa mais pelos dentes da catraca. Nenhum ruído. Nada. O silêncio parece estar indicando que estou parado. Estacionado em mim, isso me perturba.

Como aliviar a carga?

Escuto música. Não a ouço, escuto-a. Se posso estabelecer em que condições escutarei uma obra musical, não procrastino nem tergiverso. Fecho portas e janelas. Corro as cortinas. Apago a luz. Ponho os fones. Pra que não agridam meus tímpanos, ajusto o volume. Sem distrações, quero vivenciar a realidade que os sons tenham a oferecer.

Não suporto ficar ouvindo só o barulho que o mundo produz. Uma cachoeira não é L’Orfeo. Um ganido não é Pierrot Lunaire. Nenhum flato se compara a The Yellow Shark.

Como explicar o bem-estar que a música orquestra em mim?

É simples!

Que a consciência orgânica volte no tempo, viaje ao princípio, antes do surgimento do homo sapiens, instale-se no carbono que ainda nem sabe de si, para que a vida ganhe o sentido de ir apurando-se, até sem linha reta, pra não tirar de ouvido o dó-ré-mi-fá do cosmos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de julho de 2021.

domingo, 11 de julho de 2021

Visionários

 

Visionários

 

Um amigo de infância, quer melhor maneira de encontrá-lo do que ao acaso? Sem nada programado, sem nenhum assunto pendente, ao bel-prazer de um papo descontraído, que verse sobre a aparência de sobrevivente que poderia disputar um festival. Se ainda houver quem louco o bastante pra organizar a série de mata-matas cuja taça é arcar com a cerveja morna pingando pelas rachadurinhas de fuleiros copos de plástico. Daí não surpreender que viesse à baila o gol que marquei no campinho, naquele trapézio fora dos padrões, péssimo mesmo para padrões varzeanos, pois foi nesse terreno, com seus oásis de grama, que o Zico bateu a falta usando magistralmente a minha canhota.

Como irmãos, abraçando-se. Com o mesmo vigor espontâneo que outrora acabava por converter o abraço em socos e pontapés, quando os hormônios selvagens faziam de cada um de nós baluarte bárbaro a defender o time do coração, ou o afeto pelo coração da mesma amada. Só que nunca nos dispúnhamos a guerrear por esse ou aquele político safado, um ladrão de uma figa, outro grandíssimo pulha sem-vergonha ꟷ uma vez que, embora descontrolados, honrávamos o nosso brio.

De repente, ao menos para quem de fato não as aguarda, chegam a grande amiga de infância, esposa do fraternal amigo reencontrado, e uma jovem de sorriso adorável.

Sem ter comigo nenhuma história em comum, a filha mais velha do casal amigo enverga o uniforme elegante de um prestigiado comércio, outra rede que sofre por ficar longe da mão-de-obra tão colaboradora.

Quando nem se pensa nos ouvidos apurados de paredes arrivistas, quer melhor lugar que a rua pra ficar inteirado das alegrias de ter parido há quatro meses o primogênito mais sonhado dos netos?

Incontrolável, a vida das ruas tanto leva quem prezamos quanto traz quem menos imaginávamos vivo.

Fere a carne do meu pescoço aquela unha desastrada. Com dedos cadavéricos, de um anil demoníaco, aquela mão, de notório parentesco com o Drácula do Vincent Price de tantas madrugadas imberbes, tem por dono uma pessoa cuja presença eu nem tinha consciência de que a projetava submersa na areia da memória, que achava impolutamente trafegável.

Tal camarada está indo comprar um ventilador. A ele não pergunto que utilidade há de ter um aparelho desses em pleno inverno.

A sua pressa tem razão de ser. Quer um bivolt. Que seja de marca. Que tenha fama, mas de preço bom. No caso, é o que dê pra ser pago à vista. Nada de parcelar, pois os juros quase valem outro. E resta mais uma loja, que nem deve estar esperando por mais gente. E tomara que tenha o treco. E que o Bom Deus tenha dó e faça ter promoção nesta última que falta.

Todo apressado, o sujeito sequer se despede.

Vendo-me finalmente só, fico arrepiado. Pois acabo de me lembrar do imperdível compromisso noturno: acompanhar a caçada implacável ao Saci, pitador de capim-guiné.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de julho de 2021.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

O impossível

 

O impossível

 

Há repetições que são indispensáveis a quem fadado a cometer os mesmos erros reiteradamente, uma vez que, portador de idiossincrasia deveras incorrigível, deixa à mostra, em tudo que faz, deficiências que, basicamente, precisarão ser retificadas.

A quem procura ganhar tempo ao tempo, sabendo de antemão que seu melhor desempenho está em aprimorar o feito às pressas, tão logo confie ter realizado o que tinha para fazer, capital é debruçar-se sobre a fissura que o seu olhar reconheça como sendo a principal, posto que, é bem provável que não se deixe equivocar, a falha que dá sustentação ao malfeito esteja produzida de modo evidente.

