Visionários
Um amigo de infância, quer melhor
maneira de encontrá-lo do que ao acaso? Sem nada programado, sem nenhum assunto
pendente, ao bel-prazer de um papo descontraído, que verse sobre a aparência de
sobrevivente que poderia disputar um festival. Se ainda houver quem louco o
bastante pra organizar a série de mata-matas cuja taça é arcar com a cerveja
morna pingando pelas rachadurinhas de fuleiros copos de plástico. Daí não
surpreender que viesse à baila o gol que marquei no campinho, naquele trapézio fora
dos padrões, péssimo mesmo para padrões varzeanos, pois foi nesse terreno, com seus
oásis de grama, que o Zico bateu a falta usando magistralmente a minha canhota.
Como irmãos, abraçando-se. Com o mesmo
vigor espontâneo que outrora acabava por converter o abraço em socos e pontapés,
quando os hormônios selvagens faziam de cada um de nós baluarte bárbaro a
defender o time do coração, ou o afeto pelo coração da mesma amada. Só que
nunca nos dispúnhamos a guerrear por esse ou aquele político safado, um ladrão
de uma figa, outro grandíssimo pulha sem-vergonha ꟷ uma vez que, embora
descontrolados, honrávamos o nosso brio.
De repente, ao menos para quem de fato não
as aguarda, chegam a grande amiga de infância, esposa do fraternal amigo reencontrado,
e uma jovem de sorriso adorável.
Sem ter comigo nenhuma história em
comum, a filha mais velha do casal amigo enverga o uniforme elegante de um
prestigiado comércio, outra rede que sofre por ficar longe da mão-de-obra tão colaboradora.
Quando nem se pensa nos ouvidos apurados
de paredes arrivistas, quer melhor lugar que a rua pra ficar inteirado das
alegrias de ter parido há quatro meses o primogênito mais sonhado dos netos?
Incontrolável, a vida das ruas tanto
leva quem prezamos quanto traz quem menos imaginávamos vivo.
Fere a carne do meu pescoço aquela unha
desastrada. Com dedos cadavéricos, de um anil demoníaco, aquela mão, de notório
parentesco com o Drácula do Vincent Price de tantas madrugadas imberbes, tem
por dono uma pessoa cuja presença eu nem tinha consciência de que a projetava submersa
na areia da memória, que achava impolutamente trafegável.
Tal camarada está indo comprar um
ventilador. A ele não pergunto que utilidade há de ter um aparelho desses em
pleno inverno.
A sua pressa tem razão de ser. Quer um
bivolt. Que seja de marca. Que tenha fama, mas de preço bom. No caso, é o que dê
pra ser pago à vista. Nada de parcelar, pois os juros quase valem outro. E resta
mais uma loja, que nem deve estar esperando por mais gente. E tomara que tenha
o treco. E que o Bom Deus tenha dó e faça ter promoção nesta última que falta.
Todo apressado, o sujeito sequer se
despede.
Vendo-me finalmente só, fico arrepiado. Pois
acabo de me lembrar do imperdível compromisso noturno: acompanhar a caçada
implacável ao Saci, pitador de capim-guiné.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 11 de julho de 2021.
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