quinta-feira, 8 de julho de 2021

O impossível

 

O impossível

 

Há repetições que são indispensáveis a quem fadado a cometer os mesmos erros reiteradamente, uma vez que, portador de idiossincrasia deveras incorrigível, deixa à mostra, em tudo que faz, deficiências que, basicamente, precisarão ser retificadas.

A quem procura ganhar tempo ao tempo, sabendo de antemão que seu melhor desempenho está em aprimorar o feito às pressas, tão logo confie ter realizado o que tinha para fazer, capital é debruçar-se sobre a fissura que o seu olhar reconheça como sendo a principal, posto que, é bem provável que não se deixe equivocar, a falha que dá sustentação ao malfeito esteja produzida de modo evidente.

Para maior aperfeiçoamento, repetir.

Todavia, sempre que posso, cuido não cair na lábia dos agourentos. Porque sou fraco, me impressiona fácil a ladainha dos nefastos.

Não sei quanto a você, mas costumo evitar determinadas pessoas, as que fazem parte daquele tipo humano, grupamento vasto e atuante, que raramente é capaz de transmitir notícias alegres, positivas, boas.

Assim que vejo representante desse aziago pessimismo ambulante, troco de calçada sem maiores constrangimentos. Fujo, pois fugir reduz o impacto negativo que as infelicidades provocam na minha alma, tão suscetível aos augúrios do fim do mundo.

Nestes dias, que mais parecem emperrados, parados pela roda da vida, desequilibrados por ação malfazeja, me sinto mais desafortunado que o mais azarado dos fracassados, pois, então, nestes dias horríveis, prefiro maritacas tagarelando à solta.

Uma vez que estou sofrendo, carente, que ando mesmo precisando de amor, compaixão e carinho, confesso minha vulnerabilidade. À boca miúda, tenho caminhado cabisbaixo, temeroso de ouvir a mim mesmo, acredito-me vero imbecil, um bobo a dar voz ao tartamudo.

Com a rua formigando, pensava nas doses cavalares de clemência que preciso pra me animar a querer o equilíbrio entre o desassossego e a tranquilidade. Mas a pacificação pede a consciência das emoções, as quais, sem terminar subjugado, nem sei bem como encarar.

Na falta de prática de ler com isenção o meu rosto como arena em que atuam as paixões, se fosse alguém sabido, escolheria observar as expressões das pessoas que passam por mim.

Sem fazer alarde, sem despertar antagonismos à minha disposição de observá-las amiúde, com intervalos curtos e por breves que fossem as olhadelas, queria os meus olhos convertidos em uma máquina para tirar esses retratos.

Assim, a posteriori e sem cutucar nas pessoas suas feridas abertas, poderia examinar os desejos registrados.

Para imagens fidedignas, a minha mente precisaria ter captação a mais cristalina possível? Creio que demandaria ser a tal grau sensível, que permitisse intuir as sutilezas com que as faces se camuflam.

Em outras palavras, minha cabecinha anseia o impossível.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de julho de 2021.

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