Para maior aperfeiçoamento, repetir.

Todavia, sempre que posso, cuido não cair na lábia dos agourentos. Porque sou fraco, me impressiona fácil a ladainha dos nefastos.

Não sei quanto a você, mas costumo evitar determinadas pessoas, as que fazem parte daquele tipo humano, grupamento vasto e atuante, que raramente é capaz de transmitir notícias alegres, positivas, boas.

Assim que vejo representante desse aziago pessimismo ambulante, troco de calçada sem maiores constrangimentos. Fujo, pois fugir reduz o impacto negativo que as infelicidades provocam na minha alma, tão suscetível aos augúrios do fim do mundo.

Nestes dias, que mais parecem emperrados, parados pela roda da vida, desequilibrados por ação malfazeja, me sinto mais desafortunado que o mais azarado dos fracassados, pois, então, nestes dias horríveis, prefiro maritacas tagarelando à solta.

Uma vez que estou sofrendo, carente, que ando mesmo precisando de amor, compaixão e carinho, confesso minha vulnerabilidade. À boca miúda, tenho caminhado cabisbaixo, temeroso de ouvir a mim mesmo, acredito-me vero imbecil, um bobo a dar voz ao tartamudo.

Com a rua formigando, pensava nas doses cavalares de clemência que preciso pra me animar a querer o equilíbrio entre o desassossego e a tranquilidade. Mas a pacificação pede a consciência das emoções, as quais, sem terminar subjugado, nem sei bem como encarar.

Na falta de prática de ler com isenção o meu rosto como arena em que atuam as paixões, se fosse alguém sabido, escolheria observar as expressões das pessoas que passam por mim.

Sem fazer alarde, sem despertar antagonismos à minha disposição de observá-las amiúde, com intervalos curtos e por breves que fossem as olhadelas, queria os meus olhos convertidos em uma máquina para tirar esses retratos.

Assim, a posteriori e sem cutucar nas pessoas suas feridas abertas, poderia examinar os desejos registrados.

Para imagens fidedignas, a minha mente precisaria ter captação a mais cristalina possível? Creio que demandaria ser a tal grau sensível, que permitisse intuir as sutilezas com que as faces se camuflam.

Em outras palavras, minha cabecinha anseia o impossível.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de julho de 2021.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Realmente

 

Realmente

 

Estou menos oco, realmente. Foi olhando a moça do caixa a pôr as compras em cada sacolinha que veio a ideia que estava faltando para explicar o desajuste a me apoquentar desde que fui confrontado com o queijo que evaporou de modo inexplicável. Era um enigma e tanto, pois o queijo sumiu mesmo hermeticamente protegido na geladeira.

Com senso de proporção, volume e peso, a funcionária do mercado demonstrou o quanto tinha de habilidade e técnica ao ir encaixando os itens no espaço disponível.

Se exagero?

Não sendo nenhum Giorgio Vasari, John Ruskin ou Harold Bloom, mestres de nomeada pela agudeza crítica, entendo que uma bela ideia nunca pede explicações para que seja adulada por mim. Adulo mesmo, inflo-a feito bola que rola redonda pelos gramados do mundo, a pedir um chute certeiro na gaveta, aliás, a suplicar pelo toque de classe bem no ângulo, trivela a encher os olhos de todo Maracanã lotado.

Uma bela ideia, todavia, jamais tive uma, pois sou um cara limitado. A minha inteligência não é daquelas que ata alho com bugalho, o rótulo honesto ao cabernet correto, sem fazer esforço algum.

Minha cabeça mediana não é pródiga em insights desconcertantes, surpreendentes, estupefacientes. Não tenho talento nem vocação para fantasias, como um Merlim a comandar dragões. Não tenho o dom de cartografar cavernas subaquáticas ou supraterrestres. Sou desses que enxergam mesmo só o que conseguem ver. Ou seja, não me lamento estar conformado por um dia a dia parco de maravilhas, raso de fábulas e despido de quimeras.

Não sendo gente que fica hipnotizada quando intui que a naja está dançando para que o flautista não pare de tocar, não perco o fôlego ao me pegar cometendo o que não sei fazer.

Não vou inventar uma explicação do arco-da-velha. Como o danado do queijo foi desaparecer do nada? Como vou ficar irritado quando não coço pulgas atrás da orelha? Como a porca torce o rabo sem mim, só de pensar em cumplicidade o ar foge de repente.

Se posso alegar ignorância?

Por notar que a noite estava querendo aprontar, foi botar a cabeça no travesseiro, porém, para que o ovo da serpente chocasse com meu calor de dorminhoco. Deveria ter encarado a madrugada e me despido para sentir o frio que sente quem vive nas ruas? Poderia ter a coragem de ter ido ao banheiro e não urinado na cama feito criança medrosa.

