domingo, 11 de julho de 2021

Visionários

 

Visionários

 

Um amigo de infância, quer melhor maneira de encontrá-lo do que ao acaso? Sem nada programado, sem nenhum assunto pendente, ao bel-prazer de um papo descontraído, que verse sobre a aparência de sobrevivente que poderia disputar um festival. Se ainda houver quem louco o bastante pra organizar a série de mata-matas cuja taça é arcar com a cerveja morna pingando pelas rachadurinhas de fuleiros copos de plástico. Daí não surpreender que viesse à baila o gol que marquei no campinho, naquele trapézio fora dos padrões, péssimo mesmo para padrões varzeanos, pois foi nesse terreno, com seus oásis de grama, que o Zico bateu a falta usando magistralmente a minha canhota.

Como irmãos, abraçando-se. Com o mesmo vigor espontâneo que outrora acabava por converter o abraço em socos e pontapés, quando os hormônios selvagens faziam de cada um de nós baluarte bárbaro a defender o time do coração, ou o afeto pelo coração da mesma amada. Só que nunca nos dispúnhamos a guerrear por esse ou aquele político safado, um ladrão de uma figa, outro grandíssimo pulha sem-vergonha ꟷ uma vez que, embora descontrolados, honrávamos o nosso brio.

De repente, ao menos para quem de fato não as aguarda, chegam a grande amiga de infância, esposa do fraternal amigo reencontrado, e uma jovem de sorriso adorável.

Sem ter comigo nenhuma história em comum, a filha mais velha do casal amigo enverga o uniforme elegante de um prestigiado comércio, outra rede que sofre por ficar longe da mão-de-obra tão colaboradora.

Quando nem se pensa nos ouvidos apurados de paredes arrivistas, quer melhor lugar que a rua pra ficar inteirado das alegrias de ter parido há quatro meses o primogênito mais sonhado dos netos?

Incontrolável, a vida das ruas tanto leva quem prezamos quanto traz quem menos imaginávamos vivo.

Fere a carne do meu pescoço aquela unha desastrada. Com dedos cadavéricos, de um anil demoníaco, aquela mão, de notório parentesco com o Drácula do Vincent Price de tantas madrugadas imberbes, tem por dono uma pessoa cuja presença eu nem tinha consciência de que a projetava submersa na areia da memória, que achava impolutamente trafegável.

Tal camarada está indo comprar um ventilador. A ele não pergunto que utilidade há de ter um aparelho desses em pleno inverno.

A sua pressa tem razão de ser. Quer um bivolt. Que seja de marca. Que tenha fama, mas de preço bom. No caso, é o que dê pra ser pago à vista. Nada de parcelar, pois os juros quase valem outro. E resta mais uma loja, que nem deve estar esperando por mais gente. E tomara que tenha o treco. E que o Bom Deus tenha dó e faça ter promoção nesta última que falta.

Todo apressado, o sujeito sequer se despede.

Vendo-me finalmente só, fico arrepiado. Pois acabo de me lembrar do imperdível compromisso noturno: acompanhar a caçada implacável ao Saci, pitador de capim-guiné.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de julho de 2021.

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