Ode
ao copo d’água
Um homem cochila na praça.
Por sua figura de sombra maldormida,
sabe-se, houve obstáculos a impedir que a noite vingasse calma. Até aí, nenhuma
novidade, uma vez que os dias imploram: é preciso cautela, pois há perturbações
que, tão angustiantes, tiram o sono a todo aquele que pretendia comezinho outro
dia de vida.
De fato, caiu esquisita no esqueleto a madrugada
que precisava vir serena, já que a vida tem demandado entregas tensas à
sobrevivência.
Como ao homem alquebrado saiu má outra
noite, irmana-se a ele um cotó que se abana todo. Assim, não há fraquezas a
uni-los.
Quando algum ser noturno apodera-se das
carnes, sofre-se um tal desajuste obscuro que as horas não bocejam e não piam.
Nenhuma coruja vai pousar na cabeceira da cama e sequer um andarilho bêbado
mendiga gotas de orvalho às pálidas estrelas.
A mansidão escorre dos ossos, torna liso
o piso, chão hostil a olhos de peixe. Se nuvens floreiam o céu, não apraz querê-las
sopradas pelo canto do sono, porque não há sono nem escapatória.
Balas e bolos poderiam brotar, mas não
brota nenhum sonho.
As carnes deixaram passar alguma coisa.
E aquilo foi passando do dia pra noite, da noite pro dia. Foi isso, então, que
o acordou, como um dedo frio na sua testa distraída.
Do contrário, se tivesse notado com
discernimento a farpa na alma, os joelhos não estariam retesados, cobertos por
uma escuridão gelada.
Então, cotovelos, doendo? Doloridos,
dispensou movê-los.
Então, atrevido pensador, não se sentou na
cama?
Então, cara mágica, sentiu a fisionomia
enevoada, como Velásquez revisado por Bacon?
A cama, o trono ꟷ daria causa a tanto
desassossego?
Sem deixar de fustigar a cabeça com a
noite roendo seus nervos, até o comove guiar-se pelo fastio. Quase acordado, babando
de lado, segue vivo. Pra guardá-lo dos vigilantes que não o farejam semelhante,
ronda aos seus pés o tal pulguento só osso.
Sapatos batem nas pedras. Crianças
gritam quando o cachorro late alto. Pombas arrulham nos fios. Uma velhinha dispara
um palavrão dos mais cabeludos. Então, praça, sente a gravidade destas agonias?
Há o mundo. Com esperança, e por mais um
dia.
Há a vida. Dá-se outro passo à beira do precipício.
Há o instante, essa fenda abissal. E
essa, agora?
Assim desaba do sonho, posto que dormiu
menos que o necessário pra entender o que precisa fazer pra não acordar feito eco
qualquer.
Poxa!
Ele olha pro relógio da torre e calcula
o tanto de atraso.
Nega que o fira a solidão. Nega que está
querendo coçar a bunda. Nega que transpire sem ter nada na cabeça.
Será por nada que não tem dormido bem?
Desnorteado, sequer se lembra de ter lavado
o rosto.
Está sem banho, e sem fome.
Como consegue deixar de pensar que a
noite virá, e tentará dormir, e outra vez será tentado?
Prensado dentro do terno, força o
pigarro. Consegue.
Há mãos que calam a boca com um copo
d’água.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de julho de 2021.
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