Contudo, o mijo gelado me enregelou até a nuca!

E na falta do Leviatã no mar noturno do meu sono? Saúvas.

Hein! Saúvas a penetrar a porta inexpugnável do refrigerador?

Se estivesse lúcido na vigilância do meu mundo, certamente não ia engolir uma barbaridade dessas. Mas foi em sonho ferrado que pude ver claramente. Minha razão pouco tem de formicida, e a coisa devorou o meu queijo inocente enquanto eu estava sonhando que não era eu a atacar na escuridão das horas.

Sim! As saúvas são um baita problema, Policarpo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de julho de 2021.

domingo, 4 de julho de 2021

Logística

 

Logística

 

Quando a manhã está destinada à glória de não mais desaparecer no esquecimento das eras, cada ação conta para contrariar o banal de estar vivendo só mais outro dos dias sempre rotineiros.

A começar pelo grito vindo do terraço do prédio em frente de casa, comigo na varanda a ultimar a ilustríssima leitura das notícias.

Achando que era um cumprimento urbano, retribuí com um aceno, como ao bom-dia protocolar retribuísse com igualmente, vizinho.

O morador do lado ensolarado da rua estava ouriçado, tagarelando, e eu o consegui compreender apenas supostamente.

Como almoçaríamos quibe de forno, deixei-o fixando na mureta do seu apê aquela bandeira com o inconfundível tucano azul e amarelo.

Pra colher hortelã, foi com essa intenção que fui pros fundos.

A gatinha veio ver o que estava ocorrendo, cheirou tudo, caçou no ar um inseto ou outro. Satisfeita de ter feito o que tinha pra fazer, voltou dormir no sofá, o seu cantinho predileto da casa.

Sem saber o que mais teríamos no almoço, não tinha me esquecido de que o arroz pedia cubos de bacon e provolone. Bastava ir comprar, e, porque responsável pela minha parte, fui de uma vez.

Um sujeito interpelou-me, como não traduzi aquele grunhido, fiz um positivo com o dedão. E segui em meu caminho.

Entre a fila de frios no fundo do mercado, cujo ar gelado não negava que estava condicionado pela plenitude do inverno, e o fundo do prato fundo do qual encheria sem moderação a colher de sopa com o fubá com a couve cortada finíssima, houve esse trânsito ao qual não fugi.

Macambúzio pelo desejo imaginário da sopa, cruzei com o mesmo sujeito, que, assim que me viu, passou a gesticular mais enfático, mais enfurecido, provavelmente ralhando comigo por algo que não teria feito nem na ida nem na volta.

Com o dito cujo controlando a esquina?

A ele não fiz nenhum sinal, sequer levantei a cabeça. Tratei de ir no meu passo, sem transmitir o desconforto daquele incômodo.

Com tamanha agressividade, queria que tirasse a máscara.

Nem sob vara iria tirar do rosto a proteção, ainda mais com aqueles perdigotos possuídos pela demência. Não ficaria exposto àquela baba contaminada pelo vírus do que há de pior à solta. Jamais me sujeitaria àquela saliva infecta, de pessoa que prefere vituperar contra a saúde coletiva, o bem-estar comunitário e a consciência individual. Nem a pau que iria me permitir fraquejar, ainda mais com toda aquela pantomima de gente autoritária desmascarada no passeio público.

Mesmo com as lentes embaçadas, não tropiquei. Fui em paz.

E fui logo cortando tomate, pimentão e cebola, pondo sal à vontade e algumas gotas de azeite. Todavia, pra ir misturando-os com o patinho moído, teria de ter espremido o alho e amassado a hortelã. Então, por meia hora, desde que tivesse ligado o forno a 300 graus...

Lógico!

E a gata? A sumida estaria no guarda-roupa?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de julho de 2021.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

A flor viva

 

A flor viva

 

Alguma coisa poderia estar acontecendo. Bem que poderia, só que não está. Parece que tudo está numa paralisia. Estranhíssimo, parece que o tempo está congelado. Nada tem acontecido de modo natural, a vida de sempre está outra. Prevalece essa sensação.

Como se o congelamento na ponta dos dedos fosse por causa do sangue. Como se o íntimo do corpo estivesse mais frio do que fora.

Poderia estar ocorrendo algo menos angustiante. Neste momento, porém, permanece o esquisito de que o ar em volta está preso, como se alguma coisa pudesse pará-lo. Como se o fotograma de um filme seguisse travado. Está faltando que a realidade volte a rodar a vinte e quatro quadros por segundo. Alguma coisa parecida.

