terça-feira, 20 de julho de 2021

Ode ao copo d'água

 

Ode ao copo d’água

 

Um homem cochila na praça.

Por sua figura de sombra maldormida, sabe-se, houve obstáculos a impedir que a noite vingasse calma. Até aí, nenhuma novidade, uma vez que os dias imploram: é preciso cautela, pois há perturbações que, tão angustiantes, tiram o sono a todo aquele que pretendia comezinho outro dia de vida.

De fato, caiu esquisita no esqueleto a madrugada que precisava vir serena, já que a vida tem demandado entregas tensas à sobrevivência.

Como ao homem alquebrado saiu má outra noite, irmana-se a ele um cotó que se abana todo. Assim, não há fraquezas a uni-los.

Quando algum ser noturno apodera-se das carnes, sofre-se um tal desajuste obscuro que as horas não bocejam e não piam. Nenhuma coruja vai pousar na cabeceira da cama e sequer um andarilho bêbado mendiga gotas de orvalho às pálidas estrelas.

A mansidão escorre dos ossos, torna liso o piso, chão hostil a olhos de peixe. Se nuvens floreiam o céu, não apraz querê-las sopradas pelo canto do sono, porque não há sono nem escapatória.

Balas e bolos poderiam brotar, mas não brota nenhum sonho.

As carnes deixaram passar alguma coisa. E aquilo foi passando do dia pra noite, da noite pro dia. Foi isso, então, que o acordou, como um dedo frio na sua testa distraída.

Do contrário, se tivesse notado com discernimento a farpa na alma, os joelhos não estariam retesados, cobertos por uma escuridão gelada.

Então, cotovelos, doendo? Doloridos, dispensou movê-los.

Então, atrevido pensador, não se sentou na cama?

Então, cara mágica, sentiu a fisionomia enevoada, como Velásquez revisado por Bacon?

A cama, o trono ꟷ daria causa a tanto desassossego?

Sem deixar de fustigar a cabeça com a noite roendo seus nervos, até o comove guiar-se pelo fastio. Quase acordado, babando de lado, segue vivo. Pra guardá-lo dos vigilantes que não o farejam semelhante, ronda aos seus pés o tal pulguento só osso.

Sapatos batem nas pedras. Crianças gritam quando o cachorro late alto. Pombas arrulham nos fios. Uma velhinha dispara um palavrão dos mais cabeludos. Então, praça, sente a gravidade destas agonias?

Há o mundo. Com esperança, e por mais um dia.

Há a vida. Dá-se outro passo à beira do precipício.

Há o instante, essa fenda abissal. E essa, agora?

Assim desaba do sonho, posto que dormiu menos que o necessário pra entender o que precisa fazer pra não acordar feito eco qualquer.

Poxa!

Ele olha pro relógio da torre e calcula o tanto de atraso.

Nega que o fira a solidão. Nega que está querendo coçar a bunda. Nega que transpire sem ter nada na cabeça.

Será por nada que não tem dormido bem?

Desnorteado, sequer se lembra de ter lavado o rosto.

Está sem banho, e sem fome.

Como consegue deixar de pensar que a noite virá, e tentará dormir, e outra vez será tentado?

Prensado dentro do terno, força o pigarro. Consegue.

Há mãos que calam a boca com um copo d’água.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de julho de 2021.

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