Um passo à frente, talvez. Que seja. Para achegar-se à porta, pôr o ouvido na folha fechada. Que fosse para escutar algum ruído de vida que venha lá de dentro. A vida está silenciada, presa a um silêncio que atordoa, como se houvesse uma promessa sendo adiada.

Um abraço forte no amigo que vem, talvez. Ainda que traga notícias tristes, que chegue abrir a porta e receba o abraço urgente que o corpo tem retesado. Aquela porta empenada pelo frio que a neblina da aurora teima em tornar emperrada.

Poderia estar chegando o momento de abrir a porta. Urge ter quem a venha abrir. Ainda que haja desconfiança, haja quem esteja a pensar que talvez haja quem não a queira aberta. Então, para que o cerco seja rompido, que surja alguém pra forçá-la, que não desista de tê-la aberta. Torta e difícil de ser aberta, que haja quem a queira escancarada.

É preciso trazer à porta quem está fechado há bem mais tempo que o razoável. Talvez tresloucado, tendo ultrapassado o limite suportável. Pela recusa de escutar o alarme quando o dia e a noite ainda brotavam separados, não mais passível desta (óbvia) identificação.

Há de haver quem saiba atender a porta, e venha.

Bem poderia ter chegado o instante de relembrar o riso, recordar o rosto que sabe soltar-se às gargalhadas, sem vexar.

Por fugaz que seja a sua lembrança, avalie-se o ato.

Sem temor, vai sorrir; depois, rir; e voltará a gargalhar, sem hesitar.

Naturalmente, a pessoa encerrada em si, ensimesmada há tempos, ainda que lhe falte o espontâneo, a cara mais simpática, faça-se justiça a essa pessoa à porta. Uma vez que esteja disposta.

Sendo gente encerrada por mais tempo que o tolerável, haverá de perceber-se renascendo. Uma vez renascendo, haverá de perceber-se morta. Ainda que respire, morta. Reconhecendo o quanto amordaça a morbidez das janelas encalacradas, desencarcerando-se dessa noite que não quer passar.

Noite tenebrosa que mofa o ar dos cômodos, as lâmpadas de teto, a TV sem luz e os jornais enfiados pelo vão da porta.

Pois.

Com rara energia, a singela orquídea florescida resiste, se mantém viva, e florescida. Em flor: pela loucura, se não for pela utopia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de julho de 2021.

terça-feira, 29 de junho de 2021

A céu aberto

 

A céu aberto

 

Se a mim me fosse permitida a alegria de organizar uma noite de pizza, sem alimentar dores de cabeça, assim comporia a mesa: a mãe numa das pontas; num lado o meu irmão e a minha cunhada no outro; eu ficaria na outra cabeceira.

Quanto ao meu sobrinho, já que, nos seus bem-vividos treze anos, o rapazote pratica o isolamento, físico, detonando cabecinhas, virtuais, às centenas por dia, ele merece umas palavrinhas a mais.

Como tiozão hipócrita, haveria de condená-lo, uma vez que enxergo nesta sua prática, de horas e horas a fio, o mesmo tipo de adolescente que um dia já fui. Todavia, em vez de aniquilar a realidade circunstante ressecando os olhos cativados na tela de computador, eu costumava incendiar a massa cinzenta de carona no tapete mágico de Xerazade.

Em outras palavras, não dou asas ao menino doido que há em mim, pois a época pede maturidade, juízo e compromisso com os próximos. Por respeitar os demais quanto a mim mesmo, não vou tirar a máscara da criança desmiolada que deixa a virulência humana dar campo livre ao vírus da carnificina genocida. Pra não ir junto, seguro a língua e não solto a mão suicida. Ou seja, não vou às nuvens por nenhum voo cego.

Isso tudo para dizer que tenho declinado quando me convidam para almoço íntimo da família, café somente com os amigos mais chegados, um vinhozinho seleto entre amantes emocionalmente comedidos.

Cansado, ando me calando mais do que pudesse imaginar ser-me possível. Tenho percebido que circunstâncias de acidez amargosa têm prevalecido. Tenho sentido a boca cheia de sal, e isso me põe cabreiro, tanto que evito petrificar o espelho com esta minha face de ranzinza. Sinto certa urgência em encontrar um modo de aquietar a minha verve de bonachão que sabe como avivar nas cinzas o que as brasas querem muito bem escondidinho, o tirador de sarro.

Como as pessoas se desentendem conversando, prefiro tirar o meu burro da chuva. Não me empolgo com as discussões pouco amigáveis que volta e meia pipocam entre gente que julgava ponderada, de bem com a vida e ótima companhia nas madrugadas sem luar.

Fulano diz que o político A acha que a esquerda tem estofo moral para detonar o político B pela postura negacionista diante da epidemia. Beltrano fulmina com emojis enfurecidos esta postura de quem se acha na posição A só porque repete chavões pseudocientíficos fabricados pela mídia politizada. Sicrano, contudo, opta por não acompanhar nem um nem outro, pois a realidade vai do A ao Z, que existe ainda que os sabidos omitam o trágico deste mundão.

Abracadabra!

Estressado, encaro o meu fogo. Não apago a vaidade, apenas saio do aplicativo.

Antes que suma a imagem de fundo do celular, a Nebulosa do Véu, penso: somos átomos, mas não simplesmente uns átomos quaisquer, somos uma aberração no cosmo, somos átomos com micro-ondas pra esquentar o leitinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de junho de 2021.

domingo, 27 de junho de 2021

Tudo normal

 

Tudo normal

 

Melhor não sair. Espiou pela fresta que a rua estava exibida, como convite irrecusável à pessoa pega de surpresa com o alarido vivo das cores em volumes variados, de pessoas e cães. Melhor ficar em casa, ou passaria todo o tempo a entrar em fria, seja nas filas com gente tão precisada de abrir-se ao próximo porque tomada pela dor incontrolável de viver o cotidiano como um abismo voraz, seja levado a comprar uns cacarecos que inevitavelmente quedariam ignorados depois do fervor de ver rejuvenescida com novidades a casa sempre cômoda. Melhor é botar os fones, largar as pernas na cama e curtir um disco gostoso de se ouvir de cabo a rabo, como o Meu Recôncavo do Paulo Costta que escutara tão logo levantou. Será melhor mesmo.

E o melhor para si nem sempre tem explicação, como se houvesse razão explícita ꟷ lógica ou inteligível ꟷque permita o entendimento de que alguma coisa ou alguma sensação tenham base compreensível, a sobrepor-se a emoções, que distraem ou divertem com as suas névoas que não se dissipam porque têm regras tornadas evidentes.

Ora, gosta de música porque ela lhe faz bem. Desconfia que traçar um circuito que o faça visualizar como a música leva os seus neurônios a produzirem bem-estar e paz, desconfia que isso o deixará borocoxô, meio triste por materializar o que o afeta sem nem mesmo saber como nomear ou direcionar fluxos. Para longe do desespero, óbvio.

“Temendo aqueles que atiram facas”, ouve Circo até o fim. Mesmo se sentindo uma lona carcomida por cupins, compreende, pode acabar sendo envolvido. Não deseja desmontar a canção para refletir como a melodia cativa os seus tímpanos com tônicas e sétimas. Sabe que não há mágica, que bemóis e sustenidos encantam. Ora, o que sobremodo o toca é desfrutar da melancolia que a audição da música proporciona.

Haja vista que é inexplicável o que o põe no clima.

O clima é de serenidade, sem traço algum de angústia ou pesadelo. Com cada bugiganga no seu devido lugar, sem sinal de desassossego inenarrável, incomunicável, de transcendental revelação apocalíptica.

Nada de ter o computador emitindo ruídos esquisitos, de entranhas prestes a siricuticos eletrônicos, à beira de uma implosão misteriosa.

Nada de ficar imaginando que a impressora de repente vai começar a cuspir folhas, páginas cheias de gráficos vistosamente coloridos, mas obscuros, sobre algo que nem se sabe o que seja.

Nada de ir aos Provérbios para dizer com verdadeiro entusiasmo as palavras essenciais que expulsem do ventilador o ente que o faz girar as suas pás, sem nem mesmo estar ligado na força elétrica.

Nada de batucar nas teclas da máquina de escrever um texto vindo de dentro, sem controle, como se o inconsciente estivesse trazendo ao papel a chave-mestra do universo.

Assim, flutuando afinado à harmonia da estérea bonança, a barriga dispara roncar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de junho de 2021.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Sem comentários

 

Sem comentários

 

O homem tomou lugar na fila, falava ao celular. O reconhecimento da voz fez com que outro homem, o que estava mais à frente, na boca do caixa, se virasse para cumprimentá-lo. Eram conhecidos.

Tá frio. Tá gostoso esse frio. Só que não é como antigamente. Isso não é, porque na década de setenta geava desde final de abril. Agora a geada malemá cai em julho. E olhe lá. E tem gente que não gosta do tempinho bom pra tomar vinho quente. E comer pinhão. Isso, pinhão é bão de todo jeito. Bem bão. Isso, muito bão. Inté, amigo. Inté, prezado. Lembrança lá em casa. Digo o mesmo, abração. Abração.

Gentes de fino trato. Mesmo que uma esteja sempre apoiando os críticos de governos que capinam os matos que circundam o chafariz sem água da velha praça dos domingos namoradeiros e outra viva para pedir mudanças profundas de postura a quem nunca teve o nome dito em quaisquer das reuniões oficiadas pelos eleitos do público.

Gente bem-educada, que nem se apressa ocupar o lugar que julga ter por direito de nascença, que nem precisa pensar que tem direito a ter este direito, uma vez nascida no local em que os seus antepassados nasceram.

Só não se comenta que pinhão se come no inverno.

O inverno...

A natureza segue o seu curso, pensa o calvo que palitará os dentes após comer a feijoada. Nem precisa de cestinha, veio pegar um vinho para logo mais à noite. E pensa na feijoada. Às quartas, tem feijoada, como faz há vinte anos. Enfim, uma verdade não deve ser questionada, porque isso é como a natureza. O homem sabe que não inventa a roda, dispensa pensar de outro modo, como se houvesse resposta diferente para dois mais dois. De fato, é natural que o bom da vida faça bem.

Que fique claro: o inverno realmente começou.

Segundo fontes informadas, a estação mais fria do ano teve início oficialmente na data prevista. Sem que o calendário fosse contestado, uma vez que nada houve que desabonasse a sua chegada como sói fazer todo ano.

Hoje em dia tem aparecido quem pratique esse esporte curioso que é o de pôr em dúvida a lógica das coisas óbvias, como se inquietações momentâneas tivessem prioridade em relação aos planos cósmicos.

Que escândalo!

A desordem que se vê, e é preciso falar nas enchentes e nas secas que pululam por todas as latitudes e todas as longitudes, onde crescem parreiras carregadas de uvas tenras, onde nadam trutas em riachinhos mansos, onde o leite não demanda adulterações genéticas, pois bem, a mim me parece que esse caos mundo afora pode ser porque mãos sem conhecimento das precisões da terra têm violado a ordem natural do universo.

Escandaloso?

Pessoa que acende vela mesmo quando não acaba a força, pego meio quilo de pinhão, e, só de imaginar um pinguinzinho zanzando nas areias de Cananeia, sorrio.

Vou sorrindo pelas ruas. Mesmo com gente que passa por mim com aquela cara de que o louco sou eu, sigo sorrindo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de junho de 2021.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Carne de pescoço

 

Carne de pescoço

 

(Desde já, a crônica está passada. Desde o título, passada. Porque o fogo que vai prometido, cabotino a perder de vista, queima o filé do narrador a querer-se comedido em autoficção. Poderia firmar-se como um sarcástico pastiche cínico, como se estivesse possuída pelo mais que manjado Jonathan Swift, porquanto um fantasma, o velho trágico fantasma da fome, campeia por estas terras brasílicas, grassando por estes dias de tão daninha crueldade requentada. Todavia, a carne cara de engolir está na mesa, posta pelos fatos. Sem piedade: a postos!)

O gás acabou. Peguei o telefone, pois era o caso de providenciar a reposição sem pestanejar. Por nada, passava do meio-dia. Porque era domingo, e pelo adiantado da hora, a venda de botijões tinha fechado.

Ainda bem que não havia ninguém que me atendesse, uma vez que ao meu dispor nem tinha dinheiro suficiente para um marmitex, sequer para o pastel na feira. Com os míseros quatro reais na carteira, o acaso encarregou-se de me poupar da vergonha de passar um carão. Que a minha ladainha lamurienta, na certa, passaria por trote.

Aliviado, e sem rubores automáticos, abri a geladeira. Era domingo, e as noites de sábado sempre proporcionam sobras de pizza, apanhei tudo o que me restava da marguerita. Tinha uma fatia e meia.

Com o fornecimento de eletricidade sem corte, pus no forninho uma assadeira com a gororoba que me cairia bem como almoço. Desde que o rango me viesse quente, teria uma refeição supimpa.

Será exagero de esfomeado, supimpa? Comeria algo palatável, até agradável. Por conta de que nem precisaria ir ao banco retirar dinheiro, algo mais que agradável, uma coisa cômoda. Mais do que cômoda, já que fatalmente gastaria com petiscos gordurosos que me destruiriam o estômago, seria solução bem-venturosa.

Ter a saúde salva pela falta de fundos, ô glória.

Assim, certo de estar contribuindo de maneira consciente, e correta, para despiorar o atendimento caótico de clínicas, postinhos e hospitais, afinal, a ida de menos um cidadão acometido de uma gastrite evitável, sendo eu a dita cuja pessoa de boca politicamente conscienciosa, isso muito me convinha, porque desanuviava meu coração aflito.

Sim, punha-me alegre saber-me um indivíduo capaz de administrar os impulsos, mesmo os que vinham de baixo, das entranhas cheias de entusiasmos nada módicos, desses que não se dão por satisfeitos nem quando estão empanturrados, nem quando um grãozinho de arroz já é a evidência de um crime, do pecado da gula.

Se a sorte resolveu sorrir com o jeitão de uma desgraça, osso duro de roer, tasquei pimenta sem clemência: das três colheres de sopa de arroz sem sal, duas conchas de feijão-fradinho temperado por cominho e uma pornográfica colherada de purê (ou maçaroca) de mandioquinha puxada no bacon?

Sobrou o prato, que nem precisei lavar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de junho de 2021.

domingo, 20 de junho de 2021

Contraponto

 

Contraponto

 

Uma das bonitezas da vida, dizia o meu avô, está em tirar relação proveitosa com o mundo.

Não tem graça ficar horas à beira d’água sem levar para casa uma fieira boa de tilápias, lambaris e carás.

O meu avô sabia disso. E tinha estratégias.

Uma semana antes da pescaria, todos os dias, por sete noites, lá ia ele jogar quireras e a lavagem das refeições do dia. Agindo assim, dava o sinal de que aquela área cheia de comida era lugar bom para comer sem gastar energia sondando a água ao acaso. Agia pelos peixes.

Passando essa mensagem de modo recorrente, os peixes ficavam menos ariscos e aceitavam que encontraram um recanto maravilhoso, e vinham comer. Os peixes aos poucos acabavam por acreditar que a comida estava garantida. Os peixes, assim, acabavam convencidos de que podiam negar a desconfiança de que a comida garantida tinha uma origem esquisita. Convencidos de que a comida oferecida de modo tão milagroso merecia ser devorada, os peixes aceitavam a maravilha de ter encontrado o melhor lugar para passar o dia. Comendo sem pressa, nadando sem medo, dormindo ali apenas para garantir a conquista.

Então, o avô chegava de manhãzinha, bem na hora que os peixes, cativados pela oferta boa de comida, estavam refestelando-se, e lerdos pela opulência de tantas joias, magnetizados pelo tanto de alimento.

Ele vinha, aprumava o seu banquinho, ajeitava uma meia dúzia de varas, arrumava as latas com as iscas, bebia um gole de café, e, então, pedia graças com o chapéu e passava a pôr minhoca nos anzóis.

Já cevados para a morte, os peixes vinham que vinham para morder aquela comida viva, que se debatia bem diante dos olhos gulosos.

Devidamente orientados pela ilusão de não deixar nada sobrando na água, tais peixes amestrados morriam pelo insaciável na boca.

Todavia, o meu avô sabia que isso do predador gabar-se ao ter nos dentes a presa pode muito bem malbaratá-lo.

No porão da casa deste meu mestre contumaz apareciam troféus de quando em quando. Surpreendentes e desconcertantes, aliás.

O seu método consistia em me levar a crer que o rabo de tatu atrás da porta nada tinha que ver com o ensopado por ele preparado, e não pela minha avó, que sempre apurava as rações cotidianas.

Ledo engano de minha parte, porque, diante da jaguatirica à mostra na lavanderia, interditada pela presença da fera indomável, li a cena como demonstração da astúcia do homem sobre a besta.

Franco e rude pela franqueza, vovô mostrou as canelas arranhadas e disse que perdera horas, de sol a sol, que aquele animal fugia da luz e zanzava, cruzando rios, tramando um rastro sobre outro.

Numa lógica só dele, talvez pela lua cheia que raiou no céu da sexta noite, outra sexta-feira qualquer, o bicho ficou à mercê, e até fingiu que queria fora de cima do corpo pintado a rede atirada.

Não me contive:

ꟷ Jaguatirica de seis vidas?

O vô grunhiu.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de junho de 2021.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Requebrado

 

Requebrado

 

Acredito que lá fora faça um dia lindo, com pássaros cantando nos floridos ipês amarelos. Acredito, a escuridão está delimitada por quatro paredes, feita de tijolos, erguida por mãos experientes, firmes. Assim, ainda que meus olhos vermelhos ardam para caramba, nada de pensar que a bolha vai estourar de uma hora para outra, como nas fantasias de um desajustado, alguém fora do prumo, como se a solidez do chão estivesse à prova. Pois não está nem nunca esteve. Essa escuridão, o cubo escuro em que estou nem é luva que me sirva, doendo estão os miolos cansados.

Então, serve para quê? Para circunscrever-me.

No que a minha percepção dá como um nó, a carcaça sem cachaça perde a graça. Do cósmico nada absoluto ao relativo vazio existencial, esqueço que a cabeça não tem paredes, mas o diálogo da consciência comigo sugere um desarranjo, como se as forças não estivessem coisa nenhuma por um fio, como se bastasse mais um passo para despenhar ribanceira abaixo, na apoplexia de um instante, a indicar-me que estou abismado, de olhos abertos.

Desconfio que minha sensatez supõe ter alguma imparcialidade, já que não tenho remorso. A ponto de dizer adeus? O meu siso tem que parar de dizer que sou eu essa pessoa que confronta quem acho que poderia ser, caso estivesse dormindo.

E dormir para quê? Para ter algum alívio.

Quando a tensão vai aumentando, aumentando, numa progressão que faz os pintassilgos nos ipês amarelos virarem urubus nos postes de eucalipto, então, o corpo acaba subjugado.

Apaga. Desaba. Sem escolha, acaba adormecido.

O repouso leva a quê? Põe recomposto o corpo.

Recompor-me para prosseguir? Para retomar de onde estou.

Desde onde parei. Não parei, o meu corpo apagou. Desabei. Vi-me obrigado a dormir. Por esgotamento. O corpo não conseguiu mais se sustentar, foi apagado por dentro. A mente não pôde mais se controlar, viu-se desabada. Meu esqueleto precisa de uma boa reconfiguração. Refazer-me outro, livre de sentir-me esgotado.

Mas corpo e mente não têm unidade? Unidos em eclipse.

Como o corpo não se separa da mente e a mente não se separa do corpo, eu, assim como todo ser humano que tem consciência de si no mundo em que vive, aceito como natural me sujeitar à restauração das funcionalidades através do sono.

Do sono, sim. Da inércia, não.

Porque uma pessoa apagada por exaustão não se sente no limite, e o ultrapassa. Distraída, com tanta coisa para cuidar, ocupada com as trampas do mundo, a pessoa sorri quando aprovam o que faz. Todavia, nem se vê vivendo a realizar tarefas, a cumprir os prazos, a pedir pela próxima tarefa, pelo próximo prazo, até que...

Até que a vida fique um troço chatíssimo.

Então? Sem conseguir manter-me em pé, eu danço, e sucumbo. De tão cansado, nem percebo que nem penso direito, tanto que...

Fazendo um dia maravilhoso lá fora, ronco, e ronco que nem porco.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de junho de 2021.

terça-feira, 15 de junho de 2021

Desejo caliente

 

Desejo caliente

 

Estava decidido: iria sair. Não porque fosse preciso, porque decidiu que precisava fazê-lo. Pondo, tirando, emparelhando, relacionando os argumentos como se permitissem estabelecer um ponto médio: o lugar razoável do equilíbrio momentâneo.

Já que era ser humano a mover-se entre emoções, tinha chegado à conclusão de que tinha mesmo de sair de casa.

E precisava ir-se naquele instante, antes que a posição favorável à saída se visse convertida no oposto, quando condenações à decisão resultassem em um sentimento vergonhoso, a projetá-lo uma pessoa irracional, dada a rompantes, mesquinha, que só pensa em atender os próprios desejos. Verdadeiramente irrefreáveis, esses desejos, porque orientados pela pacificação mental.

Brasileiro, sempre foi de dar de si o seu melhor. E no presente caso, o melhor a fazer era ir comprar uma proteção para a sua careca ou os seus humores ficariam ácidos, deixando-o intragável.

Ainda era outono, mas o frio incomodava um bocado. Como pensar com calma, sem azedumes irreprimíveis quando a temperatura média andava pela casa dos dez graus?

Não foi à toa que Dante fez do núcleo do inferno um antro glacial, inospitamente feito somente de gelo, um buraco terrível destinado aos condenados irremissíveis, eternamente incorrigíveis, sem perdão.

Portanto, cobrir a careca era uma questão de preservação da mente como fonte de pensamentos ordenados, fundamentados e socialmente aprovados, porque, bem aquecida a cabeça, a consciência não sofreria oscilações bruscas, mantendo-se a racionalidade intacta.

O homem razoável, que pondera sem se ver constrangido a vencer abismos a cada passo, é aquele que se decide pelo bem comum, uma vez que sabe pôr-se no lugar do próximo. Alguém calmo e solidário.

A solidariedade fortalece a individualidade, não a envenena como expressão egocêntrica da subjetividade absoluta. Quem está disposto a conviver produz bem-estar coletivo, e isso, ao fim e ao cabo, resulta em postura saudável para si. Pois o solidário é de fato alguém gregário.

Como cidadão de saúde mental energizada pela felicidade pública, ele estava certo de que precisava de uma boina. Não queria um boné nem um chapéu, queria mesmo era uma boina.

Contra o boné pesava a imagem daqueles jovens que andam em turma, todos com a viseira virada para trás, porém, que diacho!, a nuca não tem olhos, logo não fica ofuscada pela exuberância do Sol.

O horror ao chapéu... Tinha idade para lembrar-se dos faroestes em que John Wayne matava peles-vermelhas como se não fossem gente como a gente, mortos feito búfalos.

A favor da boina?

Da memória, o rosto ꟷ Décio Pignatari. Trigêmeo concretista, com hambre do explicitamente sutil, o hombre do Panteros.

Pois bem, um brasileiro não faz o melhor pelo Brasil?

Pra uma nascente alegria em mim, uma boina existe.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de junho de 2021.